Três planos perdidos e uma história do urbanismo a contrapelo

Eixo Temático: 

 

Três planos perdidos e uma história do urbanismo a contrapelo

Eixo Temático: Discurso profissional

Resumo

Em um momento no qual a história do urbanismo se apresenta como uma plataforma importante de revisão crítica de modelos e práticas de planejamento, parece produtivo examinar ideias e projetos vencidos nas disputas processadas no campo especializado. Este artigo se debruça sobre três propostas urbanísticas produzidas em meados do século XX no Brasil que jamais saíram do papel: a hipótese modernista de uma cidade antropofágica, apresentada em 1930 na forma de uma conferência pelo engenheiro Flávio de Carvalho; o projeto de Gregori Warchavchik e Vilanova Artigas para o concurso do Paço Municipal de São Paulo, em 1939; e a proposta da equipe coordenada por Artigas para o concurso de Brasília em 1956. Pensadas como dispositivos de vanguarda, cada uma delas seria apresentada conforme as respectivas circunstâncias de produção, priorizando a explicitação de suas coordenadas teóricas e espaciais básicas. Oferecendo-se, porém, enquanto visões dissonantes ou concorrentes de cidade, elas se impõem à reflexão histórica em suas potencialidades imaginárias e conceituais que talvez nos ajudem a repensar o lugar específico do modernismo arquitetônico no universo de representações da vida urbana e discursos urbanísticos no Brasil.

Palavras chave: urbanismo, modernismo, cidades, Flavio de Carvalho, Gregori Warchavchik, Vilanova Artigas

Abstract

In a time when planning history presents itself as an important platform for the critical review of urban models, it seems productive to examine projects and ideas which have been aborted within the specialized field. This article focuses on three planning proposals produced in mid-twentieth century Brazil that have never been put in practice: the modernist assumption of a cannibalistic city, presented in 1930 as a lecture by the engineer Flávio de Carvalho; the entry presented by Gregori Warchavchik and Vilanova Artigas São Paulo’ City Hall competition in 1939; and the team proposal coordinated by Artigas for Brasilia’s competition in 1956. Seen as avant-garde devices, they would be presented according to their own specific circumstances of production, through their basic theoretical and spatial guidelines. Emerging as dissonant or competing visions of the city, they suggest to historical research certain visionary and conceptual potentialities. Maybe through them we might be able to contribute to the rethinking of the specific role played by architectural modernism in the realm of urban life’s representations and planning discourses in Brazil.

Keywords: urban planning, modernism, cities, Flavio de Carvalho, Gregori Warchavchik, Vilanova Artigas

Introdução

Tradicionalmente, a historiografia da arquitetura vem negligenciando as transformações processadas no campo urbanístico. A omissão é ainda mais evidente

quando se observa que ela é também reiterada no tratamento da produção arquitetônica do século XX, e particularmente da arquitetura moderna, que, como se sabe, elegeu o urbanismo como um de seus cavalos de batalha na afirmação do espaço disciplinar e profissional que se configurava. A tendência não é exclusiva ao Brasil, mas aqui ela vem sendo acompanhada pela desatenção também por parte da historiografia do urbanismo à produção urbanística dos arquitetos modernistas. Excetuando-se talvez o interesse despertado pelo plano de Lucio Costa para Brasília, a verdade é que ainda hoje poucos são os trabalhos dedicados ao estudo da produção modernista em urbanismo. (GOMES, 2009)

Em um momento, portanto, no qual a história do urbanismo se apresenta como uma plataforma importante de revisão crítica de modelos e práticas de planejamento, parece produtivo examinar ideias e projetos negligenciados pela historiografia talvez porque derrotados no interior das disputas processadas no campo especializado. Este artigo se debruça sobre três propostas urbanísticas produzidas em meados do século XX no Brasil que jamais saíram do papel: a hipótese modernista de uma cidade antropofágica, apresentada em 1930 na forma de uma conferência pelo engenheiro Flávio de Carvalho; o projeto de Gregori Warchavchik e Vilanova Artigas para o concurso do Paço Municipal de São Paulo, em 1939; e a proposta da equipe coordenada por Artigas para o concurso de Brasília em 1956. Pensadas como dispositivos de vanguarda, cada uma delas seria apresentada conforme as respectivas circunstâncias de produção, priorizando a explicitação de suas coordenadas teóricas e espaciais básicas. Oferecendo-se, porém, enquanto visões de cidade dissonantes ou concorrentes, elas se impõem à reflexão histórica por suas potencialidades imaginárias e conceituais. Talvez, por aí, possamos contribuir para repensar o lugar específico do modernismo arquitetônico no universo de representações da vida urbana e de discursos urbanísticos no Brasil.

Desnudando a cidade burguesa

Em 28 de junho de 1930, durante a IV Congresso Pan-Americano de Arquitetos, realizado no Rio de Janeiro, Flavio de Carvalho (1899-1973), que desde 1928 vinha se envolvendo com o movimento Antropofágico de São Paulo, apresentou uma tese intitulada “A cidade do homem nu”. Nela, o engenheiro falaria em nome de um modelo de cidade totalmente diferente do “organismo urbano burguês”, próprio a um “homem máquina do classicismo”, que por meio da repetição de antigos ritos, rotinas e desejos limitados vinha aniquilando “no homem o gosto pela vida, o entusiasmo de produzir coisas, o desejo de mudar.” (CARVALHO, 1930) Tratava-se de pensar uma cidade para o homem do futuro, herdeiro do antropófago nu, destituído de tabus escolásticos e filosofias ultrapassadas. Esse novo homem do futuro surgia livre para “penetrar no desconhecido” e investigar as “coisas do universo e da vida, para conhecer a alma do homem, torna-la métrica e utilizá-la no bem-estar da cidade”. Enquanto tal, ele exigia um mecanismo urbano totalmente redimensionado: “um gigantesco motor em movimento”, capaz de transformar “a energia das ideias em necessidades para o indivíduo, realizando o desejo coletivo, produzindo felicidade, isto é, a compreensão da vida e do movimento”. Esta “metrópole antropofágica” que nasceria na América (não mais como as fortalezas no processo de conquista colonial) deveria ser, portanto,

Um centro de sublimação natural dos desejos do homem, um centro de reanimação de desejos exaustos; um grande centro de produção de vida

orgânica, de seleção e distribuição dessa vida em formas de energia útil ao homem. (CARVALHO, 1930)

Enquanto tal, ela deveria ser zoneada de modo consistente com a realização de tais propósitos. Seu plano concêntrico, com zonas circulares rigorosamente posicionadas, funcionaria para garantir o equilíbrio orgânico de toda a cidade. Dominada por um “centro de pesquisas”, voltado à seleção, ordenamento e distribuição de todas as energias da cidade segundo critérios científicos, a cidade conteria neste primeiro anel urbano, localizado em sua orla, também um “centro de ensino e orientação do homem” e um “centro hospitalar”. Um segundo anel da cidade, separado deste primeiro anel científico por um grande parque circular, conformaria um “centro de gestação”: uma máquina imensa onde “a vida poderia ser estudada e catalogada”. O terceiro anel da cidade seria precisamente a sua “zona erótica”, estratégica no plano de Flávio de Carvalho, posto que configurando

Um imenso laboratório, onde se agitam os mais diversos desejos, onde o homem nu pode encontrar a sua alma antiga, pode projetar a sua energia solta em qualquer sentido, sem repressão, onde ele realiza desejos, descobre novos desejos, forma o seu novo ego, orienta a sua libido e destrói o ilógico. (CARVALHO, 1930)

Vizinho a ela, estaria o grande anel habitacional e, por fim, no núcleo central da cidade as funções de administração, que se comunicavam com todos os demais setores através de uma rede subterrânea de transportes. Gestão urbana, habitação, erotismo, corpo, lazer, saúde, educação e ciência, tais as principais funções de uma cidade, a serem escalonadas geometricamente de modo a finalmente realizarem o antropófago do futuro.

Claude Levi-Strauss. Crianças Nambiquara, Mato Grosso, Brasil, 1937-1938. Fonte: Instituto Moreira Salles

À época, a conferência causou escândalo no público presente. Mesmo antes de ser proferida, a imprensa já vinha alardeando sua participação com tema tão dissonante no ambiente solene da Escola Nacional de Belas Artes. No dia 28, a manchetes se multiplicam alardeando a sua tese. Oswald de Andrade concede entrevista apresentando o engenheiro no Diário da Noite: “Flávio de Carvalho é uma das grandes forças do Movimento Antropofágico brasileiro. Coloco-o ao lado de Pagu, como temperamento e como criador, pois é, de todos nós, quem mais tem trabalhado.” (ANDRADE, 1930) O Jornal do Brasil publica entrevista com o próprio Flávio, apresentando-o como “antropófago entusiasta” que vinha provocando escândalo e pavor em São Paulo: “a audácia e a irreverência de suas ideias tão profundamente demolidoras, tem sido razão de surpresa e discussões extraordinárias.” (JORNAL DO BRASIL, 1930) Segundo um de seus biógrafos, a plateia estava lotada. Mesmo antes de iniciar a leitura de sua tese, sentia-se certo clima de repulsa e indignação. Durante a sua fala, irrompem apartes, gritos de protesto e interrupções. Grupos inteiros se retiram do anfiteatro. Diante das ameaças, um pelotão da polícia é convocado, distribuindo pelo palco e as galerias durante toda a conferência. (TOLEDO, 1994) A verdade é que nela não se atacava simplesmente as “concepções cristãs da família e da propriedade privada” em nome da liberação dos desejos e da libido, mas se conclamava os presentes a retirarem as “suas máscaras de civilizados” e assumirem “as suas tendências antropófagas, reprimidas pela conquista colonial” e pela formação acadêmica a que estavam sujeitos. Tratava-se de encarar essas tendências recalcadas com sinceridade e orgulho, de modo a que se pudesse “caminhar sem deus para uma solução lógica do problemas da vida da cidade, do problema da eficiência da vida” (CARVALHO, 1930). Em suma, não passaria despercebido ao público que a exposição daquele plano da cidade do homem nu passava por um ataque frontal aos valores herdados da civilização cristã, europeia e colonial. Não por acaso, ao final de sua fala, diante do rumor ensurdecedor que tomara conta do auditório, a mesa diretora propôs encerrar- imediatamente a sessão.

Não resta dúvidas de que a conferência, além de performance vanguardista, propunha- se a desafiar na linha antropofágica os pressupostos etnocêntricos de base à cultura urbanística, confrontando a elite pan-americana da arquitetura com seus projetos nacionais monolíticos e mal resolvida mentalidade colonizada. Sua posição de marginalidade era desse modo tão previsível quanto necessária. A reação furiosa da corporação ao tema antropofágico revela não apenas uma impermeabilidade epistemológica, mas a incapacidade de pensar a utopia urbanística em seus termos políticos fundadores, isto é, de enfrentar o planejamento da cidade como parte de uma revisão global dos valores ético-morais e das cosmologias sociais. O resultado é que doravante “a cidade do homem nu” passaria a figurar na história da arquitetura como episódio anedótico e desvairado, sem consequência alguma sobre o curso das discussões e invenções urbanísticas. Nem mesmo enquanto expressão de uma forma de pensar, uma “consciência participante”, inseparável da “existência palpável da vida”, como se lê no Manifesto Antropofágico: “A transformação permanente do Tabu em totem. (…) Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros.” (ANDRADE, 1928) Em outras palavras, também nesse campo, a cidade antropofágica jamais viria a ser vislumbrada como proposição de uma outra perspectiva de vida e pensamento, capaz de imputar “um valor primário da alteridade” (SZTUTMAN, 2010, p.14), ou antes, a possibilidade de se trocar de ponto de vista com o seu inimigo, fosse ele o europeu, o não-humano ou o leigo.

Improváveis passos cívicos

Em 1929, Le Corbusier chegaria no Brasil, em grande medida incentivado por seu compatriota Blaise Cendrars, que desde 1924 vinha regularmente visitando o país. Antes disso, aliás, em 1922, Oswald de Andrade, interessado na estética canibalista, já havia se aproximado do autor da Anthologie Nègre, livro publicado no ano anterior, que contribuíra para rejuvenescer a moda primitivista em Paris (EULÁLIO, 2001, p.23). Cendrars, assim como Le Corbusier, aludiriam à essa revolução cultural em potencial simbolizada por alguns destes homens nus da América do Sul: segundo Cendrars, livres do trabalho cansativo e de todos os tipos de fetiches, abertos para o futuro e alógicos porque essencialmente anti-nostálgicos, o oposto dos “homens- museu” da Europa; segundo Corbusier, aqueles “homens completamente nus” tinham se livrado de todas as contingências externas por meio do desenvolvimento de suas próprias ferramentas (LE CORBUSIER, 1980, p.22). Em seu “Prólogo Americano”, escrito após a sua turnê pelo Brasil, Le Corbusier referiu-se à juventude antropofágica paulistana, que o teria apresentado a ideia de um rito exotérico

De uma comunhão com as melhores forças. O repasto era parcimonioso, dele participavam cem ou quinhentas pessoas que iriam comer a carne do inimigo capturado. Esse guerreiro era valoroso; assimilavam-se as suas virtudes, porém ele, por sua vez, havia comido a carne dos próprios guerreiros da tribo. Assim, ao comer sua carne, assimilava-se a própria carne de seus ancestrais. (LE CORBUSIER, 2004, p.29)

Foi Cendrars quem sugeriu a Paulo Prado, um patrono local da vanguarda modernista, que o hospedasse e garantisse boas diárias ao visitante em São Paulo. O próprio Flavio de Carvalho e o crítico de arte Geraldo Ferraz (que então estava no comando de uma sessão cultural no Diário de São Paulo, que vinha publicando a segunda dentição da Revista de Antropofagia) foram convocados a mostrar pessoalmente a cidade a Le Corbusier, realizando também a primeira entrevista do arquiteto em terras brasileiras. Nela, o visitante criticaria a mecanização excessiva da cidade, de acordo com ele, tão prejudicial quanto as cidades sem planejamento. Com ele, visitaram diferentes bairros e algumas das primeiras casas modernistas brasileiras projetadas pelo arquiteto ucraniano Gregori Warchavchik. Muito tem sido dito - talvez até demais - sobre a importância desta ligação local com o movimento moderno internacional de arquitetura e do forte papel desempenhado por Le Corbusier na atualização da prática nacional em face das realizações internacionais. No entanto, frequentemente subestimou-se o complexo mapa das vanguardas que ele conheceu no Brasil, nem sempre muito benevolente com a atitude moralizadora dos vanguardistas europeus.

Quase nada, por outro lado, vem sendo lembrado do impacto das ideias de Corbusier em um meio de planejamento urbano então dominado por uma elite profissional e burocrática de engenheiros, completamente alheios às experimentações modernistas, ainda que atualizadíssimos no panorama revolvido do urbanismo moderno (LEME, 1999; MALTA, 2000). Pois na verdade o foco de seu discurso no Brasil e o interesse de seu público, pelo menos em São Paulo, onde ele passou a maior parte de seu tempo na viagem de 1929, era mais em urbanismo do que sobre “a revolução arquitetônica contemporânea”. Como se sabe, em 1922, Corbusier apresentou seus planos para uma “Cidade Contemporânea de três milhões de habitantes”, cidade protótipo viável concebida como um grande motor na qual ele basearia o seu Plan Voisin para Paris. Diferentemente dos sistemas europeus, com base em uma disposição hierárquica de

torres envidraçadas isoladas, seus desenhos para São Paulo, assim como para Montevidéu e o Rio de Janeiro, propunham linhas contínuas de megaestruturas que atravessavam a paisagem natural e a topografia local, tendo acima vias expressas elevadas sobre uma enorme estrutura habitacional linear, e ao chão um piso livre para uso público e a vegetação. Em São Paulo, onde a paisagem natural e histórica não era tanto um ready-made, como no Rio, a nova estrutura deveria ligar diferentes colinas de tal forma que pudesse redefinir totalmente a expansão da cidade para baixo, produzindo uma espécie gigantesca de arranha-terra. Não é de admirar que, apesar de desconsiderar como de costume os bairros históricos, a estrutura horizontal em forma de cruz proposta não coubesse nos esquemas rádio-concêntricos então localmente dominantes, nem convergissem exatamente para os interesses imediatos do explosivo mercado imobiliário local.

Le Corbusier. Esquema urbanístico para São Paulo, 1929. Fonte: Fundação Le Corbusier

Crescendo de acordo com taxas demográficas explosivas, São Paulo vivia então seu primeiro grande pico de metropolização. Polo de grandes convulsões políticas e muita tensão subjetiva, sua indústria estava passando por um rápido processo de concentração, ativando uma mobilidade social sem precedentes no país. Se os progressos nas linhas de montagem locais ainda eram relativamente tímidos, as mudanças qualitativas na cultura e na sociedade estavam chegando e o velho Eldorado do café começava a ser entendido como uma terra de velocidade e vertigem, de imigrantes e de máquinas, automóveis e motopia. (SEVCENKO, 1992)

Warchavchik foi talvez o arquiteto local que mais se beneficiou naquele momento do contato com Le Corbusier. Desde 1927, Warchavchik vinha planejando e construindo em São Paulo aquelas que são consideradas as primeiras casas modernistas do Brasil, organizando concorridas exposições de arte e de arquitetura e tomando parte de debates acalorados na imprensa. Foi com base no capital simbólico que já então acumulava que Le Corbusier o convidaria para se integrar à rede internacional dos arquitetos modernos como delegado sul-americano ao CIAM de 1930. Apesar de efetivamente não chegar a tomar parte dos congressos que viriam a ser organizados, enviou através de Siegfried Giedion uma tese acerca dos limites postos ao projeto

moderno em um país de industrialização incipiente. A partir de 1933, é verdade, Warchavchik viria a se afastar dos embates da profissão, cedendo espaço à emergência de um novo polo de vanguarda arquitetônica que vinha se rearticulando no Rio de Janeiro, um pouco antes e imediatamente após a segunda visita de Le Corbusier ao Brasil. (LIRA, 2011)

Ao final daquela década, contudo, o arquiteto voltaria à atividade. Um de seus marcos de retorno foi justamente um projeto urbano. De fato, em 1939, Warchavchik se associaria ao jovem engenheiro-arquiteto João Batista Vilanova Artigas, para disputar o concurso da prefeitura de São Paulo para a construção do Paço Municipal. Tratava- se de enfrentar a velha falta de uma sede própria para o poder municipal. Dentre os 48 projetos inscritos, 12 foram selecionados pela comissão julgadora e publicamente expostos e criticados. De acordo com um dos críticos do certame, o complexo deveria funcionar como a “casa da cidade”, e sua arquitetura deveria ser capaz de estabelecer uma espécie de “padrão” ou “exemplo” para uma cidade que estava crescendo muito rapidamente. Como tal, ele deveria responder a duas preocupações básicas: manter a “physique du rôle” e expressar o caráter do povo de São Paulo. (O ESTADO DE S. PAULO, 10/5/1939)

O projeto vencedor, embora revelando perfeito savoir-faire de seus autores, era uma obra fria, um grande edifício sem qualquer grandeza nem dignidade. Na verdade, para o crítico, apenas dois projetos mereceriam um comentário mais generoso: “Paraquedas”, projetado por Flávio de Carvalho, que se definia por uma elevada torre de vidro, plantada no centro de São Paulo, como se tencionasse desenhar na cidade, qual um grande compasso da política, um novo círculo de cidadania. (O ESTADO DE S. PAULO, 13/5/1939)

“Paraquedas” e “Praça Cívica”, projetos apresentados por Flavio de Carvalho e Gregori Warchavchik, respectivamente, ao concurso do Paço Municipal de São Paulo de 1939. Fonte: Biblioteca da FAU-USP

O outro projeto era justamente o “Praça Cívica”, projetado por Warchavchik e Artigas, visto por ele como uma lição eloquente de arquitetura, planejamento e utilidade social. Seu partido horizontal, ciente do Palácio da Justiça e da Catedral da Sé adjacentes; seu contraste entre a torre elevada para abrigar os arquivos municipais e sustentar o tradicional relógio da cidade, indicando claramente a função do edifício; e sua corajosa solução de suprimir uma quadra inteira de modo a permitir reconfigurar uma nova silhueta edificada como moldura continua da grande praça comum, sob a qual funcionaria um terminal central de transportes públicos; tudo isso conspirava para a definição do paço municipal como core da cidade, um centro cívico acessível porque articulado à malha urbana. (O ESTADO DE S. PAULO, 13/5/1939)

Na verdade, o projeto de Warchavchik e Artigas foi o único dos doze selecionados que enfrentou o problema proposto em termos urbanísticos, recompondo inclusive os elementos básicos do programa arquitetônico previamente definido: preocupações espaciais iriam fazer convergir uma atitude em face das estruturas preexistentes com a observância das demandas contemporâneas, atentando simultaneamente para o programa oficial e a vida cultural pública, para os simbolismos sociais e as infraestruturas urbanas. Sua plataforma de vanguarda parecia então se deslocar de um princípio estético- produtivo para uma aposta liberal na civilidade. É revelador, no

entanto, que não só projeto de Warchavchik e Artigas não tenha convencido o júri, mas que a despeito das inúmeras iniciativas subsequentes de organização de concursos similares, a maior cidade do país nunca tenha realmente conseguido resolver o problema de uma sede apropriada para a sua prefeitura.

Limites de uma utopia realista

É curioso perceber que enquanto Warchavchik, depois daí, viria cada vez mais a se converter em um arquiteto-empresário característico, com forte atuação no mercado imobiliário em detrimento do setor público, Artigas iria evoluir para um dos principais nomes das novas vanguardas que se afirmavam no Brasil a partir da Segunda Guerra Mundial, implementando uma agenda ético-política contundente no interior do campo intelectual, profissional e poético da arquitetura.

Um dos arquitetos mais promissores do início dos anos 1940, membro fundador da secção paulista do Instituto de Arquitetos do Brasil em 1943 e da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo em 1948, Artigas logo se tornaria um dos nomes principais da ideologia nacional-desenvolvimentista em arquitetura, advogando simultaneamente em favor da racionalização construtiva do projeto e de uma função social da arquitetura. Em meados do anos 1950, com efeito, ele viria a protagonizar uma espécie de retorno a um grau zero da arquitetura de vanguarda no Brasil, desafiando tanto a aposta liberal de Warchavchik no mercado como o establishment arquitetônico carioca, a quem ele até então apelara no confronto com a modernidade politécnica e que doravante acusaria de irresponsabilidade social, formalismo e crescente convencionalismo. Na realidade, ligado ao Partido Comunista desde 1945, Artigas se tornara no início da década seguinte o principal porta-voz do discurso arquitetônico anticapitalista e anti-imperialista no Brasil, deslanchando no país uma vigorosa investigação nas áreas de design e produção. E nessa nova agenda arquitetônica o seu engajamento com a arquitetura pública viria a desempenhar papel de destaque. (ARTIGAS, 2004; KAMITA, 2000; KATINSKY, 2003; GABRIEL,

2003; THOMAZ, 2005)

Em 1955, Artigas organizou uma grande equipe para tomar parte do Concurso para o Plano Piloto da Nova Capital Federal. Nela seria reunido um grupo inteiro de arquitetos experientes, professores universitários e recém-graduados pela FAU-USP: arquitetos como Carlos Cascaldi, também seu colega e colaborador nas obras de Londrina, no Paraná, Paulo de Camargo e Almeida, que vinha trabalhando com planejamento urbano desde a década de 1930 no Rio de Janeiro, o economista Mario Wagner Vieira da Cunha, também professor da USP junto à Escola de Administração, e o historiador e crítico de arte Flávio Motta, professor da FAU-USP, além de ex- alunos ali de ambos, como Julio Roberto Katinsky, Ubirajara Giglioli e Heitor Ferreira de Souza. A equipe envolveria ainda um leque abrangente de conselheiros em planejamento regional e zoneamento, administração e legislação pública, agricultura, produção de energia, saneamento, saúde, educação, cultura e lazer. (BRAGA, 2010, p.65) Os quinze desenhos apresentados no concurso, cuidadosamente ilustrados e legendados, e o memorial excepcionalmente longo e detalhado que a eles se somava, claramente oferecendo-se como uma utopia realista. Brasília deveria trabalhar para a integração nacional, não só simbolicamente mas regional e demograficamente, bem como política e economicamente. Com base em uma nova rede de rotas e estradas, a cidade deveria desempenhar um papel fundamental na ocupação do Brasil Central, interrompendo o complexo colonial de dependência, promovendo uma estratégia de

desenvolvimento regional mais equilibrado e trabalhando para o fortalecimento de um mercado interno e a melhoria das condições de vida dos interioranos.

Vilanova Artigas e equipe. Plano Piloto da Nova Capital Federal, 1957. Fonte: Biblioteca da FAU-USP

Segundo os autores, o estabelecimento da nova capital não deveria ser reduzido a uma questão de layouts de rua ou de estética urbana. Deveria ser definido a partir da afirmação geográfica de um sistema coerente de organização espacial. Diferentes escalas deveriam ser assim consideradas: a escala nacional, o nível regional do Distrito Federal e seus recursos agrícolas e ambientais assim como as povoações e cidades vizinhas, os campos potencialmente rurais e verdes ao redor da zona urbana, a estrutura interna da cidade capital, seus diferentes setores e micro zonas. Além de múltiplas escalas, a revisão do plano também deveria ser prevista em no máximo vinte anos, levando-se em consideração os possíveis efeitos territoriais e demográficos que a sua implantação certamente causaria, inclusive mudanças dentro da população local e a possível fixação de parte da força de trabalho empregada no construção da cidade após a sua conclusão. É importante ressaltar que esta foi a única proposta apresentada no concurso que levou essa hipótese em consideração, antecipando também a construção de uma seção inteira de habitação para abrigar a população empregada no canteiro de obras como zona de permanente do plano piloto. (CASCALDI, 1957)

Vilanova Artigas e equipe. Plano Piloto da Nova Capital Federal, 1957. Fonte: biblioteca da FAU-USP

Assim como boa parte das propostas apresentadas, inclusive a vencedora, o projeto definia que cidade deveria ter um crescimento limitado em tamanho e população. A sua setorização, entretanto, deveria observar tanto a organização da sociedade local como um todo como as escalas da pequena comunidade, permitindo soluções urbanísticas e arquitetônicas coerentes com cada uma delas. A definição de zonas e setores, portanto, não seria baseada em fronteiras estritamente legais ou polaridades funcionais, mas articuladas através dos modos de vida aqui que em cada um deles teriam lugar. Uma malha ortogonal maciça estruturaria a cidade em sua totalidade, as zonas residenciais, verdes, comerciais, industriais, administrativas e militares sendo definidas por variações de tipologia, ritmo e densidade. As áreas destinadas para a sociedade em geral seriam localizadas próximas ao lago Paranoá, incluindo um parque nacional, uma área comercial e o centro administrativo e civil da capital, concebido de forma a tornar-se um espécie de ímã regional e nacional e não prejudicar as atividades diárias no interior da cidade. (CASCALDI, 1957)

Procedendo desta maneira, fica evidente a tomada de posição do Plano de Artigas no debate contemporâneo sobre o planejamento e o desenvolvimento no país. Combinando uma abordagem objetiva da vida urbana e regional com uma reflexão sobre o papel político de uma capital em um país subdesenvolvido, parecia-se tomar distância seja do civismo liberal de Warchavchik seja do manifesto anti-civilizatório de Carvalho. Como se a arquitetura devesse encaminhar seus poderes vanguardistas a uma finalidade construtiva, absolutamente necessária. Tratava-se, portanto, de afirmar uma visão diversa da modernidade, que se desdobrava em uma outra maneira de se referir à arquitetura da vida coletiva futura. Se o acentuado princípio de realidade recomendava-lhe atenção às diversas escalas espaciais e temporais de planejamento da nova capital, a sua derrota em face do plano de Lúcio Costa parecia reiterar a necessidade de uma sobrecarga monumental em seu valor de “autoconsciência da

epopeia arquitetônica, política e cultural, para simbolizar a vontade estatal de desenvolvimento e integração nacional”. (GORELIK, 2005, p.184) Fragilizado talvez por seu pendor pelo processo de urbanização da sociedade e do território em detrimento de sua forma final, uma vez realizado, o plano de Artigas dificilmente teria se convertido no museu vivo da modernidade em que Brasília, para o bem ou para o mal, tão precocemente se tornou.

Esta linha tortuosa, que une obras de vanguarda tão diferentes está repleta de conotações críticas. Quais são as raízes e significados de sua aparente discrepância na história do urbanismo no Brasil? Que elos, lacunas e disputas revelam entre si? Como elas se relacionam com o legado das vanguardas, com seus círculos locais de articulação com as formas concretas de produção da arquitetura e da cidade? Até que ponto elas respondem, ou antes até que ponto a sua fortuna ou seu infortúnio remetem às condições da modernidade cultural e ao esquema emblemático da modernização no Brasil?

Referências

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Como Citar

José Tavares Correia de Lira . Três planos perdidos e uma história do urbanismo a contrapelo. In: PEIXOTO, Elane Ribeiro; DERNTL, Maria Fernanda; PALAZZO, Pedro Paulo; TREVISAN, Ricardo (Orgs.) Tempos e escalas da cidade e do urbanismo: Anais do XIII Seminário de História da Cidade e do Urbanismo. Brasília, DF: Universidade Brasília- Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, 2014 . Disponível em: http://www.shcu2014.com.br/content/tres-planos-perdidos-e-historia-do-urbanismo-contrapelo