Transformação da indústria e do espaço urbano: mudanças da paisagem na área central de Santo André, SP

Eixo Temático: 

 

Transformação da indústria e do espaço urbano: mudanças da paisagem na área central de Santo André, SP

Eixo Temático: Território

Resumo

Este artigo versa sobre as transformações da paisagem da área central de Santo André, São Paulo, a partir da transformação da indústria no último século. Cidade que nasceu a partir da implantação da ferrovia e da indústria, ao longo do tempo vivenciou momentos diferenciados da industrialização paulista que conformou o desenho urbano e as relações de seus habitantes com o território. Diante das transformações que a indústria passou ao longo do século, o artigo propõe o desenvolvimento de estudos que evidencie a memória da indústria na paisagem bem como um inventário de patrimônio industrial de modo a garantir a preservação da memória do desenvolvimento local e regional.

Palavras-chave: patrimônio industrial, paisagem, mutações, cidade

Abstract

This paper deals with the transformation of the landscape of the central area of Santo André, São Paulo, from the transformation of the industry in the last century. City that was born from the deployment of the railroad and industry , over time experienced different stages of industrialization that conformed urban design and the relationships of its inhabitants with the territory. Given the changes that the industry has gone over the century, the article proposes the development of studies about the memory industry in the landscape as well as an inventory of industrial heritage to ensure the preservation of the local and regional development memory.

Keywords: industrial heritage, landscape, mutations city

Introdução

Nestor Goulart Reis Filho (2006) afirma que a dispersão da indústria é a primeira forma de dispersão urbana que ocorre. Já na segunda metade do século XIX inicia o processo de dispersão, com a instalação de indústrias ao longo dos eixos ferroviários. Em verdade, a cidade de São Paulo caracterizou-se, no século XIX, como polo de atração de empreendimentos industriais, primeiramente com pequenas fábricas, muitas delas de cunho familiar, que, com a melhor fluidez dos meios de transporte e, com isso, a possibilidade de se importar tecnologias, bens, maquinários etc. a cidade viu surgir conglomerados que ocuparam vastas áreas e transformaram a paisagem paulistana.

A instalação do governo republicano, a inserção da economia cafeeira no mercado mundial e o surgimento de um mercado consumidor de produtos industrializados, modificam-se as relações políticas inter-regionais. Várias regiões do estado de São Paulo tornam-se locais de intensa atividade estratégica para a consolidação do estado, entre elas a região do ABC, então configurada em um único município denominado São Bernardo.

Para Martins (2011) o século XX em São Paulo se inicia na segunda metade do século XIX, momento em que se dá a entrada do Brasil na modernidade.

Na verdade, por aqui, o século XX começou antes do tempo, com algumas grandes transformações ao longo da segunda metade do século XIX, cujas características e cujos efeitos se desdobrariam até os anos 1950. /…/ as últimas décadas do século XIX (são) vividas pelos paulistas e habitantes de São Paulo como o tempo de frenética mudança em todos os campos da vida, a população amplamente dominada pela ideia do futuro, do progresso e da mudança. (MARTINS, 2011, p.3)

José Leonardo do Nascimento (2011) se utiliza de referências literárias a partir de publicações de Julio Ribeiro (A Carne, 1888), Horácio de Carvalho (O Crono: estudo de temperamentos, 1888), relatos de viajantes, entre outros, para descrever as intensas transformações da cidade de São Paulo na segunda metade do século XIX a partir da implementação das estradas de ferro e os primeiros ensaios da industrialização em São Paulo.

A diversificação econômica, o aparecimento de fábricas, a concentração de uma massa de imigrantes e a convergência de linhas de transporte ferroviário em São Paulo modificaram as feições urbanísticas da cidade. (NASCIMENTO, 2011, p.84)

A fábrica, antes em total convivência com outras atividades urbanas, é a primeira a romper fronteiras da cidade para buscar terrenos maiores e mais distantes, apartados dos demais usos da cidade, porém junto aos grandes eixos de circulação. Na formação da metrópole paulistana isso se mostra de forma bastante clara a partir da implantação das ferrovias na segunda metade do século XIX, quando historiadores como Ernani da Silva Bruno (1991) e Richard Morse (1970) destacam o momento como a segunda fundação da cidade, quando ela se torna a Metrópole do Café.

As primeiras indústrias da cidade vão se instalar junto da linha férrea, Barra Funda, Água Branca, Brás, Mooca e Ipiranga, formando o parque industrial paulistano nos últimos anos do século XIX que vai se ampliar para os arredores paulistanos.

É esta a gênese da formação de várias cidades dos arredores paulistanos servidas pelas linhas férreas desde a segunda metade do século XIX. Richard Langenbuch (1971), ao estudar a formação da Região Metropolitana de São Paulo indica a formação dos “povoados-estação”, núcleos urbanos que se formam ao redor das primeiras estações ferroviárias e assumiram função de abastecimento e trocas intrarregionais e abrigaram as primeiras indústrias de beneficiamento e transformação da extração vegetal e mineral dos arredores e fábricas têxteis.

Essa é a origem do aglomerado urbano que se forma ao redor da estação São Bernardo da Estrada de Ferro de São Paulo (São Paulo Railway, depois Estrada de Ferro Santos a Jundiaí), atual estação Santo André.

Este artigo tem por objetivo compreender a trajetória das transformações da paisagem ocorrida na área central de Santo André a partir das mudanças da economia local ocorrida ao longo do século XX em Santo André1, desde a formação do subúrbio industrial até a cidade atual, com alta concentração de serviços especializados, indicando perspectivas para pesquisa sobre a preservação da paisagem e do

1 Para mais informações a respeito ver KLEEB, 2013.

patrimônio industrial.

Considerações sobre paisagens em cidades industriais.

Reflexões sobre cidades introduzem questões que perpassam a vida dos cidadãos e nas quais estão inscritas formas de pensar o mundo. E, por meio de expressões da interação do homem com o ambiente em seus diversos formatos (edificações, arruamentos, fotografias, documentos escritos, produções imateriais etc.) é possível construir uma história que permita reconhecimento aos cidadãos.

Nesse contexto é significativo compreender os processos sociais que levam à manutenção ou ao desaparecimento de elementos da paisagem seja por sua representação sociocultural ou pela movimentação de interesses dos diversos agentes que compõem o ambiente urbano. E essa ação se organiza no tempo e no espaço, revelando transformações e manutenções de artefatos e lembranças. Expõe também as disputas nas quais estão em jogo o valor de uso do espaço e a mobilidade explicitada pela utilização e controle deste no tempo.

O resultado é a transformação, em seu contorno dialético de permanência e mutação, de uma paisagem socialmente construída, alterada, subtraída, acrescida de referências. São rupturas e permanências que se refletem por meio de bens e práticas etc. e que se metamorfoseiam no tempo. E esta dinâmica sobre o território se organiza no plano particular da história local e referencia um modo de viver e de se relacionar com o espaço.

A partir destas informações é possível refletir sobre modificações e impactos que se apresentam na vida dos cidadãos. Um exemplo associado a alguns centros urbanos contemporâneos, e, especialmente importante para as cidades do ABC paulista2, é a preponderância da vocação industrial, estimulada desde final do século XIX para o predomínio de possibilidades e estruturas urbanas que se organizaram por força de circunstâncias macroeconômicas geralmente ligadas a interesses extra locais. O

distanciamento e disfunção frente a interesses do mundo capitalista e as lacunas que se constituíram frente à desvalorização da memória identificam algumas rupturas na paisagem e memória que marcaram essa região e em especial Santo André.

Importante esclarecer de imediato que o município de Santo André tal como ele é conhecido na atualidade se configurou a partir da década de 1950. Até então, de modo geral este compunha uma área muito maior, que se conformava em todo o ABC paulista atual. As primeiras atividades econômicas dessa região, no século XX, se localizaram nas imediações da estação ferroviária, inaugurada em 1867 e ao longo dos de caminhos coloniais. Parcelamentos se organizaram nas proximidades de fábricas, atraídos pelo novo dinamismo econômico trazido pelas primeiras indústrias com o intuito de garantir mão de obra próxima e a qualquer tempo para a produção voltada especialmente para a tecelagem. Criou-se nas proximidades da estação ferroviária um pequeno núcleo urbano, embrião da cidade atual. Fora dos limites centrais havia fazendas e sítios em que a quantidade de habitantes era pequena.

O mercado de trabalho era afeito a algumas atividades. Havia emprego nas fábricas — Tecelagem Silva Seabra & Cia, fabricante de brim de algodão para sacaria (desde 1885), Fábrica de casimiras Bergman, Kowarick & Cia (1889), Companhia Streiff de

2 ABC paulista composto pelas cidades de Santo André, São Bernardo do Campo, São Caetano do Sul, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra.

São Bernardo (1897), fábrica de cadeiras e pequenos móveis de uso doméstico e de escritório. Essas eram as atividades industriais de maior monta, mas havia pequenas fábricas familiares, geralmente associadas à tecelagem ou ao beneficiamento da madeira ou da argila (na produção de telhas e tijolos).

Figura 1. O caminho da estação São Bernardo, atual Rua Coronel Oliveira Lima c. 1899. A fábrica que se vê na imagem é a Cia Streiff de cadeiras e pequenos móveis. Coleção: Euclydes Rocco, acervo Museu de Santo André.

Todas as atividades exigiam pouca ou nenhuma qualificação e tanto homens como mulheres eram empregados, assim como, em alguns casos, crianças que desenvolviam pequenos trabalhos como empalhamento de cadeiras ou limpeza entre máquinas de tecelagem.

Não havia regramento sobre quais as atividades poderiam ser desempenhadas, muito pelo contrário, a Lei municipal nº 95 de setembro de 1911 (e muitas outras que foram aprovadas posteriormente) demonstrava interesse na atração de indústrias ao parque industrial que se pretendia consolidar. Essa lei garantiu a isenção de impostos por seis anos para indústrias que viessem a se instalar na cidade. Esta isenção de praticamente todos os impostos estava direcionada para indústrias com pelo menos 50 operários. O alvo era médios e grandes empreendimentos, e não os pequenos negócios familiares, com poucos funcionários, que existiam na cidade. O foco era a articulação entre a produção em larga escala e o mercado consumidor para além da cidade, e que em São Paulo já se mostrava custosa.

O ABC, segundo Relatório do Prefeito de 1920/21, possuía ao todo 121 estabelecimentos industriais e contava-se com uma população de 4.316 operários (FCMSB, Relatório de Prefeito, 1921, p. 28). E este número apenas aumentava, pois terrenos planos e baratos ao longo da linha férrea e fartura em recursos hídricos levaram a deslocamentos fabris para o ABC. Destacavam-se os distritos de Santo André e São Caetano como “centros industriais de primeira grandeza, pois possuíam fábricas de tecidos, móveis, adubos, produtos químicos, louças, oficinas metalúrgicas, além de fábricas ‘menores’”. (FCMSB: Relatório da Comissão de Melhoramentos de

São Bernardo, 28/03/1928)

Os dados econômicos para essa década são imprecisos, haja vista as dificuldades de documentação existente. A partir das informações coligidas nos livros de Impostos e Profissões do Fundo Câmara Municipal de São Bernardo, identifica-se que nas décadas de 1920 e 1930 pagaram impostos no distrito de Santo André 190 empreendimentos industriais. (FCMSB, Livros de Impostos e Profissões, 1920/1935)

No Censo de 1940 a transformação foi considerável; a população das áreas urbana e suburbana, em dois distritos (Santo André e São Bernardo) cresceu de forma muito intensa. Langenbuch (1971) identifica quais seriam os motivos para que houvesse esse crescimento populacional. Diz ele que o trinômio refletido pela ferrovia, terrenos planos e grandes nas áreas lindeiras à ferrovia e o curso d’água, representado pelo Rio Tamanduateí e seus afluentes, impulsionaram a instalação de unidades industriais e que, por força do modelo adotado, importava em grande número de trabalhadores.

Figura 2. Vista do complexo industrial da Rhodia Química em Santo André, c. 1925 (fonte: Diário do Grande ABC, publicada em 13/04/1999).

A década de 1940 também foi significativa na esfera econômica, pois se encontrava a caminho uma nova conformação produtiva. Migrava-se de tecelagens ou fábricas de produção em menor escala para os grandes complexos industriais automobilísticos e de autopeças. Caracterizou-se esse momento como marco divisor de águas, pois mostrou claramente qual a nova perspectiva de desenvolvimento que se almejava. Estava em curso a chegada de empresas multinacionais que mudariam o cenário e mesmo as rotas de acesso intrarregional.

A ferrovia, paulatinamente deixava seu papel de destaque como meio de transporte de cargas, para se efetivar a lógica de transporte rodoviário, cujo exemplo claro foi a inauguração da Via Anchieta em 1947. Essa nova configuração efetivaria de forma lapidar a interação dessa região com outros mercados consumidores. O ABC se configurou como centro de produção de bens materiais, cujo mercado de consumo

encontrava-se fora de seu domínio de ação.

De acordo com o levantamento censitário apresentado no Relatório de 1948, a partir do Censo de 1940, existem informações interessantes sobre as atividades econômicas e seu papel no âmbito do município. A principal atividade de atração de empregos era a atividade industrial. O comércio e serviços abrigavam poucos trabalhadores, o que denota a pouca atividade comercial do município.

Em Relatório de Prefeito de 1954 encontra-se outra informação sobre a movimentação econômica local: havia em Santo André 704 indústrias. Os números apontam que em Santo André o emprego estava em franco desenvolvimento. Havia, é certo, concentração de empregados em algumas grandes empresas como é o caso, por exemplo, da Pirelli S.A. Cia, com 4.500 operários e a Rhodia Ceta e Rhodia Química com cerca de 2.500 operários cada uma. Essa condição indica a concentração em algumas áreas de produção — autopeças, borracha e química. Tal situação irá se refletir negativamente no futuro quando essas indústrias diminuírem sua atuação na cidade, com consequente diminuição de renda e emprego. Mas, aquele era o momento de expansão, e em 1954 foi inaugurada a Refinaria União, o que trouxe para a cidade e região outra especialidade: a produção de derivados de petróleo e mais empregos.

A área de comércio e de serviços também se organizou de forma mais consistente. Houve fortalecimento do comércio local e Santo André se consolidou como centro regional de comércio. Vários magazines se instalaram, localizados nas proximidades do antigo caminho da estação (Rua Coronel Oliveira Lima), e com isso estes eram alcançados seja por trem ou por ônibus (PASSARELLI, 1994, p. 64,65). As décadas de 1940/1950 foram decisivas para a cidade, com a instalação das indústrias automobilísticas e de transformação na região do ABC, conformando um parque industrial extremamente diversificado.

A década de1960 evidencia o papel preponderante da atividade industrial na cidade. O IBGE apresenta o número de estabelecimentos industriais e de pessoal ocupado. Indica que são 668 estabelecimentos industriais para uma população ocupada de

50.137 pessoas. Em observância com os números de 1950, onde o IBGE computou 34.734 pessoas. Houve, portanto, um incremento de cerca de 30% de empregados no setor em dez anos. Observamos a ampliação do setor de comércio na cidade e isso era notório entre os moradores da região que vinham a Santo André para compras.

As atividades industriais contavam com maior número de estabelecimentos. Dos seis grupos que mais empregavam mão de obra — mecânica e material elétrico, fiação e tecelagem, construção e mobiliário, alimentação, transportes, e o químico e farmacêutico — percentualmente representam 79,07% dos trabalhadores empregados. (TRIBUNA Popular Ilustrada, 1966, p.71)

Evidencia-se o papel da cidade como meio de reprodução da força produtiva. Era, de fato, um subúrbio, lugar inacabado, como espaço de produção e reprodução incompleta da vida. (MARTINS, 1992) A riqueza se reproduzia ali parcialmente. A produção e a exploração eram as condições que tinham sua expressão nessa localidade.

A paisagem construída mostrava claramente a formação do subúrbio industrial, com grandes plantas industriais ao longo da linha férrea e bairros residenciais à sua volta, ocupando as várzeas e as colinas ao longo do Rio Tamanduateí. Fátima Guides (2008)

registra a autoconstrução desses bairros operários que se multiplicaram após os anos 1930, quando trabalhadores do campo buscaram novas perspectivas de trabalho na região metropolitana em formação. Santo André era, no dizer de Philadelpho Braz, sindicalista e memorialista, “a cidade das chaminés” (A CIDADE…, 2008)

Estação ferroviária

Figura 3. Aerofoto oblíqua de Santo André, c. 1940, com a indicação da localização da estação ferroviária de Santo André. Acervo Instituto Geográfico e Cartográfico.

Em uma revista de prestação de contas do prefeito Lincoln Grillo (1977-1983) há uma matéria que identifica o espírito que o governo tinha da cidade. Denominava a cidade de “capital do trabalho, [que se] baseia no grande volume de vendas de seu comércio e na alta produtividade de seu parque industrial” (MUNICÍPIO hoje, 1979, p.12).

No entanto, a partir da segunda metade da década de 1970, houve uma queda no número de indústrias e consequentemente no ritmo de crescimento econômico. Nova configuração econômica se desenhava, com ampliação na área de comércio e serviços e refreamento do setor industrial. A crise mundial do petróleo foi um dos motivos, mas não o único. O governo federal fixou novo plano de crescimento econômico focado para outros estados (Decreto Federal nº 76.389/1977) e o governo do estado de São Paulo atuou de forma mais veemente na fiscalização e instalação de indústrias poluentes (Lei Estadual nº 1.817/1978). Essas medidas modificaram as condições até então muito favoráveis de empresas que se instalavam no ABC. Iniciava-se um processo de reestruturação produtiva em toda a região e em Santo André, muito especialmente.

A década de 1980 enraizou condições descritas anteriormente com dificuldades de outra ordem: a crise econômica que já havia dado os primeiros sinais na década de 1970, nos anos 1980 era evidente. Sobre as dificuldades econômicas, o prefeito identifica a rigidez das normas da União e do Estado sobre a desconcentração

industrial como uma das razões para a diminuição das indústrias na região. Com essa condição, a tentativa da Prefeitura foi de atrair novas unidades de produção industrial, com vistas a incrementar as possibilidades de emprego (PMSA, 1982).

A crise se aprofundava na década seguinte. Dados que demonstram que o ano de 1990 foi difícil para diversas áreas, tanto comércio, como indústria cuja retração em relação a 1989 foi 10%. Consequentemente o nível de emprego também diminuiu em especial no setor metalúrgico (20,3%) (Indicadores Econômicos/PSA, jan.1991, p.2). E essa foi a tônica durante boa parte da década, com quedas expressivas do nível de emprego na base da indústria metalúrgica e algum crescimento econômico pós-1995, incluindo um crescimento discreto nível de emprego industrial, 2,2% a favor dos trabalhadores ligados à produção (Indicadores Econômicos/ PSA, jun.1995).

Houve uma reorientação do processo tecnológico em nível global e o perfil industrial do ABC, da forma como se colocou nos últimos trinta anos, sofreu transformações irreversíveis. Um número crescente de estabelecimentos associados aos serviços se destacou e, mesmo com algum incremento no setor industrial, houve retração no número de empregos; situação que pode aponta para a terceirização dos serviços e a maior mecanização e reestruturação tecnológica da produção.

Ao final do século XX, a crise do padrão de desenvolvimento brasileiro a partir dos anos 1980 iniciaria um gradativo processo de estagnação com os primeiros episódios de fechamento de algumas empresas e substituição de uso da antiga área industrial, e depois, de demissão em massa, com a transformação das formas de operação da indústria a partir da mecanização e robotização dos processos industriais. Porém, seria na década seguinte, a última do século XX, que a crise industrial brasileira teria a região do ABC como seu território emblemático, com a perda de milhares de empregos industriais e o fechamento ou a transferência de diversas fábricas da região.

As implicações desse processo para a transformação do tecido socioeconômico e para a reconfiguração da paisagem foram intensas, com o surgimento de esqueletos de fábricas, de vazios urbanos e a ampliação de novos centros de compras e de serviços junto aos edifícios industriais. Ao mesmo tempo, emergem da crise uma série de empresas que sobreviveu à reestruturação produtiva e se renovou — em muitos casos com a redução da área produtiva.

Nos últimos anos, as cidades da região do ABC têm sido palco de um intenso processo de reestruturação urbana e produtiva que modifica, elimina ou coloca em risco inúmeras edificações industriais e acervos materiais e imateriais de grande importância para a história social daquelas comunidades e das cidades como um todo.

Parte deste processo se efetiva atualmente na busca de novos espaços para a produção de habitação que se implantam nos lotes industriais, lotes grandes e localizados próximos das estações ferroviárias, garantindo acessibilidade para vários pontos da metrópole paulistana a partir da integração dos transportes ferroviário e metroviário, num movimento semelhante ao que se vê nos bairros da Mooca e Ipiranga na cidade de São Paulo

Figura 4. Condomínio Cidade Viva Santo André, o novo complexo comercial e residencial em lançamento recente pela Construtora Odebrecht, na Av. Industrial em antigos lotes industriais junto à via férrea (fonte: http://cidadevivasantoandre.com/)

Considerações finais: na busca de uma agenda de pesquisa

A região do ABC tornou-se, ao longo do século XX, um dos principais núcleos do rápido, intenso e bem sucedido processo de industrialização ocorrido no Brasil. Com as primeiras fábricas instaladas já no final do século XIX, a região receberia grandes indústrias de capital internacional, como a Rhodia, logo após a Primeira Guerra Mundial, em um processo de expansão do parque industrial paulista às margens das estradas de ferro. Após a Segunda Guerra Mundial, com a implantação da indústria automobilística no eixo da rodovia Anchieta, a região do ABC se transformaria no motor do chamado “milagre econômico” brasileiro, nas décadas seguintes, que foi consolidado com a implantação do Polo Petroquímico de Capuava, fortalecendo o complexo industrial do ramo químico.

O espaço social construído e vivenciado durante o século XX sofreu e sofre com transformações que alteram as relações dos moradores com a cidade. Se as primeiras mudanças se deram apenas com alterações de uso, onde o galpão industrial recebe uma atividade comercial — um centro de compras ou um supermercado — atualmente é totalmente transformado apagando o passado da indústria que conformou o território.

O ABC paulista, apesar das transformações vividas nas últimas décadas, é ainda lócus da indústria e do trabalhador e mantém uma produção diversificada e presente nos cheiros, nas tipologias dos edifícios, nas cores e, sem dúvida, na dinâmica da cidade com seus caminhões e trens de carga. Num mapeamento preliminar identifica-se a presença da indústria em todo o território da cidade de Santo André (ver fig. 5). Verifica-se, também, a transformação dos usos no território, particularmente na área central da cidade, mais próxima da estação ferroviária, onde desde o início do século XX grande quantidade de plantas industriais foram desativadas, dando lugar a atividades comerciais e de serviço e, mais recentemente, a conjuntos habitacionais.

S. Caetano

Sto. André

Mauá

Diadema

S. Bernardo

Indústrias em atividade Indústrias desativadas

Figura 5. Mapeamento preliminar da localização das indústrias em atividade e desativadas na cidade de Santo André sobre base do Google Earth (elaborado pelo autor)

Ao considerarmos o ABC paulista lugar de excelência para o entendimento das transformações da indústria durante o século XX, abre-se a oportunidade de retornar à documentação citada na busca da melhor compreensão de sua trajetória no território da cidade estabelecendo o registro da memória urbana. Ao mesmo tempo, urge a realização de um inventário do patrimônio industrial e determinação de mecanismos para a sua preservação de parte deste rico acervo.

Dessa forma, busca-se ocupar uma lacuna da memória do ABC, na perspectiva de identificação e atribuição de valor ao patrimônio industrial e auxiliar na continuidade dos estudos de história da industrialização, dos processos produtivos, da organização do trabalho, dos movimentos operários e sindicais e do cotidiano do trabalhador na região do ABC, contemplando simultaneamente a memória e o desenvolvimento regional.

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Como Citar

Silvia Helena Facciolla Passarelli; Suzana Cecília Kleeb . Transformação da indústria e do espaço urbano: mudanças da paisagem na área central de Santo André, SP. In: PEIXOTO, Elane Ribeiro; DERNTL, Maria Fernanda; PALAZZO, Pedro Paulo; TREVISAN, Ricardo (Orgs.) Tempos e escalas da cidade e do urbanismo: Anais do XIII Seminário de História da Cidade e do Urbanismo. Brasília, DF: Universidade Brasília- Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, 2014 . Disponível em: http://www.shcu2014.com.br/content/transformacao-da-industria-e-do-espaco-urbano-mudancas-da-paisagem-na-area-central-santo