O território de Goiânia como objeto historiográfico

Eixo Temático: 

 

O território de Goiânia como objeto historiográfico

Eixo Temático: Território

Resumo

Este artigo se propõe a realizar uma análise morfológica do território da cidade de Goiânia-GO, a fim de identificar indícios do processo histórico em sua configuração espacial contemporânea. Na primeira parte deste trabalho é observado como a estrutura territorial revela evidências de elementos que condicionaram o crescimento da cidade, sendo eles naturais, artificiais ou político-legislativos. Em seguida, apresenta-se a influência da postura dos profissionais da arquitetura e urbanismo, que participaram da elaboração dos instrumentos do planejamento territorial e de projetos de grande importância para a estruturação da malha urbana. Os ideais que marcaram a atuação de cada profissional ficam claros na morfologia urbana e, como são próprios da época de cada um deles, permite situar o espaço construído no tempo, expondo a cidade como objeto historiográfico. A fim de tornar mais fácil a compreensão destes aspectos na leitura da formação territorial, tomou-se como objeto de estudo o Córrego Botafogo, um curso d’água em meio ao tecido urbano, que desde a criação de Goiânia sofre transformações de acordo com as etapas do desenvolvimento econômico e demográfico da cidade. O estudo deste elemento permite a formação de uma apreensão holística da cidade e de uma noção temporal dos processos sociais e as práticas que levaram à criação, ocupação e transformação da cidade, revelados nas especificidades do território.

Palavras-chave: história da cidade, morfologia urbana, território, postura profissional

Abstract

This article analyses the morphological structure of the territory of Goiânia-GO, meaning to identify the traces left by the historical process of its contemporary space configuration. The first part of this academic work explores the evidence of elements that conditioned the urban sprawl, may they be natural, artificial or politic-regulatory. Forward, this article discusses how the professional stance of architects and city planners actually influenced the urban environment structuration, and as each posture is proper of a specific period, it demonstrates the city outputted as a historiographical product. To make it easier to comprehend what are the indications of history in the territory, it is appropriate to take Stream Botafogo as an object of study, for being a small river threaded together to the urban network since the city’s foundation, transformed according to every stage of the economic or demographic development. Fore so, studying this element enables the conjecture of a holistic understanding of the city itself, in which the territory’s specificities reveal the social process and practices that led to the creation, occupation and transformation of Goiânia.

Keywords: urban history, morphological structure, territory, professional stance

Introdução

Goiânia foi planejada e criada, na década de 1930, para ser a nova capital do Estado de Goiás. Como em qualquer outra cidade, a leitura de sua estrutura espacial revela os fenômenos que influenciaram a dinâmica territorial, uma vez que cada etapa de desenvolvimento econômico e demográfico da aglomeração corresponde a uma adaptação morfológica (PANERAI, 2006, p.72). Por isso a análise das transformações

do território revela os condicionantes de crescimento e o processo histórico de sua formação. Esses condicionantes podem ser elementos naturais, como o relevo ou os recursos hídricos; construídos, como os eixos viários e as subcentralidades; ou legislativos, como os planos de ocupação, as leis de uso do solo, entre outros. Aspectos físicos, ações antrópicas ou ainda decisões político-legislativas ressoam sobre a história da cidade de Goiânia, demarcando tempos distintos e alterando significativamente as relações territoriais entre traçados imaginados e tecidos consolidados.

Esta análise permite uma apreensão mais global da formação da aglomeração porque permite situar os aspectos no tempo e na história. Dependendo da forma como estão inseridos na dinâmica urbana os elementos podem condicionar o crescimento, atuando como limite, barreira, linha ao longo da qual ocupação se instala ou polo de atração (PANERAI, 2006).

Os elementos naturais que mais influenciaram na morfologia do tecido de Goiânia foram os cursos d’água, ao longo dos quais a topografia se apresenta um pouco mais acentuada e entre os quais o terreno é bem plano, ideal para o parcelamento e a ocupação de uma cidade nova. Foi inicialmente escolhido um sítio livre entre os córregos Botafogo e Capim Puba, sendo estes os limites da cidade a Leste, Oeste e Norte, onde se encontram (Figura 1).

Figura 1: Diagramas de análise dos Condicionantes Naturais do crescimento de Goiânia. 1) Elementos Naturais; 2) Tecido Urbano; 3) Morfologia Diretamente Condicionada; 4) Tipologias Morfológicas. FONTE: VELOSO E ZÁRATE, 2013.

Com a expansão extensiva da cidade, o limite físico, que os córregos representavam, foi transposto, mas, como está evidenciado na Figura 1, os cursos d’água não foram

incorporados efetivamente no tecido urbano. A morfologia do tecido urbano revela que, nas proximidades dos cursos d’água, as quadras assumem um desenho praticamente orgânico, cujas linhas que determinam sua maior dimensão estão no mesmo sentido do córrego, paralela às margens. À medida que se afasta dos veios hídricos, a topografia suaviza e a malha urbana assume uma morfologia mais regular. O Diagrama 4 da Figura 1 evidencia a configuração de bolsões, nos quais o tecido urbano que se acomoda na fração de território plana circundada pelos córregos.

O desenho e a organização da ocupação também permitem identificar as áreas em que relevo (identificado no traçado das curvas de nível) é condicionante direto do traçado das vias (Diagrama 3 da Figura 1). Esta característica da estrutura formal de Goiânia reflete uma preocupação, no planejamento, com as questões de escoamento das águas pluviais, e não da efetiva incorporação dos recursos naturais como elementos estruturantes do espaço urbano ou da morfologia urbana.

Figura 2: Diagramas de análise dos Condicionantes Construídos do crescimento de Goiânia. 5) Elementos Artificiais - vias;6) Elementos artificiais - subcentralidades; 7) Morfologia Diretamente Condicionada; 8) Sobreposição vias e tecido condicionado. FONTE: VELOSO E ZÁRATE, 2013.

Por outro lado, ao analisar os elementos artificiais (Figura 2) é perceptível sua significativa influência na configuração espacial. Os eixos viários constituem linhas ao longo das quais elementos se alinham, como o desenho dos parcelamentos ou a posição dos edifícios. É possível identificar que as vias foram estruturantes do crescimento quando se observa a maior dimensão das quadras lindeiras no sentido da via, diferente do traçado do entorno. Este fenômeno caracteriza, por exemplo, as parcelas lindeiras à antiga ferrovia de Goiânia, bem como à rodovia federal BR 153, e também à via expressa Alameda Marginal Botafogo (implantada nos anos 1990, mas já prevista como elemento de ordenação do território no planejamento da década de

1970). O caso da Marginal Botafogo é peculiar porque a via expressa implantada às margens do córrego de mesmo nome reforça seu caráter de barreira no sentido Leste- Oeste, enfatizando a ruptura de tecido: de um lado a cidade planejada e inscrita em seus limites; de outro a cidade espraiada e fruto de loteamentos e crescimentos descontínuos, levando à fragmentação do território.

Áreas de concentram as atividades urbanas condicionam a configuração da cidade, pois atuam como polos de atração do crescimento. Subcentralidades como Campinas, o Setor Vila Nova e, mais recentemente, o Jardim Goiás podem ser citados como exemplos porque eles concentraram e atraíram a ocupação e a instalação de equipamentos relevantes em seus arredores.

No diagrama 5 da Figura 2, destacam-se os principais eixos viários. No diagrama 6, identificam-se os polos e os equipamentos relevantes localizados sobre tais eixos viários. No Diagrama 7, é possível perceber, apenas observando o traçado das quadras, por onde passam as vias, uma vez que estas se comportam como linhas que conectam os polos. O Diagrama 8 é uma síntese, resultante da sobreposição dos demais diagramas à malha urbana, que permite visualizar os elementos artificiais na estruturação urbana de Goiânia. Evidencia-se, desse modo, que a ocupação do território, ainda que tenha considerado a topografia e recursos hídricos, reforça o ideário de modernidade ao atribuir aos elementos artificiais a função de indutores do crescimento, e aos naturais, o papel de ruptores. A ruptura se manifesta na diferenciação entre a morfologia da cidade idealizada, resguardada pelos limites iniciais, e da cidade resultante de interesses especulativos, que cresceu de maneira descontínua.

Ainda que os elementos naturais e artificiais sejam mais facilmente identificados no traçado, por estarem fisicamente presentes em sua configuração, não se pode ignorar a relevância dos aspectos políticos e legislativos como condicionantes da morfologia, e por conseguinte, do tecido urbano. Os ideais de cada governo se refletem nos planos e nas normas urbanísticas, que são instrumentos utilizados pelo poder local para o controlar e a regulamentar a ocupação do território. Muitas vezes, estes instrumentos não são os únicos a exercer influência, e as pressões dos interesses individuais e do mercado imobiliário também incidem de maneira relevante e incisiva neste direcionamento.

Estruturação Urbana e crescimento de Goiânia: fragmentação do tecido

A iniciativa de transferir a antiga capital do estado de Goiás para uma cidade nova (TREVISAN, 2009) em um núcleo urbano ex-nihilo para assim desencadear a prosperidade, é reflexo da política de interiorização da ocupação nacional de Getúlio Vargas e do ideal progressista da Marcha para o Oeste. O projeto urbanístico da cidade foi desenvolvido por Attílio Corrêa Lima, que estruturou o espaço urbano pelos eixos viários de conexão das principais áreas da cidade, enfatizando a circulação, uma projeção do ideal modernista. O profissional também inspirou-se em princípios barrocos para definir o traçado do Centro, o qual se dividia em administrativo, mais ao Sul, e comercial, mais ao Norte. Além disso, a integração da malha ortogonal, definida pelas ruas, com a malha diagonal, definida pelas avenidas, cria espaços amplos e monumentais, nos quais os edifícios públicos estão estrategicamente localizados. Foram definidas três grandes avenidas que convergiam para a Praça Cívica, enfatizando a sede do poder, função para a qual Goiânia foi criada (PANTALEÃO; TREVISAN, 2011). A ênfase no funcionalismo revela

também terem sido adotados princípios modernistas por Correa Lima, bem como por seu sucessor, Armando de Godoy: o traçado rígido de vias regulares delimitado por um cinturão verde de parques articula os setores de acordo com as funções de trabalhar, habitar e de lazer.

A revisão do Plano de Attílio Corrêa Lima, por Armando de Godoy (1936), apesar de manter a maior parte das propostas, revela que desde a concepção de Goiânia, os conflitos de interesse se refletiam nas decisões legislativas. Godoy adotou propostas urbanísticas que valorizavam as propriedades da família Coimbra Bueno, muito influente naquela época (RIBEIRO, 2004, p.67-68). Mesmo no período de implantação de Goiânia, enquanto o poder público detinha o direto exclusivo do parcelamento do solo, algumas áreas suburbanas já haviam sido ocupadas de maneira irregular. Foi o primeiro indício de que a cidade ultrapassaria o crescimento planejado e extrapolaria os 50.000 habitantes inicialmente estimados.

A Planta Geral de Urbanização de Goiânia (1947) indicou o acréscimo de novos bairros e o início da expansão da cidade (BRANDÃO, 2013). Outra decisão legislativa que afetou a configuração urbana foi a aprovação de 183 novos parcelamentos no período de 1950 a 1964. Tal manobra estimulou um enorme aumento populacional e favoreceu a dispersão urbana, uma vez que nem todos os loteamentos foram implantados de uma vez, e saltaram áreas, gerando vazios urbanos (VAZ, 2002, p.79). Como elemento intensificador desse fator, a implantação efetiva da ferrovia (1952) promoveu a conexão de Goiânia à capital, Brasília, e ao litoral, o que impulsionou o crescimento urbano descontínuo. Com a fragmentação do tecido urbano (Figura 3), cada vez mais tornou-se necessário a articulação por meio do sistema viário, visando, principalmente, superar as barreiras afiguradas pelos elementos naturais.

Figura 3: Crescimento do tecido urbano de 1933 a 1983. FONTE: OLIVEIRA, 2005 apud VAZ, 2002.

A intensa transformação urbana até os anos 1960 exigiu a elaboração de um novo Plano Diretor, que teve como objetivo conter a expansão e a especulação imobiliária. Além do impedimento de que outros loteamentos fosse aprovados, uma outra medida para frear o crescimento horizontal foi tomada, na década seguinte: a liberação do

gabarito no centro da cidade e, posteriormente, ao longo das vias arteriais (VAZ, 2002, p.96-98). Este fenômeno fez com que densidade nas áreas mais centrais aumentasse e a cidade assumisse o ideal desenvolvimentista representado pela verticalização da paisagem, bem como o apoio no sistema viário como estruturante da malha urbana.

Sob tamanha pressão progressista, a verticalização e os eixos viários se tronaram símbolos para a cidade. Por outro lado, os espaços públicos livres, que dão lugar ao encontro e onde as pessoas exprimem sua cultura e identidade, foram relegados a segundo plano. Três fatores contribuíram para a remodelação da cidade, marcada pela desvalorização de seus espaços públicos: em primeiro lugar, a proliferação a partir da década de 1980 de shoppings centers, hipermercados e empresas globais, todos voltados para atividade do comércio e do consumo; logo, a cultura do status e a falta de segurança, que isola as pessoas em condomínios fechados e edifícios ilhados em seu próprio terreno (que oferecem usos complementares e áreas coletivas na tentativa de simular o espaço público); e, por último, a utilização de parques ambientais como instrumentos do marketing urbano, a partir da década de 1990, que levou a implantação repetitiva de um modelo de parque que não leva consideração seu entorno, sem identidade (FRANCO, 2013, p.18).

A dispersão de atividades refletiu na fragmentação do espaço urbano aos ensejos dos promotores imobiliários. A predominância residencial outrora existente na periferia foi modificada à medida que shoppings centers, hipermercados e empresas globais (McDonald’s, Nissan, Peugeot, entre outras) se inseriram nas áreas mais afastadas do centro. Vários condomínios fechados de luxo se instalaram também nas regiões onde antes a ocupação era de renda baixa, completando o cenário de transformações socioespaciais. Não alheios a este processo, diversos edifícios e equipamentos públicos também se estabeleceram nestas novas áreas, fomentando o esgarçamento do tecido da cidade.

Ao observar estes momentos do planejamento refletidos na configuração urbana, é possível perceber os condicionantes do crescimento da cidade no decorrer da história de Goiânia. A estrutura do território revela como a organização e o crescimento da cidade foram orientados pelo sistema viário, e influenciados pelo ideal de modernização, desconsiderando o espaço público como elemento estruturador e articulador do espaço.

O papel do profissional na produção do espaço urbano: o caso do Córrego Botafogo

Os elementos naturais que condicionaram o crescimento de Goiânia, em especial os veios hídricos englobados pela aglomeração urbana, não se consolidaram como espaço público efetivo, e seu potencial como elementos estruturadores nunca foi aproveitado em totalidade. Na realidade, o mais instigante é que a postura adotada pelos arquitetos e urbanistas que se responsabilizaram pelo planejamento territorial fez com que os cursos d’água da cidade se tornassem elementos fragmentadores do tecido, em oposição às possibilidades de potencializá-los como elementos articuladores e qualificadores da estrutura. Ao Córrego Botafogo, adotado como elemento de estudo, associou-se um indispensável meio de conexão viária entre as porções Norte e Sul da cidade, mas em oposição à este atributo, o córrego aliado à via expressa que o “margeira” constituiu-se ainda mais um verdadeiro fragmentador do tecido no sentido Leste-Oeste do veio hídrico.

Quando Goiânia foi idealizada, o Córrego Botafogo foi caracterizado como limite. Corrêa Lima (1933) propôs um traçado que formava uma rede de parques e parkways, dando à capital um ar de cidade-parque, repleta de áreas verdes que possuiriam função higiênica e recreativa. Os parkways eram parques lineares que acompanhavam as margens dos córregos Botafogo e Capim Puba, deixando 50m de área preservada para cada lado a partir de seus eixos. Esta proposta revela o reconhecimento, por parte de Corrêa Lima, do potencial dos córregos como elementos estruturadores do espaço, manifestando uma rede contínua que associa o espaço público para as pessoas e o espaço para mobilidade dos veículos, mas que no entanto não se efetivou na prática.

Já existia a previsão de que a cidade cresceria para além do limite natural dos cursos d’água, mas desde o momento da concepção foi apontada a necessidade de se evitar a ocupação das áreas às margens dos córregos. Esta diretriz encaminharia o crescimento horizontal da cidade para o sul, única direção livre de barreiras hidrológicas, deixando o Botafogo, cujas águas foram represadas para o abastecimento da cidade, preservado (RIBEIRO, 2004, p.65). Na prática, o espaço de preservação foi apropriado pelas ocupações informais, em função da proximidade com o núcleo original. Assim teve início a expansão da cidade para o leste e o oeste, e o tecido ultrapassou os córregos, fragmentando-se.

Figura 4: Diagramas de inserção do Córrego Botafogo - Planos de Attílio Corrêa Lima e Armando de Godoy. FONTE: RIBEIRO, 2004. Org. VELOSO E ZÁRATE, 2013.

A revisão do plano feita por Godoy (1936) não mencionava as invasões, mas respeitava e mantinha a proposta dos parkways, como pode ser observado na Figura 4, a qual apresenta os planos dos dois urbanistas. O diagrama síntese da mesma figura destaca as vias e os setores, evidenciando a organização da cidade segundo um eixo norte-sul. Também revela os princípios de projeto urbano: as três grandes vias convergindo para a Praça Cívica em patte d’oie, o qual mostra a inspiração no urbanismo barroco; a setorização da cidade por diferentes funções denota os princípios corbusianos; o traçado do Setor Sul remetendo-se aos conceitos norte- americanos de unidade de vizinhança; e, o cinturão verde delimitando a malha urbana, manifesta referência à cidade-jardim de Howard (PANTALEÃO; TREVISAN, 2011, p.5) Tais princípios aplicados aos planos resultou na predominância do sistema viário,

e não no sistema de áreas verdes, como estruturante da Ncidade, como pode ser observado na configuração do território.

Já o urbanista Luis Saia (1962) possuía uma visão diferente das anteriores, que identificava diversos potenciais para as áreas por onde passavam os córregos. Saia propôs que fossem abertas alamedas margeando os córregos Botafogo e Capim Puba, respeitando os 50 metros de preservação da mata de galeria, reconhecendo nesses eixos a capacidade articuladora entre as regiões Norte e Sul da cidade. Outro ponto observado foi que os cursos d’água fragmentavam o tecido a Leste e Oeste de seu eixo. Para eliminar o efeito barreira, Saia sugeriu passagens a cada 500 ou 1000 metros cruzando o veio hídrico e promovendo a integração entre os dois lados. No Córrego Botafogo, Saia identificou, além do caráter de barreira no sentido transversal, também o caráter de linha de crescimento (PANERAI, 2006, p.60) no sentido longitudinal, uma vez que em sua extensão encontrava-se um dos maiores núcleos de invasão de Goiânia, descaracterizando a função prevista para os fundos de vale. A variedade de leituras que o Córrego Botafogo oferece prova que Saia foi perspicaz em vê-lo como elemento de estruturação urbana. Apesar de suas propostas não haverem sido implantadas, em função do golpe militar de 1964, o plano de Saia é interessante porque revela a capacidade que o Córrego Botafogo pode ter como elemento articulador, se for valorizado enquanto espaço público (Figura 5).

Figura 5:Diagrama de inserção do Córrego Botafogo de acordo com o Plano de Saia. FONTE: VELOSO E ZÁRATE, 2013.

Os apontamentos de Luís Saia reivindicando um papel mais efetivo para os corpos d’água urbanos foram substituídos por uma visão tecnocrática e desenvolvimentista a nível nacional, sistematizada nos planos de desenvolvimento integrado dos anos 1970. O responsável pela elaboração do plano inserido nestes propósitos foi Jorge Wilheim (1969) pautando o crescimento e desenvolvimento urbano nas políticas de progresso. A organização da ocupação do território s deu a partir das vias de circulação, aproximando-se do Urban Planning americano (PANTALEÃO; TREVISAN, 2011

p.10).

Os aspectos funcionais do sistema viário foram, então, priorizados em detrimento dos aspectos naturais, refletindo em ações e obras de grande impacto ambiental, que reconfiguraram a superfície da cidade. Houve a retificação, dragagem e canalização do Córrego Botafogo, além da proposta de ocupação das áreas verdes de preservação. O plano de Wilheim tratava de dotar as áreas de proteção ambiental de alguma atividade produtiva, para que desempenhasse uma função social importante.

A proposta de Wilheim (Figura 6) era de estruturar o território por meio do sistema viário, e o Córrego Botafogo se inseria nesse processo de estruturação associado a uma nova via, não como área verde ou espaço público de múltiplas funções, como propusera Luís Saia. O córrego enquanto elemento natural, espaço público de preservação ambiental, foi considerado um elemento secundário.

Figura 6: Diagrama de inserção do Córrego Botafogo - Plano de Wilheim. FONTE: REIBEIRO, 2004. Org. VELOSO E ZÁRATE, 2013.

A desconsideração pelos aspectos ambientais, característica da postura tecnoburocrática adotada, pode ser evidenciada na comparação do projeto de Neusa Baiochi para o Parque Linear Botafogo com a obra realizada em 1990, que deu origem à Avenida Marginal Botafogo. Como pode ser visto na Figura 7, Baiochi havia previsto pistas de bicicleta e passeio de pedestres com traçado irregular acompanhando o canal do córrego. Paralelamente existiria uma zona verde e recantos para descanso, que somada ao espaço destinado à circulação não motorizada, configuraria um espaço público privilegiado na cidade.

Figura 7: Corte transversal do Parque Linear Botafogo - Arquiteta Neusa Baiochi. FONTE: IPLAN, 1976 apud QUEIROGA, 2010. Org: VELOSO E ZÁRATE, 2013.

A proposta de Baiochi reflete a mudança a nível internacional na maneira de tratar as questões do meio ambiente urbano, prezando a qualidade de vida (FRANCO, 2013, p.14) e a consciência ambiental. Porém, o poder público local só viria a assumir essas mudanças na década seguinte, e as obras da marginal Botafogo se destinaram para veículos automotores apenas, excluindo ciclistas e pedestres, o que evidencia a predominância, ainda presente, da postura progressista.

Ainda que os propósitos dos planos integrados de desenvolvimento fossem justamente o ordenamento da ocupação pautado nos eixos viários, construir duas pistas para automóveis ao longo do canal não era considerada justificável pelo técnico Edwaldo Won Waldow, relator do memorial descritivo das obras do córrego Botafogo. Isso porque já existiam ruas paralelas próximas e pela perda de uma área considerável de terra muito adequada ao passeio a pé e ao descanso (IPLAN, 1976 apud QUEIROGA, 2010 p.4). Sendo assim, a construção da via expressa (1990) trouxe a desvalorização do córrego como espaço público e elemento natural qualificador da ambiência urbana e a diminuição da sua capacidade articuladora, reduzida apenas ao sentido Norte-Sul. Como agravante desta situação, diretrizes que não haviam sido discutidas em projeto surgiram para regular a ocupação lindeira da via, determinado a não abertura dos comércios e residências com as fachadas frontais voltadas para marginal (QUEIROGA, 2010 p.5). Essa diretriz visava garantir que fosse configurada uma avenida de circulação rápida, exclusiva à passagem e vetada ao acesso local. Por isso, não podia ser dotada de pistas de desaceleração e de pedestres (O POPULAR, 1990 apud QUEIROGA, 2010, p.5).

Mesmo diante dos problemas ambientais e socioespaciais explanados, em 1992 foi elaborado o terceiro Plano Diretor De Goiânia, pela Engevix Engenharia S. A, o qual ressaltava a importância da expansão da cidade por meio da abertura de vias (BRANDÃO, 2013, p.9). Os projetos da Marginal Botafogo, então, se consolidariam estabelecendo a conexão Norte-Sul. Para a construção da Marginal Botafogo foram definidos trechos de implantação em função das vias que conectam o centro às regiões leste do córrego (Figura 8). O percurso de aproximadamente 6,3 Km foi construído em etapas: um tramo de cada vez, iniciando-se na parte mais central da cidade; depois com dois trechos a sul e outros dois a Norte. Fica evidente que a postura que os profissionais da Engevix assumiram apontou para a predominância do sistema de veículos individuais como forma de articulação entre as diversas partes dispersas da cidade.

Figura 8: Diagrama de implantação da Marginal Botafogo. FONTE: VELOSO E ZÁRATE, 2013.

É notório que o Córrego Botafogo não somente se caracteriza como elemento fragmentador do tecido, mas também é, em si, seccionado: a avenida articula um conjunto de peças com características morfológicas distintas. Uma evidencia da fragmentação do próprio córrego é o fato de que as áreas verdes remanescentes em seus cursos não se comunicam entre si, e, segregadas não podem constituir uma contiguidade urbana.

Ademais, nenhuma das três áreas verdes, sendo elas o Jardim Botânico, o Parque Municipal Goiânia e o Parque Botafogo, possui tratamento urbanístico ou paisagístico. O Parque Botafogo é o único, dentre estas áreas verdes, que possui apropriação efetiva pela população, por estar em uma localização central. Ainda assim, não é um espaço público atrativo, e não funciona em horários complementares. Além disso, é divido pela Marginal Botafogo e pela Avenida Araguaia em três porções: o Parque de Diversões Mutirama; a parte entre as pistas que é de preservação ambiental, onde estão represadas as águas do córrego e uma fração no Setor Vila Nova onde há equipamentos de esporte e pista de caminhada. Nenhuma das três partes é propícia à permanência em horários de pouco movimento porque se tornam regiões perigosas, e tampouco existe integração entre as áreas remanescentes e as vias que as circundam.

O Parque Municipal de Goiânia, por sua vez, não passa de uma área verde de vegetação um pouco mais densa configurada entre as autopistas da via expressa, o que praticamente impossibilita o acesso a ela. Em 2013, boa parte desta área verde

remanescente foi tomada para dar lugar à mais pistas e um viaduto, em prol da melhoria do sistema viário.

No Jardim Botânico, no extremo sul do sitio de análise, se encontra a nascente do Córrego Botafogo, área de preservação ambiental desprovida de qualquer infraestrutura que atraia as pessoas ou estimule seu uso enquanto espaço público. De acordo com seu Plano de Manejo, esta área poderia receber equipamento público voltado para a educação ambiental, mas encontra-se subutilizado. Sucessivas invasões e concessões ocorreram ali ao longo dos anos, mas boa parte das invasões entre as avenidas 2º Radial e 3ª Radial, do lado Oeste do Córrego, foram desocupadas para sua renaturalização. Pode-se pensar que seja a manifestação recente de uma postura dos planejadores com mais compromisso ambiental. Porém, existem projetos para a extensão da Avenida Marginal Botafogo até o Setor Pedro Ludovico, e em Fevereiro de 2014 teve início a discussão em prol do adensamento da região do Jardim Botânico, que cede às pressões de incorporadoras e imobiliárias para verticalizar a área, o que pode ser o fim da área de preservação.

Figura 9: Diagrama da inserção do Córrego Botafogo na dinâmica urbana. FONTE: VELOSO E ZÁRATE, 2013.

Considerações finais

Tendo em vista as constatações quanto às áreas verdes remanescentes, é possível concluir que elas nunca se integraram num parque linear, tal qual Attílio Correa Lima havia proposto. Ao invés disso, o fundo de vale assumiu caráter de via, se se inseriu na dinâmica urbana como conector de tecidos descontínuos no sentido longitudinal, e fragmentador no sentido transversal ao curso d’água. A Figura 9 revela que os elementos naturais compostos pela topografia e o curso hídrico forneceram as bases para o traçado do principal eixo viário. Este eixo, por sua vez, condicionou a

morfologia das parcelas, que, próximo ao córrego assumem um desenho alongado, no sentido do leito, mas, à medida que se afasta, assume traçado regular, que obedece à malha viária de cada bairro. Também é possível perceber, quando da análise da paisagem, que não é só a morfologia da malha urbana que se diferencia de um lado e do outro do córrego, mas também as formas de usos e a ocupação, reforçando as diferenças entre os tecidos urbanos em suas margens.

Sendo assim, o que se observa na análise é que a Marginal Botafogo assume um duplo papel, o de agenciadora de parcelas semelhantes, ou seja, bairros, e ao mesmo tempo, de marco de diferenciação entre os bairros de um lado de outro da avenida. Os pontos de transposição desta via expressa, ou seja, os cruzamentos, são na verdade pontos de conexão entre os fragmentos dispostos de cada lado. Cada um desses fragmentos de tecido possuem características próprias encontrando-se por exemplo, porções com grandes equipamentos, ou quantidade expressiva de formas habitacionais de interesse social, ou mesmo chácaras no meio do tecido urbano.

A fragmentação observada é uma característica do território de Goiânia, resultante da somatória dos planos e das ações sobre o espaço, incluindo as posturas profissionais que ignoraram o elemento natural como condicionante do crescimento da cidade. Cada arquiteto urbanista que colaborou para a elaboração dos Planos Diretores de Goiânia, manifestou seus ideais em suas propostas, particulares de seu tempo, o que mostra papel relevante do profissional na produção do espaço, bem como os agentes que alteram ou reafirmam suas posturas. Sendo assim, constata-se que o tecido urbano revela os processos sociais e práticas que levaram à criação, ocupação e transformação no território, e a análise da morfologia urbana permite apreender (ler e compreender) os processos históricos, possibilitando uma noção temporal da formação da cidade.

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Como Citar

Halina Veloso e Zárate; Sandra Catharinne Pantaleão . O território de Goiânia como objeto historiográfico. In: PEIXOTO, Elane Ribeiro; DERNTL, Maria Fernanda; PALAZZO, Pedro Paulo; TREVISAN, Ricardo (Orgs.) Tempos e escalas da cidade e do urbanismo: Anais do XIII Seminário de História da Cidade e do Urbanismo. Brasília, DF: Universidade Brasília- Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, 2014 . Disponível em: http://www.shcu2014.com.br/content/territorio-goiania-como-objeto-historiografico