Representações da república no aformoseamento da Praça João Clímaco, Vitória — ES

Eixo Temático: 

 

Resumo

Este artigo trata da remodelação de determinado espaço público de Vitória, Espírito Santo, a Praça João Clímaco, nos primeiros anos do século XX, evocando representações republicanas, com o firme propósito de eliminar traços coloniais e atribuir feições modernas ao ambiente urbano da capital capixaba. O artigo pauta-se em pesquisa baseada no exame de dados documentais relacionados a relatórios de governos, periódicos locais, cartografia e iconografia envolvendo período entre a segunda metade do século XIX e as duas primeiras décadas do século XX. O recorte temporal refere-se à época de promissor desenvolvimento econômico no Espírito Santo, propiciando melhoramentos urbanísticos em Vitória. Este recorte teve também como hipótese o interesse do poder público pela construção de infraestrutura de embelezamento na cidade, tendo em vista a visita de D. Pedro II, em 1860, marcando o início do período estudado, e a inauguração do Parque Moscoso em 1912, marcando o fim do período, com a materialização da representação de modernidade almejada. O destaque atribuído à Praça João Clímaco, tornando-se objeto de interesse deste artigo, advém de vários aspectos. Um deles diz respeito a sua longevidade, considerando ter sido, sempre, espaço livre contíguo às principais edificações institucionais religiosas, denotando também, sua localização privilegiada. Outro aspecto ainda, se refere ao empreendimento público de transformação da área realizado de modo a torná-lo representação dos tempos republicanos e a se caracterizar como ponto de partida para a modernização dos espaços adjacentes. Os documentos examinados, além de permitir o registro cronológico desta transformação, demonstram que a Praça João Clímaco se constituiu em elemento estratégico da modernização capixaba no ensejo da República, estimulando a instauração de uma urbanidade social e a irradiação de uma fisionomia moderna em seu entorno. Constatou-se também, no período estudado, o despertar pelo usufruto do espaço público em Vitória, associado à contemplação da paisagem.

 

Abstract

This article deals with the remodeling of a public space in Vitória, Espírito Santo, João Clímaco Square in the early XX Century, evoking republican representations, with the intention of eliminating colonial traits and to assigning modern features to the urban environment of the State capital. The article researched on documental data from government reports, local periodicals, cartography, iconography involving the period between the second half of the XIX century and the first decades of the XX century. The time frame refers to the time of a promising economical development in Espírito Santo, favoring urban improvement in Vitória. This time frame also had as a hypothesis the government interest in building the beautification infrastructure in the city, in view of the Emperor ‘s visit in 1860, establishing the beginning of the studied period, and marking the end of the period, the opening of Moscoso Park in 1912 as the materialization of the desired modernization. The emphasis given to João Clímaco Square, becoming the object of interest of this article comes from several aspects. One

of them relates to its longevity, as it has always been an open space adjacent to major religious institutional buildings, denoting its prime location. Another aspect refers to the government area transformation venture, carried out in order to make it representative of republican times, to characterize as starting point for the modernization of the adjacent spaces. The documents examined, besides enabling the chronological register, show that João Clímaco Square has been a strategic element of Capixaba’s modernization during the Republic, stimulating the establishment of a social urbanity and the spread of a modern face in its surroundings. During the studied period it was also observed the awakening for the use of public space in Vitória, associated to the contemplation of the landscape.

 

Introdução

A construção de infraestrutura visando o saneamento e o embelezamento de cidades brasileiras, sobretudo das capitais, tornou-se ação empreendedora do poder público, durante o século XIX, alcançando o ápice no advento da República. Vitória, cidade que remete ao período colonial brasileiro, até a segunda metade do século XIX não havia experimentado avanço econômico expressivo, o que repercutia em suas modestas proporções urbanas. Nesta ocasião, a situação começou a se transformar a partir da imigração europeia, que contribuiu para a ocupação do território, para a ascensão econômica vinculada à cultura cafeeira, repercutindo em melhoramentos urbanos na capital. Até meados do século XX, o Espírito Santo manteve sua economia pautada na agro exportação, enquanto as obras públicas na capital ocorriam em articulação com a cotação do café no mercado internacional.

Neste contexto, este artigo busca tratar de uma das primeiras obras de remodelação urbanística realizada em Vitória, em ambiente emblemático, tendo em vista sua localização diante do Convento Jesuítico de São Tiago, edificação colonial, que passou na República, a abrigar o Palácio do Governo, recebendo ornamentos ecletizantes. Trata-se do Largo da Misericórdia, transformado na Praça João Clímaco. Este espaço emergiu a partir de pesquisa documental que buscou compreender a relação da população de Vitória com a contemplação da paisagem e em que medida o embelezamento urbano teria contribuído para a construção deste interesse. Ao longo da pesquisa foram examinados relatórios de governo, periódicos locais, cartografia e iconografia de 1860 a 1916, correspondendo respectivamente, ao ano da visita do imperador D. Pedro II, na expectativa da realização de obras para recebê-lo e alguns anos depois da construção do Parque Moscoso, elemento decisivo da modernização de Vitória, na expectativa de abranger relatos sobre a utilização do mesmo.

Diante dos exemplares que emergiram da pesquisa, a transformação do Largo da Misericórdia na Praça João Clímaco, chamou a atenção inicialmente, por tratar-se, como indicado, de espaço livre público marcante na configuração colonial de Vitória e fronteiriço à edificação mais importante da cidade. O aprofundamento do estudo demonstrou que sua transformação gerou efeito irradiador, tornando-se juntamente ao seu entorno o ambiente mais representativo da República nos primeiros anos do século XX.

O artigo trata então da remodelação da Praça João Clímaco, apresentando a seguir, aspectos da paisagem remodelada, evolução das práticas da população sobre este espaço e o novo cenário do poder a partir de representações da recente República.

De Largo da Misericórdia à Praça João Clímaco: por uma paisagem remodelada

O espaço público em questão recebeu inúmeras denominações, desde Largo do Palácio e Largo da Misericórdia, em referência aos principais edifícios do entorno, passando posteriormente a Largo Afonso Brás (Fig. 1), jesuíta construtor do convento (DERENZI, 1995, p. 82), e em 1883, para Largo do Dr. João Clímaco, padre, advogado e ex-deputado (O ESPÍRITO SANTENSE, 1883).

Figura 1: Planta da Vila da Victória datada de 1767 de autoria do Engenheiro José Antônio Caldas, com intervenção da autora. Fonte: Biblioteca Nacional. Acessível em: http://www.bn.br/portal/.

A formação desse espaço remonta à presença da Companhia de Jesus em solo capixaba, em meados do século XVI, a partir da implantação do conjunto Jesuítico de São Tiago no platô da cidade Alta, sítio a partir do qual se desenvolveu o núcleo urbano de Vitória (SANTOS, 2001, p. 76). Segundo Souza (2000) o Largo Afonso Brás, que correspondia ao espaço à frente da sede da Companhia de Jesus, adquiriu o aspecto formal que a implantação dos primeiros templos religiosos determinou.

O largo colonial contava com dois edifícios principais, que se defrontavam um em cada extremidade: o Colégio e Residência de São Tiago e a Igreja da Misericórdia, sendo os outros lados formados por casario contínuo, numa conformação típica da colonização portuguesa. Devido à sua privilegiada posição na urbe, o antigo largo também mantinha estreito contato, por meio de ruas estreitas e tortuosas, com outras edificações religiosas da vizinhança imediata, como a Igreja de São Gonçalo Garcia, a Capela Santa Luzia e a Igreja Matriz de Nossa Senhora da Vitória (Fig. 1).

O templo jesuítico recebeu durante o intervalo de décadas para sua efetiva conclusão uma arquitetura imponente, especialmente se comparada às demais existentes de aspecto bastante simplório. Este juntamente com outros edifícios religiosos mencionados, além do pelourinho e da Casa de Câmara e Cadeia, que complementavam a configuração do entorno do largo, contribuíram para a formação do papel que o espaço viria a desempenhar ao longo de sua existência, “tanto no plano real quanto simbólico — de centro de irradiação dos poderes político-administrativo e religioso da capitania” (PRADO, 2002, p. 158).

Em 1848 consta em relatório oficial, início de obras de “aformoseamento da praça em frente ao palacio, e á construcção de uma rampa em logar das antigas escadas” (ESPÍRITO SANTO, 1848, p. 40) e em 1872, solicitação de auxílio à câmara para calçamento no Largo da Misericórdia (ESPÍRITO SANTO, 1872). No entanto, a Figura 2, de autoria de André Carloni, que retrata o espaço no ano de 1906, ilustra a existência de um largo com características formais ainda de origem colonial.

Figura 2: Cidade Alta - Antigo Largo Afonso Brás em 1906. Ao fundo o antigo colégio de São Tiago, já Palácio do Governo, com seus aspecto colonial. À esquerda o conjunto de casas que viriam a ser demolidas para ampliação e ajardinamento da Praça João Climaco. Autor: André Carloni. Fonte: Elmo Elton. Acessível em: http://legado.vitoria.es.gov.br/baiadevitoria/. Acesso: 04-05-2011.

Em 1907, “[…] com o intuito de sanificar o logar e de fazer desapparecer da Praça Dr. João Clímaco, fronteira ao Palacio do governo, o quarteirão de casas velhas quasi em ruinas, que tão mau aspecto dão á nossa Capital” (ESPÍRITO SANTO, 1907, p.9) foi decretada a desapropriação por utilidade pública do quarteirão ali localizado, visando a construção de um jardim público. Na administração de Jeronymo Monteiro, em

1908, levou-se a cabo a demolição dessas edificações, quando o “largo sofreu transformação radical em planta e perfil. Para aplainá-la (sic) construiu-se muro de arrimo, coroado por balaustrada, fronteiro a atual rua Nestor Gomes que não é outra senão o final da antiga rua Professor Santos Pinto” (DERENZI, 1995, p. 81), conforme a Figura 3.

Figura 3: Trecho do Mapa de Vitória datado de 1910. Detalhe para a área constituída pela Praça João Clímaco. Mapa reproduzido pela Coordenação de Revitalização Urbana — SEDEC/GPU/CRU — Prefeitura Municipal de Vitória, com base no mapa original pertencente ao acervo do Arquivo Histórico do Exército. Fonte: PMV- SEDEC/GPU/CRU.

O partido urbanístico adotado possibilitou a criação de um “terraço” (DERENZI, 1995), garantindo a abertura de novas perspectivas ainda não exploradas daquele ponto de vista. Depois de nivelado, o espaço tornou-se “[…] um largo ajardinado, onde se vê um bello pavilhão no centro e uma fonte luminosa, […]” (O ESTADO DO ESPIRITO SANTO, 1909). O pavilhão mencionado correspondia ao coreto de formato hexagonal assentado sob base de concreto, ladeado por balaustrada em madeira e encimado por cobertura adornada, cujo acesso se dava por pequena passarela protegida por guarda corpo de concreto imitando troncos de árvore, conforme modelo à época em voga ao gosto romântico inglês (Fig. 4).

O espaço criado sobre área resultante da demolição do casario existente ora

desapropriado não só ampliava, bem como modificava sobremaneira o traçado do largo outrora colonial, desafogando-o em uma de suas faces. A remodelação e inclusão do jardim, constituído por canteiros orgânicos dispostos de maneira simétrica, vinha ao encontro da tendência já observada desde a metade do século XIX de “multiplicação de jardins residenciais, praças, parques e iniciativas de arborização viária em diversos centros urbanos pelo Brasil afora” (HETZEL e NEGREIROS, 2011, p. 57).

Anteriormente iluminado a querosene e posteriormente a gás, o espaço recebeu, em 1909, pouco tempo após sua remodelação, iluminação elétrica. Ainda durante a administração de Monteiro são instalados dezesseis “bancos de ferro com encostos e assentos de madeira” (DIÁRIO DA MANHÃ, 1909) que convidavam à permanência. Todos estes artifícios iriam induzir novas formas de ocupação do espaço.

Figura 4: Praça João Clímaco ajardinada em 1910. À esquerda chafariz localizado no interior da praça e à direita, o coreto. Ao fundo, muro de arrimo de logradouro de acesso ao casario elevado, localizado em frente a praça. Autor desconhecido. Fonte: Biblioteca Central - UFES. Disponível em: http://legado.vitoria.es.gov.br/baiadevitoria/. Acesso: 04-05-2011

Práticas no Espaço e População Usuária

O antigo largo participou ativamente das práticas cotidianas da população vitoriense atuando como palco principal de atividades de diversas naturezas, em especial as vinculadas aos principais agentes modeladores das cidades coloniais brasileiras: a Igreja e o Estado, de acordo com Souza e Ribeiro (2009). A presença de ambos, coexistindo nas edificações que lhe faziam frente e entorno foi fundamental para garantir sua utilização como cenário singularmente dotado da capacidade em agregar desde festividades religiosas às cívicas, além de regozijos populares que geralmente as acompanhavam. Era também constante destino de procissões religiosas, bem como de folguedos infantis, sendo, durante muito tempo, local onde os habitantes buscavam “amparo físico e espiritual” (PRADO, 2002, p. 159). O espaço neste sentido permitia, até meados da primeira década do século XX, o convívio de diferentes camadas sociais, na medida em que as práticas que nele ocorriam eram destinadas à população de um modo geral.

A remodelação do espaço acompanharia a introdução de outras formas de apropriação

do mesmo, em especial as que remetiam ao novo modo de vida e de socialização que vinha sendo adotado no território brasileiro face às recentes expectativas de civilidade e de modernidade advindos com a República.

O periódico Diário da Manhã (1908, 1909 e 1911, nº 59) ilustra a introdução da prática do corso em dias pré-estabelecidos, nos quais se observava maior concorrência de frequentadores quando da participação de bandas de música no local que eram comumente anunciadas. A alusão ao Rio de Janeiro e a tudo que lhe dizia respeito como sinônimo de progresso teria influência direta não apenas na produção de espaços urbanos, bem como nas questões referentes ao comportamento, aos costumes, sendo também percebida no modo como a sociedade vitoriense passou a se relacionar entre si e a relacionar-se com o meio. Nestes moldes, observa-se o incentivo a uma elitização do espaço. Com frequência noticiava-se a elevada concorrência do espaço por famílias e por pessoas mais abastadas, especialmente do sexo feminino, que conforme Araújo (1993) têm as formas de socialização ampliadas e diversificadas à medida que se intensificava o processo de urbanização e desenvolvimento socioeconômico das cidades brasileiras.

As características peculiares de constituição do espaço lhe conferiram um caráter cívico e religioso não atribuído a nenhum outro da cidade até aquele momento. A partir de então, o espaço passou a ser mencionado como “[…] um ponto aprasivel, de excellente recreio […]” (O ESTADO DO ESPIRITO SANTO, 1909). De fato ele já se destacava como palco privilegiado do convívio social dos moradores de Vitória; no entanto, as práticas diferem-se das originais e estas passam a coexistir.

O cenário do poder republicano e os novos olhares sobre a paisagem remodelada

O escopo de melhoramentos promovido no início da administração de Jeronymo Monteiro que se estendia da instalação e melhoria dos sistemas de infraestrutura às intervenções de caráter estético-salubrista empreendidas em vários pontos de Vitória, incluindo a Praça João Clímaco, foi responsável por introduzir novos ares de civilidade à cidade.

Com o advento da República, a imagem demasiadamente ligada à autoridade religiosa impressa na Praça João Clímaco desde sua gênese mostrou-se inadequada a este novo ideário. Nesta perspectiva, considerando o papel preponderante deste espaço na urbe é compreensível que o mesmo tenha sido entendido como ponto estratégico para a legitimação e irradiação do imaginário republicano, tornando-se um dos maiores alvos das intervenções realizadas na gestão de Monteiro.

A alteração de seu aspecto colonial conferiu-lhe uma imagem mais condizente com o espírito republicano e o ensejo do progresso da elite capixaba. Como seria de se imaginar, as intervenções empreendidas no antigo largo repercutiram na paisagem e não passaram despercebidas pelos moradores locais, conforme registros no Diário da Manhã (1910). Por outro lado, em que pese à ação positiva atribuída aos melhoramentos, as novas feições adquiridas pela Praça João Clímaco clamavam por uma modificação em seu entorno, considerado destoante aos olhos da população (O ESTADO DO ESPIRITO SANTO, 1909).

Dessa maneira, a remodelação das edificações localizadas em seu entorno, dotadas do despojamento e da simplicidade característicos das construções coloniais constituiu-se como a segunda etapa da estratégia de alteração do aspecto indesejado do espaço,

considerado inconvenientemente ligado ao passado.

Com a condução de Monteiro, entre os anos de 1908 e 1912, providenciou-se a contratação de projetos direcionados às edificações contíguas à praça, que tinham como principal objetivo a remodelação do patrimônio edilício de propriedade do Governo de acordo com a estética arquitetônica da época. Estes propunham uma nova feição aos edifícios existentes, num esforço claro em apagar as marcas de um passado de domínio português e em criar ícones capazes de legitimar o regime republicano e a imagem de uma Vitória civilizada.

Dentre as intervenções realizadas têm-se as melhorias empreendidas no ‘paredão’, que correspondia ao muro de arrimo da rua de acesso às edificações situadas em cota elevada, localizada ao lado do Palácio do Governo e em frente à Praça João Clímaco. Remodelado aos padrões da estética urbana instaurada, o muro recebeu escadaria com gradil metálico, acomodada sob uma gruta de caráter romântico (Fig. 5).

Figura 5: Muro da Praça João Clímaco, Vitória, 1912. Aos fundos, edificações que já adquiriram tratamento eclético. Fonte: EPÍRITO SANTO,…, p.172. BCUFES/ Coleção Mário Aristides Freire. Acessível em: http://web2.ufes.br/arteeducadores/projeto/imagens.html. Acesso em: 20/01/2014.

Em sequência, se juntaram a esta intervenção, as obras de remodelação do Palácio do Governo, que de acordo com Jeronymo Monteiro não podia continuar “[…] com a sua vetusca feição conventual, em contraste com as linhas de architectura dos edifícios novos e em flagrante infracção das posturas municipaes. […]” (ESPÍRITO SANTO, 1913, p. 243), conforme a Figura 6. Assim, o edifício recebeu tratamento ecletizante, de maneira a obter maior suntuosidade, culminando na transferência de sua entrada principal, antes orientada para a praça, voltando-se para a escadaria em frente ao cais do Imperador (Fig. 7). No mesmo contrato foi incluída a reconstrução dessa escadaria, agora fronteiriça à entrada do Palácio, conforme relatório de governo: “em substituição á antiga escadaria, recta e simples, foi construida alli uma nova, de bella perspectiva, capaz de fazer honra a qualquer centro civilisado” (ESPÍRITO SANTO, 1913, p. 243).

Figura 6: Trecho da Praça João Clímaco em primeiro plano e atrás, antigo Colégio de São Tiago, sede do governo e a Igreja São Tiago, em 1908, antes da reforma com acesso pela Praça João Clímaco. Fonte: TATAGIBA, José. A história das primeiras ruas, ladeiras praças e monumentos históricos — Vitória Cidade Presépio. Vitória: 2008, p.

163. Acessível em: http://web2.ufes.br/arteeducadores/projeto/imagens.html

Figura 1: Palácio do Governo remodelado e com acesso principal voltado para a escadaria reconstruída, 1912. Fonte: EPÍRITO SANTO,…, p.134. BCUFES/ Coleção Mário Aristides Freire. Acessível em: http://web2.ufes.br/arteeducadores/projeto/imagens.html. Acesso em: 20/01/2014.

Outras edificações oficiais contribuíram para a imagem renovada do local, como a Escola Normal, ampliada e com nova roupagem estilística e a Igreja da Misericórdia (Fig. 8), desapropriada e demolida em 1911 (DIÁRIO DA MANHÃ, 1911, nº77) visando à edificação do novo Congresso Legislativo (Fig. 9).

Figura 8: À frente Igreja da Misericórdia. Festividade cívica na praça, 1910. Fonte: Biblioteca Central (http://legado.vitoria.es.gov.br/baiadevitoria/). Acesso: 04-05-2011

Figura 2: À frente o novo Congresso estadual, construído no local da antiga Igreja da Misericórdia, 1912. Fonte: ESPÍRITO SANTO, 1913, p. 446.

Com efeito, as mudanças empreendidas pelo Estado para modernização de seu patrimônio edilício foram lentamente acompanhadas pelas edificações particulares localizadas no entorno da praça, iniciando o processo de transformação do aspecto simplório das construções coloniais da arquitetura civil privada existente.

Considerações finais

Este conjunto de iniciativas embelezadoras1 realizadas pelo Estado tinha em comum a “expressão arquitetônica da negação do mundo luso-brasileiro, […], e sua substituição pelo ecletismo europeu” (ESPÍRITO SANTO, 2009, p.515). O ensejo em construir uma imagem modernizada da urbe, a partir da renovação de sua paisagem foi evidenciado por Jeronymo Monteiro na ‘Exposição sobre os negócios do Estado no quadriênio de 1908 a 1912’ (ESPÍRITO SANTO, 1913). Prado (2002) desenvolve este pensamento afirmando que “necessário se fazia construir ícones republicanos representando a liberdade, fruto do novo modelo de governo frente ao passado de subjugação a Portugal” (PRADO, 2002, p.164). Para a autora a descaracterização e/ou demolição de antigos templos religiosos para remodelação do Palácio do Governo e construção de uma nova sede para o Congresso Legislativo, respectivamente, representavam o enfraquecimento dos signos tradicionais de poder “frente às mudanças de valores ideológicos, morais e estéticos que impuseram novos referenciais […]” (PRADO, 2002, p. 148).

A estratégia adotada pelo Estado de imposição destas duas edificações na Praça João Clímaco, conformando praticamente um paço, fez com que este trecho da cidade passasse a “concentrar toda a arquitetura representativa do Estado, que detinha o poder simbólico projetado pela sociedade, estrutura essa destinada a preservar a ordem” (PRADO, 2002, p.164).

O esforço conjunto de remodelação da paisagem local teve diferenciadas repercussões no seio da sociedade. Grande parte dos relatos encontrados acerca da Praça João Clímaco e do seu entorno correspondia a menções de embevecimento face às alterações realizadas que resultaram em uma profunda transformação do espaço, entendida como algo belo e grandioso. Nestes casos, combinam-se a percepção burguesa no que tange às realizações do Estado e o senso da ordem civilizada do período inicial republicano (DIÁRIO DA MANHÃ, 1912 e 1916). No entanto, também foram observadas abordagens negativas, em especial, demonstrações de pesar quanto à perda do acervo patrimonial anteriormente edificado, denotando uma sensação de pertencimento da população quanto aos mesmos (DIÁRIO DA MANHÃ, 1911, nº 80, DIÁRIO DA MANHÃ, 1911, nº86 e DERENZI, 1995).

Deste modo, as ações de modernização da paisagem local foram encobrindo com sucesso os vestígios do Brasil - colônia ainda muito presentes no tecido da praça no início do século XX, dotando-a de uma aparência mais ‘moderna’. As melhorias recebidas no antigo largo colonial somadas às remodelações realizadas nas edificações contíguas ao mesmo atuaram na construção de um cenário, que cumpriu o objetivo de legitimar o imaginário republicano, na medida em que apagou os vestígios físicos da paisagem colonial existente.

Referências

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1 A remodelação das fachadas do Palácio, Escola Normal, muro em frente à praça e escadaria de acesso ao cais são de autoria de Justin Norbert, e o projeto do Congresso Legislativo, de André Carloni.

DIÁRIO DA MANHÃ, Vitória: 17/01/1909 nº13. DIÁRIO DA MANHÃ, Vitória: 21/08/1910 nº224. DIÁRIO DA MANHÃ, Vitória: 04/03/1911, nº 59. DIÁRIO DA MANHÃ, Vitória: 22/03/1911 nº 77. DIÁRIO DA MANHÃ, Vitória: 25/03/1911 nº 80. DIÁRIO DA MANHÃ, Vitória: 31/03/1911 nº86. DIÁRIO DA MANHÃ, Vitória: 02/06/1912 nº 148. DIÁRIO DA MANHÃ, Vitória: 12/08/1916, nº302.

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Como Citar

Anna Karine de Queiroz Costa Bellini; Eneida Maria Souza Mendonça . Representações da república no aformoseamento da Praça João Clímaco, Vitória — ES. In: PEIXOTO, Elane Ribeiro; DERNTL, Maria Fernanda; PALAZZO, Pedro Paulo; TREVISAN, Ricardo (Orgs.) Tempos e escalas da cidade e do urbanismo: Anais do XIII Seminário de História da Cidade e do Urbanismo. Brasília, DF: Universidade Brasília- Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, 2014 . Disponível em: http://www.shcu2014.com.br/content/representacoes-da-republica-no-aformoseamento-da-praca-joao-climaco-vitoria-es-0