Recife nas telas: o amargor do Amarelo

Eixo Temático: 

 

Recife nas telas: o amargor do Amarelo

Sucesso de crítica e premiados internacionalmente, os filmes Amarelo Manga de 2002, dirigido por Claudio Assis e O Som ao Redor, de 2012, dirigido por Kléber Mendonça, oferecem-nos, num intervalo de uma década, diferentes e complementares representações da cidade do Recife. Mais recente, o aclamado filme de Mendonça foi filmado num bairro de classe média alta, bem pertinho do famoso parque Dona Lindu, projetado por Niemeyer. Cenário marcado por um processo vertiginoso e devastador de verticalização, as mudanças urbanas contemporâneas são mostradas com maestria como espaço das relações de poder e, sobretudo, das relações de trabalho no âmbito doméstico. Elogiei estes aspectos do filme que me encantaram o que deu margem a reações1 que evidenciam a decepção causada pelo filme junto à classe média culta local.

Mas se o filme de Mendonça não entusiasmou e até desapontou alguns, no caso do filme de Assis, a recepção do público de classe média foi claramente negativa. Neste texto, retomo apontamentos, que fiz à época do lançamento do filme Amarelo Manga, para discutir as representações que ele traz da cidade do Recife e a repercussão destas representações no público de uma maneira geral. Concluo constatando o que chamo de síndrome da “Moura Torta” de que sofrem as classes médias cultas recifenses: um processo de denegação que leva ao desejo de se verem princesas nas telas.

Quem tem medo de Amarelo Manga? A recepção do filme pela classe média culta

Classes médias tradicionais cultas designa aqui um público que reúne mais ou menos duas gerações: pessoas de 45 a 70 anos, em geral, com alto nível de escolaridade, um ou mais diplomas universitários. Os mais velhos deste recorte etário frequentaram escola pública no primário, os mais novos não. Cinéfilos, no Recife, os mais velhos foram frequentadores assíduos do Cinema de Arte do São Luiz e do Coliseu. Já os mais novos tiveram que frequentar salas mais recentes e episódicas, como as do Cine Bajado ou a do Centro de Convenções. Hoje, novos e velhos, nos cruzamos todos no

cinema da Fundação2 quando não temos que nos resignar a suportar o barulho das conversas dos celulares e dos sacos gigantes de pipocas digeridos nas inúmeras salas dos nossos shoppings. Foi numa destas salas, aliás, onde vi Amarelo Manga, filme premiado internacionalmente3 considerado um sucesso de crítica e de público e que teve uma bilheteria no Brasil de cerca de 150 mil a 200 mil espectadores4.

O incômodo que o filme causava ao público classe média sentia-se no ar durante a exibição. Foi, finalmente, verbalizado, na voz de uma professora da UFPE, que comentou, alto e bom som, na saída:

*- Tanta coisa para mostrar da cidade, escolheu o que há de pior!”“.*

Ouvira comentário semelhante em Montreal, de uma brasileira lá residente há oito anos, ao assistir Central do Brasil. Que uma residente no exterior quisesse

*Professora do Departamento de Artes Visuais da UFPB. Agradeço a leitura e sugestões da colega Eliane Lordello.

1 O artigo em http://revistasera.info/o-som-e-tudo-mais-ao-redor-na-cidade/Para as reações leia-se: http://revistasera.info/na-contramao-do-som-sergio-c-buarque/

2 FUNDAÇAO JOAQUIM NABUCO, FUNDAJ tem uma sala de cinema de Arte.

3 Premiado em Berlim, Havana, Toulouse, Miami e no Brasil, em Brasília e no Ceará.

4 É um número bom, mas que, como comenta o jornalista Júlio Cavani não chega perto dos 3 milhões de espectadores do filme Carandiru, por exemplo.

reencontrar, nas telas do Canadá, de uma forma idealizada, um país deixado há muito, soa, todavia, mais compreensível do que o comentário de pessoas que, ao sair do cinema, certamente passariam por situações e locais da cidade semelhantes ou piores do que os retratados em Amarelo Manga. Afinal de contas, o shopping Tacaruna, onde exibiam o filme, é vizinho a uma grande favela e a sua implantação atraiu uma onda de desordeiros contra a qual até a poderosa vila de oficiais da marinha ao lado, sentiu-se impotente.

Longe de ser apenas uma reação particular deste grupo, a cada vez que comentava sobre o filme pude ouvir pelo menos o infalível bordão:

  • É muito forte…

E, às vezes:

- O filme é bom, mas…

No Centro do Recife, a divulgação do filme foi feita com bicicletas equipadas com caixas de som, igual ao esquema de publicidade dos cinemas pornôs da cidade. No Cinema do Parque - que, segundo Kleber Mendonça, seria, então, uma das salas mais populares de cinema do Brasil - a entrada custava à época R$ 1,00. Nela, segundo um jornalista, houve uma total identificação do público com o filme. Em uma exibição à tarde, por exemplo, o público respondia, completava frases, torcia pelos personagens. Nesta sala, Amarelo Manga teve, uma bilheteria maior do que filmes americanos como Prenda-Me se For Capaz (de Spielberg com Leonardo di Caprio e Tom Hanks), lá exibidos no mesmo ano. Teve 16 mil espectadores, sendo o quarto mais assistido no ranking da sala em 2003 (perdendo apenas para Carandiru, Cidade de Deus e Deus É Brasileiro). Nos Multiplex do Recife, o longa de Cláudio Assis ficou em cartaz apenas durante duas semanas.

Reações óbvias. O Parque fica no Baiiro da Boa Vista um dos bairros onde o filme foi rodado e os espectadores, residentes ou frequentadores do bairro, vivem situações semelhantes àquelas dos personagens do filme com os quais se identificaram plenamente. Por outro lado, o que neste filme causa tanto incômodo aos demais setores, sobretudo a esta classe média “intelectualizada” e bem pensante? Por que o filme foi considerado forte, violento, impactante? Quem tem medo de Amarelo Manga? Que representações da cidade suscitaram tal ojeriza? É a reflexão que tento aqui levantar de um ponto de vista das orientações político ideológicas dos setores médios e profissionais de nível superior no Brasil e de suas ambíguas relações com a

cidade.5

Forte, por quê? A Violência em Amarelo Manga.

O que há de forte em Amarelo Manga a ponto de chocar ou incomodar os espectadores? Mortes? O único a morrer no filme, morre, como dizemos, de “morte morrida”. Além disto, como bem salientou Marcelo Coelho:

  • “Morre um velhote. Trata-se de seu Bianor, personagem desimportante > e sem graça na trama do filme”.

Já o personagem de Jonas Bloch atira em cadáveres. Atira em mortos, em corpos já “matados”. O que isto tem de tão violento? O que isto tem de violento se compararmos a filmes como O resgate do sargento Ryan, ou como Cidade de Deus, Carandiru ou outros? Raramente nos filmes atuais - em qualquer que seja a cidade que ele seja rodado e ainda que sejam filmes infantis, censura livre, para passarem posteriormente em sessões da tarde - deixa de ocorrer uma morte brusca ou violenta, deixa de correr sangue. Mas em Amarelo Manga o único sangue que corre é o de boi.

5 Sobre os defeitos e qualidades do filme a partir de critérios de obra cinematográfica, narrativa, fotografia etc, não me arriscaria a falar.

O que tornou de repente nossas plateias de classe média tão sensíveis e melindrosas a ponto de se esquecerem do que era tão corrente nos nossos matadouros e que continua a ser frequente para propiciar o filé que têm à mesa? Seria esta sensibilidade à outrance, oriunda de uma nova consciência ambientalista e política ecologicamente correta? Esta classe média culta esqueceu que, fatalmente, na sua infância, ou pelo menos na de seus pais, não havia supermercados, já que o primeiro da região metropolitana, surgiu na cidade de Olinda, em meados da década de cinquenta? Não havia tampouco granjas com frangos limpinhos ou, pelo menos, na aparência, transgênicos ou não. Basta pensar nas maravilhosas casas das elites recifenses que foram poupadas, graças ao esforço dos militantes da preservação. Muitas destas são casas chiques de recepção (Cristina Manzi, Blue Angel) ou, após darem abrigo à Casa Cor, se tornaram salão de festas dos edifícios construídos em anexo. Pois nestas lindas casas, as criancinhas brincavam com suas babás e as galinhas, guardadas em galinheiros, nos quintais, eram mortas sangrando pelo pescoço sob seus olhos. Sem escândalos! Por que de repente, estes mesmos olhos se tornaram tão arredios ao sangue animal?

Há parece-me pertinência total na resposta de Assis sobre a questão da violência em seu filme, quando diz:

Não tive essa preocupação. A gente pensou aquilo, fomos lá, filmamos, fizemos. A questão do boi, as pessoas falam: ah, que crueldade. Mas vem cá, qual é a carne que você come? Vem dali… A cena é um modo de a gente ver como o animal sofre. A gente não comprou boi, não pagou ninguém para fazer, aquilo ali é um documentário. Só que o personagem do Chico Diaz, o açougueiro, tem aquilo como trabalho, aquela é a sua função. Não tem nada de mais. O que é mais violento, aquilo ali ou as cenas que os jornais todo dia mostram, que a TV mostra, entrando em nossas casas sem pedir licença? Ou esses programas de TV que só fazem incentivar a violência? O que é mais violento? Então o personagem do Jonas Bloch simplesmente tem uma tara, e muitas pessoas têm prazeres loucos. É um filme, é ficção.

Eu acho que a vida é assim. Por exemplo, quando a gente estava procurando locais para filmar, nos deparamos com pelo menos três situações em que a realidade era muito pior do que a gente estava pensando no roteiro. Uma protestante cegou o marido de um olho porque ele a estava traindo. E ele também trabalhava num matadouro. Quando a gente foi falar com ele, pensando na locação, ele nos disse: “Quem foi que lhe contou essa história, essa história é minha. Olha aqui o meu olho, quem fez isso foi a minha mulher”. Pior do que no filme. A vida tá na nossa frente, no set de filmagens. Uma mulher quase deu no marido porque ele tava azarando uma figurante no meio da rua numa cena com a Dira Paes.

Miséria e pobreza em Amarelo Manga

Outro argumento utilizado pelas pessoas para justificar o desgosto pelo filme é o de que ele escolheu mostrar uma “certa realidade, uma certa cidade e o que há de pior, de mais duro”. Argumento, no mínimo, estranho.

O filme é passado em grande parte, no bairro da Boa Vista, bairro da classe média tradicional no início do século vinte, cujos vestígios do quadro de vida podem ainda ser vistos em casarios belíssimos e arruinados. Entre estes, destaque-se um antigo grupo escolar que, no filme, desempenha o papel de Hotel Texas, onde ocorrem várias cenas. Além da Boa Vista, o filme passa-se em morros como o alto José do Pinho ou outros locais todos “urbanizados”, “integrados”. Portanto, todas as locações do filme estão longe de ser os locais “barra pesada” da cidade. Não há a rigor favelas, mas

bairros da periferia, onde os personagens, como o desempenhado por Dira Paes, a evangélica, são integrantes das novas classes médias urbanas: “incluídos” ou “emergentes” trabalham, frequentam os cursos noturnos de nossas faculdades pagas. Não há no filme nenhuma cena da cidade mais miserável que pode ser avistada, aliás, facilmente, entre uma cena ou outra do shopping Recife se subirmos num dos edifícios ao redor e olharmos a remanescente favela de Entra a pulso, ou se entrarmos nas favelas ribeirinhas da Torre, ou no V oito perto do carnaval dourado de Olinda, antes da urbanização mais recente.

Também sobre este assunto é lúcida a escolha do diretor para quem:

Cartão postal é para turista. O que a gente está falando é de sentimento, é de pessoas. As pessoas que fazem com que a cidade ande. O que se vê é que quando os centros históricos são recuperados, o governo expulsa os pobres e miseráveis que estão ali dentro. Então o cartão postal fica para a secretaria de turismo de Pernambuco. Esse povo da periferia transitando dentro da cidade tem a vez no filme. Eu fiz um filme e queria falar dessa cidade, ela que é verdadeira. Essa outra, roteiro de viagens, acho também maravilhosa, vou pra praia, mas é outro filme, não é isso.

É possível discutir a noção de verdadeira avançada pelo diretor. Por que o Recife do cartão postal, do Paço da Alfândega e do novo Cais, ou do bairro chique da zona sul, de classe média alta como a mostrada dez anos depois no filme de Mendonça, seria uma cidade menos verdadeira do que a de Amarelo Manga? De qualquer forma, o que importa o ser real num filme?

Mais do que da realidade, Amarelo Manga fala de algo universal, como diz bem, sobre este aspecto o diretor:

AMARELO MANGA é um filme de amor. É um filme que fala do sentimento das pessoas, é um filme que tem dois triângulos amorosos. As pessoas lutam desesperadamente para serem felizes, e nisso vale tudo. Porque quando se ama, só se ama errado, como diz a Lígia (personagem de Leona Cavalli) logo no início do filme. (…)Então o filme trata dessas coisas.

Holden captou bem este aspecto, ao dizer:

Assis is fond of overhead, invisible-ceiling pans—particularly if somebody’s getting dressed or showering—and he’s got a confident grip on scenes that unfurl within solid, single-shot compositions. But Mango Yellow is a glib evocation of urban malaise, flirting with situations of sexual loneliness (a delusional fat woman idly pressing an oxygen mask to her pussy is a highlight) without mustering up a single substantive notion.

Amarelo Manga fala da condição humana e existencial de maneira universal, da estória sem fim da repetição da vida e da vida sem saída. Deste ponto de vista fala da angústia da morte e da sede de poder, tanto quanto o filme épico Tróia ou qualquer outro filme que fale da condição humana, desde que o homem é homem.

Mas a diferença está no solo concreto em que a estória se passa e na forma como ela é mostrada.

Como bem salientou Holden:

There’s probably a story hiding in the pulpy guts of MANGO YELLOW, but you may have to really gnaw at it to find it.

REPRESENTAÇOES E RECEPÇAO

Violência e miséria ou denegação da decadência

Ora parece-me que, justamente um dos problemas da recepção incômoda do filme por parte da classe média está no fato desta estória escondida que esconde uma História que ela conhece, tem no inconsciente e que é impossível não “voltar a incomodar” ao ver o filme.

Ainda como disse o diretor:

*“É um filme que acontece durante 24 horas numa grande cidade, e a gente trata de ações de pessoas mais à margem da sociedade. As pessoas estão ali: elas têm cheiro, têm sentimento, têm tudo que todo mundo tem. Só que muita gente faz questão de pensar que elas não existem.” (grifos nossos)*

Insuportável para o público local da classe média culta, ao qual nos referimos, é ver no filme o que tentam ou fingem não ver no dia a dia: o que traz a estória escondida da decadência da cidade. Esta a dimensão do incômodo que o próprio diretor, vindo de Caruaru e nos seus quarenta anos, quando do lançamento do filme, talvez nem tenha tido intenção de retratar.

Cenas de violência na cidade do Recife são coisas costumeiras, como atestam as manchetes dos jornais da cidade. Inclusive, na semana em que o filme foi lançado, elas estampavam um crime que envolvia famílias de classe média. Todos os moradores já devem ter presenciado cenas mais violentas que as apresentadas no filme, bem como de maior miséria. Mas não é evidente para todos o que representa a decadência do bairro da Boa Vista, nem do Texas Hotel6.

O bairro da boa Vista foi nas primeiras décadas do século XX, o local de moradia de classes médias: baixa, média, alta. Nas estreitas ruas, por trás da igreja da Santa Cruz, moravam funcionários públicos, artesãos e comerciantes, entre estes, muitos judeus, que tinham lojas nas ruas vizinhas e, em particular, o comércio de madeira e de móveis. O Texas Hotel, um lindo edifício eclético, decorado com elementos mouriscos foi um grupo escolar renomado, o Grupo Escolar Manoel Borba7. Um

pouco mais adiante encontra-se o Hotel Central onde, no passado, se tinha o melhor café da manhã da cidade. Um hotel hoje completamente decadente, mas onde se pode adivinhar o luxo de outrora na bancada da recepção, no elevador com porta pantográfica e numa anunciada suíte presidencial. Numa outra esquina, a da Rua José de Alencar, um antigo solar, muito bonito, onde já funcionou a Aliança Francesa, abriga hoje um hotel de verdade, tão decadente quanto o Texas da ficção fílmica.

Centros de cidade decaídos — no Brasil, ou alhures — estamos acostumados a vê-los. Edifícios paulistanos já foram temas de filmes, mas quem dali saiu não teme a decadência. O problema de Amarelo Manga, ao fincar os pés entre a Boa Vista e os altos José do Pinho, é que ele mexe com a decadência da cidade como um todo.

Com efeito, a partir do bairro da Boa Vista, mostrado no filme, essencialmente, pelo trecho do pátio da Santa Cruz, a cidade expandiu-se atravessando o canal em direção oeste, para o chique bairro do Derby inaugurado na década de vinte. Mas até a década de cinquenta esta expansão residencial não implicou na decadência da Boa Vista. Na década de cinquenta, a rua da imperatriz Tereza Cristina, a alguns metros do pátio da santa Cruz constituía com a Rua Nova o que se chamaria hoje de “o shopping” da cidade do Recife, que era, então, a terceira cidade do Brasil. Vinha após Rio e São Paulo, num período em que a cidade desenvolver-se industrializando a periferia; a classe média comprava Bônus da COPERBO, a companhia de Borracha Sintética, situada no município de Jaboatão dos Guararapes, naqueles tempos ainda chamada de

6 Objeto de um curta anterior do diretor.

7 Construído pelo engenheiro chefe de fiscalização do porto, M.A. de Moraes Rêgo, nomeado pelo Governador Manoel Borba para administrar a cidade do Recife de 1915 a 1918.

moscouzinho, por conta da presença da vanguarda operária de esquerda. Com o governador Cid Sampaio, e com a SUDENE e, depois, com Miguel Arraes como governador, tudo se renovaria. Os barões de açúcar fariam enfim uma renovação como os do café haviam feito em São Paulo.

Anos depois, após ascensão e queda do governo militar, a classe média culta, que se beneficiou do tempo do “milagre econômico”, vê agora tudo sob ameaça, inclusive sua aposentadoria já efetivada ou a que vem pela frente. Para os mais jovens há o fim do emprego fixo e os cuidados com os filhos que não se inseriram no mercado do trabalho.

O Texas Hotel está ali, lembrando a decadência do ensino público e gratuito. Jones Melo, como padre, está ali, lembrando que a Igreja católica, bonita e libertadora, dos tempos de Dom Hélder, perdeu espaço para os xiitas radicais evangélicos, representados por Dira Paes. Cruel, mas, como não lembrar que o próprio Jones Melo encarna a sua própria decadência? A exemplo de Giuletta Massina e Mastroianni em Fred e Ginger, que desempenham atores decadentes. Mas no caso dos italianos, a decadência era, sobretudo no plano físico: era a velhice. No caso recifense, ela é mais cruel. Os sexagenários ou mais velhos se lembram de um ator promissor, que brilhava junto aos demais do Teatro Popular do Nordeste, o famoso TPN. Os mais jovens talvez se lembrem de um ator já calvo, fazendo na televisão um comercial pouco requintado da Farmácia dos Pobres.

Decadência : o amarelo de nossa desesperança

O mais cruel de Amarelo Manga, no entanto, não parece residir na exibição da decadência e sim na constatação de sua irreversibilidade, desesperança que se expressa de várias maneiras, por exemplo, quando o padre filosofa:

*_“Quem sabe a morte de seu Bianor não é um sinal… um sinal das mudanças que todos desejamos* para o nosso país…”

Mas logo, para um pouco e completa:

_ “Ou quem sabe não é sinal de coisa nenhuma”.

Lembrando o amarelo da cidade, aos que querem vê-la toda pintada, seguindo as faixas coloridas do Recife Antigo, o filme lembra nossas pequenas violências e a falência de um projeto de cidade que não pode mais se restaurar, lembrando aos setores médios urbanos a sua própria condição de vida.

A igreja católica fechada, onde um padre rumina fiapos de existencialismo, como bem destaca Marcelo Coelho, o edifício decadente da escola primária, lembrando que os tempos de otimismo pedagógico e da pedagogia de Paulo Freire já se foram, fazem com que o filme lembre um universo de Steinbeck, os de Ratos e Homens ou do Inverno de nossa desesperança. Ou o universo de Tenessee Williams.

No entanto, através do tema da carne e do desejo, os personagens de Cláudio Assis em Amarelo Manga foram comparados sobretudo aqueles do universo de Nelson Rodrigues, o que se deveu, em muito, ao fato do roteirista, Hilton Lacerda, ser confesso admirador do universo rodriguiano. Embora pertinente, para o que aqui queremos salientar, esta questão parece ter pouco influído.

A classe média culta pernambucana viu, no passado, muitos filmes com Darlene Glória, cujos roteiros eram baseados em textos de Nelson Rodrigues. A própria atriz se tornou, na sua trajetória de vida, uma personagem digna deste autor. Mas, naquele momento os filmes faziam rir, com um certo distanciamento. Do mesmo modo, mais recentemente, Cláudia Raia e Alexandra Negrini, em versão televisiva da Engraçadinha encantaram a classe média culta. A classe média suburbana, periférica do universo de Rodrigues, permitia um distanciamento estético.

O mundo do Alto José do Pinho, das periferias urbanizadas de nossa cidade, das novas classes médias urbanas emergentes, trazido à tela por Assis, não permite este distanciamento. Ele estampa o resultado de nossa “democratização”. Pois quem lota as nossas faculdades pagas noturnas ou os cursos de adestramento do SEBRAE? Quem se candidata aos novos empregos urbanos, senão figuras como a representada por Dira Paes? Do ponto de vista do mundo das áreas centrais, zona dos invisíveis” e dos decadentes também o panorama é pouco alentador. A solidão da velha que se masturba e que tem como único companheiro o seu aparelho de oxigênio não parece chocar pelo apelo ao desejo e carne de Rodrigues. Personagem muito feliniana, ela ameaça uma geração que não sabe se a longevidade é, de fato, um benefício. Por sua vez, Lígia não é nem um pouco uma engraçadinha, coitada. Impossível para muitas de nós não nos identificarmos com ela, na sufocante mesmice que suportamos, todas, que ficamos nesta cidade, neste porto decadente. Não é a toa que o bar em que ela vive tem algo de bar de cais, de um lugar como aparece, às vezes, em cenas dos quadrinhos

de Corto Maltese8: lugares perdidos no mundo, que não vão nem vêm.

Num certo momento, houve a ditadura militar. Mas ela veio e ela se foi. E nada há mais para esperar. A esperança esteve de volta e nada mudou. Acabou-se a esperança. No dizer de Werneck, o filme acentua este movimento circular, sem saída:

Circular não apenas pela repetição da fala da garçonete, conexão mais explícita com o eterno retorno, mas, sobretudo, pela demonstração de que todas as mudanças que marcam a história, e são muitas, nada mudam no estatuto desgraçado do homem.

Marcelo Coelho também enfatiza esta repetição insuportável:

-Pelo que me lembro, naqueles filmes dos anos 70, a câmera demorava a desgrudar-se da cena constrangedora, do mesmo modo que o país — assim parecia- não se livrava nunca do regime militar. Em “Amarelo Manga”, a sensação é de muito mais urgência, e de impasse mais acentuado. A miséria em que vivem os personagens é, ao mesmo tempo, crônica e insuportável. A dona do bar, vivida pela atriz Leona Cavalli, passa o dia brigando com fregueses bêbados e abusados; sabe que o dia seguinte será igual ao anterior.

A originalidade e o que o torna insuportável — para um certo público - está na sua combinação de pequena violência, com decadência e ausência de esperança. Como o próprio Assis disse à revista Contra-campo:

- Queria fazer um filme sobre essas pequenas violências, que fosse poético e violento ao mesmo tempo. Por isso o Jonas Bloch mata cadáver, quem já está morto, porque é um vício inofensivo, simbólico. Os outros elementos surgem daí, dessa violência dentro de nós.

Outros filmes mostraram também esta violência contida até nos indivíduos aparentemente mais respeitáveis. É o caso de Cronicamente Inviável, onde todos são bandidos e não resta uma saída decente. Assim, onde todos são venais, resta um certo conforto intelectual ou consolo Foucaultino, digamos, se considerarmos que o poder é ubíquo e nada há a fazer contra ele. Ou, se como dizia Sartre, somos parte de uma engrenagem inevitável, neste caso, sigamos o falecido cronista Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta, quando dizia que “ou se restaura a moralidade ou nos locupletemos todos”.

Em Amarelo Manga não há possibilidade de conforto. A insuportabilidade do filme vem justamente de que ele não nos desculpa. Ao contrário, como bem notou, um comentarista americano:

8 Corto Maltese é uma personagem de quadrinhos de Hugo Pratt.

- But it is the comment of a customer at the bar which perhaps most closely defines the bleak reality here: “To have any sense at all in Brazil,” he says, “is to feel guilty.”

Assis não é Antonioni, nem é da intelligentzia local

Outro ponto, acredito, prejudicou a absorção do filme pelo menos por alguns grupos locais: a origem social de Assis. Falar da decadência de um setor é raramente aceito pelos que a sofrem e somente tolerado quando o assunto é trazido por um de seus membros. Lampedusa fez isto e pagou caro. Mas Visconti, um outro membro da aristocracia decadente — e que sabia como ninguém falar do assunto — pôs o livro de Lampedusa (O Leopardo9) em filme e limpou a alma do escritor.

Mas a estética de Assis não é a de Visconti; não é a das elites decadentes, nem seu ponto de partida é este tema. Assis veio de Caruaru e é uma estrela ascendente numa cidade onde a revista que traz os filhos dos filhos das dinastias de Recife profundo — a Continente Cultural — apesar de toda renovação, ainda cheira a cana. Pior, Assis não é politicamente correto, é uma “alma sebosa”, no dizer de vários jovens a quem confessei o meu desconhecimento do diretor e indaguei de quem se tratava. Maior petulância: Ele é uma alma sebosa confesso, assumido, disseram-me. As entrevistas que li do diretor nos diversos sites, não indicam nada nesta direção. Mas deixam claro que se trata de uma voz distinta da intelligentzia local. Fala de Carlos Pena Filho, de quem tomou emprestado o soneto de Desmantelo Azul e de Renato Carneiro Campos com distância, como alguém de fora que veio a conhecer e não como a intelligentzia local, toda feita de primos ou semi-primos ou ex-primos.

Veja-se esta fala:

E também entrou o poema do Renato Carneiro Campos, foi uma coisa que da última hora pintou, eu pedi para buscarem o livro que nós íamos colocar o poema. Tem tudo a ver com o filme, mostra o universo de Pernambuco, do nordeste, que está inserido dentro do filme. É de um livro dele chamado “Tempo Amarelo”, tem também uma música que o Nação Zumbi fez pro filme, mas é inspirado também naquilo ali. Eu só vim a conhecer a obra depois do roteiro pronto. Quando fui ler, na casa da viúva do Renato Carneiro Campos, quis incluir, pensando que um daqueles bêbados filósofos pudessem recitar o poema, que é maravilhoso.

Assis é um outsider, que vem do agreste mesma região de nosso ex-presidente lula, mas, diferentemente deste, organizou sua carreira, até agora, longe de São Paulo e da Política, dois locais obrigatórios de consagração no Brasil. Falando de Pernambuco diretamente para o mundo, ele impõe o olhar de um outsider, imperdoável para a sociedade local.

Esta diferença nao passou despercebida no exterior, como atesta esta fala de um crítico:

- Assis’ film is thoughtful and well made. In your face, it pulls no punches. His characters are etched with skill and he creates sufficient narrative drive in his multiple storylines to sustain interest throughout. His is a strong and original new voice in Brazilian cinema.

A questão regional: Pernambuco falando para o mundo

9 No livro intitulado o Leopardo, Giuseppe Tomasi di Lampedusa evoca o declínio de uma família aristocrática da Sicilia em meados do século XIX, Publicado postumamente teve uma belíssima versão cinematográfica dirigida pelo cineasta italiano Luchino Visconti com Burt Lancaster, Alain Delon e Claudia Cardinale como atores principais.

Esta originalidade e força advém do fato que o Recife de Assis, além de estar fora do cartão postal tampouco é visto numa ótica folclórica ou regionalista que fale dessas coisas tão nossas, das nossas raízes, macaxeiras e mandiocas, de maracatus e mangues, como gostam os re-criadores de nossa pernambucanidade.

Impossível, portanto, não ver o filme a partir do que ele levanta da questão regional, como na comparação que foi feita entre ele e Lisbela e o Prisoneiro10. Para Eduardo Valente,:

*“há uma impressionante sequência de coincidências que ligam as histórias destes dois filmes“ (…). Talvez o mais óbvio seja que ambos se passam em Pernambuco (um no Recife, o outro em cidades do interior), e são de fato dirigidos por pernambucanos, ainda que um deles esteja retirado do estado há algum tempo enquanto o outro ainda é um “local”. Por este motivo, inclusive, Amarelo Manga é considerado um filme “pernambucano”, enquanto Lisbela não.*

Ora, na minha opinião, é justamente o inverso. Como acima comentado, o filme de Assis é universal enquanto o de Guel Arraes é o Pernambuco que todos querem ver. E a maior coincidência é que justamente eles se passam em vários momentos no mesmo local da cidade, detalhe que, evidentemente escapou a Valente. Lisbela não é todo filmado no interior e o posto policial, local de trabalho do pai da moça é um pequeno prédio moderno, uma reforma, que fica, na vida real, defronte do antigo grupo escolar, do Texas Hotel do filme de Assis. Face a face.

Ver o pequeno posto de saúde transformado em posto de polícia como no filme de Guel Arraes é reconfortante e engraçado para as plateias tradicionais. Não é o mesmo que ver o decadente Texas Hotel, hoje, na verdade sede de antigos expedicionários, onde banners dão um toque kitsch às ruinas das fachadas, para oferecer cursos de dança de salão e outros aos membros da terceira idade do bairro.

Se outras questões levantadas por Valente fugiriam tanto à nossa competência, quanto ao nosso objetivo, a questão do regionalismo se impõe, como bem falou Assis:

Olha, o Brasil é um país multicultural. Um país de várias regiões, vários sotaques, várias culturas, por isso que é um país tão bacana. É o que é. Então, a partir do momento em que ocorre uma maior descentralização da produção cinematográfica, essas questões vão surgir mais ainda. O que acontece é que o Rio Grande do Sul faz um, dois filmes, aí demora não sei quanto tempo pra fazer outro. Pernambuco fez um filme cinco anos atrás, está fazendo outro agora. Ceará faz um filme não sei de quanto em quanto tempo. Se essa produção for mais democratizada, mais regionalizada, mais “caras” de cidades, e tanto outros assuntos surgirão. O que falta é tirar desse eixo Rio-São Paulo a primazia das produções, essa história de que filme brasileiro é filme feito no Rio de Janeiro.

Vitorioso, Assis foi até generoso na fala. Pois o que mais incomoda e isto tem a ver com a recepção do filme pelas camadas médias, ponto que aqui estamos discutindo, é a cumplicidade que há na manutenção da soi-disante identidade regional. Ou seja, na perspectiva irritante que nos obriga a constatar que, oitenta e dois anos depois da semana de arte moderna, o lugar do autor nordestino na cena cultural do país está fadado à submissão a uma identificação regional, leia-se folclórica. Podíamos ser modernos, conquanto que fôssemos folclóricos, regionais. E assim continuamos, como bem descobriu Guel Arraes. Porque o nosso sotaque é lindo, porém, inferior. É para ser escutado e dar vontade de rir. Ainda mais quando ele é reinventado pela rede Globo. Ora, em Amarelo Manga, a Ligia de Leona Cavalli, artista nascida no Rio

10 Lançado em 2003, logo depois do filme de Assis.

Grande do Sul, nao imita sotaque nordestino, diferentemente da Lisbela interpretada por Débora Fallabela que fala o nordestinês da Globo.

Dez anos depois de Assis, Kleber Mendonça com o filme O Som ao redor espanta também os críticos pelo fato de não haver tratado de uma “temática regional”. Aclamado fora do estado e no exterior como Assis, localmente, a recepção do filme de Mendonça foi, como dissemos, bem diferente.

Conclusão: A cara da Moura Torta

  • Qual povo que não gosta de se ver na tela? Qual? Não conheço, todos gostam.

Talvez esta fala de Assis nos ajude a compreender a recepção de seu filme junto ao público de classe média. Eles não conseguiram enxergar-se na representação proposta da cidade. Não quiseram reconhecer-se como parte daqueles residentes. Meus companheiros de sala de cinema não quiseram olhar num espelho que interditaria o narcisismo. Como suportar a identificação com a personagem feminina de Ligia que todo dia repete o bordão “Eita vida mais ou menos”? Como uma vida tão mais ou menos, num decadente bairro da Boa Vista ou subindo os córregos da cidade dá motivo para ter “orgulho de ser nordestina?. Melhor mesmo é nos fazermos todas Lisbelas e nos olharmos nas telas como a Moura Torta do magnífico conto, que acreditou ser sua a imagem que via no lago do rosto da princesa.

Como Citar

Sônia Maria de Barros Marques . Recife nas telas: o amargor do Amarelo. In: PEIXOTO, Elane Ribeiro; DERNTL, Maria Fernanda; PALAZZO, Pedro Paulo; TREVISAN, Ricardo (Orgs.) Tempos e escalas da cidade e do urbanismo: Anais do XIII Seminário de História da Cidade e do Urbanismo. Brasília, DF: Universidade Brasília- Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, 2014 . Disponível em: http://www.shcu2014.com.br/content/recife-nas-telas-amargor-do-amarelo