Patrimônio cultural da Região Metropolitana de Campinas: história, memória e reconstrução da paisagem

Eixo Temático: 

 

Patrimônio cultural da Região Metropolitana de Campinas: história, memória e reconstrução da paisagem

Eixo Temático: Território

Resumo

A pesquisa se propõe a constituir um corpo teórico e metodológico que permita abordar a questão da preservação do patrimônio cultural e, em especial, das cidades médias e pequenas que compõem a Região Metropolitana de Campinas. Dada a natureza desse patrimônio, entende-se a necessidade de analisar não apenas a sua dimensão urbana e arquitetônica, e sim todos os componentes que caracterizam o território metropolitano em que se inserem (históricos, estruturais, organizacionais, dinâmicas). A abordagem privilegia a discussão urbanística contida nas questões de preservação e pressupõe uma análise e interpretação interescalar dos processos como parte da discussão mais ampla sobre os planos, projetos e políticas urbanas adotados em nível regional. Neste sentido, concebe o patrimônio cultural como um dos componentes da paisagem resultante e, portanto, indissociável desta. Num primeiro momento, a pesquisa concentrou-se na compreensão da natureza dos patrimônios das cidades da Região Metropolitana de Campinas, a partir do estudo de caso de duas cidades, Valinhos e Paulínia, buscando evidenciar e aprofundar aspectos conceituais e metodológicos para a definição de critérios de seleção e de ação sobre a paisagem e os patrimônios culturais identificados no estudo. Numa segunda etapa, propôs-se outra diretriz metodológica com foco em um dos patrimônios identificados, a Usina Ester, localizada no município de Cosmópolis e o complexo território por ela configurado. Finalmente, indaga-se sobre a existência ou possibilidade de constituição de planos, programas e projetos de intervenção em nível metropolitano ou regional que incluam a dimensão da conservação e gestão dos bens culturais. Propõe-se ainda uma abordagem prospectiva do alcance de tais conceitos e métodos através da reflexão sobre sua utilização no planejamento e na gestão urbana das cidades da região.

Palavras-chave: patrimônio, gestão urbana, RMC, conservação, território, cidades paulistas

Abstract

The research aims to compose, a theoretical and methodological body that enables to broach the preservation of cultural heritage issue and, mainly, of the medium and small cities that arranges the metropolitan region of Campinas. Given the nature of this heritage, it is possible to comprehend the need to consider not just its urban and architectural dimension, but also all the components that characterize the metropolitan territory in which they operate (historical, structural, organizational, dynamics). The approach emphasizes the urban debate contained in preservation issues and requires analysis and interpretation of inter-scale processes as part of a wider discussion about the plans, projects and urban policies adopted at regional level. In this sense, the cultural heritage is taken as one of the components of the resulting landscape and therefore inseparable of it. Initially, the research focused on understanding the nature of the metropolitan region of Campinas’ cities heritage, on the basis of the case study of two cities, Valinhos and Paulínia, in order to highlight and develop conceptual and methodological aspects for the definition of criteria of selection and action on landscape and cultural heritage sites identified in the study. In a second stage, we

proposed another methodological guideline focusing on one of the identified heritages, Usina Ester, located in the city of Cosmópolis and its complex territory. Finally, it is questioned the existence or possibility of creating plans, programs and intervention projects in metropolitan or regional level that includes the size of the conservation and management of the cultural property. It is also proposed a forward-looking approach to the scope of these concepts and methods through reflection on their use in urban planning and management of cities of the region.

Keywords: heritage, urban planning, RMC, conservation, territory, cities of São Paulo

Introdução

A pesquisa se propõe a constituir um corpo teórico e metodológico que permita abordar a questão da preservação do patrimônio cultural e, em especial, o patrimônio cultural das cidades médias e pequenas que compõem a Região Metropolitana de Campinas. Dada a natureza desse patrimônio, entende-se a necessidade de analisar não apenas a sua dimensão urbana e arquitetônica, e sim todos os componentes que caracterizam o território metropolitano em que se inserem (históricos, estruturais, organizacionais, dinâmicas). A abordagem privilegia a discussão urbanística contida nas questões de preservação e pressupõe uma análise e interpretação interescalar dos processos como parte da discussão mais ampla sobre os planos, projetos e políticas urbanas adotados ao nível regional. Neste sentido, toma o patrimônio cultural como um dos componentes da paisagem resultante e, portanto, indissociável desta.

Uma das características da Região Metropolitana de Campinas é que ela apresenta dois movimentos opostos de urbanização: o crescimento em extensão a partir das áreas centrais dos municípios, configurando diversos pontos de conurbação e, ao mesmo tempo, um desdobramento de novas áreas urbanizadas, a partir de sucessivos loteamentos abertos na periferia dos núcleos que a compõem, dando corpo a uma urbanização descontínua, caracterizada por condomínios residenciais e industriais fechados, uma transformação na forma de vida rural e a regionalização das atividades, gerando intensos deslocamentos ao longo das rodovias de acesso (CANO et al., 2002). Como núcleo do complexo cafeeiro paulista, herdou as bases para o dinamismo da agricultura, infraestrutura de transporte e qualidade da rede urbana. Esse processo foi reforçado com a abertura da Via Anhanguera nos anos 1950 e depois com a Rodovia dos Bandeirantes, no final dos anos 1970. Baeninger (2002), afirma que a Região Metropolitana de Campinas, desde esta década, passou a receber grandes fluxos migratórios, já que se tornou um dos principais eixos de expansão no processo de desconcentração relativa das atividades industriais.

Nos anos 1970, 60% do crescimento absoluto da população metropolitana era fruto da migração; na década seguinte, esse valor passou para 48% e entre os anos de 1991 e 1996 para 43% - período em que a RMC recebeu 83.884 de migrantes de outros Estados. A intensidade deste processo foi tal que, nos anos 1990, apenas nos municípios de Artur Nogueira, Engenheiro Coelho, Holambra e Pedreira, a migração representou 70% do crescimento absoluto dessa área (PMHIS, 2010).

As principais motivações para os deslocamentos na RMC são relacionados à educação (com 1.379.126 viagens) e ao trabalho no ramo de serviços (840.182 viagens). Considerando apenas os horários de pico, são realizadas cerca de 420.000 viagens na RMC, sendo que destas, ao redor de 230.000 são por motivo de trabalho e em torno de

250.000 relacionadas à educação (PITU/RMC/2010).

Várias políticas governamentais deflagradas em níveis federal, estadual e municipal, como o Programa de Metas (1956-1960) e o Proálcool, induziram a interiorização do desenvolvimento no estado, principalmente em Campinas e região, com investimentos

públicos em infraestrutura de transportes, comunicações, ciência e tecnologia, responsáveis pelo surgimento de universidades (Unicamp), grandes centros empresariais e industriais, como Replan, CPqD, CTI etc. Com isso a região atraiu a implantação de grandes empresas privadas e ampliou a rede de pequenas e médias, intensificando as relações com o setor agropecuário e terciário, também novos moradores. Como decorrência, a expansão da mancha urbana deu início ao desenho atual da conurbação ao longo dos eixos viários Anhanguera, Santos-Dumont, Rod. Dom Pedro I, Campinas- Paulínia e Campinas-Mogi-Mirim (CANO et al., 2002).

A RMC está inserida no principal polo urbano-industrial brasileiro, tendo como epicentro São Paulo, mas se estende por uma grande região interiorana em desenvolvimento. Segundo Cano & Brandão (2002), este processo aumentou a complexidade nos centros urbanos das cidades paulistas. É uma região que agrega municípios com situações desiguais de urbanização e industrialização, que são ao mesmo tempo responsáveis por suas singularidades. Apresenta ainda traços de heterogeneidade social, produtiva e espacial. O intenso fluxo migratório não foi absorvido de forma adequada, gerando processos de periferização com extremos de classes altas e baixas, diminuindo a força dos centros urbanos tradicionais (PITU/RMC/, 2010) - e criando um sistema de polinucleação.

Do ponto de vista do urbanismo, ainda que os fenômenos atuem na escala regional, é no espaço urbano de cada município que se operam as mudanças de significado. Se a mobilidade de mercadorias e pessoas é um fator estruturador do processo de metropolização e responsável pela regionalização das atividades (VILLAÇA, 1998), os deslocamentos intra-urbanos são os grandes articuladores de novos pontos de consumo e apropriação nos espaços públicos, do fortalecimento de áreas comerciais ao longo dos eixos de circulação, gerando também, em certos casos, um deslocamento de centralidades.

Tendo em conta tais processos, foram definidos a princípio, como casos de estudo, duas cidades da Região Metropolitana de Campinas, Valinhos e Paulínia, cidades com cerca de 100.000 habitantes, dos quais metade não são nativos. A migração de pessoas de outras cidades induziu a uma nova forma de identidade com os centros tradicionais destas cidades e até mesmo uma dissolução de particularidades em cada um deles. O surgimento de condomínios fechados consolidou uma forma de vida confinada, diluindo a formação de comunidades. Essa dissolução das relações vem causando, por exemplo, uma mudança de apropriação e uso dos espaços públicos, que perdem significado diante de novas formas de lazer como os shopping-centers no eixo da Rodovia Dom Pedro I, ora ganham novas funções, ao sofrerem um deslocamento em relação aos novos eixos de produção e consumo criados. A expansão dos núcleos urbanos e, no limite, os processos de conurbação entre estes são fenômenos que explicam a intensa troca de informações, energia, capital, trabalho e o deslocamento de pessoas, características recentes do território metropolitano.

Numa segunda etapa, foram analisadas mais três cidades, Arthur Nogueira, Cosmópolis e Engenheiro Coelho, selecionadas não por suas características específicas e sim por constituírem um conjunto com uma relação intrínseca em sua formação, de modo que fosse possível identificar elementos indutores do processo de formação do território. Potencialmente, tais elementos constituiriam os patrimônios culturais a serem preservados, porém, a esta se deveria agregar pelo menos duas outras possibilidades de definição de conjuntos de interesse: as referências culturais dispersas, disseminadas a partir do território formado e a delimitação da paisagem cultural resultante e inter- agente com as mesmas, cujos âmbitos deveriam abranger desde remanescentes relacionados às formas de produção econômica e usos do território, até a formação do

modo de vida local. Desta forma, o exemplar que nos permitiu compor esse quadro e a nova conduta metodológica foi a Usina Ester, situada no município de Cosmópolis, cuja trajetória envolve a formação de um amplo território que se desdobrou nos municípios de Paulínia, Artur Nogueira e Engenheiro Coelho.

Territórios em (trans)formação:o exemplo de Paulínia

A cidade de Paulínia teve seu território estruturado a partir da doação de sesmarias no final do século XVIII, tendo sua origem na fazenda São Bento, produtora de café. Em 1903 foi inaugurada uma capela que deu início ao primeiro vilarejo. Ocorreu intenso processo migratório, basicamente de italianos, para trabalhar nas plantações de café e em 1906, e o primeiro assentamento foi consolidado como vila. A criação do município ocorreu somente em 1964. Nos anos 1970, com a implantação da Replan (Refinaria do Planalto — empresa de petróleo) Paulínia mudou sua história, atraindo diversas outras indústrias e se consolidando como polo de redistribuição de derivados de petróleo. A partir de seu bairro mais antigo, Santa Cecília, a mancha urbana propagou-se de forma descontínua. O centro, onde ainda se localizam alguns dos edifícios significativos, coincide com a principal avenida de comércio e ainda convive com reminiscências de sua origem rural, quando era apenas um pequeno núcleo em meio a antigos caminhos. Devido à forte presença industrial, Paulínia apresenta uma dualidade cultural, com valores mais arraigados de comunidade local e costumes introduzidos pelos novos moradores, que para lá imigraram com a vinda dos grandes empreendimentos habitacionais, comerciais e industriais na região (WASSALL, 2011).

Fig. 1. Fotos de dois edifícios significativos da cidade de Paulínia, respectivamente: à esquerda, Igreja de São Sebastião com o Museu Municipal ao fundo e, à direita, capela remanescente em antigo caminho, hoje Avenida Botasso (Betel, Paulínia) Fonte: Acervo da pesquisa, 2011.

Assim, Paulínia é caracterizada pela presença de grandes unidades industriais, responsáveis pela formação de manchas urbanas segregadas. Este processo relaciona atividades e população de outras cidades, e reitera estudos recentes que apontam para uma mudança nas estratégias de deslocamentos de indivíduos (movimentos pendulares) nas últimas décadas do século XX, em que novos processos se materializam na dimensão interna, pelo redirecionamento dos fluxos migratórios para as cidades médias, em detrimento dos grandes centros urbanos (OLIVEIRA et al., 2011).

Usina Ester: reconstrução de uma paisagem

A formação do município de Paulínia, assim como de outros municípios da região, foi impulsionada pela ferrovia que percorria as principais fazendas, onde posteriormente se localizaram as principais indústrias da cidade. Dentre as quais, podemos destacar a Companhia Rhodia Brasileira (Paulínia) e a Usina Ester (Cosmópolis).

A Usina Ester, fundada em 1898, está localizada na antiga Fazenda Funil, na cidade de Cosmópolis. É uma das mais antigas usinas de açúcar do Estado de São Paulo e atualmente fabrica açúcar e etanol. Apesar de não fazer parte do território de Paulínia,

teve grande importância para a conformação desse município, uma vez que, sede da Usina Açucareira Ester, seus donos foram alguns dos principais responsáveis pela implantação da Estrada de Ferro Funilense, pela Companhia Carril Agrícola Funilense (inaugurada em 1899), que ligava Campinas ao Funil, para escoamento da produção agrícola da região. Essas vias definiram inicialmente a ocupação, e tornaram-se estradas de acesso aos povoados (posteriormente municípios) que nasceram ao redor das estações e chaves ferroviárias, o que constitui um elemento importante para a leitura do território e a identificação de elementos referenciais culturais (MARCONDES, 2001), como as cidades de Cosmópolis, Arthur Nogueira e Engenheiro Coelho, Conchal e o Distrito de Martinho Prado Júnior, em Mogi Guaçu.

Ainda em relação à formação do território, a implantação da Usina Ester, assim como outras indústrias que ali se instalaram em substituição às antigas fazendas, pode ser destacada a formação do município de Cosmópolis, onde 80% de seu quadro de funcionários é composto por filhos ou parentes de ex-funcionários, ou teve a Usina como único emprego durante toda a vida. Desta forma, buscou-se uma nova forma de abordagem na identificação do patrimônio da região, que partisse da leitura da constituição física e da dinâmica atual das cidades e retrocedesse às bases da formação dos territórios, de forma que pudéssemos aplicá-la a vários âmbitos e que incorporasse a variedade de referências culturais existentes, ou seja, conforme aponta Becerra García, o patrimônio “en toda su complejidad de forma diacrónica, y también, em su caso, el paisaje que ha generado” (SCHICCHI, VEGA, 2013, pág.133).

Fig. 2. Em 1896, o Barão Geraldo, em processo de negociação com os irmãos Nogueira, entrou em contato com o presidente da Província, Campos Salles, para que conhecesse a região do Funil, organizando uma caravana formada por vários proprietários e figuras políticas da região, onde viria a ser instalado o Núcleo Colonial Campos Salles. Na imagem, a queda de água em forma de funil, de onde se originou o nome da região. Fonte: Nogueira,1955.

A usina foi fundada em 1903, após a compra e incorporação das Fazendas do Funil, Três Barras, Boa Vista e São Bento, pelos irmãos José Paulino, Arthur e Sidrack Nogueira, com Paulo de Almeida Nogueira e Antônio Carlos da Silva Telles. Para transformar um pequeno engenho em uma grande indústria, era necessária uma infraestrutura mínima, que acabou sendo fornecida através da construção da estrada de ferro — rápido acesso a um centro urbano –, e dos Núcleos Coloniais Campos Salles e do Conchal — mão de obra abundante e europeia.

Todo o processo de ocupação e desenvolvimento do Funil — através de ligações familiares, financeiras e políticas, entre setor privado e público –, ajudou a construir um

contexto mais amplo no cenário paulista, tentando sanar uma grande crise no setor agrícola, principalmente cafeeiro. Isto trouxe a industrialização a São Paulo e mudanças nos investimentos econômicos e tecnológicos, e que culminou, entre outros fatores, na criação de uma rede de novas cidades no interior paulista.

Fig. 3. Foto da máquina da Funilense no pátio de Cosmópolis (1928) Fonte: cedida por José Flávio “Mogiana” ao site www.estaçõesferroviárias.com.br.

Fig. 4. Fotos da Usina em dois momentos, respectivamente: à esquerda, vista da Usina na década de 1950. Fonte: Nogueira,1955 . À direita, vista recente do complexo. Fonte:Google Earth, 2003.

A Estrada de Ferro Funilense e a instalação dos núcleos coloniais

Em meados das décadas de 1880-90, o governo brasileiro, em parceria com grandes latifundiários, deu início a projetos de imigração visando substituir a mão de obra escrava pela assalariada, mais especificamente de origem europeia. A formação dos chamados Núcleos Coloniais constituiu uma das formas de ocupação territorial a partir dessa mão de obra estrangeira: como forma de incentivar o cultivo das terras, lotes subdivididos das fazendas eram vendidos para brasileiros e estrangeiros, com pagamento facilitado a longo prazo, de modo a ocupar espaços e trazer riquezas para as algumas regiões, além de ligar o imigrante de forma mais efetiva ao Brasil.

Assim, a instalação dos núcleos coloniais na Província de São Paulo alterou significativamente a configuração paulista. O modo de vida dos brasileiros se transformou com a chegada dos imigrantes trazendo novas culturas, hábitos e costumes. Os trabalhadores livres nacionais tiveram participação marginal nas políticas de mão de obra e colonização do governo e dos grandes proprietários, mas sua presença no cenário paulista também teve seu papel nessa fase de transformações. Uma nova cultura e um

novo estilo de vida foram construídos. As relações de troca estabelecidas entre núcleos rurais e urbanos também refletiram essas mudanças, formando redes de novas cidades no interior de São Paulo (BALDINI, 2010).

Fig. 5. “Planta Geral do Núcleo Campos Salles”, de Germano Vert, 1912. Escala: 1:20.000. Fonte: Acervo digital do Museu da Imigração — São Paulo.

Fig. 6. Foto do Núcleo Colonial Campos Salles — Cosmópolis/SP”, s/d. Fonte: Acervo digital do Museu da Imigração

– São Paulo.

Fig. 7. Reprodução da “Planta dos Núcleos do Conchal”, Hert G., 1913. Escala: 1:40.000. Fonte: Ferrari, 2011.

Figura 8. Foto aérea da inserção do complexo da Usina Ester no território — antiga Fazenda Funil. Edificações e áreas de interesse remanescentes. Legenda: 1. Vila operária; 2. Igreja São Paulo; 3. Vila operária; 4. Indústria; 5.Armazém;

6. Antiga Ponte;Ferroviária; 7. Vila operária; 8. Estábulo e Armazenagem; 9. Ponte de Ferro Rio Jaguari (antiga ponte ferroviária);10. Represa.Fonte: Esquema elaborado pelo grupo de pesquisa, 2013 sobre imagem do Google

Earth, 2013.

Figura 9. Fotos das construções remanescentes: à esquerda, vista da vila operária; à direita, igreja São Paulo.

Fonte: Acervo da pesquisa, 2013.

Figura 10. Fotos das construções remanescentes: à esquerda, vista da vila operária; à direita, vista dos equipamentos da indústria. Fonte: Acervo da pesquisa, 2013.

Figuras 11. Fotos das construções remanescentes: à direita, o armazém; à esquerda, antiga ponte ferroviária. Fonte: Acervo da pesquisa, 2013.

Figura 12. Fotos das construções remanescentes: à esquerda, casas no interior da vila operária; à direita, estábulo e armazenagem. Fonte: Acervo da pesquisa, 2013.

Figura 13. Fotos das construções remanescentes: à esquerda, ponte de ferro sobre o Rio Jaguari; à direita, a represa.

Fonte: acervo da pesquisa, 2013.

Fig.14. Foto aérea da implantação do complexo da Usina Ester — antiga Fazenda Funil. Edificações e áreas de interesse remanescentes.Legenda: 1. Igreja São Paulo; 2. VilaOperária; 3. Clube Funilense; 4. Indústria; 5.Casa sede da Fazenda Funil (demolida);6. Antigo edifício de estocagem de açúcar; 7. Chaminé da Usina Ester; 8. Antigo almoxarifado; 9. Armazém; 10. Escola da Usina. Fonte: Elaboração do grupo sobre foto do Google Earth, 2013.

Novas abordagens para a preservação e gestão de patrimônios dispersos

A partir do conhecimento da história das cidades procurou-se obter os elementos de base documental, para então cotejá-los a partir de novos valores atribuídos aos bens (aqui entendidos como todo e qualquer espaço público ou construção), ao longo do tempo, pela comunidade, e a seguir enquadrá-los em alguma figura de preservação de conjunto. Uma destas figuras, a do patrimônio etnográfico, por exemplo, inicialmente utilizada apenas para a classificação de expressões do folclore ou manifestações populares, foi retomada, porém, entendendo-se que tais manifestações já não são mais restritas a uma cidade e podem se manifestar ao mesmo tempo em vários lugares, dado o poder de comunicação e inclusão de novas práticas.

Como afirma Arantes (2006, p.427), são questões que exigem uma reflexão teórica, porém alicerçadas por pesquisas empíricas. Ao invés de se buscar uma solução homogênea deve-se considerar a diversidade dos problemas como um valor cultural de fundamental importância, já que a “prática da preservação não legitima simplesmente sentidos socialmente atribuídos pela cultura comum e cotidiana a determinados aspectos da cultura, mas põem em prática os critérios, as concepções e os valores que são defendidos por técnicos e especialistas”. Assim, segundo o autor, as decisões das instituições de preservação não raro estão em desacordo com os valores vigentes locais. A Declaração de Amsterdã, realizada em outubro de 1975, foi o documento que primeiro propôs parâmetros sobre como abordar a diversidade dos contextos urbanos, abolindo a segregação hierárquica entre conjuntos de maior ou menor interesse artístico, de forma a incorporar a mudança como algo desejável e inevitável (JUSTICIA et al., 2008). Porém, como explica Fonseca (1996, p.159), a expressão aqui no Brasil foi

traduzida para “patrimônio cultural não-consagrado”.

Os patrimônios existentes nas cidades médias e pequenas da RMC evocam a discussão sobre o valor pela diversidade e outros aspectos de contemporaneidade que dificultam o enquadramento dos mesmos nas figuras tradicionais de preservação. Tratam-se de “patrimônios dispersos”, ou seja, não são conjuntos homogêneos e contíguos no espaço. O problema principal a enfrentar quanto ao método de identificação e seleção deste patrimônio, portanto, partindo de uma abordagem diacrônica, como já foi dito, é que ao considerar-se o deslocamento de população em função de mudanças no modo de vida, tanto na organização social quanto na produtiva, temos que admitir a existência de outras formas de valorização e reconhecimento - que resultam de distintos usos do espaço no tempo - que se traduzem em diversos aspectos culturais e físico-espaciais, em especial, no valor atribuído à memória coletiva.

Conforme aponta Oliveira (et al., 2011) entende-se que diferentes práticas, atividades, ações e trajetórias, detectáveis nos movimentos de população, correspondem a múltiplas instâncias da realidade social, nas quais se incluem as relações de pertencimento, que se manifestam em distintas dimensões: da esfera de vida pública e privada; do ciclo de vida; das novas relações trabalho-casa estabelecidas; das condições do habitat; dos processos de apropriação espacial; de segregação sócio-espacial; das redes sociais, etc. Isto é, entende-se o território não somente como uma escala dimensional e sim como um termo que articula relações entre espaços, políticas e identidades.

Outra abordagem que corrobora com esta visão e amplia as possibilidades de preservação a partir da leitura do território e da participação das populações envolvidas, independentemente de divisas administrativas e de escalas é a recomendada pela Declaração de Quebec (2008) sobre “a proteção do espírito do lugar”, resultado da 16ª Assembléia Geral do Conselho Internacional de Monumentos e Sítios (ICOMOS), onde se refletiu sobre “as relações entre patrimônio material e imaterial e os mecanismos que regulam o espírito do lugar”. Este último, constituído pelo “conjunto de bens materiais (sítios, paisagens, edificações, objetos) e imateriais (memórias, depoimentos, documentos escritos, rituais, festivais, ofícios, técnicas, valores, cheiros), físicos e espirituais, que atribuem sentido, valor, emoção e mistério ao lugar”.

Alguns dos aspectos definidos sobre a proteção do espírito do lugar vão ao encontro dos interesses da presente pesquisa, entre os quais: a necessidade de compreender e propor medidas preventivas contra as ameaças externas - como as mudanças climáticas, os desastres ambientais, os conflitos armados e o crescimento urbano descontrolado que conduzem a transformações e rupturas nas sociedades - através de planos, projetos e políticas públicas, adaptados ao contexto pluralista das sociedades multiculturais modernas (ICOMOS, 2008). Por outro lado, é importante ajustar os instrumentos de proteção do patrimônio cultural para que não só preservem o passado e o presente, mas possam ir incorporando os novos desafios impostos permanentemente pelas mudanças, através da gestão territorial.

Considerações finais

A pesquisa se iniciou a partir da reflexão sobre os fatores que geraram os deslocamentos populacionais (movimentos pendulares) para compreender sua influência sobre as relações de identidade e de atribuição de valor aos patrimônios culturais das cidades de Paulínia e Valinhos.

A premissa principal surgiu da constatação da inversão de fluxos migratórios dos grandes centros para as cidades médias, com conseqüências para as pequenas, deixando de ser um fenômeno exclusivamente metropolitano. Desta forma, ao considerar-se o deslocamento de população em função de mudanças, tanto na organização social quanto na produtiva, é preciso admitir a existência de outras formas de valorização e

reconhecimento do patrimônio cultural, que se traduzem em diversos aspectos culturais e físico-espaciais, em especial, no valor atribuído à memória.

Ao proceder-se a identificação dos bens, portanto, foi necessário rever e reelaborar critérios e conhecer processos ocorridos e em curso em cada cidade, tais como a gênese da ocupação do território; a urbanização e formação de núcleos ou centros principais; a intensidade, alternância e itinerância de usos e apropriações nos espaços públicos; os usos e intervenções/subtrações realizadas nos traçados urbanos e nos edifícios remanescentes de vários períodos. Somente a partir deste conhecimento foi possível identificar o objeto, no caso, a Usina Esther, como o elemento que articula, no território, os tempos, memórias e vestígios de sua constituição, sendo este o principal fator a destacar como contribuição desta pesquisa quanto à discussão dos métodos de identificação e seleção.

Neste sentido, por um lado, reitera-se a importância de produção de evidências desses movimentos a partir de levantamentos e análises empíricas dos territórios e, por outro, a limitação do uso de ferramentas e critérios de classificação utilizados para a compreensão de processos e atribuição de valor para cidades, conjuntos ou edifícios históricos tombados perfeitamente enquadráveis nas figuras de preservação tradicionais. Referências bibliográficas

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Como Citar

Maria Cristina da Silva Schicchi; Renata Ocanha Góes; Ana Laura Evangelista . Patrimônio cultural da Região Metropolitana de Campinas: história, memória e reconstrução da paisagem. In: PEIXOTO, Elane Ribeiro; DERNTL, Maria Fernanda; PALAZZO, Pedro Paulo; TREVISAN, Ricardo (Orgs.) Tempos e escalas da cidade e do urbanismo: Anais do XIII Seminário de História da Cidade e do Urbanismo. Brasília, DF: Universidade Brasília- Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, 2014 . Disponível em: http://www.shcu2014.com.br/content/patrimonio-cultural-da-regiao-metropolitana-campinas-historia-memoria-e-reconstrucao-da