O passado como construção: perfis da historiografia sobre o Rio de Janeiro — temas e problemas (1978-1992)

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Resumo

O trabalho analisa o processo de desenvolvimento de estudos históricos tomando a cidade do Rio de Janeiro como objeto de estudo entre 1978 e 1992 São enfocados os deslocamentos teóricos, temáticos e os recortes temporais que se cristalizam, possibilitando apontar no campo acadêmico a emergência de uma revisão historiográfica da arquitetura e do urbanismo que se esboça a partir de meados dos anos oitenta. Essa tendência se consolidaria na virada do século XXI, quando os seminários de História Urbana e do Urbanismo completariam 10 anos e o saber acumulado dá origem a alguns estudos monográficos de peso e a novos fóruns de discussões na área. Mas, quais paralelos podem ser traçados entre aqueles momentos iniciais e a produção contemporânea?

Introdução

Em 1965 o Rio de Janeiro comemorava seus 400 anos de história, pouco depois de Brasília roubar-lhe a função secular de capital do país. Naquele ano, malgrado incertezas e os novos rumos da vida política, as prateleiras das livrarias cariocas enchiam-se de novos títulos e reedições dedicadas a comentar o passado e o presente da “mui heroica” cidade. As universidades realizavam congressos e o Rio era cantado por novos e velhos escritores de forma favorável, ou pelo menos, confiante, ainda que aspectos da forma urbana acentuassem cada vez mais algumas de suas “disfunções”.

Somente vinte anos mais tarde, em meados dos anos 1980, pode-se observar, e desta vez sem nenhuma data festiva, uma efervescência intelectual (e editorial) comparável. Evidentemente, esses vinte anos não haviam configurado um hiato na produção textual sobre o Rio. É nítido, porém que aqueles anos representaram o clímax de um movimento iniciado em 1978, delineando uma expansão da produção dedicada à análise da cidade, organizada a partir de novos recortes temporais e temáticos, e ainda, de novos referenciais teóricos.

Globalmente, talvez a mais notável característica da produção neste período tenha sido a emergência de análises de cunho historiográfico, fazendo um contraponto aos estudos predominantes, até então – dedicados às críticas de cunho político-sociológico e que privilegiavam a análise de estruturas, formas e processos sociais do “tempo presente”. O “Rio antigo”, e particularmente a segunda metade do século XIX emergia como objeto de inúmeros estudos num ritmo cada vez mais acentuado e de uma forma, até então, inédita.1

Como justificar, sem nenhuma causa explícita, este movimento? O que teria movido historiadores e não historiadores – geógrafos, arquitetos, sociólogos, economistas e até mesmo médicos – a eleger novos, e específicos, momentos da história social como objeto de observação e análise? O que levou um grande grupo de intelectuais a partir de 1978/79, mas sobretudo nos primeiros anos da década de 80, a privilegiar um passado, até certo ponto longínquo, da vida urbana? Como evoluiu este “interesse” pela história urbana? Esta irrupção dos temas históricos expressava um modismo acadêmico ou seria uma estratégia de luta política? Os conteúdos das análises expressavam visões inovadoras ou não? Isto é, perpetuavam certas representações da vida em sociedade que acabavam por manter – como num círculo vicioso – um velho entendimento do estado, como exercício de uma autoridade absoluta e excludente, e em consequência visões da própria cidadania?2

Vejamos, primeiramente, a tradução deste movimento em números. Em levantamento realizado em 1992 no URBANDATA3 sobre os títulos em circulação registrados como trabalhos de “história urbana” do “Rio de Janeiro” era possível identificar 149 trabalhos enfocando o século XIX, particularmente, o período 1850-1906. Na mesma rubrica apenas seis outros títulos registrados tratavam de outras décadas do século XX. Por fim, esse conjunto de textos havia sido produzido em um curto lapso de tempo - 14 anos - todos a partir de 1978.

Ainda que possamos considerar não ·exaustivo este mapeamento, a análise da própria bibliografia citada nesses 155 títulos revelava que raras eram as referências feitas a trabalhos historiográficos produzidos entre 1969-1977. Quando trabalhos sobre a cidade eram citados tratavam-se, sobretudo, de publicações surgidas nas comemorações do Quarto Centenário da cidade, em 1965, como, por exemplo, a Coleção Vieira Fazenda (Ed. Brasiliana) e a Coleção Rio 4 séculos (Ed. José Olympio).


Com efeito, no Brasil, a produção textual sobre o mundo urbano até quase o final da década de 1970 se mostrava envolvida diretamente com a atualidade. Fatores internos, muito específicos e fatores externos, mais globais e ligados á própria configuração do campo das ciências sociais e humanas interferiam no perfil desta produção. Pode-se dizer que, grosso modo, a maior parte das análises buscava avaliar o crescimento urbano, sensível particularmente após a construção de Brasília, face ao modelo e ao processo de desenvolvimento econômico do país a partir de 1964.

Aquele ano configurara mudanças, não só na vida política mas sobretudo na forma de operar do poder público, e era evidentemente um momento de ruptura. Pode-se até mesmo dizer que, em função desta ruptura e das posturas ideológicas dos próprios cientistas sociais, como veremos a seguir, o grande objeto de estudo nos trabalhos sobre as cidades brasileiras produzidos à época seria, antes de tudo, o Estado e sua lógica de ação num quadro econômico ao mesmo tempo capitalista e dependente.4

Internamente, o censo demográfico de 1970 ao mostrar que a maioria da população brasileira já vivia em cidades, chamava a atenção para o fenômeno urbano no Brasil levando sociólogos, geógrafos e economistas a examinar as migrações campo-cidade, os desequilíbrios regionais, as formas de absorção dessa nova população urbana pelo mercado de trabalho ou ainda as intervenções do poder público, induzindo, controlando ou ignorando este movimento de urbanização crescente e as demandas diferenciadas das novas urbanas.

Implícita ou explicitamente, o planejamento (ou, o seu contrário, o laissez-faire e o descompromisso estatal) surgia como tema conexo. Buscava-se, assim avaliar como a organização do espaço( nacional, regional, urbano) promovida pelo estado respondia ou não às demandas da sociedade à época, isto é, como a ação do poder público, submetida ao grande capitalismo era capaz de garantir a reprodução da força de trabalho ou o entorpecimento das revoltas urbanas, administrando tanto a expansão da produção quanto a provisão de bens de consumo urbano coletivos ( transporte, redes de infraestrutura e equipamento comunitário) ou mais particularizados (moradias).5

Nesta perspectiva, estudava-se as mudanças na cidade, mas também no campo, uma vez que tudo parecia indicar que havíamos chegado a uma “era urbana” – e nos países industrializados, certamente a um momento de urbanização generalizada – que descontruíra completamente a antiga antinomia cidade-campo.

Campos disciplinares e seus objetos de estudo

É neste ponto que torna-se necessário avaliar esta produção local em relação à própria forma como certos campos disciplinares se desenvolvem e constroem seus objetos e suas problemáticas. Com efeito, boa parte das obras produzidas no Brasil no início dos anos 1970, tomava como referência do ponto de vista teórico a releitura do pensamento marxista promovida, de modo muito diferenciado, por Lefebvre , Althusser, Touraine, desde a década de 60 e insuflada em seguida pelos trabalhos de Castells, Lipietz , Lojkine e uma nova geração de sociólogos franceses extremamente ativos naqueles anos.

Para estes teóricos o entendimento da atividade intelectual como prática social inserida nas lutas de classe revestia a escolha do objeto de estudos de uma intencionalidade explícita de resistência à uma visão capitalista e elitista de mundo. Esta postura ideológica que atravessava, assim, o próprio campo das ciências sociais, reforçava o interesse dos intelectuais pela lógica do Estado capitalista pensado frente a um modelo (ou pelo menos a um ideal) de Estado socialista que permanecia como promessa.6 No caso brasileiro, o autoritarismo vigente da década de 70 tenderia a enfatizar tanto este entendimento do exercício intelectual como ação política de resistência e combate quanto o interesse pelo Estado, como objeto de reflexão.

Quanto ao urbano, seja como estrutura e forma, seja como relações sociais, Castells, por exemplo – um dos autores mais citados nestes trabalhos até meados da década de 1970 – insistia em afirmar que “a relação entre sociedade e espaço é função da organização particular de modos de produção coexistentes, com um deles dominantes em uma formação concreta e da estruturação interna de cada um dos ditos modos de produção em função da conjuntura”.7 Para ele, “os traços fundamentais da cultura urbana [e que portanto a definiriam] eram consequência direta do processo de industrialização e , para alguns destes traços, da industrialização capitalista”.8

Partindo destas premissas gerais é necessário decompor esta afirmativa e evocar duas tendências que se desenhavam no campo intelectual, quanto à relação urbanização-industrialização. Assim, alguns, guardando uma visão “evolutiva” insistiam em comparar o que acontecia agora nos países “sub-desenvolvidos” com o processo vivido pelos países industrializados no inicio da chamada revolução industrial. Outros, observando a repartição e o crescimento das atividades produtivas eram levados a constatar que a urbanização nem sempre era resultado da industrialização, sobretudo diante das evidências de ‘tercerização’ da economia urbana e do crescimento do setor “ informal’ nas cidades do “terceiro mundo”, como se dizia à época. Esta constatação levava os teóricos do segundo grupo, o próprio Castells entre eles, a elaboras novas explicações para este processo de industrialização capitalista vinculando, entretanto, o crescimento e a forma urbana aos seus efeitos, mesmo quando a urbanização não era acompanhada do crescimento do setor secundário.

Pode-se dizer, em resumo, que, malgrado a diversidade das estruturas e comportamentos sócio-econômicos observados, buscava-se confrontar e submeter esta diversidade empírica a uma unidade teórica capaz de ‘explicar’ a totalidade e a universalidade do fenômeno urbano.9

A cidade tornava-se, grosso modo apenas, um centro de difusão do capitalismo e naquela conjuntura, do capitalismo monopolista. No caso brasileiro muitos afirmavam com Carlos Nelson, por exemplo, que o Estado autoritário e do milagre econômico, pareceria cada vez mais “identificar-se plenamente com o capital, assumindo o controle do espaço para desembaraça-lo dos entraves que não lhe interessavam por não assegurar o lucro em escala e velocidades convenientes”.10

Pode-se dizer que o interesse pela história recente do país e das cidades, isto é, após 1964, encontrava-se – teórica, ideológica e politicamente - justificada em uma série de trabalhos que, de forma mais ou menos clara enfocava o urbano e a urbanização a partir, sobretudo, da ótica da economia e da luta de classes privilegiando como objeto de estudo o estado (capitalista) e a problemática do planejamento do crescimento. Esse interesse se reforçava ainda com as expectativas de reversão desta configuração e de construção de um novo modelo de organização e desenvolvimento econômico e social (para muitos, naqueles anos pós-1968, em bases socialistas).

É a partir deste quadro geral que talvez possamos entender a multiplicação de trabalhos sobre o BNH e a habitação popular que marcaram os estudos desenvolvidos ao longo da década de 197011, pois talvez tenha sido neste setor que o estado tenha agido de forma mais incisiva. Foi justamente, em torno da temática habitacional que os níveis de análise sociológica mudaram de patamar e passaram a observar o social e seus atores de forma menos abstrata, denunciando inclusive as teorias econômicas “imobilistas”.12

Rapidamente, talvez já a partir de meados da década de 1970, parte destes trabalhos, embora sem abandonar os pressupostos das teorias econômicas aplicadas à uma sociedade capitalista e dependente, começava a sublinhar as especificidades e diversidade de expressões que este mesmo capitalismo poderia assumir em cada contexto. Mais ainda: explicava-se cada vez mais o resgate de algumas temáticas tradicionalmente tratadas pela Escola de Chicago - ainda que para atualizá-las e rediscuti-las- e que num primeiro momento haviam permanecido algo “marginais”, ou talvez, sufocadas, diante de uma produção teórica fortemente neo-marxista.13

Assim, observa-se que os pesquisadores passaram a deslocar gradualmente seus objetos de estudo das favelas e dos conjuntos habitacionais – tomados apenas enquanto formas e espaços engendradas pela lógica do Estado e do capital – para outros temas. Passaram a se ocupar, por exemplo, de diversos “estudos de caso’ que elegiam como focos de interesse os processos de organização ou adaptação individual e coletiva dos habitantes daqueles territórios na cidade, a persistência de subculturas autônomas, sua integração na “cultura urbana”, as redes de parentesco, de solidariedade, etc.

Estado, Burguesia, Capital, Proletariado, passavam a ter seu significado reavaliado na medida em que a comparação dos casos não se acomodava facilmente á grade teórica e à mecânica de análise, quando observados do seu interior.

A historiografia no final dos anos 1970

A produção de caráter historiográfico sobre a cidade do Rio de Janeiro que ressurge a partir do final dos anos 1970 será em grande parte marcada teoricamente, nos seus primeiros trabalhos, pela continuidade desta vertente neo-marxista que havia insuflado a sociologia urbana anos antes. Do ponto de vista temático ela retomará, inclusive, caminhos seguidos pela sociologia urbana ao longo da década de 70, elegendo como objeto de estudo a ação do Estado sobre o urbano, e privilegiando também a observação das habitações populares.

Mas, por outro lado, essa historiografia nascente revelará também os contornos de outros movimentos que se desenvolviam no interior da própria sociologia e que a aproximava da investigação antropológica. Na verdade, as reflexões sobre a cidade movida por teóricos oriundos de outros campos disciplinares emergiam neste final da década, agora com nova força, e acirrava-se a crítica à rigidez e ao reducionismo de certas teorias.

A comparação no presente de formas urbanas e práticas sociais geográfica e espacialmente distanciadas havia apontado singularidades que mereciam ser levadas em consideração para a inteligibilidade do objeto urbano. Agora, era a observação no tempo que parecia ser cada vez mais necessária até mesmo para os planejadores.

A história era resgatada na medida em que permitia compreender a natureza do artefato urbano, entendido como obra humana, e como tal dotada de sentidos que se formam em temporalidades diversas. O espaço construído começava a ser entendido como um suporte privilegiado para a leitura destas inscrições de sentido e a história permitia captar a diversidade no tempo e a complexidade dos laços que unem objeto urbano e práticas sociais.14

Por um lado, a observação da dimensão temporal passaria a ser cada vez mais convocada por geógrafos, cientistas políticos ou arquitetos em seus trabalhos. Por outro, os próprios historiadores, ainda que guardando uma abordagem predominantemente macro-econômica, começavam a se voltar cada vez mais para a observação das especificidades regionais, redirecionando, assim, e num movimento crescente, a atenção para o urbano.

Esta emergência da dimensão histórica e particularmente da história social urbana, beneficiou-se ainda da crescente difusão das obras dos teóricos franceses ligados à Escola dos Annales, ou de historiadores que, em outras partes do mundo, lhes eram próximos. A tradição dos Annales, em sua defesa de colaboração interdisciplinar e da observação das estruturas e conjunturas sociais num tempo longo – ‘la longue durée’ – parecia extremamente atual neste esforço de compreensão dos traços que cada cidade e cada sociedade possuía também de original e irredutível, face à uma teoria unitária dos espaços urbanos.15

Com efeito, a historiografia dos Annales sempre defendera uma colaboração estreita entre “as ciências do homem” insistindo sobre uma desejável interdisciplinaridade capaz de entender esta humanidade ao mesmo tempo como subjetividade e como cultura, enquanto estruturas mas também enquanto ideologias, enquanto histórias mas também enquanto geografias, enquanto poder, mas também enquanto liberdade.

Pode-se dizer que estes historiadores começavam a anexar com seus novos objetos de estudo o território disciplinar de etnólogos, sociólogos, demógrafos, semiólogos ao mesmo tempo que tomavam distância das próprias práticas de pesquisa que tinham governado o procedimento disciplinar de historiadores nas décadas precedentes. Começavam assim a tentar decifrar de outro modo as sociedades, distanciando-se tanto do marxismo e do estruturalismo, quanto da própria forma como seus antecessores, no grupo dos Annales, contemplavam a história das estruturas e das conjunturas. Resgatavam, sob a designação de ‘história das mentalidades’ o estudo dos utensílios mentais através dos quais indivíduos e grupos dão sentido aos seus mundos, penetrando na trama das relações e das tensões que constituem as sociedades e considerando, portanto, não haver prática ou estrutura que não seja produzida pelas representações.16

Neste sentido, convém insistir, que o pensamento destes intelectuais não configurava uma reação momentânea, conjuntural, aos teóricos neo-marxistas mas uma forma outra, ou “nova” - como se dirá - de escrever e observar a história delineada por Marc Bloch e Lucien Febvre desde os anos 1920 e sucessivamente “ampliada” e (re) definida por Fernand Braudel, e naquele momento, redirecionada quanto aos seus objetos e problemáticas por Duby, Le Goff, Le Roy Ladurie, Nora, Chartier, Ozuf, Agulhon, Chaunu, entre outros – a chamada terceira geração.

Na verdade o interesse que a tradição historiográfica dos Annales vinha devotando à análise das estruturas econômicas e sociais permitia uma troca entre muitos destes historiadores e a corrente neo-marxista e até mesmo a “influência” do pensamento destes sobre alguns membros desta nova geração.17

A partir de fins da década de 1960, e particularmente ao longo da década de 1970, o itinerário intelectual dos historiadores da ‘terceira geração’ dos Annales, renovaria o movimento, deslocando também gradualmente os seus interesses da base-econômica para a “superestrutura” cultural, até mesmo como uma certa reação contra qualquer espécie de determinismo.18

É certo entretanto, que o pensamento destes historiadores franceses não penetrava de forma tão cristalina o meio intelectual carioca nos finais da década de 1970, mas o movimento mais generalizado de revisão de sistemas globalizantes de interpretações no qual suas obras se inseriam e ajudavam a alimentar interferia no “circuito” intelectual de forma mais geral e repercutia, assim, em diversos campos disciplinares. Isto contribuía, ainda que discretamente num primeiro momento, para reorientar o olhar e o discurso sobre a cidade em direção ao passado e para esta trama de representações e práticas específicas que constroem o social.

Gêneses

No caso carioca, dada a forma como os estudos urbanos se desenvolviam até aquele momento – sobretudo por economistas e sociólogos – os primeiros trabalhos desta nova geração de estudos historiográficos sobre o Rio de Janeiro, surgiram em centros de formação e pesquisa sobre o planejamento do crescimento urbano e, ou, de análise e a elaboração de políticas públicas.

Neste sentido, foi um instituto voltado para o planejamento urbano, o IBAM, que patrocinou uma das primeiras obras que apontava para um “ressurgimento” da história no discurso sobre o urbano. Seus autores, Maurício Abreu e Olga Bronstein, tratando do impacto das políticas públicas nos mecanismos de segregação de camadas urbanas na região metropolitana, sentiram-se impelidos a retroceder até meados do século XIX para buscar entender a gênese deste processo.19 Se o trabalho pautava-se na observação das políticas públicas e portanto voltava-se para o papel do Estado, ele abria este espaço novo à história e inaugurava uma nova forma de cooperação interdisciplinar na observação da cidade já que seus autores, eram, respectivamente, geógrafo e socióloga.

Mas o interesse dos planejadores e dos homens envolvidos com as questões de planejar o crescimento e o desenvolvimento no presente, iria ainda viabilizar uma outra pesquisa dedicada à história urbana – esta de caráter francamente historiográfico e que estimularia uma série de novas reflexões sobre a história da cidade. De fato, com o apoio do IBMEC e da extinta Fundação para o Desenvolvimento da Região Metropolitana do Rio de Janeiro – FUNDREM as historiadoras Eulália M. Lahmeyer Lobo, Maria Bárbara Levy e Maria Yedda Linhares – estas duas enquanto colaboradoras – realizariam um vasto levantamento e tratamento de fontes “esquecidas” sobre a história da cidade desenhando um amplo painel da sua história econômica. Surgia uma história do Rio de Janeiro que através do tempo – da colônia à República – colocava a cidade e os citadinos envolvidos num “oceano de números”20 tão rico em suas diferenças que fazia quase visualizar, e de maneira absolutamente nova, a existência desses homens e mulheres escravos ou libertos, padres ou artistas, empresários, modistas ou comerciantes envolvidos no mundo do capital e do trabalho.

Pouco a pouco se definia também o marco inicial deste movimento em torno da historiografia urbana que, como vimos tomando como fonte os registros do URBANDATA, parecia situar-se por volta de 1978. Naquele ano, além do trabalho de Abreu e Bronstein – de circulação restrita, mas que obteve uma repercussão significativa – e aquele de Eulália Lobo, a história urbana passaria a ser resgatada através de estudos voltados para o campo da medicina social, com publicação do livro organizado por Roberto Machado intitulado A Danação da Norma.21

Esta obra dedicada ao nascimento da psiquiatria no Brasil e a institucionalização da medicina social no Rio de Janeiro através de uma observação dos discursos dos médicos higienistas e aquele do psiquiatra Jurandir Freire, Ordem Médica, Norma Familiar, publicado no ano seguinte, e também dedicado às interferências destes discursos no espaço doméstico no século XIX, viriam não apenas imprimir ao tema do “controle social”, já evidentemente presente, nos estudos sobre o Estado, um novo direcionamento teórico. Esses trabalhos incidiriam e como que renovariam muitos dos estudos sobre a habitação que, pouco a pouco, se voltariam também para a história.22

Abrindo o espaço urbano à observação de pensadores de outras “áreas”, esta nova perspectiva teórica era nitidamente tributária dos trabalhos de Michael Foucault em Histoire de la Folie (1961, reed. 1972), L’ordre du Discours (1971) e Surveiller et Punir, recém publicado em 1975. O pensamento de Foucault caminhara em paralelo à terceira geração dos Annales, permitindo-nos falar, para além da ênfase colocada por uns na continuidade e pelo outro nas rupturas, em mútuos pontos de contatos, sobretudo no que diz respeito à história das mentalidades e da história cultural.23

Em meados dos anos 1970, Foucault já era considerado na França o teórico do “enclausuramento”, do controle social e do poder de normalização nas sociedades modernas, mas, sobretudo dera início às suas observações sobre a questão do sujeito ocidental e como ele próprio se constituíra em objeto de discurso e de saber. Seus contatos com o meio dos arquitetos franceses, representado particularmente por Bruno Fortier, também seriam estreitos naqueles anos, sobretudo com a publicação do estudo sobre o Hotel-Dieu (Machines à Guérir: 1979) que pode-se dizer, reintroduziria a história nas Escolas de Arquitetura francesas.

Talvez, a sua maior contribuição para a história urbana que começava entre nós a ganhar seus primeiros recortes é que ainda por outros caminhos, estas obras e a de seus pares brasileiros, contribuíam para deslocar gradualmente o tema do Estado visto como forma monolítica e abstrata, para a problemática do poder, e mais ainda, para as relações que o pensamento (o discurso, mas também as práticas) dos homens entretêm com a verdade e com a história. Era o tema das representações que se explicitava.

Primeiros recortes

Com estes livros e trabalhos surgidos em 1978-79, estavam lançadas as vertentes em torno das quais a história do Rio de Janeiro seria contemplada a partir de então durante mais de uma década ainda que de forma desigual e com intercruzamentos, a saber: as políticas públicas particularmente nos campos da habitação, saúde e transporte; a urbanização, de modo abrangente, com ênfase na emergência e evolução de “formas” e áreas em suas articulações com funções ou atividades urbanas engendradas pelo poder público e/ou pelo capital – vale dizer pelas classes dirigentes e/ou dominantes; os mecanismos de controle social e “aculturação”, com ênfase na observação de comportamentos e práticas de certas classes ou grupos (a classe dominante, a burguesia, os intelectuais, os médicos ou engenheiros, por exemplo, versus o operariado e as camadas populares); e por fim as ideologias e seus dispositivos melhor com ênfase na análise dos discursos e das representações sociais.

Pode-se dizer que as duas primeiras vertentes eram nitidamente marcadas pelo caminho teórico-temático trilhado pela sociologia urbana enquanto as duas últimas evidenciavam as contribuições da epistemologia, da linguística e da história das mentalidades. Estas vertentes, não se desenvolveram, entretanto nem linearmente, nem num mesmo ritmo. Os estudos sobre as políticas públicas e a evolução de áreas e “formas” urbanas entendidos a partir das articulações entre estado, burguesia e capital, foram os que primeiro ocuparam os estudiosos e foram preponderantes até 1985/86. Aqueles sobre instituições e mecanismos de controle social, pontuais entre 1978 e 1983, se afirmariam, sobretudo a partir de 1984, suscitando interesse até 1992. Por fim, aqueles sobre as mentalidades, também perceptíveis pontualmente desde 1981, só a partir de 1986 passariam a nortear grande parte da produção, desdobrando-se já na década de 1990 para os estudos culturais.

Em resumo, talvez se possa dizer que esta historiografia urbana deslocaria gradualmente seu interesse das políticas públicas e formas urbanas, para os atores sociais e por fim, para as suas visões de mundo, incluindo aqui - após 1987, mas, sobretudo a partir de 1992 - os arquitetos e urbanistas.

De fato, a partir de 1982, quando no Rio de Janeiro o ressurgimento da história urbana já constituía um movimento com pelo menos 16 estudos sobre cidade no século XIX vindos a público em um espaço de apenas quatro anos, outros fatores passaram, gradualmente, a interferir quase ano a ano, no desenvolvimento da produção historiográfica.

Assim, a circulação destes trabalhos levava à comparação dos resultados de pesquisa, ao cruzamento de hipóteses ou a indicação de novos objetos a serem explorados. Por outro lado, alguns programas de pós-graduação estimulariam linhas de pesquisa em torno da história urbana, o que ampliaria ainda mais o próprio movimento. Neste sentido, desde 1979/80, foram extremamente importantes: na UFF o Mestrado em História; na UFRJ os Mestrados em História, Geografia e em Planejamento Urbano – primeiro na COPPE e depois no PUR; na PUC sucessivamente, o Solar Grandjean de Montigny, o Curso de Especialização em História da Arte e da Arquitetura no Brasil e o Departamento de História. Somam-se a isto os primeiros balanços críticos do movimento, realizados em 1983 e sucessivamente em 1985 e 1986, o que propiciava discussões, apontava lacunas e estimulava revisões.

Observando o perfil da produção pode-se notar alguns focos de atenção e inclusive como as formas de abordagem tensionaram a historiografia nitidamente marcada pelo ponto de vista neo-marxista e pelas análises socioeconômicas, abrindo espaço para uma história-problema, de caráter mais cultural.

Este movimento, no plano teórico, terá consequências sobre os recortes temporais a serem privilegiados. É certo que os estudos se concentram, sobretudo em torno da observação da segunda metade do século XIX e quase todos obrigatoriamente evocavam a virada do século XX. Nem sempre 1888/1889 (com a abolição e com o fim da monarquia), foi considerado o final de um ciclo de urbanização, que teria se iniciado em 1850 para uns (com a interdição do tráfico de escravos e drenagem de capitais para o meio urbano) e para outros em 1870 (estabilidade com o fim da guerra do Paraguai). Esse período foi estendido por uns até 1906 (com o fim da era Passos), até 1910 (com o fim das obras concebidas na era Passos), ou até 1914 (com a primeira guerra). Uma grande parte dos estudos concentrou-se, ainda, entre 1880 e 1920 ou 1890 e 1934, de acordo com a ênfase dada à industrialização ou à política.

A partir do resgate da história urbana empreendido por Abreu e Bronstein, os estudos sobre as políticas públicas e a evolução urbana começaram por se fixar num primeiro momento geograficamente em torno de certas áreas da cidade: particularmente o centro e a zona portuária. Isso associado aos trabalhos voltados para a ação médica no Rio desenvolvida pelo Centro de Memória Social Brasileira, cujos primeiros relatórios datam de 1980.24 Seguiram-se, entre outros, os trabalhos de Carvalho 1981, Araújo 1981, Bodstein 1984, Elia 1984, Gonzaga 1984, Porto Rocha 1984.25 Por outro lado, o foco do interesse foi rapidamente se ajustando em torno da virada do século e, mais particularmente, das intervenções urbanas empreendidas no governo Rodrigues Alves e da figura do prefeito Pereira Passos.

À luz da teoria marxista as ações autoritárias e aparentemente coesas da prefeitura e do governo federal naquele período eram exemplares em muitos planos. A observação mais particularizada deste período ou de certos movimentos na esfera da economia, da organização social e política, ou da ideologia pareciam ilustrar um momento excepcional em que a lógica das classes dominantes e do capital parecia ser plenamente absorvida e implementada pelo Estado. Por outro lado, parecia ser aí que a gênese de certas disfunções e desigualdades na divisão social do espaço urbano, observadas anos mais tarde, sobretudo no trinômio saúde, habitação e transporte, por exemplo, começariam a ser aguçadas.

A fertilidade da produção em torno das reformas urbanas de 1902-1906 – de seus pressupostos e de suas consequências – foi notável entre 1983 e 1985. Entretanto, alguns trabalhos, diferentes em sua natureza e em seus objetivos, se demarcaram não apenas por serem os primeiros a abordar o tema das reformas, como pelo esforço de retraçar um amplo cenário histórico sobre a herança colonial que estas grandes obras urbanas viriam “corrigir”.

O primeiro deles foi a tese de Jayme Benchimol defendida em 1982 no COPPE da UFRJ26, enfocando as transformações urbanas desde início do século XIX e observando as “implicações da substituição do trabalho escravo pelo trabalho livre e a modernização capitalista” da área central. Este processo, que as reformas urbanas do período Passos viriam concluir e consolidar, era minuciosamente investigado através das estratégias de intervenção do capital e do Estado na organização de diversos serviços urbanos ao longo do século, concluindo na observação das reformas propriamente ditas.

A este trabalho, viria a se somar, em 1983, a tese de Oswaldo Porto Rocha dedicada também às obras do início do século XX e elaborada no âmbito do programa de Mestrado da UFF27. Partindo de Engels e das relações entre capitalismo e urbanização, seu autor chamaria a atenção para as associações científicas enquanto entidades de classe, enfocando a consagração da técnica e da ciência na cultura carioca da segunda metade do século XIX e, sobretudo, nas obras urbanas do governo Rodrigues Alves. Seu interesse, não era o de observar os médicos, mas agora, também os engenheiros e foi o primeiro que, guardando categorias de análise marxistas, sublinhava a importância do campo da cultura e inclusive da cultura técnica a a da “outra cidade” que resistia às demolições e aos interesses de classe de Frontin e Passos. Descrevendo ainda que rapidamente os universos dos babalaôs e dos “tios” e “tias” da “pequena África” da Praça Onze ou da Cidade Nova, Porto Rocha, se insinuava no universo da música popular e do samba, mostrando a pluralidade cultural do espaço urbano, relativizando assim, a sua própria ótica.

Atingindo um público mais amplo, em 1983, dois livros retomariam certas temáticas tratadas nestes dois trabalhos de circulação mais restrita e acadêmica. Por um lado, Roberto Moura, enfatizaria ainda mais o movimento de observação das “culturas” urbanas, e particularmente da cultura popular, ao publicar um livro inteiramente dedicado à história da “pequena África” e de um dos seus mais importantes personagens, a Tia Ciata28. Em outra direção, observando também as reformas urbanas, Nicolau Sevcenko se fixaria em outro grupo “os homens de letras” publicando Literatura como Missão, em torno de uma análise da obra literária de Lima Barreto e Euclides da Cunha face ao quadro ideológico do Rio de Janeiro da virada do século.29

O interesse pela segunda metade do século XIX se mantinha, mas os trabalhos tenderiam a se concentrar a partir de 1983, mais particularmente no período da “Belle Epoque” carioca. A crítica às análises de cunho marxista, começavam a ser explicitadas (Pechman 1983)30 e embora, seus alicerces teóricos não fossem plenamente abalados mesmo os trabalhos que privilegiavam o viés da história econômica mostravam agora muito menos os discursos hegemônicos que os conflitos ‘inter pares’.

Depois do trabalho de Bechimol, os estudos sobre as reformas urbanas absorveriam cada vez mais a história de longa duração, mesmo quando seu objeto era voltado para análise de transformação de áreas ou funções. Colocando a ênfase nas reformas urbanas do período Passos a tese de Sérgio Lamarão31, por exemplo, defendida em 1984, observaria a evolução funcional da chamada “zona portuária” desde o período colonial até as obras de requalificação do início do século XX. Este trabalho, completando o trabalho de Benchimol e Porto Rocha, chamaria a atenção (através da pluralidade de projetos apresentados para a área) para as divergências de lógicas, cada vez mais nítidas, no interior do próprio grupo de agentes modeladores deste novo espaço urbano e social.

Dando continuidade a trabalhos como os de Eulália Lobo (1978 e 1981), o capital começava gradualmente a ser estudado em sua composição e em suas estratégias diferenciadas de reprodução e acumulação. Grupos como o formado no PUR da UFRJ sobre a habitação e o uso do solo, esmiuçavam a partir de 1984 não apenas o grande capital mas também os pequenos proprietários e o capital imobiliário.32 Teses se voltavam para o processo de industrialização e, portanto para as lógicas de expansão do capital industrial (Motta 1982, Siqueira 1984, Monteiro 1984, Van de Weid 1984).33

Outros pesquisadores ainda, como Magali Vainfas e Sidney Chaloub, mesmo quando abordavam o tema controle social e apontavam as lógicas de classe, contemplavam de forma cada vez mais nítida, os atores sociais em suas tensões e diferenças: a primeira observando o discurso médico frente à prostituição e o segundo as relações entre os três mundos urbanos a que o crítico Antonio Candido aludira – o do trabalho, o do lar e o do botequim.34

A história urbana deste longo século XIX sensibilizava agora, não apenas historiadores, geógrafos, sociólogos ou planejadores mas também cientistas políticos, críticos literários ou de cinema. Em paralelo à nova geração dos Annales, gradualmente estes estudiosos do passado urbano carioca voltavam-se para novos objetos, elegiam novas problemáticas, debruçavam-se sobre velhas revistas, anúncios de sessões de cinematógrafos ou álbuns de retratos. Transformavam até mesmo um dia ou uma rebelião – como as reflexões de José Murilo de Carvalho e de Nicolau Sevcenko sobre Revolta da Vacina – em ocasião para pensar os homens e suas relações com a autoridade, com o poder, com a política, como citadinos e cidadãos.35

Pesquisadores estrangeiros e brasileiros desenvolvendo trabalhos no exterior, também dedicavam teses e artigos sobre o Rio de Janeiro no século XIX (El Kareh 1982, Keremitsis 1982, Adamo 1983, Needel 1983). No Brasil, a partir de 1982 se desenharia até mesmo um movimento editorial sem precedentes. Naquele ano seria publicado O Álbum da Avenida Central com fotos da época de Marc Ferrez e já no ano seguinte, além dos livros citados de Sevcenko e Moura, apareceria também a série “História de bairros”, cujo primeiro trabalho foi sobre Botafogo, seguindo-se trabalhos sobre a Tijuca (1984), Copacabana (1986), Saúde, Gamboa e Santo Cristo (1987).36

A crescente expansão da área atraía ainda o interesse de novos pesquisadores e instituições – como a Fundação Casa de Ruy Barbosa e o Arquivo Geral da Cidade – aumentado o volume de pesquisas, publicações ou colóquios e até mesmo instituindo premiações. Entre 1984 e 1985, surgiria ainda a Revista do Rio de Janeiro, de vida curta mas que desempenhou um papel capital no incremento da área divulgando dezenas destes trabalhos para um público mais vasto.

Entre 1978 e 1984 as reflexões haviam evoluído do estudo das habitações e das políticas higienistas para o tema mais amplo das reformas urbanas na área central-portuária. Entre 1985 e 1986 a observação do Rio Belle-Époque das reformas Passos atingira seu apogeu, sendo observada, até mesmo, literalmente, a cada dia (Brenna 1985). Passara-se da análise da habitação ao habitat e os historiadores haviam começado a vasculhar o universo das atividades econômicas urbanas. Agora observações cada vez mais particularizadas tanto do ponto de vista geográfico – com o estudo dos bairros e dos subúrbios – como do ponto de vista social, ganhavam nitidez.

A crítica ao entendimento e subordinação da forma – social e espacial – da cidade à lógica capitalista, levara também a um certo “mal estar” teórico. Após 1983 – tendo o trabalho de Pechamn como marco crítico – muitos textos buscaram um “tom” descritivo, capaz de assegurar uma total “neutralidade” ao discurso histórico no resgate da memória urbana como se até este “desejo de memória e história” fosse ingênuo e não fosse ele também atravessado por visões de mundo.

Do engajamento político explícito e da crítica – através da história – a um momento de violentas transformações urbanas, demolições em massa, crescimento da especulação fundiária e imobiliária, autoritarismo, observados ao longo da década de 1970 e no início dos anos 80, a produção, ao crescer em número, havia propiciado revisões quanto a sua própria inserção no campo do político e um amadurecimento em torno das temáticas e problemas. Mas, parte dela, também renunciara à sua capacidade de se pensar e aos seus objetos – os homens e suas obras – criticamente.

É neste quadro que podemos compreender o esboço de protesto no texto de Lilian Fritsch (1986) sobre os trabalhos dedicados às reformas urbanas, o artigo, mais enfático e polêmico, de Maria Alice R. Carvalho (1986) de crítica ao estudo do urbano enquanto fragmentação ou ainda algumas das discussões que introduzimos na tese que elaborávamos nestes anos, enfatizando a desejável atenção para as especificidades da cultura urbana americana (em seu viés brasileiro) e, sobretudo, carioca.37

Na verdade, a partir de meados dos anos 1980, um novo ciclo se abriria no interior desta historiografia urbana que viria lentamente buscar repensar a cidade e a vida citadina agora em outras bases. Esta “posição” teórica, já esboçada em alguns trabalhos precedentes38, só a partir de 1986/87, se configuraria enquanto uma orientação nítida dentro do conjunto. Neste sentido, a publicação de Os bestializados de José Murilo de Carvalho, pode ser considerado um novo marco39. Ao deslocar a atenção para a construção semântica da ideia de ‘povo’ no primeiro tempo republicano brasileiro (e carioca), J.M. de Carvalho enfaticamente sublinhava o campo das idéias e das mentalidades dos diferentes atores do seu interior e coloca a exploração deste território mental e as práticas políticas elas próprias como um desafio ao historiador de cidades e sociedades em seu ofício.

Entre 1987 e 1992, de modo geral a historiografia dedicada ao Rio de Janeiro insistiu neste desafio e embora a produção diminuísse em termos quantitativos, ela foi se recentrando, reganhando sem dúvida, espessura teórica e fineza na observação dos atores sociais. Estes começaram a ser observados ao mesmo tempo de prismas mais abrangentes enquanto grupos ou categorias, mas de forma mais circunscrita e aprofundada seja em suas ações seja em seus sonhos. Bestializados e bilontras. Prostitutas, capoeiristas, carroceiros, vadios, jogadores e mendigos. Médicos, engenheiros ou tipógrafos, empresários e intelectuais. ‘Cabras’ e ‘pés de chumbo’. A infância, a pobreza, a ordem ou o progresso, o masculino e o feminino, o efêmero e o perene, - as palavras e os recortes passaram a se suceder e se entrecruzar nos enunciados dos artigos, das teses e dos relatórios de pesquisas que continuariam sendo produzidos naqueles anos.

Ora, se o próprio campo da história urbana se construía nesse processo é necessário assinalar entretanto algumas assimetrias. Essas assimetrias dizem respeito justamente ao inexpressivo número de trabalho que durante a década de 1978-1988, enfocaram de modo privilegiado a história da arquitetura e do urbanismo no Rio de Janeiro, entendida como a história de um segmento social que ativa e legitimamente interfere diretamente na concepção e construção da cidade tanto enquanto “forma material”, mas também através de suas ações, seus sonhos e suas ideologias “científicas” ou “artísticas” constrói a cidade como “forma social”, dimensão que justamente foi privilegiada nos trabalhos ao longo desse período.

De fato, ainda que aspectos dos ritmos do processo de urbanização ou da divisão social no espaço urbano fossem apontados, a história da cidade enquanto artefato construído materialmente quer pelos seus habitantes quer pelas categorias profissionais diretamente afeitos à essa função (arquitetos, engenheiros, empresas construtoras) e a própria análise crítica de suas diferentes lógicas construtivas apenas seria lateralmente enfocada na maioria dos trabalhos escritos até 1988, por exemplo. Assim, a área específica da história do urbanismo ou a história da atuação dos profissionais arquitetos e urbanistas no Rio de Janeiro, foi tributária evidentemente do próprio processo histórico-ideológico que foi construindo a história da cidade como objeto de estudo.

Curiosamente, pode-se dizer que a história da arquitetura e do urbanismo havia saído praticamente à frente nesse processo ao ser publicado em 1979 o livro Rio de Janeiro: uma cidade em questão – Grandjean de Montigny, sob a coordenação da pesquisadora italiana Giovanna Rosso Del Brenna. Marcada pela história urbana italiana, das mais importantes no contexto europeu até o final da década de 1970, Brenna, instalada no Brasil, impulsionaria de modo marcante os estudos justamente de história urbana no Rio de Janeiro ao longo da década, publicando, como vimos, um segundo livro da série Rio de Janeiro: uma cidade em questão – Pereira Passos, em 1985.

Entretanto, pode-se dizer que “imprensada” entre os estudos de “evolução” urbana (como os estudos de caso das histórias de bairro, mais marcadamente factuais) e o peso das teorias neo-marxistas e foucaultianas (que marcavam as visões à respeito das reformas urbanísticas de Passos ou instrumentalizavam o olhar sobre a habitação) quer o urbanismo, quer a arquitetura não foram observados como campo cultural, inclusive a partir da uma perspectiva conflitual, ou como prática disciplinar e em suas especificidades. O foco assim desses livros era antes de tudo a cidade, mas não propriamente o pensamento arquitetônico ou urbanístico daqueles que intervinham como profissionais e, ou, figuras públicas sobre ela.

Assim, para a área específica da arquitetura entre 1978-1985 o viés historiográfico significaria, primeiramente e, sobretudo, um momento de discursos revisionistas. O ecletismo, até então negligenciado inclusive pelas políticas de preservação do patrimônio, por exemplo, aflorou como tema e como uma questão de cultura estimulada pelos estudos sobre a Belle-Époque de Pereira Passos. Entretanto, teoricamente essa revisão ficava algo comprometida pelo impacto das análises macro-econômicas do período que acentuavam o tema da internacionalização da economia brasileira colocando em consequência o campo cultural e os profissionais brasileiros - arquitetos, engenheiros e suas obras - marcados, via de regra, pela ideia de “cópia” e “transferência de modelos formais”.

Algumas iniciativas naqueles anos já chamavam a atenção não apenas para a revisão do estado dos conhecimentos, mas pouco a pouco também para a sistematização, aprofundamento e enfim, um olhar para a própria cultura profissional de arquitetos e urbanistas. No campo da arquitetura o interesse sobre os atores sociais se manifestou antes mesmo que no urbanismo e tomou a forma de esboços de estudos monográficos sobre arquitetos e suas obras. Esta tendência começaria a se fazer notar em meados da década de 1980 com pequenos livros ou exposições dedicadas, por exemplo, a Carlos Leão (PUC-MNBA), Antonio Virzi, Henrique Mindlin. Esse movimento reflexivo parece ter ganho potência e depois arrefeceu, entretanto o volume de textos sobre as cidades e suas histórias continuaria sua curva de crescimento exponencial.

De fato, os historiadores das cidades - de sua arquitetura e de seu urbanismo - tem ajustado, sem descanso, as peças de um quebra-cabeças que continuamente, quando quase se pensa feito, já esboça novo formato. Ao longo dos últimos anos os pedaços e os fragmentos de cidade continuaram sendo colados e descolados, montados e remontados. Entretanto, diante menos da natureza evanescente da cidade do que dos números, hoje muito mais surpreendentes do que aqueles dos anos1970, cabe a pergunta: porque se continua a interrogar o passado? Porque tanto se escreve sobre a história da cidade e do urbanismo? O que move a historiografia recente?

Notas

1 Jayme Larry Benchimol, “Considerações acerca da Bibliografia recente sobre a História das habitações populares e reformas urbanas no Rio de Janeiro”, Revista História em Cadernos vol IV, nº2, ao fazer um balanço da produção em 1985 comenta o fenômeno “Rio Antigo”.

2 Cf. este terceiro ponto, as considerações, rapidamente esboçadas, por Maria Alice Rezende de Carvalho, “Rio de Janeiro – juntando os pedaços”, Revista do Rio de Janeiro nº2, abril 1986.

3 O URBANDATA, sediado no IUPERJ foi o primeiro banco de dados existentes no país dedicado a repertoriar a produção intelectual sobre as cidades brasileiras. O balanço bibliográfico que ora realizamos foi possível em grande parte graças à utilização daquela base de dados que existiu, com esse formato, até os anos 1990. Dado o volume da produção historiográfica e à natureza deste texto, não anexamos aqui, a listagem ano a ano dos trabalhos, publicações, relatórios, teses, dissertações, que elaboramos a partir de consultas realizadas naquela Instituição e levantamentos próprios, e que foram igualmente indexados naquele banco. A bibliografia pode entretanto ser reconstituída através de consulta àquela base através do cruzamento das seguintes entradas: Rio de Janeiro, História urbana, século XIX.

4 Dando continuidade aos estudos iniciados no interior do CEPAL na década de 1960, o período 1969/70-75 foi marcado pelas análises clássicas de Jorge Wilhem, F. Henrique Cardoso, Florestan Fernandes, Francisco Weffort, Paul Singer, Francisco de Oliveira, Gabriel Bollafi, L. Kowarick, Milton Santos, entre outros que de forma diferenciada dedicaram-se ao tema do desenvolvimento econômico e social no Brasil e/ou da teoria da dependência.

5 Cf. Carlos Nelson Ferreira dos Santos, “Velhas novidades nos modos de urbanização brasileiros”, in L.Valladares (org.), Habitação em questão, Rio de Janeiro, Zahar 1979.

6 Esta postura é claramente visível à leitura de alguns trabalhos deste grupo de franceses no período. Cumpre assinalar que, até por causa da censura, os trabalhos de Althusser, Touraine, Castells, e ainda outros como Poulantzas, Balibar, Quijano, chegava aos intelectuais brasileiros, ainda que com algumas dificuldades, através das edições espanholas (particularmente a Siglo Veintiuno e G. Gilli) quase que simultaneamente às suas publicações. Figuras como F. H. Cardoso, F.Weffort, ou Florestan Fernandes, por outro lado, participavam de congressos como o da UNAM em Mérida em 1971, por exemplo, onde discutiam diretamente com Touraine, Poulantzas, Castells, entre outros as suas idéias. O mesmo acontecerá já em meados da década de 1970 com a difusão das idéias de Lipietz, Lojkine, Topalov, etc.

7 Cf. Manuel Castells, Problemas de investigacion em sociologia urbana, México, Siglo Ventiuno, 1971, p. 120.

8 Idem. Ibid.

9 Idem. Veja também por exemplo as críticas e preocupações quanto aos limites desta história comparativa esboçadas no meio dos geógrafos franceses – Pierre Georges, Yves Lacoste, M. Roncayolo – desde o final da década de 1960. Entre eles, o brasileiro Milton Santos em Les Villes du Tiers Monde, traduzido em 1980 com o título A urbanização desigual, também criticava o mecanicismo teórico vigente nas análises sobre o urbano.

10 Cf. Carlos Nelson F. Santos, op. cit., p.35.

11 Um balanço bibliográfico sobre a produção sociológica foi finalmente traçado por Lícia Valladares, Repensando a habitação no Brasil, Rio de Janeiro, Zahar, 1981.

12 Cf. Carlos Nelson F. Santos, op. Cit., p.32-38.

13 Idem. Ibid. É significativo também o papel que os antropólogos desenvolvem ao longo desta década no Rio de Janeiro e particularmente o Mestrado do Museu Nacional da UFRJ. Foi, por exemplo, Otavio Guilherme Velho, professor deste programa que organizaria em 1973 a tradução de textos clássicos dos fundadores da Escola de Chicago, Robert E. Park (1925) e Louis Wirth (1938), e de seus seguidores, inclusive, franceses como Chombart de Lauwe.

14 Veja este papel da história no campo da arquitetura, e que não poderá ser aprofundado neste texto P. Merlin e F. Choay, Dictionnaire de l’urbanisnme, Paris, PUF, 1988, verbete Histoire.

15 Veja as reservas a uma teoria unitária dos espaços urbanos em Marcel Roncayolo sobre a idéia de “centro” ou sobre a divisão social do espaço urbano no Bulletin de l’Association des Geographes, jan-fev, 1972.

16 Cf. Roger Chartier “O mundo como representação” in Revista Estudos Avançados, vol.5, nº11, p. 177.

17 Sobre estas influências recíprocas, veja por exemplo, Peter Burke, A Escola dos Annales, São Paulo, UNESP, 1991.

18 Idem. Ibid.

19 Maurício Abreu e Olga Bronstein, Políticas públicas, estrutura urbana e distribuição da população de baixa renda na área metropolitana do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, IBAM/CNPU/IDRC, 1978, relatório de pesquisa.

20 Eulália M. L. Lobo, História da cidade do Rio de Janeiro: do capital comercial ao capital industrial e financeiro, Rio de Janeiro, IBMEC, 1978, 2vol.

21 Roberto Machado et alii, A danação da norma: medicina social e constituição da psiquiatria no Brasil, Rio de Janeiro, Graal, 1978.

22 Jurandir Freire, Ordem Médica e Norma Familiar, Rio de Janeiro, Graal, 1979.

23 Veja por exemplo, Peter Burke, op.cit.

24 Centro de Memória Social Brasileira A assistência médica no Rio de Janeiro: uma contribuição para a sua história no período 1870-1945, Rio de Janeiro, 1980, Relatório de pesquisa.

25 Como a lista de trabalhos é ainda mais extensa e impossibilitados de anexar a bibliografia completa remetemos os leitor para as referências completas dos trabalhos citados e os demais títulos repertoriados às listagens do URBANDATA. Mencionamos apenas aqueles que se destacam até o ano de 1984 quando a produção historiográfica atinge seu ápice.

26 Jaime L. Benchimol, Pereira Passos, um Haussmann tropical – as transformações urbanas na cidade do Rio de Janeiro no início do século, Rio de Janeiro, UFRJ, COPPE, Dissertação de Mestrado.

27 Oswaldo Porto Rocha, A era das demolições, UFF, Depto de História, Dissertação de Mestrado

28 Roberto Moura, Tia Ciata e a pequena África no Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Funarte, 1983.

29 Nicolau Svecenko, Literatura como Missão, São Paulo, Brasiliense, 1983.

30 Sergio Pechman, Reformas urbanas e classes dominantes na virada do século: algumas anotações sobre o debate recente, ANPOCS, 1983 – mimco.

31 Sérgio T. Niemeyer Lamarão, Dos trapiches ao porto, UFF, Depto de História, 1984. Dissertação de Mestrado.

32 Luiz César Queiroz Ribeiro (orient) – Formação e transformação do espaço construído e sistemas de produção e circulação de moradia: dos cortiços, estalagens e casas de cômodo à formação dos subúrbios do Rio de Janeiro 1870-1930, Rio de Janeiro, UFRJ, PUR, 1983, Relatório de pesquisa.

33 Cf. supra nota 25

34 Na verdade a divisão do urbano em três ‘mundos’ inspirada por Antonio Candido (A dialética da malandragem) estabelece, originalmente, os mundos do Governo, do Trabalho e da Desordem e foi formulada como recurso para uma análise do Rio de Janeiro no século XIX por Berenice Cavalcante, Ilmar Rohloff de Mattos e Maria Alice Rezende de Carvalho, em A polícia e a força policial no Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, PUC-CCS/Depto de História, 1981. Magali Vainfas, Meretrizes e doutores: o saber médico e a prostituição na cidade do Rio de Janeiro, UFF, Depto de História, Dissertação de Mestrado; Sidney Chaloub, Trabalho, lar e botequim: vida cotidiana e controle social da classe trabalhadora no Rio de Janeiro ‘belle époque’, UFF, Depto de História, Dissertação de Mestrado.

35 José Murilo de Carvalho, “A Revolta da Vacina”, Fundação Casa de Ruy Barbosa, 1984 – mimeo Nicolau Sevcenko, A Revolta da Vacina – Mentes insanas e corpos rebeldes, São Paulo, Brasiliense, 1984.

36 O interesse sobre a história de bairros começaria nos programas de mestrado do COPPE-UFRJ, pontualmente, desde 1981 com os trabalhos pioneiros de Hélia Nacif Xavier, Transformações recentes de um bairro residencial – O papel da legislação urbanística e de Sérgio Lordello, Expansão urbana e estruturação de bairros do Rio de Janeiro – o caso de Botafogo, mas só a partir de 1983 começaria a atrair a atenção dos pesquisadores.

37 Lilian Fritsch – “Palavras ao vento: a urbanização do Rio Imperial”, Revista Rio de Janeiro, n. 3 Agosto de 1986, Maria Alice Rezende de Carvalho, “Rio de Janeiro, juntando os pedaços...” op.cit.; Margareth da Silva Pereira – Rio de Janeiro: L’ephemère ET La perennité – Histoire de La ville au XIXème siècle, Paris, EHESS, 1988 –Tese de Doutoramento.

38 Veja por exemplo nas publicações da Série Estudos da PUC-RJ os relatórios do projeto de pesquisa intitulado “Estudo das características histórico sociais das instituições policiais brasileiras, militares e paramilitares, de suas origens até 1930” os texto de Berenice Cavalcante et alii., A polícia e a força policial no Rio de Janeiro, supra cit., Antonio Edmilson M. Rodrigues et alii, A Guarda Nacional no Rio de Janeiro 1831-1918, que se demarcam de outras obras do início da década, pelo tratamento privilegiado do campo ideológico, a partir da observação de certas instituições do aparelho estatal a partir das próprias práticas e representações sociais que os instituem e constituem.

39 José Murilo de Carvalho, Os bestializados, São Paulo, Cia das Letras, 1987.

 

Como Citar

Margareth da Silva Pereira; Priscilla Alves Peixoto . O passado como construção: perfis da historiografia sobre o Rio de Janeiro — temas e problemas (1978-1992). In: PEIXOTO, Elane Ribeiro; DERNTL, Maria Fernanda; PALAZZO, Pedro Paulo; TREVISAN, Ricardo (Orgs.) Tempos e escalas da cidade e do urbanismo: Anais do XIII Seminário de História da Cidade e do Urbanismo. Brasília, DF: Universidade Brasília- Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, 2014 . Disponível em: http://www.shcu2014.com.br/content/passado-como-construcao-perfis-da-historiografia-rio-janeiro-temas-e-problemas-1978-1992