Palmas/TO: lugar central ou enclave no Centro Norte do Brasil?

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Resumo

Este artigo analisa a relação da cidade de Palmas/TO com a rede urbana do Estado do Tocantins, e com as microrregiões limítrofes do Maranhão e Pará, seguindo esta hipótese: a capital tocantinense é um lugar central, explicado pelo postulado de Walter Christaller, ou é desprovido de qualquer relação espacial na sua região - enclave. Para a realização desta pesquisa, utiliza-se o Índice de Herfindahl-Hirschman para compreender a estruturação desta rede, observando o nível de concentração de serviços nesta região. Os resultados mostram que Palmas exerce o poder de comando a um pequeno grupo de municípios — Paraíso, Porto Nacional e Miracema, tendendo a aumentar a sua área de influência para as demais localidades situadas ao redor de Gurupi, no sudoeste do Estado. Portanto, a capital do Tocantins não é um enclave, porém, não se encaixa no conceito de lugar central à nível macrorregional — Centro Norte.

Abstract

This article examines the relationship of the city of Palmas/TO with the urban network of the State of Tocantins, and the neighboring microregions of Maranhão and Pará, According to this hypothesis: Tocantins capital is a central place, explained by the postulate of Walter Christaller, or is devoid of any spatial relationship in your area - enclave. For doing this study, we use the Herfindahl-Hirschman Index to understand the structure of this network by observing the level of concentration of services in this region. The results show that Palmas exercises power to command a small group of municipalities - Paraíso, Porto Nacional and Miracema, tending to increase your area of influence to other localities around Gurupi in the southwest of the state. Therefore, the capital of Tocantins is not an enclave, however, does not fit the concept of central place to macro-regional level — Centro Norte.

Introdução

A capital do Estado do Tocantins — Palmas foi planejada em 1989, com o objetivo de ser a sede política da mais nova Unidade Federativa do Brasil. Este núcleo urbano surgiu como um local de referência não apenas para a população do Tocantins, e também para aqueles que residem em outros Estados. Após uma década de existência, tornou-se a maior do Estado em quantidade de habitantes (RODRIGUES, 2010; LIRA, 2011; BRITO, 2009).

Devido ao crescimento populacional alcançado em seus primeiros dez anos, Palmas transfigurou-se em objeto de estudos voltados para a compreensão de sua relação com as demais localidades. Ou seja, estas pesquisas demonstram que a capital tocantinense pode tornar-se um importante agente capaz de comandar os demais núcleos urbanos do seu entorno, principalmente no que tange à oferta de bens e serviços para as demais cidades do sudeste da Amazônia Legal. Todavia, apesar desta potencialidade, a capital tocantinense possui fraco poder de comando no que concede a estruturação espacial (BRASIL, 2008; BECKER, 2005).

Para contornar esta deficiência, Palmas e demais núcleos precisam re-hierarquizar o seu território. Esta afirmação é baseada na teoria de lugar central, apresentado por Christaller, que trata sobre a distribuição espacial dos centros urbanos na economia regional (RICHARDSON, 1981; BRASIL, 2008).

Diante a estas constatações, este artigo analisa se Palmas corresponde a teoria de lugar central, ou defini-se como um enclave urbano1. Justifica-se esta pesquisa por tratar de uma oportunidade que o Estado do Tocantins possui em internalizar os ganhos produtivos gerados, podendo diminuir a dependência por capital e serviços oferecidos pelas grandes capitais do Centro Sul. Para realizar tal investigação, busca-se evidências empíricas em trabalhos científicos correlatos, além de utilizar o Indicador Hirschman- Herfindahl (IHH) para compreender a situação da estrutura urbana do Estado do Tocantins e de municípios próximos.

Palmas e seu entorno

Walter Christaller (1893-1969) elaborou a Teoria do Lugar Central (TLC)2 concebendo que um núcleo urbano, denominado de lugar central, hierarquize toda a rede de cidades,

1 Enclave é um centro urbano isolado, ao contrário da concepção de lugar central.

2 Obra original desta teoria: Christäller, W. Central places in southern Germany. Englewood Cliffs/NJ: Prentice-Hall, 1966.

estabelecendo relação de dependência com os demais através da oferta de bens e serviços coletivos.

Existem razões para que uma cidade torne-se um lugar central, entre elas, a alta densidade populacional, o nível de renda entre seus moradores, o grau de concorrência entre os estabelecimentos, e a estrutura sociocultural. O número de funções que este centro executa é outro fator determinante para que torne-se uma centralidade. Entretanto, os custos de transporte podem limitar o acesso e a disponibilidade destes fatores (RICHARDSON, 1981).

A hierarquia dos lugares centrais, portanto, baseia-se nas funções que estes centros exercem na região, no tamanho de sua população, e nas distâncias entre as cidades. Em relação a sua distribuição espacial, é influenciada pela estrutura da rede de transporte, e as facilidades em deslocar nestas vias de tráfego.

Becker (2005) ressalta a afirmativa de que a capital do Tocantins possui a capacidade de formar um subsistema espacial devido ao surgimento de adensamentos urbanos em seu entorno. Outro fator que contribui para que ocorra esta articulação regional é a dispersão de centros subregionais tal como Marabá, Imperatriz e Araguaína, e outros de caráter local — Balsas/MA e Redenção/PA. Estas localidades estão mais próximas da capital do Tocantins, do que das suas capitais estaduais, observe:

Mapa 1. Distância rodoviária dos centros sub regionais/locais para Palmas/TO, Belém/PA e São Luís/MA - 2012.

Fonte: Google Maps e IBGE. Elaboração própria.

Os dois centros subregionais — Imperatriz e Marabá situam-se entre a capital do Tocantins e a sua capital estadual, tendo pouca diferença em termos de distância

rodoviária. Por outro lado, Palmas é próximo dos centros locais — Balsas/MA e Redenção/PA, comparando-se com Belém e São Luís, portanto, tem-se uma certa vantagem em exercer a função de polo macrorregional do que as capitais do Maranhão e Pará.

Além disso, Palmas possui outras vantagens em relação aos dois núcleos subregionais. Primeiro, a sua localização centralizada, servindo como ponto de conexão entre o Centro Sul e a Amazônia. Segundo, por se tratar de uma capital estadual, oferta-se serviços que são encontradas apenas nas capitais. Terceiro, a maior parte da população economicamente ativa está empregado no setor de serviços, que sustenta a cadeia produtiva regional, podendo dinamizar os demais núcleos. Por fim, é sede de instituições de ensino e pesquisa, órgãos federais, podendo criar aportes científicos e tecnológicos necessário para promover a articulação territorial (BRASIL, 2008).

A estrutura urbana de Palmas

O setor terciário em Palmas experimentou uma ampla diversificação ao longo dos vinte anos de existência, diferente do que ocorreu com a vizinha Porto Nacional, localizado a 60 km da capital. Este fenômeno deve-se a vinda de grandes empresas atacadistas, a construção de um grande shopping center, e unidades clínicas-hospitalares, que aumentaram a funcionalidade urbana da capital. Em contrapartida, pela aproximação geográfica, Porto Nacional transforma-se em uma cidade-dormitório (BESSA e CORADO, 2011).

O fluxo de portuenses para a capital estadual é formado principalmente por pacientes que procuram as clínicas especializadas, e estudantes universitários, expondo uma relação de dependência espacial entre estes dois núcleos, preferencialmente em relação ao setor de comércio e serviços (BRITO, 2009; OLIVEIRA, 2012).

Entretanto, Porto Nacional possui um distrital agroindustrial e uma usina de biodiesel. Paraíso do Tocantins, também próximo da capital, encontra-se esta mesma estrutura industrial, e seus moradores também procuram os serviços coletivos que a capital oferta. Os outros municípios situados ao redor de Palmas não possuem esta característica, portanto, o raio de influência direta da capital está restrito a Porto Nacional e Paraíso devido às complementaridades produtivas que os núcleos exercem entre eles (BRITO, 2009; OLIVEIRA, 2012).

Diante desta constatação, procura-se levantar evidências que apontem alguma relação espacial que a capital tocantinense exerce nos demais municípios, direcionando esta análise para aqueles que possuem uma base econômica representativa para a região. A

segunda maior cidade do Maranhão, Imperatriz, possui esta característica, e junto com Palmas, tem grandes quantidades de plantas industriais na região. Por causa dos serviços de saúde e educação ofertados por esta localidade, atrai pessoas das regiões vizinhas.

Diante desta situação, a polarização de Palmas sobre estas regiões é menor por dois motivos. A primeira trata-se da distância rodoviária entre a capital e estas localidades, com duração da viagem variando de seis até dez horas. O segundo motivo relaciona-se a estrutura econômica de Imperatriz, que disponibiliza de serviços similares em relação a capital tocantinense, além da menor distância para estes municípios — menos de duas horas (BESSA e CORADO, 2011; BRITO, 2009; OLIVEIRA, 2012).

Marabá/PA, localizado a 200 quilômetros de Imperatriz, também possui o tempo de deslocamento menor para os municípios do extremo norte tocantinense, do que em relação a Palmas — até três horas de viagem rodoviária. Nota-se fortes ligações deste município paraense com o Nordeste, e estreita ligação com Araguaína, Goiânia, Palmas e São Paulo. Esta preferência por pessoas oriundas de outras partes do país deve-se a sua estrutura produtiva, baseado na extração do minério de ferro, que exigem profissionais capacitados — engenheiros, geólogos e técnicos, que não encontra-se com facilidade na região do Bico do Papagaio. Além destes trabalhadores, Marabá recebe grupo de homens que procuram emprego no polo mineral de Carajás, assim como Imperatriz/MA, recebe e distribui trabalhadores, principalmente nordestinos (OLIVEIRA, 2012; BRITO, 2009).

Consta-se que Imperatriz e Marabá atraem a população regional através de serviços hospitalares especializados, centros de ensino superior, e aeroportos, que realiza conexão direta para o Centro Sul do país. Em suma, a participação de Palmas neste espaço é fraca por causa da grande distância rodoviária, da ausência de voos regulares paras estas localidades.

Todavia, Palmas é um município que direciona-se para o Centro Sul do país, e não para a região na qual está inserida. Esta afirmação parte-se da constatação de que os voos partindo da capital tocantinense têm como destino as cidades de Brasília, Goiânia e São Paulo, e nenhum têm como destino os aeroportos nordestinos ou do Pará3. Além disso, a maior parte dos habitantes de Palmas que utilizam a rodoviária tem como destino a

3 Dados de 2006. Atualmente a companhia aérea Sete oferece voos diários para Marabá/PA, Altamira/PA, Belém/PA, Eldorado do Carajás/PA, Ourilândia/PA, e sem escalas para Redenção/PA. Imperatriz/MA continua fora dos serviços aéreos disponibilizados por Palmas.

capital do Goiás e do Brasil, ou as cidades vizinhas — Porto Nacional, Paraíso e Miracema (BRITO, 2009; BESSA e CORADO, 2011).

A atração limitada que Palmas possui também é notado na parte sul do Estado, onde os municípios localizados nesta região são atraídos pelo eixo Goiânia-Brasília. No sudoeste tocantinense, Palmas não tem tanta importância comercial, exceto no próprio município de Dianópolis. No sudoeste, Gurupi polariza os municípios localizados nesta área, estando diretamente influenciado pela capital de Goiás. Estas capitais localizadas no Brasil Central exercem ampla polarização no Tocantins, principalmente em Palmas. Portanto, além de estar dentro de uma área polarizada — Brasília/Goiânia, Palmas não está integrado com os municípios-polos subregionais — Marabá/PA e Imperatriz/MA, pois não manifestam intenso convívio cotidiano tal como circulação, transbordo, comércio, trabalho, consumo e lazer. A longa distância rodoviária e as diferenças de produção podem colaborar para a formação desta fraca interação entre os maiores núcleos urbano da região.

Metodologia

Para analisar o potencial de cada núcleo urbano em ofertar bens e serviços, utiliza-se o índice de concentração de Hirschman-Herfindahl (IHH). Este indicador mede a concentração de um determinado setor na região j comparando a mesma e uma região maior. O IHH é calculado da seguinte forma:

IHH = ����⁄���t

- ��t�⁄��tt

  1.  

Em que,

���� = participação do setor i da região j;

���t = total do setor i da região de referência;

��t� = participação do total da região j;

��t = total da região de referência.

Se o IHH apresentar um valor positivo, indica que o setor i da região j está concentrado, exercendo um poder de atração maior, dada a sua especialização. Ao contrário, valores negativos indicam um baixo poder de atração em comparação com a região de referência (ALVES, 2012).

Os dados utilizados para o cálculo deste indicador provêm do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística — IBGE, e refere-se ao Produto Interno Bruto Municipal - PIB e ao Valor adicionado bruto a preços correntes dos serviços, inclusive administração, saúde e educação públicas, e seguridade social por município. Estes dois parâmetros relaciona-se ao ano de 2000 e 2010.

A região de referência é o Estado do Tocantins, somado com as microrregiões de Conceição do Araguaia/PA, Redenção/PA, Parauapebas/PA e Marabá/PA, Gerais de Balsas/MA, Porto Franco/MA, Imperatriz/MA e Chapada das Mangabeira/MA, conforme o Mapa 1 ilustra:

Mapa 2. A região de referência — Estado do Tocantins e microrregiões selecionadas do Estado do Pará e Maranhão — 2012. Fonte: Elaboração própria.

Este recorte geográfico é formado por duzentos municípios, sendo que cento e trinta e nove estão localizados no Estado do Tocantins, vinte e quatro no Estado do Pará, e trinta e cinco no Estado do Maranhão. Além de Palmas/TO, estão inseridos nesta região os polos subregionais de Marabá/PA e Imperatriz/MA. O programa livre Terraview é utilizado para a elaboração dos mapas, facilitando a visualização dos resultados do IHH no ano de 2000 e 2010.

Resultados e discussões

Nota-se que no ano de 2000 o conjunto de municípios formados por Palmas, Porto Nacional e Paraíso não possuem tamanha representatividade no setor de comércio e serviços. No período seguinte da análise, consta-se crescimento de 1.2%, abaixo das microrregiões do Pará, que obtiveram o maior percentual no ano de 2010, retirando a

primeira colocação dos demais municípios tocantinenses, que em 2000 detinha a maior participação neste setor. Esta constatação deve-se aos núcleos urbanos de Araguaína e Gurupi, pontos de referência na parte norte e sul do Tocantins, respectivamente.

Quadro 2. Percentual de participação no setor de serviços na região de referência, e a taxa de crescimento no período de 2000/2010, no Estado do Tocantins e nas microrregiões selecionadas do Pará e Maranhão. Fonte: IBGE. Elaboração própria.





> Região > 2000 > 2010 > Taxa de crescimento 2000/10
> Palmas, Porto Nacional e Paraíso > 14.0 > 15.7 > 1.2
> Demais municípios do Tocantins > 32.4 > 30.2 > -0.7
> Microrregiões selecionadas do Pará > 25.8 > 32.4 > 2.3
> Microrregiões selecionadas do Maranhão > 27.9 > 21.7 > -2.5

As microrregiões do Maranhão perderam participação durante o período analisado (- 2.5%). Conforme observado no tópico anterior, Imperatriz atrai habitantes tanto no Maranhão, como no sul do Pará e norte do Tocantins. Portanto, devido a esta perda de participação, as atividades urbanas nesta parte do Estado do Maranhão podem estar concentradas em Imperatriz, sendo que os demais núcleos maranhenses perderam representatividade neste setor.

Enfatiza-se esta análise observando a participação deste setor em relação ao seu PIB. O objetivo desta investigação é detectar o nível de especialização de cada região analisada. O próximo quadro expõe este parâmetro, além de demonstrar a evolução destas atividades durante o período de 2000 a 2010.

Quadro 3. Percentual de participação no setor de serviços em relação ao PIB na região de referência, e a taxa de crescimento no período de 2000/2010, no Estado do Tocantins e nas microrregiões selecionadas do Pará e Maranhão.

Fonte: IBGE. Elaboração própria.





> Região > 2000 > 2010 > Taxa de crescimento 2000/10
> Palmas, Porto Nacional e Paraíso > 0.73 > 0.59 > -2.1
> Demais municípios do Tocantins > 0.62 > 0.54 > -1.4
> Microrregiões selecionadas do Pará > 0.36 > 0.24 > -4.0
> Microrregiões selecionadas do Maranhão > 0.59 > 0.53 > -1.1

Em geral, todas as regiões obtiveram taxa de crescimento negativo, indicando que o setor de serviços está perdendo participação em relação aos demais setores. As microrregiões selecionadas do Pará apresentaram maior perda durante este ínterim (- 4.0%), demonstrando que as economias destes municípios podem estar em fase de diversificação ou expansão de certas atividades primárias tal como a mineração, extrativismo e agropecuária, que são bastante representativas no sudeste do Pará.

Por outro lado, os demais municípios do Tocantins, e as microrregiões selecionadas do Maranhão, foram a que apresentaram as menores perdas de participação do setor analisado em relação ao PIB. Este resultado aponta que não ocorre uma forte diversificação produtiva, oposto do que nota-se nas microrregiões sul paraense.

Os municípios de Palmas, Porto Nacional e Paraíso, apesar da forte queda (-2.1%) durante o período de 2000/2010, permanecem como a região especializada no setor de serviços. No ano de 2010, quase 60% do Produto Interno Bruto é composto por atividades urbanas, apontando a importância desta produção na economia destes núcleos, apesar da perda observada.

Estes resultados, apesar de sua relevância, não indicam os municípios que concentram as atividades relacionadas ao setor de serviços. Utilizando o Indíce de Herfindahl- Hirschman, pode-se visualizar através de mapas coropléticos, como está distribuído espacialmente este indicador na região de estudo.

Mapa 3. IHH do Valor adicionado bruto a preços correntes dos serviços, inclusive adm., saúde, educação públicas e seguridade social, Tocantins, Pará e Maranhão - 2000. Fonte: IBGE. Elaboração própria.

Os municípios que concentram o setor de serviços no recorte geográfico analisado é Palmas/TO, Araguaína/TO, Imperatriz/MA, Balsas/MA e Marabá/PA. Com dez anos de existência, a capital tocantinense acumulava funções tipicamente urbanas, e em menor nível, Porto Nacional e Paraíso complementa a estrutura produtiva terciária do Estado do Tocantins. Nos demais municípios tocantinenses, Araguaína centraliza a produção terciária no norte, e ao longo da rodovia BR — 153, a Belém-Brasília, Colinas/TO, Guaraí/TO e Gurupi, apresenta significativa aglutinação produtiva. Nota-se que os municípios tocantinenses citados possuem as maiores populações urbanas do Estado, demonstrando que pode existir uma relação entre concentração populacional e produção terciária representativa.

Nas microrregiões vizinhas, Imperatriz e Marabá confirmam-se como os principais núcleos atrativos da região. Porém, diferente do que nota-se no Maranhão, onde existem dois polos de serviços — Balsas e Imperatriz, e outros de menor expressão — Porto Franco, Açailândia e João Lisboa, o Estado do Pará concentra-se esta produção apenas em Marabá, apesar de que Redenção, no extremo sul do Estado, destaca-se nos serviços urbanos.

Por fim, este mapa demonstra a hierarquia da rede urbana na região delimitada no ano de 2000. Os serviços no Estado do Tocantins estão concentrados em Palmas, Porto Nacional e cidades localizadas ao longo da Belém-Brasília. As grandes cidades do sul maranhense e paraense também participam desta dinâmica, destacando Imperatriz e Balsas, porém restringe-se apenas a essas. O próximo mapa expõe se em dez anos, esta estrutura produtiva passou por transformações.

Mapa 4. IHH do Valor adicionado bruto a preços correntes dos serviços, inclusive adm., saúde e educação públicas e seguridade social, no Tocantins, Pará e Maranhão - 2010. Fonte: IBGE. Elaboração própria.

Analisando o Mapa 4, observa-se mudanças na distribuição espacial do IHH serviços em relação ao ano de 2000. O Estado do Pará, que antes concentrava esta produção em Marabá, e com menor nível em Redenção, no ano de 2010 encontra-se dispersa, destacando como ponto concentrador o município de Parauapebas.

Ademais, Santana do Araguaia, São Félix do Xingu, Conceição do Araguaia, Floresta do Araguaia, Xinguara, Ourilândia do Norte, Tucumã e Canaã do Carajás, também aglutinam serviços que dez anos atrás o IHH não constatava. Portanto, as microrregiões sul paraense estão passando por um processo de diversificação produtiva, diferente do que ocorre no Maranhão, onde Imperatriz não acompanhou o desempenho dos demais polos subregionais. A única transformação observada neste Estado é a inclusão de municípios ao redor de Balsas tal como Tasso Fragosso e São Raimundo das Mangabeiras, e a substituição de Porto Franco por Estreito. Este município no final da primeira década do século XXI recebeu grandes contingentes de pessoas para trabalhar nas obras da Ferrovia Norte Sul e na Usina Hidroelétrica de Estreito, atraindo unidades terciárias para o seu núcleo urbano.

Em relação ao Estado do Tocantins, Palmas permanece como o principal centro de serviços, e Araguaína não conseguiu acompanhar a evolução da capital. Todavia, percebe-se a incorporação de municípios tocantinenses que conseguem concentrar estas atividades tal como Campos Lindos, no nordeste, Miracema, no centro, Formoso do Araguaia, Lagoa da Confusão e Peixe, no sudoeste.

Oliveira (2012) apontava que Campos Lindos e Formoso do Araguaia são os principais polos agropecuários do Tocantins. Os resultados do IHH mostram que estes núcleos, além de possuir uma grande produção agropecuária, conseguem acumular funções urbanas. Trata-se de uma evolução produtiva que estas localidades situadas no nordeste e sudoeste tocantinense, respectivamente, estão presenciando. Por outro lado, ao redor de Araguaína, o indicador não detecta municípios que concentram serviços, do mesmo modo ocorre na microrregião de Dianópolis, no sudeste, em ambos os períodos analisados.

Prosseguindo com a análise, observa-se que Marabá é o principal ponto de referência no restante do Pará, tendo a companhia de Parauapebas. Este é um importante polo minerador nacional, produzindo minério de ferro e exportando para o exterior. Em menor nível, surgem municípios que acompanham a tendência destes dois núcleos, demonstrando que esta subregião concentra a maior parte dos serviços. Curioso constar que este grupo de municípios foram os que mais perderam participação do setor de serviços no PIB. Esta perda pode estar relacionado a expansão dos ganhos do setor primária, retirando a participação do terciário.

Devido a crescente expansão das atividades urbanas nas microrregiões do sudeste paraense, Palmas tende a comandar municípios localizados ao sul do Tocantins, podendo diminuir a polarização exercida por Goiânia e Brasília. Entretanto, nota-se que o restante do Estado não possui a característica de diversificar a produção com serviços coletivos. Além disso, os municípios maranhenses perderam participação neste setor, o que pode diminuir o poder que a região possui em “interiorizar” os ganhos produtivos.

Diante a estas constatações, nota-se que o direcionamento de Palmas para o eixo Brasília-Goiânia-São Paulo contribui para que a capital tocantinense reordene os núcleos urbanos do sudoeste para o Centro Sul, servido como ponto de ligação entre esta região com o restante do país. O mapa a seguir ilustra esta hierarquização

Mapa 5. A estrutura urbana no Centro Norte - 2010. Fonte: IBGE. Elaboração própria.

Com o adensamento produtivo no sudeste paraense, Marabá tende a comandar a região do Bico do Papagaio, rivalizando com Palmas no que tange a exercer atração nas cidades do norte tocantinense. Devido a esta competição, a capital tocantinense direciona-se para a parte sul do Estado, precisamente nas microrregiões do Rio Formoso e Gurupi, onde não sofre a concorrência de nenhum núcleo subregional.

Nota-se no mapa a existência de uma área com fraca interação regional, formado por municípios da microrregião do Jalapão e Dianópolis. São localidades que estão diretamente ligados ao comando de Brasília, e também, a cidade de Barreiras e Luís Eduardo Magalhães, no oeste da Bahia, região de grande produtividade agrícola e oferta de serviços urbanos.

Conclusão

De acordo com a teoria do lugar central, Palmas necessita-se diversificar a disponibilidade de serviços coletivos, além de aumentar os fluxos de capital com os dois polos subregionais — Marabá/PA e Imperatriz/MA, e a partir deste ponto, pode-se pensar em uma rede hierárquica nesta região. Atualmente, observa-se que a capital tocantinense estabeleceu uma relação de dependência com Paraíso e Porto Nacional, tendendo a fixar esta conformidade com os núcleos localizados no sudoeste do Estado. Portanto, Palmas não é um enclave, porém o seu poder de comando no território é bastante restrito.

O procedimento metodológico adotado colabora para que formule-se esta afirmação. Os trabalhos empíricos, apesar das diferenças metodológicas, citam que a capital do Tocantins possui potencialidades, tal como renda média e nível de produção elevado, atraindo a população de outras partes, contudo, o comando no território restringe-se apenas aos municípios localizados em seu redor — Porto Nacional, Paraíso e Miracema do Tocantins. Ademais, o indicador Herfindahl-Hirschman aponta a concentração da produção de serviços nas microrregiões do sudeste do Pará, diferente do que ocorre no Tocantins, onde notam-se grandes agrupamentos municipais que não possui esta característica.

Esta limitação deve-se a fraca diversificação produtiva no espaço geográfico analisado. Os complexos industriais e as atividades primárias, que podem induzir o surgimento de atividades produtivas urbanas, concentram-se em Palmas, Marabá, Parauapebas e Imperatriz. Devido a este cenário, a capital tocantinense pouco interage com os núcleos localizados no Bico do Papagaio devido a forte atração exercido por Marabá- Parauapebas, e em menor nível, por Imperatriz. Portanto, existem dois sistemas urbanos: o de Palmas, no comando da parte central e sudoeste do Tocantins, e o de Imperatriz-Marabá, no norte tocantinense e microrregiões estaduais limítrofes. Especula-se a existência de um terceiro comando, no sudeste do Estado do Tocantins, onde Brasília e possivelmente Barreiras/BA e Luís Eduardo Magalhães/BA exercem maior atração do que Palmas.

No arcabouço destes resultados, Palmas não está inseridas no contexto de lugar central proposto por Brasil (2008). A capital tocantinense possui vantagens citadas anteriormente, todavia, para exercer o comando macrorregional, necessita-se que os demais municípios comecem a diversificar a sua produção, podendo iniciar pela produção primária, de mesmo modo que ocorreu no sudeste paraense e sudoeste tocantinense.

Para os próximos trabalhos, recomenda-se aprofundar a investigação nos polos subregionais — Marabá/PA, Imperatriz/MA, Barreiras/BA-Luís Eduardo Magalhães/BA e Araguaína/TO, para observar quais são as suas relações espaciais, e como Palmas pode inserir-se neste contexto, podendo aumentar o seu poder de comando regional.

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Como Citar

Thiago José Arruda . Palmas/TO: lugar central ou enclave no Centro Norte do Brasil?. In: PEIXOTO, Elane Ribeiro; DERNTL, Maria Fernanda; PALAZZO, Pedro Paulo; TREVISAN, Ricardo (Orgs.) Tempos e escalas da cidade e do urbanismo: Anais do XIII Seminário de História da Cidade e do Urbanismo. Brasília, DF: Universidade Brasília- Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, 2014 . Disponível em: http://www.shcu2014.com.br/content/palmasto-lugar-central-ou-enclave-no-centro-norte-do-brasil