Os lugares no espaço: a problematização do Cine Belas Artes como Patrimônio Cultural de São Paulo

Eixo Temático: 

Resumo

No início de 2011, o Cine Belas Artes, tradicional sala exibidora do chamado “cinema de arte” em São Paulo, foi ameaçado de fechamento. Diversas manifestações foram realizadas pela sociedade civil em busca da salvaguarda da sala de cinema. Tendo em vista tal fenômeno, o presente estudo propõe uma investigação sobre o valor do Cine Belas Artes como bem cultural da cidade e da possibilidade de sua inclusão no rol do Patrimônio Cultural de São Paulo, a fim de subsidiar discussões acerca de sua preservação e cooperar para o debate de maior amplitude sobre os critérios de atribuição de valor predominantes e novas formas de atuação para a preservação e conservação do Patrimônio Cultural no meio ambiente urbano.

 

Abstract

In early 2011, Cine Belas Artes, traditional exhibitor room called “art cinema” in São Paulo, was threatened with closure. Several demonstrations were held by civil society in pursuit of safeguarding the cinema hall. Given this phenomenon, this study proposes an investigation into the value of Cine Belas Artes as a cultural wealth of the city and the possibility of it’s inclusion in the list of Cultural Heritage of São Paulo in order to support discussions about its preservation and cooperate for discussion of greater amplitude on the criteria for assigning value prevailing and new ways of working for the preservation and conservation of cultural heritage in the urban environment.

 

Introdução

Em janeiro de 2011 o Cine Belas Artes, criado em 1943, residente da Rua da Consolação, em São Paulo, desde 1952, recebeu nova ameaça de fechamento (a última havia sido em 2003) que se cumpriu em março de 2011. Devido à pressão pública realizada através de diversas manifestações (abaixo assinado, passeatas, campanhas em redes sociais e restaurantes e artigos em jornal e revistas especializadas por parte de intelectuais) foi aberto no Conpresp (Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo) e no Condephaat (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico Artístico e Turístico) processos de tombamento do edifício que até o dia 18/03/20111 abrigou o cinema.

O presente trabalho não pretende provar o valor do Cine Belas Artes, cuja existência é um dos pressupostos da investigação, mas compreender os motivos que levaram o caso de seu fechamento à singular comoção pública e agitação social. A questão fundamental consiste na busca das motivações que levaram centenas de paulistanos a sair nas ruas, realizar passeatas, lotar o cinema em seu último mês de funcionamento e suas consequências propositivas para problemáticas da disciplina do Patrimônio Cultural.

Procurando apreender tal fenômeno, compreendemos a relação da sala de cinema com a vida na metrópole através do fenômeno de territorialização (Carlos,1996), ou seja, de demarcação social do espaço e construção de significados e valores em aspectos com tendências objetivas e subjetivas.

1 A Folha de São Paulo, Ilustrada, publicado no dia 18/03/2011.

Ao primeiro grupo de aspectos concerniu a análise do Cine Belas Artes como equipamento cultural da cidade, relevante na difusão de uma cultura cinematográfica específica e, junto com outros cinemas de rua, engendrador de uma mancha cultural importante para a vida de determinados grupos sociais em São Paulo (Magnani, 1987). A fim de compreendê-lo, recorremos a estudos anteriores sobre o circuito de cinemas de rua da Av. Paulista (Stefani, 2003; Torres, 1996; Almeida, 1995) e às entrevistas com frequentadores do Cine Belas Artes realizadas por Almeida (1995). Como bibliografia complementar, nos valemos de autores que tratam da trajetória de desenvolvimento das centralidades culturais em São Paulo, como Frúgoli, 2000 e Santoro, 2004.

Quanto à análise subjetiva, coube a observação da construção de um lugar de representação e um lugar de vivência ao redor do Cine Belas Artes. O lugar de representação é revelador e contenedor de um desejo urbano, que em última instância, coloca-se como um projeto social, o de vivência, equipara-se à experiência cotidiana do espaço. Para averiguar a construção desses lugares, valemo-nos de entrevistas realizadas por Almeida (1995) dezesseis anos antes do fechamento, por Ornelas (2011), realizadas durante o mês do fechamento, e por nós (2012) um ano após o ocorrido2 Como referenciais teóricos, recorremos a pensadores que tratam da relação de construção do significado e da identidade no espaço, como Meneses, 2006; Hall, 2006; Veiga, 2005; Carlos, 1996; Magnani, 1987; Arantes, 2006, entre outros.

O lugar de cinema

Para a compreensão das valorações construídas acerca do Cine Belas Artes por seus usuários, fez-se necessária a construção de um patamar analítico para o caso. Esse local privilegiado para a observação foi construído, fundamentalmente, a partir dos conceitos de lugar e espaço, de forma a aprofundar a interação entre práticas sociais e espaço físico, como expresso na valoração simultânea de características materiais e imateriais do Cine Belas Artes. Seguindo Ana Fani Carlos, se assente que:

Lugar é a porção do espaço apropriável para a vida (…) é o bairro, é a praça, é a rua, e nesse sentido poderíamos afirmar que não seria jamais a metrópole ou mesmo a cidade lato sensu a menos que seja a pequena vila ou cidade — vivida/conhecida/reconhecida em todos os cantos. (…) A metrópole não é ‘lugar’, ela só pode ser vivida parcialmente (Carlos apud Veiga, 2005: 44).

Um espaço está cercado de outros espaços. Um lugar está cercado de significados. A existência de um lugar depende de sua apropriação por um indivíduo ou grupo. Espaços são apenas as localidades, os endereços e constituições físicas da cidade. Lugares são espaços compreendidos na vida de seus habitantes.

Existe um espaço para todos: a cidade. Porém sobre esse mapa do espaço se sobrepõe milhares de outros mapas de lugares, constituídos pela afetividade cotidiana de cada indivíduo. Cada um estabelece relações singulares com a cidade e se apropria de elementos e de forma distinta do espaço. Agora imaginemos todos esses mapas da cidade sobrepostos:

Se, por hipótese absurda, pudéssemos levantar e traduzir graficamente o sentido da cidade resultante da experiência inconsciente de cada habitante e depois sobrepuséssemos por transparência todos esses gráficos, obteríamos uma imagem muito semelhante a uma pintura de Jackson Pollock, por volta de 1950: uma espécie de mapa imenso, formado de linhas e pontos coloridos, um emaranhado inextricável de sinais, de traçados aparentemente arbitrários, de filamentos tortuosos, embaraçados, que mil vezes se cruzam, se interrompem, recomeçam e, depois de estranhas voltas, retornam ao ponto de onde partiram. (Argan, 1990: 178)

  1. Durante o processo de pesquisa, o autor envolveu-se diretamente em ações e discussões acerca da preservação do Cine Belas Artes ocorridas em São Paulo. Dessa maneira, para além da voz captada através das entrevistas, destaca-se como importante dado para a pesquisa a própria experiência do autor e sua vivência da cidade.

Nesse mapa virtual é possível imaginar que agregando os mais distintos trajetos há certos pontos de convergência, de adensamento. Estes podem dar-se por diversos motivos, podem delimitar-se de diversas formas. São esses os lugares que transcendem a representatividade individual. O passeio da Av. Paulista e o bairro do Bexiga, em São Paulo, são exemplos deste fenômeno. Magnani (1987) associa grande parte dessas significações urbanas às práticas de lazer, sendo essas grandes agregadoras da vida coletiva paulistana no espaço comum..

Notamos que parte da importância do Cine Belas Artes, manifesta em sua defesa, está diretamente relacionada com a particular atividade desenvolvida nesse espaço em tensão com o resto da cidade. Assim, destacam-se na determinação do lug ar objetivo o uso e a localização. Todos os cinemas citados nas entrevistas (CineSESC, Unibanco, Espaço Itaú Frei Caneca, Cine Livraria Cultura e Reserva Cultural) possuem as mesmas qualidades referenciadas ao Belas Artes: programação diversa do circuito comercial e fácil acesso de transporte público. Dessa forma, constitui-se um circuito das salas de “cinema de arte” da Av. Paulista caracterizdo como uma mancha3 urbana que concentra 90% das poltronas destinadas à exibição do “cinema de arte” na cidade, agrupadas em seis salas localizadas no polígono formado pela Av. Paulista, Rua da Consolação e Rua Augusta.

O Cine Belas Artes é um dos vértices dessa formação urbana (Stefani, 2007), portanto, um lugar nodular na vida urbana de São Paulo para determinado grupo social. Assim, a nosso ver, este possui características que transcendem uma sala de cinema, beirando, em interação com seus arredores, a configuração de um centro cultural. Dessa forma, pode-se dizer que os aspectos objetivos constituintes do lugar Cine Belas Artes, uso e localização, fundamentam a valoração do cinema como parte basal de um notável polo cultural no cenário do lazer urbano paulista.

A fim de tratar do caráter subjetivo da produção desse lugar, partimos da análise da prática discursiva, tanto plural como subjetiva. Procuramos encontrar na fala de nossos entrevistados os momentos em que o particular, individual, transita ao comum, coletivo. No conjunto o fizemos buscando as constantes discursivas enunciadas. Nos particulares, procuramos compreender os momentos em que o discurso apoia-se em questões de maior amplitude do que a experiência individual ou que procura reforçar a própria experiência vivida no cinema. Assim, buscamos cartografar a ambiência psíquica do Cine Belas Artes enquanto parte da complexa e difusa da trama dos sentidos produzidos no meio ambiente urbano.

Lugar de representação

Para além da resolução do caso do Cine Belas Artes e através dele, os entrevistados proferiam discursos sobre a cidade, revelando como a desejam e imaginam. É de grande valor aqui a distinção feita por Harvey (apud Haesbaert, 2011) entre lugar de representação e lugar vivido. O lugar vivido é aquele da experiência, seu discurso é restrito à esfera de locações específicas e suas relações com grupos e indivíduos. Já o lugar de representação é construído como suporte para uma reflexão mais ampla da cultura, ele representa alguma coisa. O desejo de permanência do Cine Belas Artes, a nosso ver, representa o desejo de uma radical transformação no processo de construção do ambiente urbano de São Paulo.

Dessa maneira, tecemos a hipótese da construção do lugar Cine Belas Artes a partir da constituição de uma identidade de caráter político, na qual a coluna vertebral desse constructo está na maior estima do valor de uso em detrimento do valor de troca na produção do espaço urbano. Assim, o capital especulativo imobiliário e os “cinemas de shopping” emergem nesse discurso enquanto signos do hegemônico, enquanto o grupo, organizado ou não, de ex-

  1. O termo mancha, precisa Magnani, designa “uma área contgua do espaço urbano dotada de equipamentos que marcam seus limites e viabilizam — cada qual com sua especifcidade, competndo ou complementando — uma atvidade ou prátca predominante” (Magnani, 1987:3).

usuários vêm-se como antagonistas através de seus próprios signos: cinemas de rua, vida nas ruas, etc.

O Cine Belas Artes figura como um lugar de representação quando passa a ancorar um determinado desejo irradiador para todo o urbano, tornando a preservação, dentro dos discursos analisados, um passo “emblemático” para uma mudança nos processos de construção da cidade e, consequentemente, de toda a sociedade. Em suma, o Belas Artes é feito sinédoque de um desejo de cidade a conquistar.

Dessa maneira, o Cine Belas Artes como lugar de representação é ícone para uma ideia que transcende sua particularidade. A constante de alguns juízos (aversão ao mercado imobiliário e aos shoppings centers; apologia aos cinemas de rua, à acessibilidade, à permanência em detrimento à destruição) nos depoimentos coletados nos permitem construir um panorama de que há por detrás do interesse no caso do Cine Belas Artes uma vontade, um desejo de transformação, tanto da configuração urbana de São Paulo, quanto de seu processos de construção. É saliente que todas as formulações surgem em oposição, negação, ao existente. São simultaneamente criticas e propositivas:

Mas de qualquer forma, o movimento em defesa do Cine Belas Artes é emblemático: hoje em dia, a cidade está nas mãos da especulação imobiliária - a preservação e a reabertura do Belas Artes significará uma vitória da cultura, da arte e de todos os valores humanos mais elevados sobre a ganância, a cobiça e esse poder brutal da especulação imobiliária (Jorge, 45 anos).

A movimentação social e a própria preservação do Belas Artes são tidos por seus defensores como uma transformação para além da resolução do caso em particular. Ao tratar de “ganância” e o “poder brutal da especulação imobiliária”, Jorge trata da cidade toda. O “caso emblemático” que propõe se refere ao aspecto difusor de problemáticas urbanas que o caso Belas Artes levantou através da mobilização social e das mídias como lugar de representação.

Lugar vivido

A segunda face da construção do lugar Cine Belas Artes diz respeito ao lugar vivido. Esse, em contraste com o lugar de representação, refere-se à experiência corriqueira, coletiva ou individual, de um espaço. A construção desse lugar, ao invés de estar relacionado a significações de caráter icônico ou metafóricas, vincula-se aos significados produzidos a partir do contato direto com o espaço. O lugar de vivência, diferentemente do de representação, não existe fora experiência do espaço.

A experiência do cinema coopera na construção da memória e do afeto, bases para a elaboração do lugar Belas Artes. Dessa maneira, a partir dos discursos dos ex-usuários, pode- se aferir alguns dos aspectos construtivos da singularidade desse lugar de vivência, cuja manutenção, manifesta na valoração do uso e da localização, é a principal reivindicação da busca pela salvaguarda do Cine Belas Artes.

Filmes e salas do circuito e alternativos não são a priori passíveis de julgamento de valor. Mas há talvez, uma distinção de posicionamento e valoração da experiência cinematográfica pelos diferentes públicos. Os cinemas da Paulista abrigam, em maioria, públicos distintos dos cinemas de shopping (Almeida, 1995). A apropriação por determinados grupos sociais, em geral de jovens universitários e intelectuais (Simões, 1990) do Belas Artes transcende o mero uso, no sentido estritamente funcional, tornando-se ponto de encontro, de espera, de pausa, de conversas, enfim, de certa sociabilidade urbana.

Distintos púbicos realizam distintas apropriações (“cinema de arte” e cinema comercial) de seus espaços. Seguindo as observações de Stefani (2007) e Almeida (1996), o público do “cinema de arte” estabelece relação sentimental e afetiva com os espaços de exibição, constituindo muitas vezes até certos “ritos” em sua frequência. Esse fenômeno possivelmente

está associado tanto com a relação com o consumo do produto exibido, assim como com a escassez destes espaços de exibição na cidade. Deste modo ambos concluem que possivelmente estes espaços engendram certa identidade, consolidando-se como lugares da cidade para estes grupos.

Em contrapartida os frequentadores dos multiplex não estabelecem vinculo sólido com seus espaços de exibição. Independentemente se se encontra em um shopping center ou não, para ambos os autores, o costume de ir ao cinema está para esse indivíduo assim como uma gama de outras atividades de lazer, ou seja, é apenas mais um entretenimento entre outros. Outro fator determinante talvez seja a homogeneidade dos espaços e programação nos multiplex de forma que constituem espaços indistintos (assim como o produto que oferecem) e, portanto, desprovidos de qualquer singularidade capaz de engendrar uma identidade, beirando o que Augé (2010) denomina de não-lugares.

Dessa forma, o lugar vivido do Cine Belas Artes constitui-se a partir da soma de vivências coletivas e individuais, estando diretamente relacionados o espaço e a localização do cinema, com seu público e os ritos e valorações desse rito que ali se estabelecem. Uso, programação, localização e espaço encontram-se plenamente fundidos na vivência do lugar, tornando a preservação completa desses aspectos condição sine qua non para a preservação do lugar Cine Belas Artes.

Considerações finais

Grande parte da problemática desenrolada pelo caso do Cine Belas Artes diz respeito à decisão de que modelo e instrumentos seriam adequados à sua preservação. A dificuldade está concentrada, dentre outras, na ideia de preservação do uso. O uso, tradicionalmente no Urbanismo é tratado de forma restrita a seu caráter utilitário e funcional. Este conceito de uso esquadrinha as experiências da cidade, reduzindo-as a seu caráter quantitativo. Entre o lazer e o trabalho, há a vida de todos habitantes da cidade. Uma sala de cinema não é nem somente funcional, nem somente lazer, mas uma experiência coletiva e individual multifacetada.

O objetivo inicial de pesquisa foi entender a mobilização realizada em torno do Cine Belas Artes e suas consequências propositivas para problemáticas da disciplina do Patrimônio Cultural. A conclusão do artigo dá-se, portanto, no entrecruzamento entres estas duas frentes de investigação. Este encontro não chega à dimensão de uma proposta, por mais que possa insinuar caminhos.

Figura. 1. Fachada do Cine Belas Artes. Fotografia: Autor, 2011.

A quantidade de grafites que cobriram o cinema após seu fechamento é reveladora da posição de seu destaque no imaginário urbano. Como a relva da floresta que encobre velhas construções, os grafites e pichações atestam o abandono. Protestam por meio da intensificação do processo de degradação, como catalisadores ou lamentosos oráculos do destino a que está fadado o edifício. “Pasolini passou aqui” é a síntese das valorações atribuídas ao Belas Artes. A primeira, mais literal, diz respeito à sua posição no circuito exibidor paulista, parte do circulo afetivo de determinados grupos ligados a uma cultura cinematográfica. A outra, como descrita pelo próprio autor (O Estado de São Paulo, 05/12/2011), surge da metáfora sobre o destino de Pasolini, que morreu atropelado, assim como, nas palavras dos entrevistados, o foi, por outras forças, o Belas Artes.

A compreensão da mobilização ao redor da salvaguarda da sala de cinema em questão teve seu desenvolvimento primordial envolta do conceito de lugar. Foi a partir dele e da busca por uma compreensão especifica de sua construção no caso estudado que formulamos e organizamos nossas percepções acerca desse fenômeno social.

Para tanto, lançamos duas hipóteses para a sustentação e elaboração do lugar Belas Artes. A primeira procura compreender o Cine Belas Artes enquanto lugar de representação, ícone do desejo urbano do grupo social analisado. A segunda aborda o cinema enquanto lugar vivido, tendo como foco a construção do lugar a partir da experiência subjetiva e coletiva daquele espaço.

Assim, observamos dois lugares distintos para um mesmo espaço. Lidamos, para a primeira, na matriz do lugar de representação, ou seja, o Belas Artes enquanto um lugar no imaginário da cidade. Na segunda o lugar é construído menos pelos discursos que o cercam e mais pelas vivências, experiências e memórias acumuladas naquele espaço.

Para cada lugar há um debate patrimonial distinto. Por isso nos propomos a pensá-los separadamente, mas não completamente apartadas, mas antes camadas conspícuas de um

mesmo fenômeno. A valoração do edifício que comporta o Cine Belas Artes, sob a ótica do lugar de representação e de memória, está relacionada à idéia de monumento. Esta noção, na modernidade, está associada diretamente com o intricado entre as ideias de rememoração e projeto político (Fonseca, 1997). Foi assim que o SPHAN construiu uma ideia nação brasileira em sua primeira fase de atuação (durante a gestão de Rodrigo Melo Franco de Andrade) (Fonseca, 1997), estratégia seminal da noção moderna de patrimônio surgida na França, em consonância com a formulação de projeto social e político proposta por Arantes (2006).

A operação de memória/rememoração pensada para o Belas Artes é de menor escala, porém opera de maneira semelhante. O ato de preservar supõe o ato de esquecer. Esquecer o Belas Artes, simbolicamente, significa esquecer um desejo urbano, em todos os aspectos antes formulados. Por outro lado preservá-lo denota o reconhecimento dessas mesmas qualidades e aspirações. Assim como, por exemplo, o Obelisco de São Paulo foi erguido em memória à Revolução Constitucionalista de 1932, com o objetivo de firmar certa identidade paulistana e manter acesa a chama dos ideais marcados por aquele movimento.

Se entendemos o Belas Artes como monumento paulistano é no estrito sentido da lembrança, da permanência da memória enquanto propulsora do imaginário urbano e de suas consequentes transformações. Seria antes enquanto lugar de memória, como proposto por Pierre Nora (1993), do que um saudosismo. Retomando ao binômio da história dos “vencedores” e dos “derrotados” podemos pensar que a preservação do Belas Artes seria a construção de um monumento aos “derrotados”, mantendo acesa a chama da luta de identidades, criadas e sustentadas pela oposição (Hall, 2006), que foram construídas ao redor deste espaço enquanto elemento simbólico, lugar de representação. Preservar o Belas Artes seria instituir aos grupos sociais que se articulam ao discurso de desejo urbano aqui caracterizados um lugar de resistência, um lugar de memória que mantém o conflito de interesses na produção do espaço urbano em aberto, que reforça essas contradições ao invés de neutralizá-las a fim de atingir uma suposta “unanimidade”.

Se pensado o monumento Belas Artes na matriz da experiência e vivência do cinema, do lugar vivido, chegamos à outra formulação. Entramos em consonância com o pensamento urbano característico dos anos 60/70, do apelo à pequena escala e da valoração de dados subjetivos no pensamento da produção da cidade. O monumento Belas Artes, nesse caso, não trataria exatamente de uma memória coletiva e comum como no outro, mas de um amálgama de memórias e afeto individuais depositados em um mesmo objeto. O foco da valoração é a manutenção da experiência e das práticas dos grupos sociais ligados a esses espaços, que são interdependentes.

Ao contrário do monumento anterior, este não seria um objeto que procura confluir em si uma única memória, uma espécie de meta-narrativa comum, mas um objeto que contempla a multiplicidade da experiência urbana, equiparando esse valor ao das “grandes” narrativas históricas. Valoriza o cotidiano do cidadão comum, pretende apenas atuar enquanto mantenedor de um determinado modo de vida na cidade, à maneira como são realizadas ações patrimoniais junto à comunidade indígenas, como o tombamento da Cachoeira do Iauaretê (Arantes, 2009).

Tangenciando o pensamento de Magnani (1987) sobre as manchas urbanas, consideramos que o Cine Belas Artes junto com o Cinearte (atual Cine Livraria Cultura), Cine Unibanco, CineSESC e Reserva Cultural, constituem juntos um lugar para a cidade. Como proferido por muitos de nossos entrevistados e de Almeida (1990): são os “cinemas da Paulista”, compartilhando identidade e público específicos. O Cine Belas Artes não é o lugar de cinema de arte na cidade, mas um dos lugares, o lugar de cinema é constituído pelo conjunto. Dessa maneira, pensar a permanência do Belas Artes unicamente enquanto lugar vivido só faria sentido se pensada em conjunto.

As duas noções de monumento propostas não são excludentes, mas complementares enquanto dão conta de diferentes camadas do fenômeno estudado. Por último cabe analisar estas duas propostas sob a luz das problemáticas patrimoniais levantas pelo trabalho. Ambas contemplam tanto a noção do patrimônio enquanto projeto social, ou seja, um olhar mais amplo para o patrimônio como fenômeno social e parte atuante na concorrência para a produção do espaço urbano. Ambas também consideram a dissolução da distinção entre materialidade e imaterialidade, tanto no que diz respeito à valoração do espaço enquanto recipiente da experiência e afeto de grupos sociais paulistanos quanto na valoração pelo valor simbólico do edifício, em que a criação do símbolo é uma operação “imaterial”, imaginativa, que pousa sobre uma estrutura física.

Para a ação efetiva das duas hipóteses seria necessário o cerceamento do direito de propriedade privada a fim de garantir a preservação proposta. Poderia ser realizada por meio de um acordo, como no caso citado em 2004, porém se não há consentimento do proprietário se faz necessária a intervenção do setor público. Os instrumentos utilizados poderiam ser a desapropriação ou o tombamento. A utilização do tombamento, como já mencionado, é limitada tanto pela legislação como em sua eficácia. Nesse caso o tombamento seria útil enquanto gesto político inaugural para uma ação seguinte de desapropriação, de convencimento do proprietário ou de negociação para uma PPP. A desapropriação por sua vez garante a posse de propriedade ao Estado, mas assim como tombamento, não garante a preservação. Essa é possível através de ações contundentes da sociedade civil organizada e do Estado para mobilizar patrocinadores e especialistas para retomar o uso do local, como ocorrido na reabertura do cinema realizada em 2004.

Essa ação, realizada pela produtora O2 Filmes junto à distribuidora Pandora Filmes, pode ser significada como uma ação de preservação material e imaterial do cinema independente dos instrumentos oficiais. O edifício então se encontrava em condições materiais inviáveis para desenvolver sua atividade. A reforma do edifício, realizada por Roberto Loeb, agiu sobre o material de acordo com sua valoração imaterial, ou seja, a nosso ver, não consiste em um processo de restauro arquitetônico, mas de restauro de uso, de urbanidade. Dessa forma o arquiteto sentiu-se livre para criar novos espaços de convivência (como o hall do segundo andar, a abertura para a Rua da Consolação e a lanchonete no térreo) assim como reconfigurar livremente as salas de exibição. Note-se que essa ação conseguiu equilibrar o interesse financeiro e mercadológico dos entes envolvidos com a interpretação e respeito ao valor social atribuído para aquele espaço.

A ideia dessa recuperação foi revitalizar aquele lugar tão caro à cidade de São Paulo. Por isso foi imprescindível a associação de André Sturmn na direção das atividades do cinema. A recuperação tanto do caráter de programação que o cinema havia desenvolvido até os anos 90, assim como de suas atividades de teor cultural, garantiram, junto à recuperação das instalações, que aquele voltasse a ser um lugar da cidade. As movimentações ocorridas no começo de 2011, reunindo desde jovens até idosos, são a prova da eficiência desta ação de preservação, verdadeiramente efetiva não só na preservação da memória, mas também da vida na cidade, contemplando a esfera de valor que aqui lidamos: a manutenção do lugar.

Bibliografia

Acervo de recortes de jornal da Cinemateca Brasileira. Acervo digital da Folha de São Paulo.

ALMEIDA, Heloísa Buarque de. Cinema em São Paulo - hábitos e representações do público (anos 40/50 e 90). Dissertação de mestrado, FFLCH-USP, São Paulo, 1995.

ANTUNES, Fátima Martin Rodrigues Ferreira. Parecer técnico ao processo de tombamento do Cine Belas Artes. DPH, São Paulo, 2011.

ARANTES, Antonio A. O patrimônio cultural e seus usos: a dimensão urbana in Habitus, Goiânia, n. 4, jan/jun 2006.

ARGAN, Giulio Carlo. História da Arte como História da Cidade. Ed. Martins Fontes, São Paulo, 1992.

AUGÉ, MARC. Não-lugares. Introdução a uma antropologia da supermodernidade. Ed. Papirus, São Paulo, 2010.

CASTRIOTA, Leonardo Baci. Patrimônio Cultural: Conceitos, Políticas, Instrumentos. Ed. Annablume, São Paulo, 2009.

CHAGAS, Mário e ABREU, Regina. Memória e Patrimônio: ensaios contemporâneos. Ed. Lamparina, Rio de Janeiro, 2002.

Entrevistas com Afonso Junior, abril, 2012; com Jorge Rubies, março, 2012; e Hirao, março, 2012.

FONSECA, Maria Cecília Londres. O patrimônio em processo: trajetória da política federal de preservação no Brasil. Ed UFRJ, Rio de Janeiro, 1997.

FRÚGOLI Jr, Heitor. Centralidade em São Paulo: trajetórias, conflitos e negociações na metrópole. São Paulo: Cortez; Edusp, 2000.

HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. DPeA, São Paulo, 2006. LYNCH, Kevin. A imagem da cidade. Ed. 70, São Paulo, 2011.

MAGNANI, José Guilherme. Da Periferia ao Centro: pedaços e Trajetos. Revista de Antropologia, São Paulo, 35, 1987.

MENESES, Ulpiano Toledo Bezerra de. A cidade como bem cultural — Áreas envoltórias e outros dilemas, equívocos e alcance na preservação do patrimônio ambiental urbano in Patrimônio: atualizando o debate. IPHAN, São Paulo, 2006.

NEVES, Deborah R. Leal; SILVA, Mário A. Medeiros da Silva; ZAGATO, José A. Chinelato. Parecer técnico ao processo de tombamento do Cine Belas Artes. UPPH, São Paulo, 2012.

OLIVEIRA, Licia M. Alves. Parecer técnico ao processo de tombamento do Cine Belas Artes. DPH, São Paulo, 2011

ORNELAS, Fábio. A esquina do cinema. Documentário realizado para o trabalho de finalização de Pós-Graduação em Vídeo-Jornalismo na PUC-SP, São Paulo, 2012.

SANTORO, Paula Freire. A relação da sala de cinema com o espaço urbano em São Paulo: do provinciano ao cosmopolita. Tese de mestrado, FAU-USP, São Paulo, 2004.

STEFANI, Eduardo Baider. A geografia dos cinemas no lazer paulistano contemporâneo: redes e territorialidades dos cinemas de arte multiplex. Tese de mestrado, FFLCH-USP, São Paulo, 2003.

TORRES, Lilian de Lucca. Programa de Paulista: lazer no bexiga e na avenida Paulista com a rua da Consolação in TORRES, Lilian de Lucca e MAGANANI, José Guilherme. Na Metrópole: textos de antropologia urbana, Edusp, São Paulo, 1996.

VEIGA, Ana Cecília Rocha. A materialidade da dimensão intangível do patrimônio cultural urbano. Teses de mestrado, UFMG, 2005.

Como Citar

Pedro Beresin Schleder Ferreira . Os lugares no espaço: a problematização do Cine Belas Artes como Patrimônio Cultural de São Paulo. In: PEIXOTO, Elane Ribeiro; DERNTL, Maria Fernanda; PALAZZO, Pedro Paulo; TREVISAN, Ricardo (Orgs.) Tempos e escalas da cidade e do urbanismo: Anais do XIII Seminário de História da Cidade e do Urbanismo. Brasília, DF: Universidade Brasília- Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, 2014 . Disponível em: http://www.shcu2014.com.br/content/os-lugares-no-espaco-problematizacao-do-cine-belas-artes-como-patrimonio-cultural-sao-paulo