Operação Bananal, do domínio territorial ao balneário esquecido de Brasília

Eixo Temático: 

 

Operação Bananal: do domínio territorial ao balneário esquecido de Brasília

Eixo Temático: Território

Resumo

As tentativas de ocupação territorial brasileira no século vinte, institucionalizadas na Marcha para o Oeste (1938), encontraram bases para concretização, a partir dos anos quarenta, na Expedição Roncador-Xingú e na Fundação Brasil Central, criando redes infraestruturais para colonização e desenvolvimento das regiões centro e norte do país. Colônias agrícolas e até mesmo cidades novas foram fundadas nos estados de São Paulo, Paraná, Goiás, Mato Grosso, Tocantins, Pará etc., configurando um rico período de urbanização, já revelado por inúmeras pesquisas realizadas. Contudo, nesse panorama de interiorização e ocupação territorial durante o século passado, o episódio conhecido por Operação Bananal destaca-se por sua particularidade e pela ausência de estudos direcionados e originais. Ao propor um balneário em plena Ilha do Bananal em 1960, o presidente Juscelino Kubitschek, além de promover a colonização por migrantes e a integração com povos indígenas locais, reafirmaria seu papel de empreendedor ao garantir a Brasília sua estância de lazer às margens do rio Araguaia. Hoje, dessa ação visionária, restam apenas ruínas.

Palavras-chave: Marcha para o Oeste; Expedição Roncador-Xingú; Fundação Brasil Central; Operação Bananal; Brasília.

Abstract

Attempts to Brazilian territorial occupation in the twentieth century, institutionalized by the Marcha para o Oeste (1938), found support for implementation, in the forties, at the Expedição Roncador-Xingú and the Fundação Brasil Central, creating infrastructural networks for colonization and development of north-central regions of the country. Agricultural colonies and even new cities were founded in the states of São Paulo, Paraná, Goiás, Mato Grosso, Tocantins, Pará etc., configuring a rich period of urbanization as revealed by many researches. However, this panorama of internalization and territorial occupation during the last century, an episode known as Operação Bananal stands out for its particularity and lack of targeted and original studies. In proposing a resort in the middle of the Bananal Island in 1960, President Juscelino Kubitschek, in addition to promoting colonization by migrants and integration with local indigenous peoples, reaffirm its role as entrepreneur to ensure Brasília their leisure resort on the banks of the Araguaia River. Today, from this visionary action, there are only ruins.

Keywords : March to the West ; Roncador-Xingú Expedition ; Brazil Central Foundation ; Bananal Operation; Brasilia

Qual a “praia” do candango?

Quando os primeiros migrantes chegaram no far west brasileiro em fins dos anos cinquenta para habitar a nova capital, a praia mais próxima distava 960 quilômetros em linha reta, situando-se em Canavieiras (BA). Por rodovia, o litoral mais perto estava em São Paulo, na velha cidade de São Vicente. Localidades por demais longínquas ao pensarmos no usufruto do tempo livre pelos novos brasilienses. No universo da vilegiatura candanga, em pleno Planalto Central, além do lago Paranoá — parte da escala bucólica do Plano Piloto –, dos clubes as suas margens e da abundância de áreas verdes, podemos afirmar que o morador da recém-criada capital não dispunha de mais alternativas de lazer a céu aberto, correto? Errado! Pesquisa realizada revela a proposta de fundação de um núcleo balneário para Brasília, com propósito de atender a sua população em períodos de férias e veraneio. A “praia” do candango ficaria a uma distância de 550 quilômetros, na localidade de Santa Isabel do Morro às margens do rio Araguaia, na divisa entre os estados de Tocantins, Mato Grosso e Goiás.

Tratava-se de um balneário criado em 1960 e chegou a contar com: residência oficial do presidente Juscelino Kubitschek (1902-1976), hotel de nível internacional (Fig. 1), hospital, pista de pouso e projeto urbano para área residencial. Um balneário localizado às margens do rio Araguaia com funções voltadas ao lazer fluvial. Um plano com começo, meio e fim, conhecido por Operação Bananal e cuja narrativa pretende-se expor ao longo desse trabalho.

Figura 1. Foto de xícara do Hotel JK, na Ilha do Bananal.

Fonte: Acervo pessoal (tirada do Memorial Juscelino Kubitschek, em Brasília).

Um processo, que teve início na Marcha para o Oeste de Getúlio Vargas, ganhou forças com as ações de ocupação territorial investidas pela Expedição Roncador-Xingú e pela Fundação Brasil Central, materializou-se com a vocação empreendedora de Juscelino Kubitschek (JK), interrompeu-se pelo descaso das autoridades públicas durante o Regime Militar, até ser esquecido, fazendo-se realidade nas ruínas existentes, nos documentos encontrados no Arquivo Nacional, no Arquivo Público do Distrito Federal (ArPDF) e no Memorial Juscelino Kubitschek, em Brasília, assim como nas memórias dos poucos que vivenciaram tal experiência.

Será por esse percurso histórico-narrativo que o trabalho seguirá, expondo as partes constituintes e as diferentes escalas do território contidas em tal Operação, resgatando de planos mais amplos de ocupação territorial à existência, por ora esquecida, de um local a servir Brasília como sua Riviera, sua estância balneária.

Antecedentes: Marcha, Expedição e Fundação

(…) a civilização brasileira, a mercê dos fatores geológicos, estendeu-se no sentido da longitude, ocupando o vasto litoral, onde se localizavam os centros principais de atividade, riqueza e vida. Mais do que uma simples imagem, é uma realidade urgente e necessária galgar a montanha, transpor os planaltos

e expandir-nos no sentido das latitudes. Retomando a trilha dos pioneiros que plantaram no coração do Continente, em vigorosa e épica arremetida, os marcos das fronteiras territoriais, precisamos de novo suprimir os obstáculos, encurtar as distâncias, abrir e estender as fronteiras econômicas, consolidando, definitivamente, os alicerces da Nação. O verdadeiro sentido de brasilidade é a marcha para o Oeste. No século XVII, de lá jorrou o caudal de ouro que transbordou na Europa e fez da América o Continente das cobiças e tentativas aventurosas. E lá teremos de ir buscar: dos vales férteis e vastos, o produto das culturas variadas e fartas; das entranhas da terra, o metal com que forjar os instrumentos de nossa defesa e do nosso progresso industrial (…). (Getúlio Dornelles Vargas in NEIVA, 1942)

As palavras do presidente Getúlio Vargas (1882-1954) apontam para uma política de ocupação territorial em voga nos anos trinta. A Era Vargas (1930-1945), como ficou conhecida, caracterizou-se pela centralização do poder executivo federal, criando-se Ministérios, Instituições e Departamentos de abrangência nacional (e.g.: o Ministério do Trabalho, Ministério da Educação e Saúde, o Departamento de Imprensa e Propaganda, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, a Fundação Brasil Central), todos diretamente ligados ao comando do chefe de Estado. Além da união político- administrativa, o governo federal igualmente almejava uma união territorial. A ocupação da faixa litorânea, com 90% da população à época, deveria ceder espaço e avançar rumo às fronteiras ocidentais.

Propiciada pela franja ferroviária (Fig. 2), pelo deslocamento direcionado de imigrantes estrangeiros e pela expansão da zona agrícola — notória nos estados de São Paulo e Paraná –, a prática de urbanização do território pela criação de cidades novas já se efetivava desde o início do século vinte (REGO, 2009; TREVISAN, 2009). Com Vargas, tal prática se tornou programa de governo visando à firmação do Brasil enquanto uma nação de dimensões continentais e à proteção de suas fronteiras ocidentais. Foi com o Estado Novo (1937-1945) que se instaurou oficialmente a Marcha para o Oeste.

Figura 2. Franja ferrovia no estado de São Paulo rumo ao oeste; a cada estação uma nova cidade surgia.

Fonte: TREVISAN, 2009.

Com a II Guerra Mundial (1939-1945), quando a fragilidade das fronteiras territoriais de países menos desenvolvidos despertavam interesses das grandes potências, fazia-se

necessário ocupar regiões ermas como o Centro-Oeste e o Norte brasileiros. Para além do fato isolado de transferência da capital da costa para o interior, que vinha desde o século dezenove (veja-se a Missão Cruls de 1892), e dos aspectos de segurança nacional, esse discurso também se sustentava no aumento demográfico populacional nas faixas litorâneas e na necessidade de novas zonas de produção de bens primários e da formação de polos consumidores. Uma ação complexa e de longo prazo que, portanto, só poderia ser viabilizada por um governo interessado, centralizador e doutrinário, como o de Vargas.

Para tal programa de interiorização o governo federal lançou duas bases: a primeira foi a Expedição Roncador-Xingú (ERX), com a atribuição específica de averiguar os espaços em branco existentes nas cartas geográficas; e a segunda tratou da criação da Fundação Brasil Central (FBC), cuja função seria gerir administrativamente a Expedição, criar infraestrutura e implantar novos núcleos populacionais nos pontos ideais delimitados por rotas exploradas (Fig. 3).

Figura 3. Mapa com rotas realizadas pela ERX e FBC (linhas segmentadas).

Fonte: LIMA FILHO, 2000.

Sob o comando dos irmãos Villas-Bôas (Orlando: 1914-2002; Cláudio: 1916-1998; e Leonardo: 1918-1961), a Expedição Roncador-Xingú foi concebida pelos ideais de João Alberto Lins de Barros (1897-1955), então Coordenador de Mobilização Econômica do governo federal. Ao buscar ampliar os limites do progresso e desenvolvimento no Brasil-Central, integrando cerrado e floresta amazônica ao restante das regiões mais economicamente ativas do país (Sul e Sudeste), a expedição tinha igualmente o propósito de identificar e mapear povos indígenas ainda desconhecidos. Embora cientes das imensas áreas ermas a serem desbravadas, recensear seus habitantes e diagnosticar as potencialidades produtivas de suas terras aguçavam os interesses não apenas dos

bandeirantes modernos,

como também de governantes, militares, industriários,

produtores agrícolas, investidores nacionais e estrangeiros.

Assim, por Portaria do Coordenador da Mobilização Econômica, de n. 77, de 03 de junho de 1943, foi organizada a Expedição Roncador-Xingú (…). A importância da referida Expedição, quanto a objetivos estratégicos, levou o Governo Federal a considerá-la de interesse militar, através do Decreto-Lei n. 5.801, de 08 de setembro de 1943, publicado no D.O.U. de 10 do mesmo mês e ano, à página n. 13.489. (…) De objetivos mais definidos, constituindo-se num órgão de direito privado, destinado a preencher os vazios geográficos do Brasil Central, rumo à bacia Amazônica, nasceu assim a Fundação Brasil Central, com a finalidade precípua de desbravar e colonizar as regiões do Brasil Central e Ocidental. (Item 01: Objetivo e Finalidades, do 1o Ofício de Registro de Títulos e Documentos da Fundação Brasil Central, 1945; fonte: Acervo FBC/ARQUIVO NACIONAL)

O plano a ser seguido partia de uma base de apoio instalada na cidade mineira de Uberlândia, onde se localizava o ponto final da Estrada de Ferro Mogiana, vinda de

Campinas (SP). Dali,

uma rota terrestre deveria ser construída, permitindo

acessibilidade a caminhões, equipamentos automotores de grande porte e veículos de tração animal, sendo servida por estrutura de rádio e comunicação, campos de pouso e

edificações que abrigassem as equipes de manutenção. Visionava-se

que a partir do

Triângulo Mineiro, seguindo a parte direita do rio Tapajós, seria possível alcançar Manaus por meio de rotas terrestres e fluviais, além da aérea, ligando assim sul e norte do país, bem como criando um canal de comunicação entre Brasil (Rio de Janeiro e São Paulo) e os Estados Unidos da América — seu aliado na guerra (“Acordo de Washington”, de 1942).

No conjunto dos trabalhos previstos, encontram-se planos para: transportes (rodoviário,

fluvial e ferroviário); uso

de recursos naturais; colonização e produção agrícolas

(colônias); sistema hierarquizado de postos de saúde e de centros educacionais; rede de indústrias básicas; produção de grandes infraestruturas (pontes, hidroelétricas, estações de tratamento d’água); construção de aeroportos; implantação de torres de comunicação de rádio e de transmissão de energia (Figs. 4 e 5).

Figuras 4 e 5. Mapas de Rede de Comunicações (esquerda) e de Desenvolvimento Industrial (direita).

Fonte: Acervo FBC/ARQUIVO NACIONAL.

Em meados de 1943, muitos membros da Expedição encontravam-se estabelecidos em

Uberlândia. Uma estrada

já ligava esta área com a região do alto

Araguaia, mais

especificamente, no entroncamento com o rio das Garças (GO). A partir desta localidade, o território seria desbravado, levantado e documentado até as divisas com Mato Grosso. Com boas condições de salubridade, a Barra Goiana (núcleo urbano intencionalmente fundado) passou a servir de base, fazendo divisa na outra margem do rio Araguaia com a Barra Cuiabana — atual Barra do Garças (MT). A partir de agosto do mesmo ano, João Alberto Lins e Barros deu o nome de Aragarças à nova localidade, onde foi erguida uma cruz em madeira, monumento que seria o “marco zero” da rota em direção à Manaus.

Na cidade nova de Aragarças instalou-se a sede da Fundação Brasil Central, estando essa subordinada à Presidência da República por mais de vinte anos (1943-1967). Como já mencionado, a FBC tinha por objetivo central o desbravamento e colonização das imensas áreas do Brasil-Central (que incluem parte dos estados de Goiás, Mato Grosso, Pará e Amazonas) — notadamente as margens dos rios Araguaia e Xingú.

O fluxograma gestacional da FBC era composto por: um Presidente, um Secretário Geral, um Conselho Diretor e uma Junta de Controle, que acionavam os serviços centrais de engenharia, comunicações, saúde, educação, mão de obra, material, transportes, rádio-comunicações, contabilidade, tesouraria e patrimônio. Com bases operacionais estrategicamente localizadas em três pontos: Aragarças, Xavantina e na Ilha do Bananal — chamados de “Centros de Atividades” –, a FBC também dispunha de polos apoiadores ou os “Postos e Colônias Agrícolas”, como: Ceres1, Garapu e Vale dos Sonhos. Desse modo, a FBC buscava oferecer condições não só aos habitantes da região como a todos aqueles interessados em ali se estabelecer, facultando melhor aproveitamento dos recursos naturais e solucionando problemas de toda ordem. Assim, colonização planejada, migração dirigida, experiências-modelo em modernização agrícola serviram de base para atuação da FBC sobre esse território brasileiro.

De início, o patrimônio laboral da FBC foi o acervo oriundo da ERX, reforçado por recursos federais e doações.

As atividades industriais e comerciais desenvolvidas não produziam resultados financeiros apreciáveis, uma vez que eram realizadas basicamente para suprir necessidades internas. Suas áreas de atuação eram todas de baixo índice demográfico, de precário acesso por via terrestre cujos habitantes eram vinculados a uma economia muito rudimentar, consumindo o pouco que produziam, quer seja na agricultura, na pecuária, na pesca ou na caça. (FREITAS, 1968)

A FBC possuía natureza dupla em sua área jurídica, parte de seus estatutos eram de domínio público, e outra parte, de domínio privado. Entretanto, o maior impulso financeiro à Fundação foi derivado de investimentos empresariais. Por exemplo, a “Usina Central Sul-Goiana” (1953) e a “Usina Fronteira” (1954) foram, respectivamente, instaladas nos municípios de Rio Verde (GO) e Frutal (Triângulo Mineiro), na tentativa de deslocar o eixo industrial (produção de álcool) para novas localidades (região Centro-Oeste). Além destas, outras duas empresas exerceram extrema importância na região: a “Entrepostos Comerciais Brasil Central” e a “Companhia de Navegação Amazonas”, cujas atividades focavam o âmbito comercial de produtos diversos, levando armazéns, farmácias e outros produtos industrializados do Sudeste para os povoados que surgiam, além dos serviços de transporte que a

1 A “Colônia Agrícola Nacional de Goiás” (Ceres) foi fundada em 1941, tendo seu núcleo urbano um projeto assinado pelo engenheiro agrônomo Bernardo Sayão Carvalho de Araújo (1901-1959). Ceres seria a colônia agrícola melhor estruturada, servindo de modelo para as demais que estavam por vir (MARQUES, 2009).

Companhia fornecia pelo rio Amazonas e seus afluentes da margem direita, entre Manaus e Belém. Embora os benefícios levados para Goiás, Tocantins e Mato Grosso tenham sido essenciais para o desenvolvimento da região, nenhuma dessas empresas prosperou sob a administração da FCB por muito tempo, passando ao comando da iniciativa privada.

Em 1945 terminou o regime do Estado Novo, saindo Vargas e ascendendo Eurico Gaspar Dutra (1883-1974). Mesmo com essa alteração, João Alberto Lins de Barros permaneceu na presidência da FBC até 1947, já que Dutra encontrava-se satisfeito com os avanços que estavam ocorrendo no interior de seu estado natal, Mato Grosso. Entretanto, em janeiro de 1948 o general Francisco Borges de Oliveira passou a comandar a Fundação e a encontrou num estado de crise econômica e administrativa. Em 1951, ainda abalada pela crise e com retorno de Vargas à Presidência da República, a FBC passou a ser comandada pelo mato-grossense Archimedes Pereira Lima, cujo desejo pessoal era transferir a capital da república do Rio de Janeiro para a cidade nova de Aragarças (MACIEL, 2006).

A nova capital não foi para Aragarças, mas para o sítio Castanho no Quadrilátero Cruls em abril de 1960. E com as atenções voltadas para Brasília, as bases da FBC em Aragarças e Xavantina foram desativadas no fim da década de 1950. Sem a relação direta e estreita com o governo federal, a FBC entrou em declínio, sendo extinta em 1967, durante o Regime Militar (1964-1985). Contudo, nessa fase da FBC e da ocupação da hinterlândia brasileira, um caso em especial chama a atenção e desperta nosso interesse. Conhecida por Operação Bananal, essa ação tinha, dentre seus planos de colonização e desenvolvimento econômico para a região, a criação de um balneário para Brasília às margens do rio Araguaia, na Ilha do Bananal, como se revela a seguir.

Operação Bananal e um balneário para Brasília

A denominada Operação Bananal remonta aos tempos da Marcha para o Oeste durante o Estado Novo de Getúlio Vargas. A princípio, tal Operação pode ser qualificada como uma ação direcionada de ocupação daquela que é considerada a maior ilha fluvial do mundo, localizada nas divisas dos estados de Mato Grosso, Tocantins e Goiás. No governo de Juscelino (1956-1961), a Operação ganha visibilidade pela iniciativa de criar ali um balneário para Brasília. Ao adentrarmos na história deste feito, pode-se verificar que a ideia da ocupação não surgiu da noite para o dia ou pela virtude empreendedora e reconhecida de JK.

A história da Ilha do Bananal (Figs. 6 e 7) começou muito antes de JK ou da Marcha de Vargas. Os primeiros registros históricos da presença de não indígenas na Ilha datam da virada do século dezessete, quando da expedição de caça aos índios comandada pelo bandeirante paulista Antonio Pires de Campos, rumo às minas de Cuiabá. O rio das Mortes era a via de acesso à região da Ilha, ocupada pelos povos Karajás, Javaés, Xambioá, Xavante, Kayapó, Xerente e Bororos. Todos os esforços dos homens brancos eram no sentido de explorar a riqueza da região, muitas vezes escravizando os povos indígenas. Para facilitar o domínio, os colonizadores brancos criavam aldeamentos para reunir os indígenas e distribuir as terras restantes entre os fazendeiros e os criadores de gado.

Por volta de 1850, a navegação no rio Araguaia passou a ser prioridade para a ocupação do sertão goiano. Dessa época datam os primeiros Presídios — postos militares colocados em lugares estratégicos e que serviam também para aprisionar os índios que causassem problemas às navegações. No início do século vinte, com o aumento dos

interesses comerciais na região, a presença indígena passou a ser considerada um fator de entrave ao desenvolvimento da economia. Procurando dar assistência às demandas de tal população, o então presidente da República, Nilo Procópio Peçanha (1867-1924), criou em 1910 o Serviço de Proteção ao Índio (SPI) — órgão público extinto e

substituído pela FUNAI e

Figuras 6 e 7. Mapas com localização da Ilha do Bananal.

Fonte: Acervo FBC/ARQUIVO NACIONAL.

Apenas no Estado Novo (1938) que se iniciam os primeiros interesses concretos do governo federal por Bananal, e por consequência as primeiras ocupações formais. O SPI

instalou os seguintes Post

s Indígenas junto à Ilha: Getúlio Vargas (atual aldeia Santa

Isabel do Morro), Heloísa Torres e Damiana da Cunha (aldeias extintas). Nesse mesmo período, as terras da Ilha do Bananal começaram a ser procuradas por criadores de gado bovino da região, devido à alta qualidade das pastagens naturais ali presentes. O SPI passou a arrendar essas terras para a entrada de rebanhos bovinos, com cobrança de

taxas por cabeça de gad

e cercamentos. Tal política facilitou o

assentamento de

famílias envolvidas com a lida do gado.

Em agosto de 1940, o presidente Getúlio Vargas visitou a aldeia dos índios Karajás na

Ilha do Bananal. Foi o primeiro presidente a visitar a área, como

parte do projeto

multifacetado de construção de um Brasil novo — independente, integrado e unificado.

O governo queria ainda usar a região como base militar para a Força Aérea Brasileira (FAB). Ainda em 1942, o governo de Vargas já ensaiava as primeiras construções com alojamentos e pista de pouso, além de uma base militar. No ano seguinte, em uma longa carta do Major Orgêo Nogueira Valente destinada ao Presidente, é feita uma “sugestão de desbravar, sanear e colonizar um dos mais distantes e opulentos rincões do nosso Brasil: a Ilha do Bananal”, e são descritas as diversas vantagens que a construção de um assentamento urbano na região poderiam trazer ao país.

A nova cidade será o centro em torno do qual gravitarão outras povoações existentes e por existir e que receberão o influxo do progresso decorrente de um aperfeiçoamento sempre crescente. […] Em um território onde tudo ainda está por fazer, é mais fácil iniciar-se, dentro das normas técnicas e científicas modernas, de acordo com um plano previamente elaborado, do que em outro local onde os problemas já adquiriram complexidade de toda a ordem e que

dificultam a ação dos administradores. (VALENTE, 1943, in Acervo FBC/ARQUIVO NACIONAL)

Porém, nada foi feito até início dos anos sessenta, quando o Presidente da República, Juscelino Kubitschek, direciona suas atenções ao aproveitamento do Vale do Araguaia. Denominada de “Operação Bananal”, essa ação tinha “finalidade de aproveitá-la [Ilha do Bananal] para a criação de um centro de lazer para as pessoas passarem os seus fins de semana” (FREITAS, 1968).

Os holofotes começaram a se voltar fortemente para Bananal quando, ainda Governador do Estado de Minas Gerais (1951-1955), já visionava fundar uma nova capital para o país. JK em viagem pré-campanha eleitoral à Presidência, chegou a visitar a Ilha já intencionando o estreitamento de relações com os índios Karajás, habitantes locais, como relata Affonso Heliodoro dos Santos, subchefe da Casa Civil:

No fim de 1954, ficamos em Goiás quase uma semana. Assuntando, falando de interiorização, integração nacional, capital no Planalto. Circulamos pelo interior, fomos até à Ilha do Bananal visitar os índios. (SANTOS in Acervo FBC/ARQUIVO NACIONAL)

Alguns anos depois, em 1957, na realização da primeira missa no local onde se ergueria a nova capital do país, Juscelino fez questão de convidar e transportar em aviões da FAB uma delegação de índios Karajás vindos diretamente de Bananal.

Inaugurada a nova capital em abril de 1960 e completada a estrada Belém-Brasília, JK decidiu finalmente lançar sua nova empreitada. O anúncio do início da jornada rumo à Ilha do Bananal causou alvoroço. Os que apoiavam Juscelino tentaram o convencer de que se tratava de uma insanidade, e a imprensa julgou o projeto irrealizável. Era maio de 1960 e, portanto, a nove meses do término se seu mandato (31 de janeiro de 1961).

Em um discurso épico, diretamente da Ilha, ao inaugurar a estação de rádio da FAB, em 26 de junho de 1960, JK anunciava o início dos trabalhos:

A construção de Brasília, o esforço épico, façanha que surpreendeu o mundo, deu a medida de nossa enérgica decisão de conquistar os milhões de quilômetros quadrados sobre os quais os mapas traziam aquela clássica legenda “Região Inexplorada”. […] Uma época de grandeza e poderio se inicia efetivamente em nossa pátria, em que pese às lamúrias dos retrógrados e derrotistas. (KUBITSCHEK, 2013)

A ideia da arrancada rumo a Bananal foi pensada na primeira semana de maio de 1960, e já no dia 12 do mesmo mês foi anunciada à imprensa. Segundo JK, de fato, o que se pretendia em relação à Ilha era prover um posto avançado de civilização em plena bacia do Araguaia, capaz de auxiliar o Brasil a contemplar a obra de integração territorial, iniciada décadas atrás e potencializada com a construção de Brasília.

Meu ponto de vista em relação à Ilha do Bananal era simples e objetivo. Tratava-se de um impulso a mais, na direção da fronteira ocidental. Para que esse alvo fosse atingido, seria necessário transformar a ilha em parque nacional. O parque seria a meta da marcha que eu iria iniciar, no sentido de estabelecer na região, até então deserta, núcleos agrícolas pioneiros para o pleno desenvolvimento das atividades agropecuárias. Como a ilha era um paraíso de caça e pesca, decidi construir no seu ponto mais favorável um hotel de turismo, e, levando em conta as primitivas condições de vida na região, resolvi, simultaneamente, incorporar os índios que ali habitavam à civilização brasileira, criando, para eles, serviços locais de assistência imediata. (KUBITSCHEK, 2000)

Em ritmo de Brasília o projeto Bananal foi iniciado com verbas da Superintendência do Plano de Valorização Econômica da Amazônia (SPVEA; 1953-1966) e consistia em

erigir na Ilha um centro turístico e promocional do Brasil-Central e do rio Araguaia, composto de pista asfaltada para os aviões da época, um hotel que receberia o nome de JK, um pequeno hospital, uma escola e ainda uma residência oficial.

Ficaria próximo a São Félix do Araguaia, uma cidadezinha pioneira de Mato Grosso, localizada a pequena distância da embocadura do rio das Mortes e lugarejo com apenas 500 habitantes onde se encontrava um posto da FBC, grande responsável pela ocupação da Ilha. Como relata Juscelino Kubitschek na obra Por que construí Brasília (2000), acertadas as primeiras providências, já no dia 16 de maio, o Coronel Nélio Cerqueira, então diretor da FBC, acompanhado de um grupo de auxiliares, seguiu de avião para o Posto Getúlio Vargas, órgão do Serviço de Proteção aos índios, localizado na margem oeste da ilha. Esse grupo permaneceu dois dias no local, sempre em contato com os índios Karajás, a fim de não só fazer um levantamento dos recursos locais, mas examinar igualmente os diferentes problemas para que fossem iniciadas as obras programadas. Faziam parte desse grupo, além do Coronel Cerqueira, o secretário pessoal de JK, doutor Geraldo Carneiro, o engenheiro Jucá Chaves e o sertanista Acary de Passos Oliveira.

Segundo JK, um dos pontos de discussão com o Coronel Nélio Cerqueira foi acerca da construção do aeroporto, com pista para a aterrissagem de aviões de grande porte, que constava do projeto de desenvolvimento da Ilha do Bananal. Havia a dificuldade em fazer chegar até o local os 1.200 tambores de asfalto necessários à pavimentação da pista. O Brigadeiro Corrêa de Melo, Ministro da Aeronáutica à época, interviu: “Isto não é problema, presidente. Os 1.200 tambores de asfalto poderão ser atirados de aviões, em pára-quedas” (KUBITSCHEK, 2000). A sugestão foi aceita, e o brigadeiro ficou incumbido, na mesma hora, de tomar aquela providência. A pista, de 1.550 por 45 metros, logo foi concluída e aviões começaram a descer na logística de completar e transportar as outras estruturas que comporiam o conjunto.

Efetivava-se a Operação Bananal… Operários foram mobilizados. Fez-se a remessa do material necessário. Oscar Niemeyer elaborou os projetos. Deu-se início às obras. O paulista Wolfgang Dankmar Gunther chegou à região em 1948, junto com a Bandeira Piratininga, e foi um dos encarregados pelas atividades da Ilha, sendo funcionário da FBC. Em entrevista à revista RDM, relatou as vivências que teve por lá:

Fiquei como encarregado da recepção dos materiais de construção que vinham em caminhões de Brasília e Goiânia. Tudo era carregado em balsa para atravessar o Araguaia. Depois de muito tempo construímos o hotel, junto foram construídos um posto da FAB e uma pista de pouso, tudo no tempo do Juscelino. (TRINDADE; MATOS, 2013)

Ao engenheiro Jucá Chaves, um dos pioneiros da construção de Brasília, coube à tarefa da escolha do local para a construção da residência presidencial, cujo projeto foi assinado pelo arquiteto Oscar Niemeyer. Em reportagem da revista O Cruzeiro, identifica-se a ligação entre Oscar e Bananal: **“**Pois nessa região pura vai entrar o traço de ‘ballet’ de Oscar Niemeyer”. Tratava-se do Rancho Pioneiro ou “Alvoradinha” (LEMOS, 1960) — concebido aos moldes do Catetinho de Brasília (Figs. 8, 9 e 10) –, que ficaria situado a uma curta distância do aldeamento indígena de Santa Isabel do Morro. Um mês e uma semana após o anúncio do início das construções, ou seja, no dia 27 de junho, Juscelino visitou a Ilha do Bananal a fim de inspecionar as obras que ali se realizavam e inaugurar sua residência de veraneio.

Figura 8. “Alvoradinha”: projeto de Oscar Niemeyer para a residência presidencial na Ilha do Bananal.

Fonte: ALVES; LINS, 2013/ArPDF.

Figuras 9 e 10. Imagens do “Alvoradinha”, às margens do rio Araguaia.

Fonte: Acervo FBC/ARQUIVO NACIONAL.

Tratava-se de uma casa pitoresca e muito confortável, na qual fora fixada uma placa, com os seguintes dizeres:

Aqui — onde eram, sós, o abandono e a selva — sendo os vinte e sete dias do

mês

de julho de 1960, começou a integração desta ilha do Bananal na

comunidade pátria pela vontade do Presidente Juscelino Kubitschek, ajudado de Deus e de alguns homens, por amor ao Brasil. (Acervo FBC/Arquivo Nacional)

Meses depois Juscelino inaugurou o hotel que levava seu nome, o Hotel JK. De classe internacional, seria a maior atração da Ilha do Bananal. Um volume único sobre pilotis — pois a área estava sujeita a cheias do rio –, possuía construção em alvenaria e janelas debruçadas para o Araguaia. De acordo com depoimentos, o Hotel JK era composto por térreo e pavimento superior, onde ficariam os 18 apartamentos com banheiras, ar condicionado e escritório privativo (Figs. 11, 12, 13 e 14). “Todos os talheres eram de prata, as taças de cristal. Tudo com o emblema JK-Ilha do Bananal”, relembra Dankmar

(GUNTHER, 2007). Na região ainda ecoam histórias dos primeiros

anos do hotel.

Jantares gloriosos, recepções, pescarias e caçadas feitas pela elite política do país e pelos chefes de Estado que visitavam o Brasil, dentre eles os líderes da Rússia, da Itália, e de países vizinhos da América do Sul. Antes de fechar suas portas, o hotel chegou a funcionar como local de convenções e reuniões de dirigentes turísticos ou administrativos vindos de Brasília.

Figuras 11 a 14. Acima: Hotel JK e bar. Abaixo: corredor para quartos e quarto convencional.

Fonte: Acervo FBC/ARQUIVO NACIONAL.

Em 31 de janeiro de 1961 o mandato de Juscelino foi encerrado. Mesmo assim, outras construções para a Ilha, prometidas em seu governo, foram efetivadas pelo comando da FBC (Fig. 15). O hospital Getúlio Vargas foi o próximo a ser finalizado, com ambulatório, 12 leitos, equipamentos e medicamentos, prestando serviços com médicos e funcionários do SPI. Além dele, a Escola Primária de Santa Isabel também foi construída, iniciando suas obras em setembro de 1961, sendo composta por jardim de infância e pré-primário para um total de 250 alunos. A aula inaugural, ocorrida em outubro de 1962, teve apenas 72 alunos.

Figura 15. Vista aérea do conjunto

  1. Hotel

  2. Anexo (corpo auxiliar e lavanderia)

  3. Grupos de geradores

  4. Aeroporto/FAB (Santa Isabel do Morro)

  5. Futura Vila (Hospital e Escola)

  6. Aldeia indígena (Karajás)

  7. Rio Araguaia

Fonte: Acervo FBC/ARQUIVO NACIONAL.

Contudo, outras edificações prometidas ficaram apenas no papel, dentre as quais o clube, o mercado, os almoxarifados, a igreja, a colônia de pesca, o bosque etc., todos projetos desenvolvidos pelo Departamento de Engenharia da FBC, como se verifica em um relatório redigido em 1966 por seu chefe José Rodrigues de Faria (Acervo FBC/ARQUIVO NACIONAL). Junto a esse, identificou-se o projeto urbanístico de uma Superquadra (Fig. 16) — provavelmente para moradores locais — cuja autoria não

foi possível identificar. Trata-se de uma Unidade de Vizinhança, centralizada por escola, parques e área de esportes, envoltas por jardins, bosques e vias hierarquizadas. Tais alamedas conectariam os equipamentos aos quatro renques de lotes residenciais ou a outras possíveis superquadras. Uma unidade urbanística de 200 por 200 metros que poderia ser replicada conforme a demanda de ocupação do novo assentamento previsto.

Figura 16. Projeto de Superquadra para Ilha do Bananal, com 200 por 200 metros de largura, com lotes unifamiliares de 15,00 por 30,00 metros e escola,parque e jogos ao centro.

Fonte: Acervo FBC/ARQUIVO NACIONAL

No entanto, passado o tempo e sem gerência e vontade política, nada disso saiu do papel. Com a posse de Jânio da Silva Quadros (1917-1992) em 1961, a Operação Bananal foi retirada de pauta. Os planos complementares de JK de construir uma rodovia que, vinda de Brasília, atravessasse o brejo Jabaés e mantivesse o centro turístico de Santa Isabel pulsante foi arquivado. Com a falta de uso e a devida manutenção, a deterioração apoderou-se dos edifícios.

O hospital continuou trabalhando, atendendo aos Karajás. Contudo, o Hotel JK, precariamente ocupado por funcionários da SPI/FUNAI, logo teve sua pintura danificada pelo tempo, as janelas emperradas, os pilares corroídos, as roupas penduradas em toda parte, o pátio acumulado de detritos, as máquinas quebradas, os tratores e automóveis arriados na garagem. Segundo relatos do ex-funcionário da Ilha, Wolfgang Gunther, a história da deterioração de Bananal teve forte cunho político:

Parece que o Hotel JK nunca existiu. Na verdade, essa foi a intenção do Governo Militar após o golpe de 1964. Apagou a história das obras de Juscelino, entre elas o formoso hotel, que teve o Rio Araguaia como fiel guardião dessa saga. Primeiro foi feita a troca do nome. O hotel JK passou de Juscelino Kubitschek para John Kennedy, mas a americanização não deu certo e poucos anos depois ele foi fechado e demolido. Tijolo por tijolo foi

arrancado e transferido para local incerto. Sobraram apenas ruínas. (GUNTHER, 2007)

O conjunto sonhado por Juscelino estava desfeito e em decadência. Em novembro de 1967, a Fundação Brasil Central se extingue, sendo substituída pela Superintendência de Desenvolvimento da Região Centro-Oeste (SUDECO). Das obras construídas pela FBC, algumas foram doadas, como o “Alvoradinha”, que foi entregue ao Governo de Rondônia, que por sua vez também o abandonou. O pouco que ainda restava foi destruído em um incêndio, em 1990, restando escombros e ruínas (Figs. 17 e 18).

Figuras 17 e 18. Fotos recentes de ruínas do Hotel JK, na Ilha do Bananal.

Fonte: Acervo FBC/ARQUIVO NACIONAL

Não existe “praia” no Planalto Central

Com as ruínas, foi-se embora o sonho de ofertar a Brasília e a seus habitantes uma estância balneária. A “praia” do candango não seria e, talvez, nunca tenha sido a Ilha do Bananal. Portanto, e contrariando a resposta à questão colocada no início desse artigo, os espaços de lazer da capital federal são aqueles já citados ou outros situados em suas cercanias. A real praia dos brasilienses é aquela no Nordeste, no Norte, no Sul ou no Sudeste do país, mas não no Planalto Central.

Mas essa questão — ou subterfúgio — foi aqui colocada apenas como detalhe de algo mais auspicioso na história da ocupação territorial brasileira. Pela Operação Bananal — seus antecedentes e suas realizações — é possível identificar as tentativas e os meios de ocupação e interiorização do país no século vinte, os interesses envolvidos, os percalços presentes em ações com escalas e tempos distintos.

Da Marcha para o Oeste ao programa de integração e desenvolvimento nacional instaurado pelo Regime Militar nos anos setenta, pode-se observar ao longo do século passado um país que tomou posse de seu território continental. Independente da postura ideológica e dos meios nada democráticos adotados por alguns de seus governantes — infelizmente sendo justificados pelos fins — para colocar suas empreitadas em prática, pôde-se verificar a ocupação de terras ocidentais, fosse pela urbanização (criação de cidades, colônias etc.) fosse pela abertura e consolidação de novas fronteiras agrícolas. De fato, observa-se o deslocamento rumo ao interior, rompendo vazios, conhecendo e dominando povos nativos, colonizando terras, transferindo capitais (Goiânia, Brasília e Palmas), resultados não encontrados nos séculos anteriores. Destaca-se não somente em termos numéricos, dada à criação de municípios e resultante urbanização, mas também pela diversidade de estratégias e métodos aplicados, pelos profissionais envolvidos, pelas infraestruturas implementadas e, acima de tudo, pelas profundas consequências que teve para a organização territorial e demográfica do país.

Resultados obtidos graças aos interesses de políticos — Vargas, Kubitschek etc. — que enxergaram na “Região Inexplorada” a bandeira para seus programas de governo. Bandeiras que, por vezes, camuflavam as verdadeiras razões: impulsionar indústrias das regiões mais desenvolvidas mediante a criação de novo mercado consumidor e a ampliação de fornecedores de matéria-prima; descongestionar os grandes centros urbanos via migração conduzida; afirmar posicionamento aos aliados da Guerra ao facilitar acesso e comunicação com os mesmos; inserir o país no mercado internacional ao situar sua posição de produtor de bens primário e mero consumidor etc. Em relatos épicos e otimistas, pouco se revelava das despesas, das dificuldades, das perdas e dos impactos causados.

Nesse sentido, a Operação Bananal, embora possua em sua essência a marca de interiorização e ocupação territorial, também revela a vontade desmedida de JK. Vontade que contrariou o tempo e as condicionantes envolvidas a fim de concretizar mais um sonho pessoal. Reconhecido pelo perfil empreendedor, a perspectiva em criar um balneário na Ilha do Bananal era, para ele, exequível e natural. Porém, uma vez distante do poder, seu sonho esvaiu-se, não se concretizando tal qual ocorreu com Pampulha e Brasília.

Objeto de desejo desde o século dezessete, a Ilha e toda a sua exuberância e riqueza natural — suas onças-pintadas, botos, uirapurus, garças-azuis, tartarugas, sua flora e seus rios: Araguaia e Javaés — ficaram de posse não dos feitos de JK, mas dos índios em seu Parque Indígena do Araguaia, como definido pelo Decreto Presidencial nº 68.873, de 05 de julho de 1971.

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Como Citar

Ricardo Trevisan; Júlia Solléro de Paula; Caroline N. Cavalcante Barreto; Natália Bomtempo Magaldi . Operação Bananal, do domínio territorial ao balneário esquecido de Brasília. In: PEIXOTO, Elane Ribeiro; DERNTL, Maria Fernanda; PALAZZO, Pedro Paulo; TREVISAN, Ricardo (Orgs.) Tempos e escalas da cidade e do urbanismo: Anais do XIII Seminário de História da Cidade e do Urbanismo. Brasília, DF: Universidade Brasília- Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, 2014 . Disponível em: http://www.shcu2014.com.br/content/operacao-bananal-do-dominio-territorial-ao-balneario-esquecido-brasilia