A multiescalaridade do patrimônio cultural edificado universitário: o conjunto de imóveis tombados da Universidade Federal do Rio de Janeiro

Eixo Temático: 

 

A multiescalaridade do patrimônio cultural edificado universitário: o conjunto de imóveis tombados da Universidade Federal do Rio de Janeiro

Eixo Temático: Território

Resumo

O valioso conjunto de imóveis tombados da Universidade Federal do Rio de Janeiro composto por edifícios representativos de mais de um século da história arquitetônica, artística, cultural, política, institucional e urbanística é o ponto de partida desta pesquisa que busca investigar a rede de relações que entrelaçam a formação do espaço urbano carioca, as instituições publicas de ensino superior e as questões relacionadas à conservação dos edifícios institucionais que as abrigam considerados, em diferentes momentos históricos, como de relevante valor para o patrimônio cultural nacional, estadual e/ou municipal. Partimos da premissa de que mais do que um conjunto de imóveis tombados, estes doze edifícios são o patrimônio cultural edificado de uma instituição profundamente relacionada com questões de território. Uma instituição organizada em campus e, em alguns casos, unidades isoladas, nas quais se localizam o maior número destes imóveis tombados. Eles não se constituem, assim, em sua totalidade, em um conjunto urbano, tal como preconizada pelas Cartas Patrimoniais. Ao defini-los como patrimônio cultural edificado universitário os reconhecemos como uma escala da rede de territórios articulados que compõem a universidade e integram- na à cidade. A fim de compreender as múltiplas escalas deste patrimônio partimos de três premissas. De que ele é: (i) é um dos elementos da estreita relação existente entre universidade, território, formação do espaço urbano e construções identitárias; (ii) participa da construção histórica do Rio, Cidade Universitária; (iii) é um documento pleno de significados funcionais, culturais, arquitetônicos, urbanísticos, sociais, técnicos, simbólicos e políticos a partir dos quais podemos promover uma leitura dinâmica dos valores de uso destes lugares notáveis que integram e identificam o território cultural da universidade. Tendo estas premissas em foco apresentamos os imóveis que integram o acervo cultural edificado da UFRJ e propomos algumas questões para análise e proposição de políticas culturais voltadas para este patrimônio.

Palavras-chave: patrimônio cultural edificado, universidade, território, multiescalaridade

Abstract

The rich set of protected property of the Federal University of Rio de Janeiro, composed of representative buildings of over a century of architectural , artistic , cultural, political , institutional and urban history is the starting point for this research. It investigates the network of relationships that intertwine forming of Rio’s urban space, public institutions of higher education and issues related to conservation of their institutional buildings that, at various historical moments, had been evalueted as the value for the relevant national, state and / or municipal cultural heritage. We assume that more than one set of protected properties , these twelve buildings are built cultural heritage deeply related to issues of territory establishment . An institution held in campus and , in some cases, individual units in which are located the most fallen these properties . They do not therefore constitute in its entirety , in an urban set, as advocated by Heritage Letters . To define them as cultural heritage buildings

recognize the university as a range of articulated territories that make up the university network and integrate them in the city . In order to understand the multiple scales of this heritage we leave three assumptions. That it: ( i ) is an element of the close relationship between university, territory , formation of urban space and identity constructions; (ii ) participates in the historical construction of Rio, University City; (iii ) is a full document functional, cultural , architectural , urban , social , technical , symbolic and political meanings from which we can promote a dynamic reading of values using these remarkable places that integrate and identify the cultural territory of the university. With these assumptions in focus present the properties that make up the cultural heritage built from UFRJ and propose some questions for analysis and proposition focused on this cultural heritage policies.

Keywords: building cultural heritage, university, territory, multi-scalarity

Do que trata o artigo

Este artigo apresenta os resultados parciais da pesquisa em andamento voltada para a análise do conjunto de imóveis tombados da Universidade Federal do Rio de Janeiro em suas múltiplas escalas de inserção: como documentos da história arquitetônica, artística, cultural, política, institucional e urbanística; e como elementos em torno dos quais se configuram os distintos territórios. Como em toda pesquisa, algumas questões foram adquirindo primazia tendo em vista a maior precisão no delineamento do objeto de estudo. Neste sentido, as questões que despontaram no inicio da pesquisa não estavam relacionadas aos aspectos históricos destes edifícios, mas, sim, às questões simbólicas, de atribuição de valor e de conservação destes bens culturais, a partir do momento que foram identificados como patrimônio cultural. Em outras palavras, embora existam lacunas a serem preenchidas na revisão histórica sobre cada um dos imóveis tombados que compõem o acervo edificado da UFRJ algumas questões adquirem precedência, tais como: Qual o valor cultural deste imóvel hoje? Será ainda o mesmo de quando foi tombado ou novos valores foram acrescidos enquanto outros se esmaeceram? E, assim sendo, quais critérios adotar na conservação do bem? Como o bem é apropriado pela comunidade universitária e pelos cidadãos cariocas?

Considerando que a atribuição de valor, reflete uma concepção de cultura de uma determinada sociedade, em um determinado momento, em relação a um determinado objeto, neste caso, um patrimônio edificado, é licito pensarmos que ela está sujeita a mudanças. Não só porque os tempos mudam, as condições sociais mudam e possibilitam novas interpretações, mas porque, como apontou Rocha-Peixoto (2012), a memória é dinâmica, não cumulativa, e o patrimônio vive nas nossas palavras, dos nossos diálogos. Precisamos lembrar, tanto quanto esquecer. O que permanece nesta dialética do lembrar-esquecer? Um patrimônio que não se conhece, sobre o qual não se fala, ainda assim é um patrimônio cultural?

Esta revisão dos aspectos simbólicos e axiológicos destas edificações é importante uma vez que o objeto de estudo são os imóveis tombados, isto é, imóveis que, por se distinguirem dos demais por seu valor cultural foram salvaguardados pelo instrumento do tombamento e determinada a sua conservação. Neste sentido, a valoração como bem cultural estabeleceu uma hierarquia em relação aos demais imóveis — daquele momento, deste pais, deste estado, desta cidade, …- e precedência em relação às ações do patrimônio cultural. Ações que também passam por revisões, incorporando as novas possibilidades oferecidas pelas inovações tecnológicas relacionadas à

integridade física das edificações, mas também as revisões conceituais do campo do patrimônio cultural arquitetônico e urbano.

Analisando os contextos atual e histórico deste acervo edificado da UFRJ constatamos que trabalhávamos mais do que com um conjunto de imóveis tombados, com o que definimos como patrimônio cultural edificado universitário. A especificidade residiria, sobretudo, na destinação de uso. Sendo este uso, destinado ao ensino superior, na primeira e maior universidade pública do país, aquela com o maior acervo edificado tombado ao nível nacional (muitos deles edificados no período em que a cidade foi capital federal -1763/1960), percebemos que a análise deste acervo passa, entre outras questões, por aspectos relacionados à imagem institucional; à captação de recursos para financiamento da conservação e manutenção destes imóveis públicos; à relação entre o ensino superior público na cidade, a base física onde se desenvolvem suas atividades e sua distribuição no espaço urbano carioca; aos campus institucionais que abrigam atividades de ensino, pesquisa e extensão, na cidade, na qual edificações de valor cultural convivem com outras de caráter inespecífico relacionadas às necessidades de expansão das atividades mencionadas acima. A diferenciação extrapolava, portanto, os aspectos específicos de destinação de uso.

Some-se a isto o fato de que à medida que avançávamos na pesquisa, realizávamos os levantamentos de campo, a revisão histórica e analisávamos aspectos da apropriação destes espaços, percebíamos que estas edificações notáveis destinadas ao uso universitário organizam territórios culturais historicamente delimitados na cidade. O que nos levou a concluir que era importante trabalharmos com uma ampliação do conceito de patrimônio: o patrimônio cultural edificado universitário. Abrimos assim a possibilidade de reconhecê-los não como um conjunto urbano, tal como definido nas Cartas Patrimoniais (Cury, 2000), mas como uma escala da rede de territórios articulados que compõem a universidade integra-a à cidade.

Premissas

A metodologia de análise proposta parte de três premissas. A primeira, é que as universidades são territórios culturais, no qual o patrimônio edificado, e os espaços que agencia, são parte integrante da produção de conhecimento, dos encontros, das relações de convivência e de poder, bem como das práticas culturais que nele ocorrem. A vivencia destes espaços contribuiria, assim, para a construção de uma relação identitária com este território. Vale ressaltar que a dimensão da universidade como território político (lócus do poder) é considerado, neste artigo, em seu aspecto relacional, de controle do território e, como tal, como parte integrante do território cultural (lócus dos valores simbólico-culturais), que se quer analisar.

Esta premissa tem como base a relação estabelecida por Santos (2005, p.161) entre universidade e territorialidade:

A universidade é uma entidade com forte componente territorial bem evidente no conceito de campus. Essa territorialidade, combinada com o regime de estudos, torna muito intensa a co-presença e a comunicação presencial.

A segunda premissa é de que o Rio de Janeiro se configura, historicamente, como uma Cidade Universitária, na qual o patrimônio cultural edificado, aqui analisado, se constitui como uma das bases materiais nas quais se desenvolvem as atividades universitárias. Seja por concentrar instituições de ensino superior que se constituem,

há muito anos, no destino de milhares de brasileiros em busca desta qualificação, seja porque o processo de formação deste patrimônio edificado — a construção e localização destes imóveis na cidade, bem como os territórios que organizaram — se entrelaça com o processo de formação do espaço urbano carioca. A terceira, e última premissa, diz respeito à materialidade e ao caráter documental do patrimônio cultural edificado. Isto é, o patrimônio construído no espaço pelos homens, constituindo-se, assim, em uma expressão da competência de edificar e das diferentes concepções e apropriações do espaço ao longo da historia e, por conseqüência, em um patrimônio cultural. Assume-se, assim, o patrimônio cultural edificado universitário como um objeto de estudo, mas também como um documento pleno de significados funcionais, culturais, arquitetônicos, urbanísticos, sociais, técnicos, simbólicos e políticos a partir dos quais podemos promover uma leitura dinâmica dos valores de uso destes lugares notáveis que integram e identificam o território cultural da universidade.

Renega-se, assim, a definição única deste patrimônio como uma materialidade técnica de uma temporalidade já experimentada (patrimônio histórico). Ainda que sejam edificações que tenham cumprido uma determinada função no momento da sua produção as atividades universitárias que ali se desenvolvem fazem com que sejam, sobretudo, um espaço vivenciado ainda hoje (patrimônio contemporâneo). Busca-se, assim, conciliar os princípios preservacionistas contidos nos decretos de tombamento ao valor de uso do patrimônio cultural edificado universitário. Ou, como bem pontuou Waisman (2013, p.187):

(…) ao considerar os habitantes como parte fundamental do patrimônio cultural, compromete-se o reconhecimento da necessidade de mudança, de adaptação de edifícios e áreas urbanas a novas necessidades, novos hábitos, transformações funcionais da cidade, etc. Por isso, o congelamento de situações edificadas ou urbanas não pode ser a meta da preservação, colocando-se a necessidade de encontrar, para cada caso, a solução que permita o delicado equilíbrio entre preservação da identidade e mudanças.

Assim, este tipo de projeto concebe o patrimônio arquitetônico e urbano como um valor cultural não consumível, mas produtivo: produtivo de novas idéias de projeto, tanto quanto de melhores espaços de vida.

Enunciadas as premissas, estabelecido o ponto de partida, é importante destacar ainda que faremos uma apresentação sintética do patrimônio cultural edificado da UFRJ enfatizando a abordagem proposta e a multiescalaridade deste patrimônio.

O patrimônio cultural edificado da UFRJ

O patrimônio cultural edificado da UFRJ é composto, atualmente, por doze edificações considerados, em diferentes momentos históricos, como de relevante valor para o patrimônio cultural nacional, estadual e/ou municipal. Destes, dois deles estão cedidos à prefeitura da cidade do Rio de Janeiro e ao IPHAN não sendo, portanto, administrados pela universidade. São eles, o edifício do Antigo Conservatório de Musica do Rio de Janeiro (1872), onde funciona, desde 1996, o Centro Municipal de Artes Helio Oiticica, e o edifício do Antigo Instituto de Eletrotécnica (1905), que deverá abrigar o Centro de Arqueologia do IPHAN. Ambos estão localizados na área

central e foram reconhecidos como bens de valor cultural pelo INEPAC (órgão de tutela estadual) em 1989. O conjunto de imóveis tombados administrados pela universidade é composto pelos seguintes edifícios organizados de acordo com sua localização na cidade: (a) no campus Praia Vermelha — Palácio Universitário (1852- BTF) e Fundação Universitária José Bonifácio (1842-BTE); (b) em São Cristóvão — Museu Nacional (1818-BTF); (c) no Flamengo — Colégio Brasileiro de Altos Estudos (1922-BTE); (d) na área central — Escola de Música (1919-BTM), Observatório do Valongo (1881-BTF), Faculdade de Direito (1818-BTE), Hospital Escola São Francisco de Assis (1876-BTF), Escola de Enfermagem Anna Nery (1927-BTE), Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (1812-BTF/BTE). Alem destes, são considerados bens de interesse para a preservação, embora não sejam tombados, as seguintes edificações: (a) no campus Praia Vermelha — Antigo Pavilhão de Psicologia Experimental, atual Teatro Qorpo Santo (1905) (que está sendo restaurado) e sobrados adjacentes (1905); (b) na Cidade Universitária — o Instituto de Puericultura Martagão Gesteira (1953) e a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (1955). Estas edificações abrigam hoje, aproximadamente, 25% das unidades da UFRJ, incluindo a administração central.

Criada em setembro de 1920, a primeira universidade publica do pais não partiu de uma concepção acadêmica, mas da reunião das faculdades de direito, medicina e escola politécnica em torno de uma reitoria e de conselho universitário. A partir de então outras unidades foram sendo agregadas à esta Universidade até chegar à conformação atual. Neste processo, o patrimônio edificado da Universidade foi sendo constituído seja a partir da transferência dos imóveis onde já funcionavam as unidades acadêmicas incorporadas; da transferência de imóveis, pertencentes à União, de inestimável valor histórico para que neles fossem alocadas as unidades acadêmicas; ou da formação de um novo território, a Cidade Universitária, na Ilha do Fundão, na qual seriam construídos novos imóveis para onde seriam transferidas as unidades acadêmicas. Este processo assinala o poder político da instituição em cada momento histórico. A localização destes imóveis definem territórios na cidade.

Analisaremos aqui apenas as três unidades fundadoras. A Escola Politécnica tem suas raízes na Real Academia de Artilharia, Fortificação e Desenho do Rio de Janeiro, criada em 1792 e instalada na Ponta do Calabouço, na Casa do Trem de Artilharia (atual Museu Histórico Nacional). A Faculdade de Medicina, por sua vez, marca a abertura do país ao ensino superior em terras brasileiras, com a transferência da Corte Portuguesa para a cidade, em 1808. Neste mesmo ano, foi criada a Escola Anatômica, Cirúrgica e Médica (1808), que se instalaria no Hospital Real Militar, onde funcionava no antigo Colégio dos Jesuítas, no Morro do Castelo, não muito longe da Real Academia. Já a Faculdade de Direito nasce, em 1920, da reunião de duas Faculdades Livres de Direito e de Ciências Sociais e Jurídicas, criadas nas ultimas décadas do século XIX.

Com a criação da Universidade do Brasil, estas faculdades continuaram funcionando em seus edifícios, ficando a Reitoria sediada na Faculdade de Direito que ocupava um outro edifício na área central. Em 1938, com a transferência do Senado Federal para o Palácio Monroe (demolido), na Cinelândia, a Faculdade se transfere para o seu endereço atual, o Solar do Conde dos Arcos, na Praça da República, construído em 1818 para o ultimo vice-rei. Esta edificação está localizada em uma das centralidades do período colonial e imperial, o Campo de Sant’Ana, em torno do qual foram se instalando instituições, como o Museu Nacional, a Câmara Municipal e a Casa da

Moeda, que hoje já não estão mais no local. A Faculdade de Direito e o Largo do Centro Acadêmico (CACO) se caracterizam por definir cultural e historicamente um território eminentemente político marcado, entre outras ações, por acolher manifestantes políticos nos períodos das ditaduras militares e, mais recentemente, no ano passado, na volta às manifestações de rua.

A Faculdade de Medicina, por sua vez, já tinha saído do Hospital Militar, descido para várzea e se transferido, em 1856, para o edifício do Recolhimento das Órfãs, próximo à Santa Casa da Misericórdia e, desde 1918, se instalado para a sede própria construída na Praia Vermelha. Um projeto do arquiteto português Luis Moraes Junior, a partir do plano de Oswaldo Cruz para um conjunto arquitetônico para o local (o arquiteto e o sanitarista haviam, recentemente, concebido as instalações do Pavilhão Mourisco e demais construções do período inicial do Campus Manguinhos da Fiocruz). Construído em local considerado ainda como área de expansão da zona sul da cidade na época onde, na década anterior, havia se realizado a Exposição Internacional do Centenário da Abertura dos Portos (1908), este edifício de linhas ecléticas, sóbrias, distinto dos vizinhos, seria palco de lutas pelo fim da ditadura militar, como a que ficou conhecida como o Massacre da Praia Vermelha, em 1966. Em 1973 a Faculdade foi transferida para a Cidade Universitária. Em 1975 esta notável edificação, que não estava salvaguardada pelos órgãos de tutela, foi posta abaixo em uma clara reprimenda aos protestos contra a ditadura que tiveram lugar naquele edifício. No local, até hoje, nada foi construído. Pertence atualmente à Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO), criada em 1979, que lá mantém um estacionamento à céu aberto. O antigo edifício da Faculdade de Medicina parece, lamentavelmente, ter se perdido na memória. Mas a transferência de unidade inserida na malha urbana para a Cidade Universitária até hoje guarda o ranço de isolamento que atingia as unidades que para lá se transferiram no período da ditadura militar. Mas este isolamento deve ser combatido com a transformação da Cidade Universitária em um bairro articulado à malha urbana.

Quanto à Escola Politécnica ainda funcionava no mesmo local onde tinha sido construída, em 1812, a Academia Real Militar, sobre as fundações da Antiga Nova Sé, jamais edificada, no Largo de São Francisco de Paula — desenho do brigadeiro Alpoim -, localizado no eixo de ligação entre o Largo do Carmo e o Campo de Santana onde naquele momento haviam apenas algumas poucas casas. Com a transferência da Escola de Engenharia para a Cidade Universitária no final dos anos 1960, passa a sediar o Instituto de Filosofia e Ciências Sociais e o Instituto de História. Em 1962, diante do prenúncio da demolição do edifício, com a abertura da Avenida Diagonal, o SPHAN decide salvaguardar o átrio, a escadaria e a fachada a fim de preservar a ambiência do Largo cujo protagonismo era atribuído à igreja de mesmo nome inscrita no Livro de Tombo nacional em abril de 1938. Preservar antes que se perca, foi a postura adotada pelo SPHAN. Diante da iminência da mesma intervenção os comerciantes e moradores se organizam em um movimento de resistência, alinhado aos movimentos preservacionistas de resistência ao urbanismo rodoviarista que começavam a surgir naquele momento, criam a SAARA (Sociedade dos Amigos das Adjacências da Rua da Alfândega) e a avenida não sai do papel. Se era a ambiência do Largo o fator predominante porque não tombaram também em 1938 a edificação que acolheu a Escola Politécnica? Com o tempo observa-se que esta edificação, mesmo sendo de menores dimensões que a Igreja, concebida para fazer par com a Antiga Nova Sé, é, hoje, a protagonista daquele espaço, definindo um território cultural que extrapola os limites da edificação. O intenso fluxo de alunos,

funcionários, professores e visitantes que afluíam à Escola Politécnica e hoje ao IFCS animam o lugar. Ao mesmo tempo, as atividades universitárias e as manifestações culturais, muitas vezes, transbordam para o Largo. Nele se reuniam, no século XIX, os jovens abolicionistas; no século XX, as manifestações populares e, ano passado, a vigília na volta às ruas.

Das três unidades fundadoras, apenas a Faculdade de Direito não funcionava em edifício próprio. A Reitoria, constitui um caso a parte. Até 1952, quando foi transferida para o recém restaurado Palácio Universitário, não teve instalações projetadas especialmente para acolhe-la. Mesmo no Palácio Universitário o espaço era compartilhado com a Escola de Educação Física e a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo. Na construção da Cidade Universitária estava previsto uma edificação especialmente destinada à Reitoria, no eixo central. No entanto, quando esta se transferiu para lá, no inicio dos anos 1970, foi instalada no edifício da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, onde permanece até hoje.

Da listagem dos imóveis tombados, e dos bens de interesse para preservação, é possível identificar dois critérios básicos iniciais: localização e tombamento. Quanto à localização observa-se que eles se apresentam mais concentrados no Campus da Praia Vermelha e na Cidade Universitária; disperso, mas em maior número, no Centro, e pontual, em São Cristovão e no Flamengo. Quanto à instancia de tombamento há uma predominância de imóveis de valor para o patrimônio nacional, um menor numero de imóveis de valor para o patrimônio estadual, sendo um deles para ambos, e apenas um para o patrimônio municipal. Essas situações estão perfeitamente ancoradas nas histórias que conformam este patrimônio. Não deixam, no entanto, de despertar alguns estranhamentos. Vamos a eles.

Os imóveis notáveis do campus da Praia Vermelha fazem parte do antigo Hospício Nacional dos Alienados (1852), construído de acordo com a tipologia palaciana neoclássica, ladeado por dois pavilhões, dos quais o remanescente abriga hoje a FUJB (1842). O Pavilhão de Psicologia Experimental, atual Teatro Qorpo Santo (1905) e os sobrados adjacentes foram construídos somente cinqüenta anos mais tarde. Em 1937 foi criado o Serviço de Proteção ao Patrimônio Histórico e Artístico Nacional

(SPHAN) e instituído o instrumento do tombamento (Decreto no 25/1937). Em 1945 o imóvel foi transferido para a UFRJ, passou por um processo de restauro e reforma de seus espaços para acolher o novo uso, sendo inaugurado em 1952. Três décadas depois é reconhecido como patrimônio nacional. O pavilhão que abriga hoje a Fundação Jose Bonifacio, por outro lado, só seria reconhecido como bem cultural em 1990, após a bela intervenção realizada pelo Arquiteto Alcides da Rocha Miranda, nos 1980, que recuperou a antiga edificação em desuso. depois, em 1972, ele é salvaguardado ao nível federal. O que faz com que seja atribuído um valor nacional ao Palácio e um valor estadual ao seu pavilhão lateral só pode ser explicado por

fatores conjunturais administrativos.

Os imóveis construídos entre 1812 e 1922 estão localizados, predominantemente, no centro, pois era lá e em seu entorno imediato que se concentrava a cidade neste momento. Alguns destes imóveis passaram por transformações de uso ao serem transferidos para a Universidade. Todos sofreram adaptações com o tempo. Destes, apenas o Observatório do Valongo faz parte da primeira leva de bens inscritos no Livro de Tombo Nacional, em 1938. Em 1962 foi salvaguardado apenas o átrio, a escada e a fachada do IFCS e na década seguinte o Palácio Universitario. Todos os

demais tombamentos, federais e estaduais, datam dos anos 1980, momento em que são delimitados no centro do Rio de Janeiro ambiências urbanas notáveis a serem preservadas. Ou seja, ao mesmo tempo em que ocorre um tombamento individual destes imóveis, as ambiências nos quais eles se inserem também passam a ser consideradas como um bem cultural. Tal é o caso da Escola de Musica (1992), do IFCS (1989), inseridos no Corredor Cultural (1984); do HESFA (1983) e da EEAN (1986) na Cidade Nova (1991); da FND (1988) na APAC Cruz Vermelha (1992). O Museu Nacional, em São Cristovão, também integra a APAC São Cristovão. O Observatório do Valongo (1938) não faz parte deste caso, se considerarmos a escala temporal, mas deve ser mencionado se considerarmos a escala urbana do bem cultural, pois também está inserido na área de preservação da ambiência cultural que abrange os bairros da região portuária, o SAGAS (1988). Apenas os imóveis da Praia Vermelha e do Flamengo não estão inseridos em ambiências notáveis. Assim, embora apenas um imóvel da UFRJ era considerado como patrimônio da cidade, a maioria, à exceção dos imóveis da Praia Vermelha, da Cidade Universitária e do Flamengo, estão inseridos em áreas delimitadas como de preservação da ambiência cultural pelo município. O que, em tese, garantiria uma análise das relações destes imóveis com suas áreas de envoltória.

Questões Derradeiras

Neste artigo abordamos a multiescalaridade do patrimônio cultural universitário tendo como referencia os imóveis e espaços livres da Universidade Federal do Rio de Janeiro, localizados na cidade do Rio de Janeiro e salvaguardados como de interesse para o patrimônio cultural federal, estadual e/ou municipal, bem como os espaços sociais que eles articulam e os tecidos urbanos nos quais se inserem. Um precioso acervo de histórias (da arquitetura, da cultura, do ensino universitário, das instituições de saúde e da cidade) e de memórias (individual, social, institucional).

A partir das premissas metodológicas adotadas apresentamos o patrimônio cultural edificado da UFRJ enfocando as três unidades fundadoras, seus lugares, suas historias, seus territórios. A constituição fragmentada que esta na base da Universidade do Brasil, a partir da reunião de três unidades isoladas, sem um projeto de universidade, ou um mecanismo acadêmico ou administrativo de ligação, iria marcar a historia desta instituição. Os efeitos podem ser percebidos ainda hoje, por exemplo, nas dificuldades encontradas para o equacionamento das demandas em torno de um plano de conservação do patrimônio cultural edificado.

No que concerne à competência de edificar dos imóveis que compõem o patrimônio cultural edificado da UFRJ é importante resgatar esta competência simbólica das edificações que, tal qual uma linguagem articulada, é capaz de conectar quem a concebeu àquele que a vivencia, (CHOAY, 2009, p.XLIII), ou o projeto ao destino, uma vez todo projeto se complementa ao ser apropriado na vivencia cotidiana do espaço.

O que gostaríamos de destacar, neste momento, quanto à competência de edificar dos imóveis tombados da UFRJ é, de uma maneira geral, o desconhecimento, por parte da comunidade acadêmica, das historias e memórias deste patrimônio, sua relação com a formação do espaço urbano e com o ensino superior no país. O que pode ser revertido com um boa educação patrimonial. Neste sentido, a universidade e os múltiplos saberes que ela conecta constitui-se, no local, por definição, para uma educação patrimonial inovadora e de excelência.

Quanto à questão do maior numero de imóveis tombados estar localizado nas unidades consideradas isoladas, do ponto de vista da organização territorial em campus da universidade, mas que podem ser, a rigor, consideradas como unidades integradas à malha urbana, há um dialogo que precisa ser construído entre os diferentes territórios da universidade e seus valores culturais. Recuperar a positividade dos diferentes imóveis que compõem o acervo edificado da UFRJ a partir do seu valor de uso e dos territórios culturais que definem.

Referências bibliográficas

CHOAY, F. Le patrimoine en questions: anthologie pour un combat. Paris: Editions Seuil, 2009.

CURY, I (org). Cartas Patrimoniais. 2a Ed. Rio de Janeiro: IPHAN, 2000.

ROCHA-PEIXOTO, G. Um patrimônio de palavras. Rio de Janeiro: Secretaria Estadual de Cultura, 2012.

WAISMAN, M. O interior da história: historiografia arquitetonica para uso de latino- americanos. São Paulo: Perspectiva, 2013.

Como Citar

Andréa de Lacerda Pessôa Borde . A multiescalaridade do patrimônio cultural edificado universitário: o conjunto de imóveis tombados da Universidade Federal do Rio de Janeiro. In: PEIXOTO, Elane Ribeiro; DERNTL, Maria Fernanda; PALAZZO, Pedro Paulo; TREVISAN, Ricardo (Orgs.) Tempos e escalas da cidade e do urbanismo: Anais do XIII Seminário de História da Cidade e do Urbanismo. Brasília, DF: Universidade Brasília- Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, 2014 . Disponível em: http://www.shcu2014.com.br/content/multiescalaridade-do-patrimonio-cultural-edificado-universitario-conjunto-imoveis-tombados