Mais Público do que Passeio - A Vigência do Passeio Público de Salvador (1815-1894)

Eixo Temático: 

 

Mais Público do que Passeio: A Vigência do Passeio Público de Salvador (1815-1894)

Eixo Temático: Cotidiano

Resumo

O Passeio Público, hoje abandonado, é episódio fundamental na história urbana de Salvador (BA), parte articulada de um projeto civilizacional oitocentista, centrado em suas qualidades paisagísticas — como mirante e como jardim — em uma forma pioneira de sociabilidade. No entanto, se havia entusiasmo por parte dos estrangeiros, visitantes e residentes, quanto à paisagem do Passeio Público, nada afiançava que o mesmo se desse com os brasileiros. Ao contrário, encontramos repetidas menções a seu abandono, a despeito dos elogios dos estrangeiros. O estudo dos relatos dos viajantes, documentos oficiais e outros registros, cobrindo o período de 1815 a 1894 visa compreender como se dava o uso desse tão importante espaço público. Apresenta o histórico da criação do Passeio Público e como, a partir da idéia original de um horto botânico, tornou-se o primeiro lugar de recreio público de Salvador. Parte de uma concepção de civilização — instrumento e indicador do grau civilizacional da cidade, junto com o Teatro São João — e, sobretudo, o único ponto de lazer por décadas. Investiga-se o olhar dos estrangeiros sobre o Passeio Público, centrado na vegetação exuberante e na bela vista da baía, e sua freqüência ao local. Em seguida, tenta-se compreender o uso geral do Passeio pela população baiana, identificando-se quando ocorrem as transformações físicas significativas, a afluência de visitantes, o tipo de atividade que ali exercem e os períodos de abandono do estabelecimento.

Palavras-chave: Passeio Público, espaço público, paisagem

Abstract

The Public Promenade, now abandoned, is a fundamental episode in the urban history of Salvador (BA), part of a nineteenth-century civilizational project, centered on its landscape qualities - as a belvedere and as a garden - in a pioneering form of sociability. However, if there was enthusiasm by the foreigners, visitors and residents, to the landscape of the Public Promenade, nothing testify that the same occur with the brazilians. On the contrary, we find repeated references to its dereliction, despite foreigners´ praise. The study of travelers’ reports, official documents and other records covering the period 1815-1894 aims to understand how was the use of such important public space. We present the creation of the Public Promenade and how, from the original idea of a botanical garden, became the first public recreation of Salvador and important part of a conception of civilization - a tool and a measure of degree of city´s civilization, along with the São João Theatre - and especially the only place of entertainment for decades. We investigates the foreigner´s gaze on the Public Promenade, focused on the rampant vegetation and the beautiful prospects of the bay, and its visitation to the site. Then we try to understand the general use of the Promenade by the local population, identifying when significant changes happens, the afflux of visitors, the type of activity engaged there and the periods of its dereliction.

Keywords: Public Promenade, public space, landscape

Introdução

O mote deste presente texto é o Passeio Público de Salvador, hoje uma calçada maltratada, com árvores vetustas, de impressionante porte, entre o Palácio da Aclamação e o Teatro Vila Velha. Esses dois edifícios, e seu peso cultural, se fizeram à custa da área do Passeio Público. Seu obelisco, construído em 1815 e centro gravitacional em um tempo onde hermas e estátuas tinham forte pregnância, foi transladado para praça defronte, ambos esquecidos. Sua área, antes em expansão, foi sucessivamente corroída e esvaziada. Sua singularidade desapareceu com a proliferação de edifícios, dentro e fora de seu perímetro.

No entanto, esse mesmo Passeio é episódio fundamental na história urbana de Salvador, parte articulada de um projeto civilizacional oitocentista, centrado em suas qualidades paisagísticas — como mirante e como jardim — em uma forma pioneira de sociabilidade. Ao pesquisarmos sobre a aparição do literal como um pleasant place em Salvador, não poderíamos ignorar o Passeio Público, dado o seu papel inaugural, e teoricamente pedagógico, na apreciação da paisagem marítima. Se havia entusiasmo ou ao menos unânime anuência dos estrangeiros, visitantes e residentes, quanto à paisagem do Passeio Público, nada afiançava que o mesmo se desse com os brasileiros. Ao contrário, encontramos repetidas menções a seu abandono, a despeito dos elogios dos estrangeiros.

O período estudado cobre de sua inauguração até o momento em que o Passeio Público passa às mãos do Governo do Estado (antes, Província) ao Município. Cobre, em boa medida, o séc. XIX. Quando este encerra o Passeio já não tinha mais a exclusividade de espaço público ajardinado. Estávamos em pleno processo de transformar os largos e terreiros da cidade em frondosos parques, e havia já uma série de alternativas de entretenimento, em espaços abertos e cobertos, públicos e privados. Ainda assim é um período longo e repleto de enigmas a resolver.

O Passeio Público de Salvador na Historiografia

Em linhas gerais, a historiografia da cidade se caracterizou, por décadas, como uma crônica de episódios e anedotas, em especial aqueles ligados à ordem cívica1. No esteio daquelas obras que visam superar o aspecto anedótico dessa historiografia, coligindo dados em histórias setoriais da cidade, é A Evolução Física de Salvador, de Américo Simas - publicado tardiamente em 1979, e incompleto - que realiza, em uma compilação

necessária, a primeira história abrangente do arcabouço físico da cidade. Em artigo fundamental na historiografia urbana local, Ana Fernandes e Marco Aurélio Filgueiras Gomes (1981) empreendem um esforço de síntese organizando essa história física em três etapas de idealizações da cidade, com seu indispensável lastro sócio-econômico, e

1 As invasões holandesas, as guerras de Independência e o 2 de Julho, a Sabinada, as revoltas dos negros, as epidemias e a Cemiterada, à maneira de itens obrigatórios.

suas concreções. Aqui, o Passeio Público entra como manifestação e alavanca da primeira das idealizações modernas da cidade.

Gina Veiga Marocci aprofunda tal insight, alinhando o Passeio Público a um projeto de cidade, estabelecido na continuidade dos governantes, com ênfase em D. Marcos de Norotnha e Brito, o oitavo Conde dos Arcos (1810-1818), de conteúdo iluminista e clara concepção estética2, calcado na setorização da cidade. Na cidade alta, o lazer, a festa, a moradia; na cidade baixa, o trabalho (MAROCCI, 2011, pag. 447). E que este se baseava em aspectos escópicos:

De dentro para fora, a cidade contempla a baía. A localização privilegiada das construções situadas na primeira cumeada permitia duas situações: tornar-se o fundo de uma figura ou tornar-se composição da figura. Quase todos os prédios da primeira cumeada estavam com os seus quintais voltados para a baía, imbricados com a natureza. Porém, alguns desses quintais tornaram-se jardins organizados, com chafarizes, caminhos entre jardineiras, muros, gradis ornamentais e escadarias, caminhos entre pomares (…). Voltados à contemplação da baía, estes pequenos espaços não podem ser analisados apenas como extensão da propriedade. A intenção era criar um ambiente de contemplação que pudesse “ver” e, também, “ser visto” de dentro para fora.

Do mesmo modo, a criação do Passeio Público na parte alta da cidade deve ser analisada sob dois pontos de vista: o daquele que usufrui o contato imediato com a vegetação nativa ou exótica, e o do outro, que contempla o que está fora dele (do Passeio Público). Assim, este equipamento é parte de uma proposta de embelezamento, mas, também, de contemplação de dentro para fora. (MAROCCI, 2011, pag. 517).

A hipótese de Gina Marocci é arriscada. Baseia-se principalmente na gravura do Solar Bandeira, pintura datada de 1819. Não encontramos outro testemunho que convalide raciocínio tão abrangente. Voltaremos a este ponto nas conclusões deste artigo3.

A história do Passeio Público recua a 1796, quando da nomeação do médico Ignácio Ferreira da Câmara Bitterncourt pelo Governador da Bahia, D. Fernando José de

2 A busca de um novo padrão estético é uma característica marcante nas intervenções urbanas realizadas em Salvador [grifo nosso] entre o final do século XVIII e as duas primeiras décadas do século XIX. (MAROCCI, 1996, pag. 245).

3 Deve-se ainda mencionar a obra fundamental de Hugo Segawa (1996) sobre os parques e jardins

brasileiros, onde o Passeio Público aparece em um grande corte transversal, que abrange a ocorrência destes equipamentos na Europa, Américas e Brasil, e as motivações que animaram suas criações e reformas.

Portugal e Castro, Marquês de Aguiar, para cuidar da descrição e remessa de plantas nativas para o Real Jardim Botânico de Lisboa. Ignácio Ferreira foi incumbido em 1798 de instalar um jardim similar na Cidade da Bahia. Cogitara-se a área do antigo Noviciado dos Jesuítas. Tentara Ignácio Ferreira uma roça no Tororó, que pertencia a João Francisco da Costa, e a roça de José Vieira de Araujo, vizinha ao convento das Ursulinas, nas Mercês (AMARAL, 1921, pag. 25), sem êxito. Ao final, comprou-se a roça do Coronel Caetano Maurício Machado. Passou-se a gestão de Francisco da Cunha Menezes (1792-1805) e a de João Saldanha da Gama Mello e Torres, o 6º Conde da Ponte (1805-1810), mas foi somente com o Conde dos Arcos que o terreno foi aproveitado, instalando-se ali um Passeio Público. Segundo Segawa (1996), porque a chegada da corte portuguesa no Rio de Janeiro tornara desnecessário o horto. Assim, em

23 de janeiro de 1815, inaugurou o Passeio Público, junto com um obelisco em homenagem ao desembarque da Família Real em Salvador em janeiro de 1808, monumento que no séc. XX transferiu-se para a Praça da Aclamação, defronte.

A perda dessa finalidade se fez sentir muito cedo. José Egídio Gordilho de Barbuda, Visconde de Camamu, em 1º de dezembro de 1828, escreve da necessidade do “estabelecimento de um Jardim Botânico, e Museu, num País como o nosso, que abunda em tantas maravilhas” (BERBERT DE CASTRO, 1984). Em 1º de dezembro de 1831, Honorato José de Barros Paim, após elogiar o Passeio Público, assume que “falta-nos porém um Jardim Botânico, que era fácil fazê-lo na Quinta dos Lázaros, cuja planta até já existe, e ele se tornará indispensável” (BERBERT DE CASTRO, 1984, pag. 74). A Presidência da Província assume, em 1849 que, de fato, o Passeio Público tinha se estabelecimento como um local de recreação, e não de pesquisas científicas.

As necessidades deste estabelecimento se achão expostas no relatório anterior; elle serve mais de passeio e de recreio para os habitantes desta cidade do que de um horto botânico ou jardim (…) (FALLA…, 1849, pag. 15).

Havia percebido o mesmo James Wetherell, que, a despeito das árvores naturais no Passeio, “nota-se muito pouco cuidado no que diz respeito ao desenvolvimento da parte genuinamente botânica” (WETHERELL, s/d, pag. 144).

Haverá sucessivas propostas de adicionar instituições que cumpram esse papel, em especial por meio da ampliação dos limites do Passeio Público. Em 1858 falava-se em um horto botânico (FALLA…, 1858, pag. 13). Em 1860, em estabelecer uma Escola de Agricultura (FALLA…, 1860, pag. 156). A proposta do horto retorna em 1861 (FALLA…, 1861b, pag. 80) e em 1863 (FALLA…, 1863, pag. 50), mesmo ano em que se fala de gabinetes zoológico e mineralógico (RELATÓRIO…, 1864, pag. 43). Em 1873 ainda se fala em hortos botânicos (RELATÓRIO…, 1873, pag. 44).

Observe-se que o Passeio Público não é um episódio que “simboliza” essas transformações, mas que, sim, as concentra. Na medida em que um dos poucos, e mais importantes, estabelecimentos, ligados ao intento civilizatório dos governantes. O Teatro São João — construído na mesma época, na mesma linha de cumeada, como parte do mesmo conjunto de obras — era seu par simétrico nesse intento.

Em uma cidade populosa e extensa como a nossa, onde as distrações não abundam, parece, à primeira vista, que deveria ser geralmente applaudida a idea de facultar um divertimento honesto e moralisador as famílias (…) (RELATÓRIO…, 1870, pag. 28).

Não admira que, nos documentos oficiais, o Teatro e o Passeio Público fossem tópicos sucessivos. Não é figura de linguagem quando usamos o termo civilização. Era exatamente assim que era visto o estabelecimento do Passeio Público.

Este Estabelecimento, que offerece aos habitantes d´esta Cidade meios de agradavel entretenimento, e decente recreação tão útil à saúde publica, carece ainda de aformoseamento proporcionado aos nossos recursos, e civilisação. Posto que alguns melhoramentos se tenhão ali feito, outros são de mister para que adquira esse aspecto agradavel, e forma elegante, que se observão nos jardins, e passeios públicos dos paizes cultos. (FALLA…, 1848).

Em 1853, fala-se na necessidade de “pol-o a par do que se deve exigir da civilisação da Provincia” (FALLA…, 1853). Não somente era o Passeio um instrumento civilizador, mas um indicador do grau de civilização da própria cidade. Em 1860, assume-se que faltam melhoramentos “para corresponder ao gosto e civilisação de uma Capital tão importante como esta” (FALLA…, 1860, pag. 155). Em 1872, que o bom estado do Passeio atesta “o gráo de nossa civilisação” (FALLA…, 1872, pag. 55). Em 1901, Relatório do Governo do Estado insta a “sua equiparação aos parques de cidades adiantadas” (RELATÓRIO…, 1901, pag. 222).

Junto com o Teatro, o Passeio não era apenas uma alavanca de civilização: foi, por décadas, o único ponto de recreio, de lazer, da cidade. Claro estava para os governantes: era o “o único passeio que possuímos” (FALLA… 1849, pag. 15), ou melhor, o “único jardim publico que possuímos” (RELATÓRIO…, 1869, pag. 59). Em verdade, “o único d´esse gênero que possue a nossa capital” (FALLA…, 1864, pag. 17). A carência era ainda mais abrangente: o Passeio era “a única distracção gratuita e agradavel que se offerece à população d´esta capital” (FALLA…, 1872, pag. 55), como era, ainda, em 1882, o “único ponto de distracção gratuita para os habitantes da capital” (RELATÓRIO…, 1882b, pag. 126). Mais, era o “único ponto de distracção da população desta cidade, e dos extrangeiros” (FALLA…, 1853), e ainda em 1877, era “quasi que o único lugar de distracção para o povo d´esta capital” (1877, pag. 59) e em 1881 voltamos ao status de “único ponto de distracção n´esta capital” (RELATÓRIO…, 1881, pag. 64).

Percebe-se que o Passeio Público fora o único passeio e o único jardim da cidade, por décadas — até que transformassem as praças em parques, no final do séc. XIX –, um dos poucos locais de lazer e, destes, o único efetivamente gratuito.

O Olhar dos Estrangeiros

Há uma discrepância incontornável nos tipos de documentos que temos disponíveis para rastrear a sociedade oitocentista, em especial os hábitos efetivamente vigentes. Aqueles mais abundantes são os relatos de viajantes — a vasta literatura feita por e para estrangeiros, recopilando suas memórias de viagem ou estadia (no que o termo “viajante” acaba por ser injusto). Há o evidente estranhamento de quem tem outros valores. Mas, importante, há uma espécie de radiografia de seu próprio olhar. Sabemos de primeira mão quais lugares e situações os fascinavam na Cidade da Bahia, e o quê lhes despertava os sentimentos. O que inclui o Passeio Público. Dessa população volante temos, portanto, documentos que dão conta de vários aspectos de sua psicologia coletiva. Entretanto, eles tratam de uma camada volátil da população, além de que, esporádicos, não cobrem homogeneamente todo o período. De publicação regular é a série de documentos oficiais — Fallas e Relatórios dos Presidentes da Província e, na Primeira República, de Intendentes e Governadores –, que enumeram as obras desejadas, orçadas, planejadas e realizadas. Os comentários sobre o estado do lugar e os hábitos da população serão, porém, sempre sucintos.

O quê, de fato, os estrangeiros viam no Passeio Público?

Em primeiro lugar, um lugar que “comanda uma bela vista sobre o conjunto da bela baía” (GRAHAM, 1824, pag. 47 — tradução nossa). Muito similar ao que diz o Reverendo Daniel Parish Kidder em obra de 1845 sobre o Passeio, “localizado na mais arrojada e dominante elevação de toda a cidade” (KIDDER, 1845, pag. 58 — tradução nossa). Essa vista, que

(…) espraia-se por sobre grupos de verdes ilhas da linda bahia, ou repousa com saudades, sobre a superfície azul e immensa do OCEANO, que o sol poente recama de scintillantes irisações. (SPIX & MARTIUS, 1928, pag. 67).

Ou, ainda:

Acham-se na parte alta da colina [os passeios públicos], suspensos sobre a baía: de suas terraças descortina-se belíssima vista sobre o porto, os navios e o promontório do Bom Fim, com suas casas brancas e suas igrejas brotando no meio da folhagem verde que as cerca; os jardins acham-se à sombra de esplêndidas e grandes mangueiras (…) (WETHERELL, s/d, pag. 144)

Não era uma vista indiferenciada da água. Estava no seu campo de visão, e comparece como protagonista de suas descrições, o conjunto, que inclui as ilhas, a linha do litoral

com sua riqueza e variedade topográfica, botânica e urbanística, além do porto abaixo, as casas e quintais próximos. Tudo sob a égide do pitoresco, valorizando a richness e variety da tradição das jornadas pitorescas. Era essa, em linhas gerais, a estrutura do olhar do visitante. Como demonstram as palavras de Kidder:

(…) mas a variedade e riqueza das árvores e flores do Passeio Público da Bahia compensa plenamente sua deficiência neste quesito (…)

A calma das tardes de verão sempre lança um feitiço sobre os sentimentos; há a peculiar riqueza da cena. (KIDDER, 1845, pag. 58 — tradução nossa).

A flora merece uma atenção à parte, em seus mínimos detalhes. E mesmo a fauna — besouros, borboletas, pequenos répteis. A Baía de Todos os Santos, junto com a Baía de Guanabara, impressionava positivamente, comparada e mesmo superando modelos bem estabelecidos na literatura de viagens, como a sempre mencionada Baía de Nápoles4. No entanto, o Passeio Público não será o alvo dos mais rasgados elogios entre os relatos dos estrangeiros, e nem será presença tão constante. Não raro recebe comentários contidos, conquanto positivos, como o de Greene Arnold, de 1847 (SILVA, 1952, pag. 189) e o de William Scully (1868, pag. 352).

No geral, o que temos de encantador são a vegetação luxuriante e a esplêndida vista — naquele momento, o principal do Passeio Público era um terraço semicircular que, avançando sobre uma queda abrupta, permitia a visada ampla da Baía de Todos os Santos. Porém, observe-se que ambos os fatores ambientais — vegetação e paisagem — não eram exclusivos do lugar. Ao contrário. A cidade estava coalhada de bosques frondosos, mata exuberante e fascinante para o estrangeiro de climas temperados. Espetaculares ao visitante com pendores estéticos e naturalísticos, tal qual o Príncipe Maximiliano de Habsburgo. Ele elogia a construção e localização:

O Passeio Público da Bahia fica situado em dois terraços, no alto da colina já muitas vezes mencionada, no estilo arquitetônico do Sul, no qual natureza e arte se unem, de maneira harmoniosa. Os terraços são maravilhosamente ornamentados com ricas balaustradas vasos e estátuas, de mármore de Carrara, no estilo barroco italiano. Fontes — em forma de monumentos — e terraços com muitos bancos enfeitam os pontos principais. (MAXIMILIANO DE HABSBURGO, 1982, pag. 97).

Mas se encantará, de fato, pela vegetação e seu espetáculo sensorial:

4 Esta análise não provém somente dos relatos sobre o Passeio Público, mas do quadro geral de elogios da paisagem dos viajantes. A seguir, se verá porque o exemplo do Passeio Público não fornece material suficiente para uma análise mais profunda.

A decoração mais surpreendente aos olhos do viajante, porém, são as imensas jaqueiras (Artocarpus incisa), com sua elevada copa frondosa e enigmática, com os troncos gigantescos e fortes, nos quais estão pendurados os frutos colossais, como melões, de casca áspera, com aquela abundância de galhos, com os quais uma única árvore sobre a mais extensa superfície, dando uma sombra nunca vista por nenhum olhar na Europa, e cuja densidade misteriosa corresponde ao brilho causticante do sol tropical.

A mangueira, muito parecida à jaqueira, produz o mesmo fenômeno: a exótica intensidade dos contornos assemelha-se ao nítido jogo de luz e sombra de uma fotografia. Da mesma forma que os raios solares apresentam uma certa dispersão, assim também essas sombras, em sua extrema nitidez, têm seus eflúvios próprios, fantásticos. (MAXIMILIANO DE HABSBURGO, 1982, pag. 97).

Muito mais dedicará, em termo de tempo e descrições esfuziantes, a acidente geográfico próximo, na direção oposta da linha de cumeada onde situa-se o Passeio Público: o Dique do Tororó.

Mas, se os exemplos não são tão abundantes, qual a relação dos estrangeiros quanto ao Passeio Público? Os relatórios oficiais são unânimes ao referirem-se ao apreço e visita destes ao lugar. Em 1842, diz-se que “por seo bello local muito attrahe a attenção dos estrangeiros” (FALLA…, 1842, pag. 17). Há menção similar em 1853 (FALLA…, 1853), como em 1869 (RELATÓRIO…, 1869, pag. 59), em 1881 (RELATÓRIO…,

1881, pag. 64) e 1882 (RELATÓRIO…, 1882a, pag. 105). Vale a pena destacar o registrado em 1870:

(…) é este Estabelecimento continuamente freqüentado pela população ávida de encontrar uma distracção hygienica que lhe é facultada gratuitamente, e pelos viajantes que visitam a cidade, hoje mais numerosos em conseqüência da multiplicidade de vapores que demandam o nosso porte. (RELATÓRIO…, 1870, pag. 30).

Como se dava, porém, o uso geral por parte da população baiana? Teria sido esta animada pelas vantagens escópicas do lugar? O projeto civilizatório teria logrado o êxito pretendido?

A Presença dos Baianos

A partir de escrito de Sílio Boccanera Jr., em 1921, falando do abandono do Passeio, Segawa deduz que:

O teor saudosista e indignado da queixa do escritor revelava a ascensão e o declínio de um espaço público que deve ter tido o seu apogeu na segunda metade do século 19. (SEGAWA, 1996, pag. 125).

A hipótese é feliz, como se verá.

Dissecamos todos os documentos disponíveis, e reconhecer os períodos em que o Passeio Público passara por surtos de reformas, construções e mesmo transformações. Quando se assinalavam os arruinamentos e abandonos e as escassas descrições de uso. O que encontramos apresenta certa coerência.

O que se pôde perceber é que se encontrava abandonado em 1852:

Julgo de conveniencia applicar-se um pouco mais de cuidado para este bello Estabelecimento, situado em uma singular localidade que os estranhos admiram, o que nós quase sempre conservamos em abandono, entregue muitas vezes à distração de vadios; tenciono nelle fazer algumas reformas (…) (FALLA…, 1852, pag. 20).

As reformas se iniciaram. Com estas em curso, em 1853, volta-se à carga:

Para manter-se o estado actual e ir-se fazendo alguns melhoramentos a quantia votada parece sufficiente; mas, tendo- se deixado cahir em quasi total ruína este estabelecimento (…) (FALLA…, 1853, pag. 58).

Coincide com a total ausência de registros falando sobre seu uso antes disso, e duas menções de que os nativos não a freqüentavam. Em 1845, arriscando a hipótese da distância ao Centro:

Há n´esta Cidade um Passeio Publico em um lugar aprasivel e de boa vista, e bem que seja um pouco distante do centro da Cidade, e por isso pouco freqüentado he com tudo na melhor posição, em que podia fazer-se. (FALLA… 1845, pag. 75).

Em 1849, com o Presidente da Província instando a necessidade de melhorar o Passeio, para “atrahir a população à gozar ali do fresco das arvores, e da bella vista que offerece sua linda situação” (FALLA… 1849, pag. 15).

Há um ciclo de reformas e equipamento do Passeio Público de 1852 a 1856. Em 1853 (FALLA…, 1853, pag. 58), enfim se faz o muito reclamado gradeamento do perímetro oriental com peças metálicas; em 1854, pilastras e bancos (FALLA…, 1854, pag. 40); em 1855, nova entrada e novo portão, como patamares no terrapleno inferior, e árvores plantadas (FALLA…, 1855, pag. 50); em 1856, aterros e contenções, e estátuas e grandes vasos, “aformoseando” o lugar (FALLA…, 1856, pag. 85).

Ainda em 1856, o problema da falta de público (FALLA… 1856, pag. 85). Mas aparece, já em 1854, menção a seu uso pelos baianos, falando-se que é o Passeio “um dos logares preferidos para recreio das famílias” (FALLA… 1854, pag. 40). Quem, de fato, registrando o período que vai de 1842 a 1857, sintetiza essa mudança é James Wetherell:

Os passeios públicos são muito agradáveis e fico admiradíssimos vendo como são poucos freqüentados pelos habitantes. (…)

(…)

Os jardins têm sido ultimamente muito melhorados e vêm sendo cuidados com muito mais carinho, sendo agora regularmente tratados. Nos domingos à tarde, uma banda de música toca durante algum tempo, dando assim motivo para que a gente ali venha se reunir; muito poucas senhoras ali aparecem. (WETHERELL, s/d, pag. 144).

Há um outro ciclo de reformas e equipamento nos anos 1860. Se o ciclo anterior foi responsável por, finalmente, substituir o gradeamento leste, de madeira para ferro, em 1853, e pelo primeiro registro de trato com a vegetação (1855), é agora que ocorre a mudança do perfil do Passeio Público.

O primeiro chafariz é de 1860 (FALLA…, 1860, pag. 155) e o segundo, agora ornamental, de 1863 (RELATÓRIO…, 1864, pag. 43). A iluminação é instalada em 1863. A casa de cafés e refrescos, assim como o quiosque, são de 1861 (FALLA… 1861a, pag. 96). É de 1863 o surto de melhorias — bancos, caramanchões, viveiros, estátuas, etc.. Dessa mesma época é o esforço sistemático na flora do local (1860, 1861, 1863 e 1866) e na fauna (com os viveiros e pássaros em 1863, 1865, 1866, 1869 e

1870).

No entanto, é preciso observar que o quiosque, de 1861, encontrava-se arruinado já em 1869 (RELATÓRIO…, 1869, pag. 59), e reconstruído somente em 1877 (RELATÓRIO…, 1877. pag. 59), após reiterados pleitos. A iluminação apresenta em 1870 problemas que serão crônicos no séc. XIX (RELATÓRIO…, 1870, pag. 18). E flora e fauna parecem ter padecido de pouca variedade, como se observa em

documentos oficiais de 1873 (FALLA…, 1874, pag. 232) e 1878 (FALLA…, 1878, pag.

39).

Existe um aspecto fundamental: o tipo do uso que se pode depreendeer. Este é essencialmente festivo, apoiado na música, seja por bandas dispostas pelo Presidente da Província e, depois, por eventos beneficentes de sociedades diversas. Wetherell comentara, conforme citado, de banda tocando aos domingos. Em 1860, fala-se de lugar no Passeio “onde costumão tocar as bandas de musica” (FALLA… 1860, pag. 155). Em 1863, documento oficial fala de bandas tocando músicas militares, sob ordens do Presidente da Província:

Novos melhoramentos tem-se realisado n´este Passeio, que é hoje muito freqüentado pelas famílias, principalmente nas noites de sextas-feiras e domingos, em que alli vão tocar as musicas militares, conformes as ordens que dei. (RELATÓRIO…, 1864, pag. 43).

Em 1872, a mesma política era empregada:

(…) finalmente na [necessidade de] construcção de dous barracões para as pessoas, que freqüentam o estabelecimento, abrigarem-se das chuvas e mesmo para as bandas de musica, que presentemente tocam ali aos domingos em virtude de ordem minha. (FALLA… 1872, pag. 55).

Assim como de agremiações diversas, que passam a usar o Passeio Público como um espaço adequado para esse tipo de recreação.

A Sociedade Libertadora Sete de Setembro tendo solicitado de´sta Presidencia a permissão de dar mensalmente um concerto instrumental no Passeio Publico, revertendo o producto d´aquelle em beneficio das creanças do sexo feminino escravas, foi-lhe concedida a autorisação pedida, começando esta à vigorar de Novembro ultimo. (RELATÓRIO… 1870, pag. 31.).

Ensaia-se, inclusive, que o Poder Público imite as iniciativas privadas desse cariz, para auferir dinheiro para manutenção do próprio Passeio, na forma de concertos mensais:

Para occorrer à essas despesas ordinária e extraordinárias me parece que se poderia fazer mensalmente no Passeio um concerto, cujo rendimento tivesse essa applicação, à semelhança dos que se tem permittido para a Sociedade Typographica Bahiana, Lycêo de Artes e Officios, Philarmonica “Euterpe” e Irmandade do Senhor dos Afflictos.

Não sei qual a vantagem que essas Sociedades tem auferido, mas por módica que seja, acostumando-se a população à essa distracção, é natural que o seo rendimento, sendo os concertos bem regulados e fiscalisados, pelo menos chegue para renovar os jardins de plantas que annualmente precisão. (FALLA… 1874, pag. 233).

Nos anos subseqüentes, eventos dos mais variados tipos ocorrem no Passeio. Muitos, de caridade, como o “leilão de prendas promovidos por uma commissão de senhoras das mais distinctas de nossa sociedade, em favor do Asylo de Mendicidade” (ANNEXOS… 1877, pag. 4).

Esse período parece ter sido o de um uso constante. Não há um depoimento sequer em contrário, e aparecerão menções à freqüência. Em 1869, que o lugar é “tão procurado pelos habitantes d´esta cidade” (RELATÓRIO…, 1869, pag. 59) e, no ano seguinte, que é “continuamente freqüentado pela população ávida de encontrar uma distracção hygienica que lhe é facultada gratuitamente” (RELATÓRIO… 1870, pag. 30). Em 1882, que “é o Passeio Público muito procurado, principalmente nos dias calmosos” (RELATÓRIO… 1882b, pag. 126).

Esse ciclo não se manteve ininterruptamente. Não se pode relacionar de imediato o estado material do Passeio Público com seu usufruto. Apenas pontuar os padrões que logramos detectar. Em 1869, como dito, o quiosque estava arruinado, consertado somente em 1877. Descaso na administração ou no custeio, o que temos é o reconhecimento da estagnação material pelos seus gestores:

Não é que o seo estado presente seja de decadência; mas também não é de lisongeiro progresso, nem póde sel-o com os mingoados recursos de que dispõe a administração (…) (FALLA…, 1872, pag. 55).

Avaliação similar ocorre em 1874, que afirma que “seo estado se não é decadente, é estacionário” (FALLA…, 1874, pag. 232). Em 1882 assume-se o pior.

Acha-se, porém, em estado de decadência, que é devido, segundo pensa o Dr. Antonio Pereira de Mesquita, que o administra, aos poucos recursos de que dispõe para sua conservação e prosperidade. (RELATÓRIO… 1882b, pag. 126).

Em 1884, a partir da Lei do Orçamento n.2484, de 3 de outubro do mesmo ano, arrenda- se o Passeio Público, para não arcar mais com as despesas. Dez anos depois, a gestão passa para o Município, aparentemente em estado precário:

Grande melhoramento effectuou-se no Passeio Publico, que passou nas peiores condições possíveis do Estado para o município, e do qual me occuparei no capitulo votado aos jardins publicos. (RELATÓRIO…, 1894, pag. 47).

Em 1894 e 1895 a Intendência realiza pequenas obras. No entanto, em 1899, o Dr. José Francisco da Silva Lima registra algo diferente: o seu abandono, dentro de um quadro geral de abandono dos espaços públicos, sem atrativos, melhorias ou mesmo tratamento, como o Campo Grande e o Dique do Tororó.

(…) há um passeio público, pode se dizer que nominal, quasi sempre deserto por não offerecer attractivo algum que o recommende à concurrencia dos nossos concidadçãos e dos forasteiros (…) (SILVA LIMA, 1899, pag. 21).

O Passeio Público mudará de mãos nas décadas seguintes, com sucessívos anúncios de “restauração”, como em 1902 (RELATÓRIO…, 1902, pag. 15) e 1926 (MENSAGEM…, 1926, pag. 268), após outros “abandonos”. Lembremos que Sílio Boccanera Jr. estava a lamentar o abandono do lugar em 1921.

De toda sorte, manterá esse papel de espaço público, não mais exclusivo, para eventos dos mais diversos, pelo menos na primeira metade do séc. XX.

Não se pode esquecer que existe um uso impróprio do Passeio Público. São os que “não respeitam a propriedade particular, e ainda menos a publica” (FALLA… 1843, pag. 17), lugar da “distração de vadios” (FALLA…, 1852, pag. 20), “vadios e malfeitores” que tem “accesso em horas prohibidas” (RELATÓRIO…, 1870, pag. 31), “vadios” que entram “em horas adiantadas da noite, (FALLA…, 1872, pag. 55). Mais explicitamente, pela “invasão à noite de gatunos e vadios, que destroem e roubão os jardins” (FALLA…, 1874, pag. 232), as “devastações e furtos que n´elle se dão frequentemente” (RELATÓRIO…, 1877, pag. 59), “o estrago que causão os vadios e malfazejos, aproveitando-se da falta de vigilância” (RELATÓRIO…, 1881, pag. 63). Razão dos sucessivos reclames para se concluir o muro pelo lado ocidental, que bordejava com a Gamboa, antiga ocupação no sopé da Montanha, ainda hoje existente. Obra nunca realizada, pelo elevado custo das contenções necessárias. Havia, ainda, os “desmandos do povo” (FALLA…, 1848, pag. 39) com as plantas, “pessoas ignorantes, ou mal intencionadas, passando por ahi à qualquer hora do dia e da noite, golpeem e destruão arbustos preciosos, como há pouco aconteceo com uma planta, que seria no futuro uma arvore gigantesca: o jatobaseiro das margens do Rio de S. Francisco. (FALLA…, 1860, pag. 155).

Conclusão

O Passeio Público deveria ser um horto botânico, programa cuja carência sentiu-se por anos a fio, e somente foi resolvida a contento no período republicano, com o Campo Experimental de Ondina. Foi transformado em um belvedere, que se manteve à míngua, com escasso uso local e recursos insuficientes até 1852. De 1860 a 1863 efetuou-se a transformação que, equipando o Passeio Público, tornou-o o espaço público aberto privilegiado da cidade, com os seus devidos tons feéricos: iluminação a gás, viveiros, fontes e tanques, bancos e caramanchões. Obras complementadas nos anos seguintes. O uso coletivo girava em torno de eventos, periódicos ou esporádicos, públicos ou privados. Essa condição de um espaço público aberto para eventos dos mais variados tipos se manterá pelo séc. XX. Como local da saída pública do balão Portugal, em 7 de outubro de 1906. Mesmo local que foi cedido pelo Prefeito para a ascensão de outro balão, o Brasil, em junho de 1907, que acabou por se dar em outro sítio (VIANNA, 1983).

Em todos os casos, está rigorosamente ausente o papel escópico do lugar. Ao menos de todos os registros encontrados. Significará isso que, desmentindo frontalmente a tese de Gina Vieira Marocci, fosse a população local em absoluto impermeável à beleza do litoral e o do mar?

Parece precipitado assinalar que houve a correspondência imediata dos valores visuais, e do peso de tais valores para os hábitos cotidianos, da Europa para a Bahia, e das classes letradas para o grosso da população. Em pesquisa ainda a ser publicada, encontramos, desde 1842, a “vista do mar” em anúncios de locação e venda de imóveis. Embora, na Cidade Baixa, tais sobrados não necessariamente implique em moradia mas, pelo contrário, possa ser atributo fundamental para certos ramos de negócios, vinculados à atividade portuário. Aspecto ainda inconcluso da pesquisa sobre a psique coletiva, o que podemos afirmar é não haver a condição para a família baiana ocupar seu tempo livre com passeios ao ar livre, com a deambulação em lugares umbrosos, ao sabor da brisa marítima e com a paisagem deslumbrante da baía ou do oceano. Era hábito circunscrito aos estrangeiros na cidade. Robert Dundas, inglês residente em Salvador, descreve como a “pequena vila do São Lázaro”, distante 2 milhas da cidade, era local favorito dos passeios pelos britânicos e demais estrangeiros (DUNDAS, 1852, pag. 219). O que se entendia aqui como o lazer e, sobretudo, o que se permitia à família, e principalmente à mulher, era ainda substancialmente distinto do padrão europeu e norte-americano. Daniel P. Kidder, nos festejos cívicos do 2 de dezembro, confirma.

Nunca, especialmente, foram as mulheres vistas em tal quantidade a agraciar uma cena da festejos públicos, Mães, filhas, esposas e irmãs, a quem raramente permitem sair do círculo doméstico, exceto em suas idas à missa dominical, dependuradas dos braços de seus muitos protetores, e admiravam com visível espanto para os encantos aparentemente mágicos ao seu redor. (KIDDER, 1845. pag. 58).

Podemos ainda comparar com sua contraparte, o Teatro São João. O espetáculo teatral poderia ser menos alienígena à cultura baiana que o passeio em um belvedere arborizado. No entanto, em 1844, aponta-se sobre a baixa freqüência naquele:

O Theatro Publico continúa no mesmo estado de abandono dos expectadores, a excepção dos dias de Festa Nacional ou beneficio de algum Comico, a quem se quer obzequiar, não dando as receitas nem para as despezas ordinárias. (FALLA… 1844, pag. 18).

Aqui talvez esteja uma clave para se entender os hábitos coletivos da Cidade da Bahia no séc. XIX.

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FALLA que recitou o Presidente da Província da Bahia o Dezembargador Conselheiro Francisco Gonçalves Martins, n´Abertura da Assembléa Legislativa da Mesma

Província no 1 de março de 1852. Bahia: Typographia Const. de Vicente Ribeiro Moreira, 1852.

FALLA que recitou o exm.o presidente da provincia da Bahia, dr. João Mauricio Wanderley, n’abertura da Assembléa Legislativa da mesma provincia no 1.o de março de 1853. Bahia, Typ. Const. de Vicente Ribeiro Moreira, 1853.

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FALLA recitada na Abertura da Assembléa Legislativa da Bahia pelo Presidente da Província o Doutor Alvaro Tiberio de Moncorvo e Lima em 14 de maio de 1856. Typographia de Antonio Olavo da Franca Guerra e Comp., 1856.

FALLA recitada na Abertura da Assembléa Legislativa da Bahia pelo Vice-Presidente da Província o Dezembargador Manoel Messias de Leão em 15 de setembro de 1858. Bahia, Typographia de Antonio Olavo da França Guerra, 1858.

FALLA recitada na Abertura da Assembléa Legislativa Provincial da Bahia pelo Presidente da Província o Conselheiro e Senador do Império Herculano Ferreira Penna em 10 de abril de 1860. Bahia: Typographia de Antonio Olavo da França Guerra, 1860.

FALLA recitada na Abertura d´Assembléa Legislativa da Bahia pelo Presidente da Província Antonio da Costa Pinto no dia 1. de março de 1861. Bahia: Typographia de Antonio Olavo da França Guerra, Rua do Tira-Chapéo, n.3, 1861a.

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Como Citar

Daniel Juracy Mellado Paz . Mais Público do que Passeio - A Vigência do Passeio Público de Salvador (1815-1894). In: PEIXOTO, Elane Ribeiro; DERNTL, Maria Fernanda; PALAZZO, Pedro Paulo; TREVISAN, Ricardo (Orgs.) Tempos e escalas da cidade e do urbanismo: Anais do XIII Seminário de História da Cidade e do Urbanismo. Brasília, DF: Universidade Brasília- Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, 2014 . Disponível em: http://www.shcu2014.com.br/content/mais-publico-do-que-passeio-vigencia-do-passeio-publico-salvador-1815-1894