Historiografia Das Festas Paulistanas Do Ponto De Vista De Uso De Apropriação Do Espaço Público Urbano

Eixo Temático: 

 

Resumo

Há muito tempo, desde a chegada dos colonizadores portugueses, as festas vêm pontuando a história do Brasil, o que as tornou fundamentais na estruturação de nossa tessitura social e urbana e lhes atribuiu um lugar privilegiado na nossa história. Diversas festas, sobretudo as de caráter essencialmente religioso católico, vêm ocorrendo durante todos os anos nas cidades brasileiras, cada qual apresentando certas especificidades, dependendo da comunidade onde estão inseridas e do período em questão. Com vistas a explorar as suas múltiplas faces, o estudo das festas adquiriu um caráter interdisciplinar, envolvendo pesquisadores de diversas áreas que as estudaram e delas se apropriaram como a História (Cultural, Urbana e Social), a Antropologia, a Sociologia, a Geografia, o Urbanismo e outras. Assim, objetivamos realizar um levantamento das principais fontes secundárias sobre a temática, examinando com mais detalhes a historiografia que trata das festas do ponto de vista do uso e apropriação do espaço urbano público. O caso paulistano é um entre tantos outros, e através dele podemos compreender como a realização das festas públicas pode ser decodificada frente ao contexto urbano.

 

Abstract

A long time ago, since the arrival of the Portuguese colonists, the parties have been punctuating the history of Brazil, which makes them fundamental in structuring our social and urban tessitura and gave them a privileged place in our history. Several parties, especially those of essentially Catholic religious character, have been taking place during all the years in Brazilian cities, each one featuring certain peculiarities, depending on the community in which they are inserted and on the period in question. With a view to exploring their multiple faces, the study of the parties acquired an interdisciplinary character, involving researchers from different disciplines who have studied them and have appropriated them such as History (Cultural, Social and Urban), Anthropology, Sociology, Geography, Urbanism and others. Then, we aim to conduct a survey of the main secondary sources about the subject, doing a closer examination of the historiography dealing with parties from the point of view of the use and appropriation of the urban public space. The case of São Paulo is one among many others, and through it we can understand how the realization of public parties can be decoded across the urban context.

 

Introdução

Na historiografia brasileira, o estudo das festas é relativamente recente e atravessa diversos momentos históricos. Se pensarmos num estudo que abranja do período colonial à República e envolva questões sociais e urbanísticas, focado na relação das festas com o uso e apropriação do espaço público, essa escassez aumenta consideravelmente. Se associarmos à realização das festas as transformações urbanas sofridas no decorrer do tempo, as fontes tornam-se praticamente inexistentes, sendo raros os autores que abordaram essa temática em anos anteriores a 1970, a ponto de se tratar de uma lacuna historiográfica.

Cronistas e memorialistas

A historiografia das festas atravessa diferentes momentos, alguns deles ressaltados por István Jancsó e Iris Kantor (Falando de festa, 2001) que afirmam que o primeiro foi no início do século XX, quando cronistas e memorialistas, sem nenhuma preocupação acadêmica, buscaram construir uma narrativa sobre a vida da cidade enquanto espaço de convivência social de diferentes grupos, objetivando relacionar o passado com o presente da época. Suas crônicas oferecem informações sobre a cidade e seu cotidiano, pontuando fatos, acontecimentos e, em algumas ocasiões, mencionando as festas. Esse é o caso dos dois volumes da obra do memorialista, jornalista e ex-funcionário da Repartição de Estatística e Arquivo do Estado, Antonio Egydio Martins (São Paulo Antigo: 1554-1910 e A Cidade de São Paulo em 1900, 1911), que reúne as crônicas publicadas na coluna intitulada São Paulo Antigo do jornal Diário Popular, evocando o cotidiano da cidade em meio às transformações urbanísticas em curso.

Entre os cronistas e memorialistas, destacamos também a obra do historiador e ex- presidente do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, Affonso A. de Freitas (Tradições e Reminiscências paulistanas, 1921), que se preocupou em registrar logradouros da cidade em vias de desaparecimento ou de transformação. O autor deixa entrever a “disputa” pelo uso dos espaços entre as festas públicas e o comércio que introduziu mudanças radicais sobretudo nas ruas centrais.

O tom memorialístico e cronístico manteve-se por vários anos. Por outro ângulo de análise, com uma preocupação em destacar o crescimento e desenvolvimento que a cidade de São Paulo atingira no século XX, Paulo Cursino de Moura (São Paulo de Outrora: evocações da metrópole, 1932) foi o primeiro a se preocupar com a questão das festas perante o crescimento da cidade. Seu livro, composto por inúmeras crônicas, a maioria publicada anteriormente no São Paulo-Jornal, sob o título A Alma Evocatória das Ruas, fornece informações valiosas sobre a vida na cidade e suas festas.

Também o livro de memórias de Maria Paes de Barros (No Tempo de Dantes, 1946) traz as lembranças de uma sociedade hierarquizada e ordenada, relatando com fluência usos, costumes e aspectos arquitetônicos de São Paulo entre 1850 e 1860, antes da chegada de milhares de imigrantes, que, na visão da memorialista, desconfigurou e desconstruiu a cidade culturalmente. A autora relata fatos por ela vivenciados, dentre os quais inclui as festas, sobretudo as religiosas, que quebravam a rotina e acarretavam uma movimentação na cidade tendo um elevado grau de importância para a sociedade da época.

Um sentimento saudosista marca o discurso desses cronistas e memorialistas que, em geral, buscavam compreender a origem da cidade que lhes era contemporânea, ressaltando as peculiaridades dos séculos que antecederam as transformações pelas quais o espaço público de São Paulo vinha passando. Assim, eles retratam a vida das ruas fornecendo informações valiosas sobre a cidade e sobre o modo como nas

primeiras décadas do XX as mudanças sociais e materiais em curso estavam sendo lidas. Algumas das festas de maior importância foram por eles relatadas e contextualizadas sem nenhuma preocupação com a precisão dos dados e datas, pois eles não as tinham como foco específico de sua análise, mas objetivam demonstrar sua importância religiosa e política para a construção da história paulistana. Com isso, seus textos nos ajudam a transitar no cotidiano da época permitindo compreender e refletir sobre o contexto de ocorrência das festas, suas evocações, reminiscências, usos, costumes e tradições.

Da década de 1950, noutra categoria de discurso sobre a cidade de São Paulo, com a preocupação de ressaltar e valorizar a grandeza do passado paulistano e de consolidar um “imaginário coletivo” sobre a história de São Paulo e de sua gente, foram fundamentais as inúmeras obras de Afonso d’Escragnolle Taunay (História Colonial da Cidade de São Paulo no século XIX (1801-1822), 1952 e História da cidade de São Paulo, 1953). As festas foram alvo específico de seu artigo “Festividades Setecentistas” (In: Revista do Arquivo Municipal de São Paulo, v. XV, 1935). Foi nas Atas da Câmara de São Paulo e nos Inventários e Testamentos que Taunay buscou as informações para descrever, sob seu ponto de vista, a feição de São Paulo.

Outra série de estudos de cunho memorialístico que se destaca é a extensa obra do historiador, jornalista e ex-funcionário do Arquivo Histórico Municipal, Nuto Sant’Anna. Os seis volumes de São Paulo histórico: aspectos, lendas e costumes (1937-1944), os três volumes de Metrópole (1950, 1952 e 1953) e os Ensaios Paulistas (1958) em diversas passagens abordam a questão das festas, descrevendo-as e demonstrando sua importância para a sociedade da época. Muitas vezes Nuto Sant’Anna traz à cena a voz dos moradores envolvidos, fato raro em outras publicações, mas não com voz própria e sim em resposta a alguma imposição da Câmara, como justificativa pelo não cumprimento de certas determinações oficiais, demonstrando que nem sempre as imposições eram seguidas sem contestações. De grande valia para a temática em questão são: “Festas e Festanças” e “Santa Isabel” (In: São Paulo Histórico: aspectos, lendas e costumes, 1944, vol. V, p. 35-39 e p. 103-106 respectivamente); “Igrejas e Procissões” (In: Metrópole, 1950, vol. I, p. 153- 159); “Festa do Corpo de Deus” e “Irmandades e Confrarias de São Paulo” (In: Metrópole, 1952, vol. II, p. 22-26 e p. 45-50 respectivamente); “Príncipe da Beira” e “Donativo Real” (In: Metrópole, 1953, vol. III, p. 115-200 e p. 225-232 respectivamente); e “Festas religiosas e profanas” e “Igrejas do Século da Fundação” (In: Ensaios paulistas, 1958, p. 441-457 e p. 473-509 respectivamente).

Em se tratando de memória, buscando construir a memória da cidade, em 1954, por ocasião da comemoração do Quarto Centenário da Fundação de São Paulo, foram realizados trabalhos importantes, dentre eles, a obra de Ernani Silva Bruno (História e tradições da cidade de São Paulo, 3 volumes, 1953) que apresenta uma visão da cultura paulistana no decorrer de quatro séculos, fortemente calcada na dimensão material. Ele desenvolveu uma extensa pesquisa tendo como base as fontes documentais existentes sobre a cidade de São Paulo: papéis oficiais (sobretudo Atas), relatos de viajantes, memórias, gravuras, jornais e almanaques. Em sua narrativa, ele divide a história de São Paulo em três grandes períodos, descrevendo o espaço urbano. No volume I (Arraial de Sertanistas (1554-1828)) o autor dedica-se à descrição do espaço da cidade. As festas foram destacadas apenas no pequeno capítulo intitulado “Entre nichos e mascaradas”, no qual as inseriu no contexto social da época. Nos outros dois volumes, Ernani Silva Bruno mostra a associação entre o ritmo das transformações e a dinâmica sociocultural da época, introduzindo movimento no espaço ao tratar do cotidiano da população e da multiplicidade de tipos

humanos que faziam uso do espaço urbano. Preocupado com questões materiais, a grande contribuição de Ernani Silva Bruno para nossa temática é sua abordagem sobre o crescimento qualitativo e quantitativo da cidade. Ele relata o envolvimento da população na conservação da cidade, tendo sempre a festa como justificativa, por ser o momento em que as fachadas das casas deveriam ser limpas e caiadas, as praças e os adros das igrejas também deveriam ser limpos e ornamentados e as ruas por onde passariam as procissões também deveriam limpas, consertadas e “alcatifadas” com flores e folhas. Todos esses “serviços” eram ordenados pela Câmara, o que demonstra que, do ponto de vista da municipalidade, as festas tinham uma função na administração e manutenção do solo público da cidade não se limitando apenas ao cumprimento de certos rituais. O autor esclarece que o envolvimento das diversas camadas sociais e ofícios mecânicos na preparação e realização das festas e de seu espaço era obrigatório, ficando o infrator sujeito à pena em dinheiro ou até mesmo à prisão.

Nova História

Um segundo momento da produção historiográfica sobre as festas inicia-se a partir dos anos 1970, quando intelectuais franceses iniciarem uma nova abordagem antropológica da vida cotidiana e os fenômenos festivos passaram a configurar um campo de interesse da nouvelle histoire, havendo nova inflexão nos seus estudos. A partir de 1980, as festas passaram a ser analisadas no âmbito da Sociologia, da Antropologia, da Literatura, da Crítica de arte e de outras áreas, impactando a historiografia e inspirando uma Nova História Cultural brasileira. As festas passaram a ser tratadas como fatos sociais totais, sendo estabelecidas novas possibilidades para sua compreensão com a introdução de novos instrumentos de pesquisa e com a confrontação crítica de diferentes tipos de documentação, envolvendo relatos de viagens, memórias, fontes judiciárias, criminais, camarárias e eclesiásticas, documentos cartoriais, documentação iconográfica e outros. Os estudos desse período versam sobre diferentes escalas e aspectos, buscando avaliar o lugar das festas na vida coletiva na formação da sociedade e acabam resvalando na questão urbanística, permitindo aproximar a historiografia sobre as festas paulistanas à historiografia sobre a cidade, em função do uso e apropriação do espaço de sua realização.

História Urbana

A partir dos anos 1970, em função do acelerado processo de metropolização, arquitetos e urbanistas debruçaram-se em pesquisas sobre a História Urbana, com foco particular nas transformações materiais da cidade. O espaço de realização das festas ganha destaque. No caso da cidade de São Paulo, destacam-se nesse quadro os clássicos livros de Benedito Lima de Toledo (São Paulo, três cidades em um século, 1975), de Nestor Goulart Reis (São Paulo: Vila, Cidade, Metrópole, 2004) e de Carlos Lemos (O álbum de Afonso: a reforma de São Paulo, 2001) fundamentais para a compreensão da história da cidade, seu crescimento e transformações urbanísticas e arquitetônicas do ponto de vista material. Embora as mudanças no modo de vida social da população da cidade e suas práticas sociais, aí incluídas suas festas, não tiveram espaço na pesquisa desses arquitetos e urbanistas, suas obras ajudam a compreender o “palco” onde elas ocorriam.

Ainda quanto à História Urbana, Heloisa Barbuy (A cidade-exposição: Comércio e Cosmopolitismo em São Paulo 1860-1914, 2006) sequenciou os arquitetos e urbanistas supracitados mas, diferentemente de seu olhar, ela traz à luz as mudanças na produção e no uso do espaço público da cidade de São Paulo e acrescenta nesse cenário um novo eixo de análise: o comércio que trouxe consigo novos valores. As festas não foram foco de sua análise, mas a interação que ela salienta entre os espaços

físicos, as práticas culturais e as transformações urbanas, sociais e culturais pelas quais a cidade de São Paulo vinha passando, operando novos padrões sociais, permite compreendê-las. Em determinados momentos ela esbarra em algumas festas, mostrando que, se por um lado elas perderam seu espaço na cidade para o comércio, por outro alguns estabelecimentos comerciais delas se beneficiavam com o fortalecimento do comércio, em especial em época de Semana Santa, Carnaval e Natal, quando era comum o anúncio de venda de produtos específicos para tais festividades. As Festas de Santo Antônio, de São João e de São Pedro também contribuíam com a venda de fogos de artifício, mas impactavam negativamente na dinâmica do dia-a-dia da cidade, em virtude dos desastrosos incêndios acarretados. Assim, a autora mostra que as ruas do centro reestruturavam-se em torno de apelos “à vida moderna” fortemente baseados no consumo, mas se aproveitavam de certas práticas antigas e tradições, como as festas. A nosso ver, havia um descompasso, uma vez que o ritmo acelerado do comércio implicava em mudanças rápidas e dinâmicas enquanto que festas e tradições eram mais afeitas a mudanças lentas.

Ainda com relação ao uso do espaço público da cidade de São Paulo e aos dados referentes à urbanização, importantes são as obras de Beatriz Bueno (Tecido urbano e mercado imobiliário em São Paulo: metodologia de estudo com base na Décima Urbana de 1809, 2005 e São Paulo: um novo olhar sobre a história. A evolução do comércio de varejo e as transformações da vida urbana, 2012). Os dados levantados pela autora, coletados na Décima Urbana de 1809, mostram que os imóveis mais caros situavam-se na Rua do Rosário, Rua Direita, Rua de S. Bento, Rua do Ouvidor, Rua de S. Teresa esquina com Rua do Carmo e Rua do Comércio, coincidentemente quase todas elas ruas por onde passavam as procissões nos dias de festas religiosas. Além disso, Beatriz Bueno (2005) cita alguns membros de destaque da oligarquia paulistana, que coincidem com as pessoas indicadas para pagar parte das festas. Isso significa que a questão ficava sob a alçada de certa elite de negociantes da cidade, na linha dos estudos realizados por Maria Aparecida Borrego.

Maria Aparecida Borrego (A teia Mercantil: negócios e poderes em São Paulo Colonial (1711-1765), 2010) não teve as festas paulistanas como foco de sua análise, mas lhes deu visibilidade quando vinculadas a outros processos e a certos atores e grupos sociais com elas envolvidos. Através de documentação da Câmara Municipal, da Santa Casa de Misericórdia, das Ordenanças e Irmandades e dos inventários post- mortem de alguns comerciantes da época, ela mostra como, no início do século XVIII, alguns homens vinculados ao comércio tinham influência nas decisões sobre o cotidiano da cidade (no qual estavam inseridas as festas), passando a atuar e transitar nos órgãos do poder local (sobretudo na Irmandade do Santíssimo Sacramento, na Câmara Municipal de São Paulo e na Ordem Terceira da Penitência de São Francisco) e a se movimentar em espaços de distinção e hierarquização social outrora restritos à elite senhorial, como o eram as festas oficiais. Uma das possíveis formas que os negociantes tinham para alcançar cargos públicos (bens simbólicos que garantiam prestígio e reconhecimento social) era contribuindo financeiramente com as despesas das festas públicas, seja com sua preparação seja com a preparação do espaço por elas utilizado, o que inclusive lhes garantia posições de destaque nas procissões em dias de festas religiosas católicas. Através de relatos da autora pudemos deduzir que não se tratava de casos isolados e sim de uma prática comum que pode plenamente ser estendida a uma história coletiva do comportamento social da época.

Ainda sobre os atores sociais envolvidos no preparo das festas, Maria Odila Dias

(Quotidiano e poder em São Paulo no século XIX, 1984) relata através de práticas cotidianas o conflito para sobreviver de mulheres que viviam nas fímbrias do sistema, mas que tiveram um papel significativo no processo de urbanização da cidade de São Paulo entre fins do século XVIII e as vésperas da Abolição. A autora não trata especificamente da questão das festas, mas numa pequena passagem relata as atribuições que cabiam às mulheres — “pobres”, diga-se de passagem –, nos preparativos das festas, alcatifando as ruas para a passagem das procissões. O que chama a atenção nos relatos da autora é a demonstração de que isso nem sempre ocorria de forma pacífica, levando a frequentes conflitos, prisões ou até mesmo à perda da licença, no caso das quitandeiras. Dessa forma, a autora mostra outro lado da história oficial, analisando a condição feminina ali ausente e como as mulheres contribuíram para a realização das festas, preparando o espaço público.

A coletânea organizada por Paula Porta (História da Cidade de São Paulo, 2004) por ocasião dos 450 anos da cidade de São Paulo objetivou cotejar estudos de perfis variados sobre a cidade, dividindo-os de acordo com balizas cronológicas históricas (A cidade colonial 1554-1822 — vol. 1; A cidade no Império 1823-1889 — vol. 2; e A cidade na primeira metade do século XX 1890-1954 — vol. 3). O que chama a atenção quanto ao período colonial é que, embora as festas religiosas tenham tido um papel fundamental para a preservação da fé e do poder da Igreja, então vinculada ao Estado, elas não foram contempladas na coletânea, ganhando apenas uns parágrafos em alguns poucos ensaios que tratavam de outras temáticas, mas que acabaram resvalando nas festas. Destacam-se dentre eles o do historiador Augustin Wernet (Vida religiosa em São Paulo: do Colégio dos jesuítas à diversificação de cultos e crenças (1554-1954)) que traça o percurso da religião desde o período colonial até a República, salientando que do ponto de vista da ocupação do espaço a Igreja Católica deixou marcas na paisagem urbana sobretudo no período colonial e o de Elizabeth Azevedo (O teatro em São Paulo (1554-1954)) que trata das festas como uma “teatralização” tendo permanecido até mesmo depois de o teatro regular ter se estabelecido na cidade. A preparação da cidade é vista pela autora como a preparação do “palco” e as pessoas que participam dessas festividades desempenham “papéis”, ora movidos pela fé, ora pela honra ou por seu status social.

É ao tratar do Império que as festas ganham luz na coletânea de Paula Porta, nas mãos da historiadora Alzira Campos (Vida cotidiana e lazer em São Paulo oitocentista) que as tratou em meio a tantas transformações nas práticas culturais cotidianas. Segundo ela, antes da chegada da ferrovia a animação da cidade decorria, dentre outros fatores, das festas e procissões, mas a partir de então, o crescimento da cidade passou a ser muito rápido em termos materiais. As práticas sociais não seguiram o mesmo ritmo, modificando-se lentamente o que levou as festas a perderem o seu espaço, tendo sua importância e o valor a elas atribuído praticamente se dissipado na República. As festas religiosas não faziam mais parte desse universo. Somente o Carnaval foi contemplado na coletânea de Paula Porta, através do ensaio da historiadora Margareth Rago (A Invenção do cotidiano na metrópole: sociabilidade e lazer em São Paulo, 1900-1950) que o destaca como uma das formas de lazer praticadas pela elite, inspirada em hábitos europeus.

Nos anos 1980, o arquiteto e urbanista Murillo Marx (Nosso Chão: do sagrado ao profano, 1989) veio a suprir uma grande deficiência temática, enfrentando o campo disciplinar da história das cidades de um ponto de vista até então inédito, uma vez que

a maioria dos estudos acadêmicos que tiveram a festa como objeto de estudo não a destacou em relação ao uso e ocupação do espaço público urbano. Ele analisou as transformações dos logradouros públicos nas cidades brasileiras em geral, focando com mais detalhes a cidade de São Paulo, objetivando demonstrar como o espaço urbano público foi transformado, passando do sagrado em seus primórdios até o “quase” absolutamente profano nos dias atuais, tendo atravessado um lento, crescente e contínuo processo de laicização da sociedade, hoje já de domínio público, mas nos anos 1980 uma novidade a ser estudada. Para comprovar a forma como se deu esse processo, o autor se valeu do estudo das festas religiosas como “instrumento”, demonstrando como o poder público as encarou ao longo do tempo do ponto de vista urbanístico, no que tange ao uso e à apropriação do espaço urbano público. As ruas, segundo o autor, eram palco para exibição do poder institucionalizado. A laicização ocorreu também no âmbito das leis, decaindo a influência eclesiástica sobre o solo urbano público e prosperando a civil. O cotidiano, aos olhos do autor, modificou-se graças à expansão das oportunidades e dos negócios, ao crescimento da prestação de serviços e do comércio e a outras formas mais sofisticadas de recreação mais frequentes e condizentes com uma vida urbana do que os tradicionais eventos litúrgicos. O autor afirma que, embora as festas favorecessem o comércio, não era o bastante para sustentar a manutenção da maioria delas na área central da cidade em face aos transtornos que causavam, fato também explorado por Heloisa Barbuy, como já mencionamos.

Considerações Finais

Na cidade que procurava se civilizar sob o zelo do poder público não havia mais espaço para antigas práticas, mesmo porque os próprios “lugares” dessas práticas foram totalmente modificados, tornando-se encolhidos perante os novos edifícios e a multidão de novos atores sociais que se avolumou repentinamente na cidade. As poucas festas que permaneceram no centro da cidade passaram a ser vistas como situações que levavam ao acúmulo de pessoas nas ruas e praças ensejando badernas, causando conflitos e desconfigurando a ordem estabelecida pelas normas e reformas urbanísticas em curso. No âmbito de um novo ideário urbanístico que reorganizava os usos do espaço público nas áreas centrais de forma rápida e arrasadora (sob um novo espírito de “ordem”, “civilidade” e “modernidade”), as festas com seus ritmos por vezes divergentes e seus descompassos inevitáveis frente à modernidade desejada, foram perdendo espaço na paisagem urbana e social das cidades brasileiras, levando ao seu recolhimento no interior das igrejas.

Trilhamos assim alguns caminhos possíveis da historiografia sobre as festas paulistanas, pois nas entrelinhas da historiografia da cidade de São Paulo conseguimos perceber um pouco da trajetória das festas, mesmo que de forma enviesada. Ao mesmo tempo em que as festas públicas são “práticas sociais coletivas” que visam a fazer reconhecer uma identidade cultural e social, elas também são “representações”, são um “discurso”, uma “narrativa” extremamente carregada de simbolismos, que traz em si diversas questões políticas refletindo em sua realização sócio espacial. Assim, no caso das festas públicas, “práticas” e “representações” caminham lado a lado, permitindo uma pluralidade de compreensões do mundo social e demonstrando a realidade social e urbana na sua complexidade.

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Como Citar

Maria Cristina Caponero . Historiografia Das Festas Paulistanas Do Ponto De Vista De Uso De Apropriação Do Espaço Público Urbano. In: PEIXOTO, Elane Ribeiro; DERNTL, Maria Fernanda; PALAZZO, Pedro Paulo; TREVISAN, Ricardo (Orgs.) Tempos e escalas da cidade e do urbanismo: Anais do XIII Seminário de História da Cidade e do Urbanismo. Brasília, DF: Universidade Brasília- Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, 2014 . Disponível em: http://www.shcu2014.com.br/content/historiografia-das-festas-paulistanas-do-ponto-vista-uso-apropriacao-do-espaco-publico