Gaston Bardet: um teórico do urbanismo

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Gaston Bardet: Um Teórico Do Urbanismo

Eixo Temático: Discurso Profissional

Resumo

Gaston Bardet foi um arquiteto-urbanista francês do século XX, reconhecido pelo seu trabalho teórico, didático e crítico. Teórico do urbanismo, sua produção foi copiosa, publicada em livros e artigos de revistas. Nesses textos é possível notar a sua preocupação com a análise das cidades de então de forma crítica, com o auxílio de outros campos do saber, como geografia, história, filosofia e sociologia, o que resulta em uma disciplina que ele enquadrou como uma ciência social. Como professor, sua atuação foi permanente e significativa, com destaque para a fundação do Institut Supérieur et International d’Urbanisme Appliqué (ISUA) na cidade de Bruxelles (Belgique), em 1947, onde ele permaneceu ensinando até 1974. As fontes documentais mostram que a vinda de Gaston Bardet ao Brasil ocorreu em dois momentos. A primeira, em agosto 1948, a convite da Escola Livre de Sociologia e Política (ELSP) e sob o patrocínio do Departamento Regional do Serviço Social da Indústria e a segunda em 1953, contratado pela Escola de Arquitetura da Universidade de Minas Gerais, a convite do diretor Professor Aníbal Matos, e por sugestão do professor e advogado José Geraldo Faria, para lecionar um curso intensivo de urbanismo de quatro meses de duração. As recepções e percursos estão narradas de modo a entender as vertentes presentes no campo do urbanismo no Brasil.

Palavras-chave: Urbanismo, Gaston Bardet, Brasil, non-conformiste

Abstract

Gaston Bardet was a french urban planner — architect of the twentieth century, recognized for his theoretical, didactic and critical work. His production was copious, published in books and magazine articles. In these texts it is possible to note his concern with the critical analysis of the cities, with the aid of other fields of knowledge, such as geography, history, philosophy and sociology, which results in a discipline he named as a social science. As a teacher, his performance was significant and permanent, especially with the foundation of the Institut Supérieur et d’ Urbanisme International Appliqué ( Isua ) in the city of Brussels ( Belgium ) in 1947, where he remained teaching until 1974. Documentary sources show Gaston Bardet coming to Brazil in two stages. The first, in August 1948, with the invitation of the Escola Livre de Sociologia e Política ( ELSP ), sponsored by the Regional Department of Social Service of Industry and the second, in 1953, when he was contracted by the Escola de Arquitetura da Universidade de Minas Gerais, with the invitation of director Aníbal Matos and the suggestion of a teacher and lawyer, José Geraldo Faria, to teach an intensive course in urban planning for four months. The receptions of this ideas and its flow are narrated in order to illuminate the aspects presents in the field of urbanism in Brazil.

Keywords: Urban planning, Gaston Bardet, Brazil, non-conformiste

Gaston Bardet: panorama historiográfico na França

Gaston Bardet foi um arquiteto-urbanista francês do século XX, reconhecido pelo seu trabalho teórico, didático e crítico. Teve uma formação politécnica, pois cursou inicialmente matemática, belas-artes e história, foi diplomado e laureado pelo Institut d’Urbanisme de l’Université de Paris, com a tese defendida em 1932 e intitulada “La Rome de Mussolini, contribution à l’étude du plan régulateur”, 1 considerada por Frey (2001, p.

1) como “uma tese notável”. 2 O supervisor da tese de Bardet foi o urbanista Marcel Poëte, com o qual ele adquiriu uma ampla bagagem de erudição urbanística, já que se estabeleceu entre os dois uma relação de afinidade intelectual, reconhecida e expressada por esse aluno por meio do título afetivo de “mon beau-père”. 3 Bardet casou-se com Françoise Poëte, uma das três filhas de Marcel Poëte, e a mesma se tornou também sua colaboradora em diversos empreendimentos institucionais, didáticos e profissionais, dentre os quais cabe

referência a criação do Laboratoire d’enquêtes et d’analyses urbaines, na Paris de 1943.

Teórico do urbanismo, sua produção foi copiosa, publicada em livros e artigos de revistas, o que vale a seguinte colocação de Cohen (1996, p. 134): “um urbanista tão produtivo sobre o plano teórico quanto nas suas estratégias institucionais”. 4 Dentre os livros de maior referência, além de sua tese, estão: Problèmes d’urbanisme (1941), Principes inédits d’enquêtes et d’analyses urbaines (1943), Principes d’analyses urbaines (1945), Pierre sur

Pierre. Construction du nouvel urbanisme (1945), L’Urbanisme (1945), Fondements d’un nouvel urbanisme (1946), Le Nouvel urbanisme (1948), Mission de l’urbanisme (1949) e Naissance et méconnaissance de l’urbanisme (1951), donde se pode inferir que sua obra foi escrita essencialmente de 1936, com a publicação do livro Alger, capitale, a 1952, com o livro Demain, c’est l’an 2000. 5

Nesses textos é possível notar a sua preocupação com a análise das cidades de então de forma crítica, com o auxílio de outros campos do saber, como geografia, história, filosofia e sociologia, o que resulta em uma disciplina que ele enquadrou como uma ciência social. Tal entendimento consta do artigo “L’Urbanisme, Science Sociale”, assinado por Bardet como vice-presidente da Societé des Urbanistes Français, publicado pela Revue Chantiers,

em 1947. 6 Dentre os argumentos apresentados por Bardet para tal enunciado, consta o que questiona ser o urbanismo uma disciplina voltada às Belas-Artes e o acordo com a classificação da UNESCO que o insere no conjunto das “Sciences Sociales et Œcologie”. 7 Três noções são centrais na obra de Bardet, as quais ele se reportava como métodos. São elas: topografia social, organização polifônica e composição urbana. 8 Bardet manteve-se cauteloso em suas intervenções e sempre preferiu lidar com a cidade existente, ao contrário de alguns outros conterrâneos. Seus métodos consistiam em conhecer sistematicamente o objeto de estudo, analisá-lo e representá-lo por meio de diagramas e mapas que continham

1 Essa tesse foi publicada sob o título: « Une nouvelle ère romaine sous le signe du faisceau. La Rome de Mussolini », em 1937.

2 A tese foi defendida em 25 de junho de 1932, perante a seguinte banca examidora: o jurista William Oualid, o sociólogo

Edouard Fuster e o urbanista Louis Bonnier, além de seu orientador Marcel Poëte. Segundo o depoimento da segunda esposa de Gaston Bardet, a urbanista Annie Bardet, no curriculum vitae e no depoimento que seguiu o roteiro de questões previamente elaborados, realizado na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, no dia 3 de outubro de 2013, a convite da Prof.ª Maria Cristina da Silva Leme. FREY, (2001, p. 1) — «une thèse remarquable».

3 A referência de Bardet a Marcel Poëte consta em documento datilografado e intitulado «Pour-quoi je pose ma candidature», escrito em 18 de junho de 1952, Paris, Fond Gaston Bardet, caixa 24.

4 «(…) d’un urbaniste aussi productif sur le plan théorique que dans ses stratégies institucionnelles ».

5 Levantamento da obra do urbanista Gaston Bardet foi realizado pelo arquiteto e sociólogo do Institut d’Urbanisme de

Paris, professor Jean-Pierre FREY, cujos resultados constam de duas relações: uma que diz respeito aos livros e outra aos artigos em revistas, ambas classificadas por título e por cronologia. Essas relações foram cedidas a esta pesquisa.

6 BARDET, Gaston. “L’Urbanisme, Science Sociale”, in Chantiers, em 1947, pp 125-131.

7 Artigo impresso, porém não é possível identificar a referência bibliográfica, Fond Gaston Bardet, caixa 9.

8 A afirmação dessas três noções como métodos consta em documento datilografado e intitulado “Pour-quoi je pose ma candidature”, página 2, escrito em 18 de junho de 1952, Paris, Fond Gaston Bardet, caixa 24.

informações sociais, econômicas e condições geográficas, de modo a compreender o ser urbano na sua dupla dimensão de forma e população.

Cohen (1996, p. 135) afirma que a obra de Bardet e ele mesmo foram recepcionados na Gran-Bretanha, nos Estados-Unidos, na Bélgica, na Algéria, em Portugal, no México e na Argentina. Entretanto esse impacto contrasta com um relativo insucesso na França.

Como professor, sua atuação foi permanente e significativa: em 1937, torna-se assistente no Institut d’Urbanisme de l’Université de Paris. Ao se desligar dessa instituição, Bardet fundou o “Atelier Supérieur d’Urbanisme Appliqué”, em 1938. Segundo Frey (2001) e Bardet (2013), essa iniciativa estava voltada ao atendimento dos apelos de estudantes, como Robert Auzelle, Roger Millet e Paul Dufournet, que buscavam um curso voltado às atividades práticas, de modo a contrabalançar a teoria até então adquirida. Esse atelier funcionou até a suspensão das suas atividades por causa da II Guerra Mundial. Porém, sua abnegação ao ensino não foi minimizada, dado que Bardet contribui para a criação do Institut d’urbanisme de l’université d’Alger, onde permaneceu de 1945 a 1958.

Entretanto, dessas instituições de ensino talvez a mais significativa tenha sido a fundação do Institut Supérieur et International d’Urbanisme Appliqué (ISUA) na cidade de Bruxelles (Belgique), em 1947, onde ele permaneceu ensinando até 1974. Na brochura de divulgação do curso de urbanismo publicado pelo ISUA, presumivelmente de 1948, consta que o norte do ensino dessa instituição é trabalhar três dimensões: a científica — como o fundamento do desenvolvimento completo do homem, a prática — que consiste na aplicação da ciência urbanística, e a de cultural geral — que se refere às noções que complementam a urbanística, relativas à vida social e econômica. Porém, uma melhor compreensão da ideia de ensino de urbanismo e mesmo o significado dessa noção para Bardet pode ser apreendida a partir das palavras impressas no final dessa brochura:

O urbanismo é um conjunto de disciplinas que comporta: uma ciência como base, na qual o conhecimento experimental dos fatos utiliza um feixe de ciências compositivas; uma arte aplicada que oriente a passagem à ação, a criação de cheios e vazios; uma filosofia para a escolha dos atos segundo a escala dos valores humanos 9 (ISUA, s.d, p. 16, Fond Gaston Bardet, Caixa 18/2).

Dentre o corpo docente da versão de 1948, constavam urbanistas, sociólogos, geógrafos, engenheiros e agrônomos, que em sua maior parte eram ligados a instituições universitárias francesas, embora ainda estejam registrados aqueles provenientes da Algéria e de Roma. A estrutura administrativa era simples: um conselho de gestão, embora que não esteja explicitada sua composição, e uma direção administrativa, composta por Bardet — diretor de estudos, Henri Gilis - diretor administrativo, Jean Gilson e J. Boseret Mali como assistentes, todos arquitetos e urbanistas. 10

Na brochura de 1954, a estrutura do ISUA está detalhada e acrescida de um comitê de patrocinadores, permanecendo os demais. O comitê de patrocinadores era composto por nomes de reconhecida competência no campo do urbanismo e em instituições de diversas nacionalidades, a exemplo de Lewis Monford, Mario Pani, Maurício Gravotto e Carlos

9 «L’Urbanisme est un ensemble de disciplines comportant: une science pour base, ou connaissance expérimentale des faits utilisant un faisceau de sciences composantes ; un art apliqué pour le passage à l’action, pour la création de pleins et de vides ; une philosophie pour le choix des actes suivant l’échelle des valeurs humaines. »

10 Dentre o corpo de professores do curso do ISUA, em 1948, cabe referência a Françoise Poëte, apresentada como diretora do Laboratoire d’Enquêtes et d’Analyses urbaines à Paris. Fond Gaston Bardet, Caixa 18/2

della Paollera. Entretanto, alguns detalhes cabem ser obervados: i) a inclusão do nome de Marcel Poëte como um tributo, apesar de o mesmo ter falecido em 1950; ii) a presença de representantes da Algéria, então colônia francesa, e cuja relação data já de algum tempo, dado que, em 1936, Bardet junto com Jean-Pierre Faure publicaram em Paris a obra

«Alger, capitale» e, em 1945, ele já ensinava no Institut d’Urbanisme de l’Université d’Alger; iii) a presença de instituição cristã, iv) a presença de três urbanistas da América do Sul, o que mostra a permanência de uma relação estabelecida com Paollera, desde os estudos no Institut d’Urbanisme de l’Université de Paris, e com os demais a partir de sua primeira estada nesse continente, em 1948, momento em que realiza ciclos de conferências. 11

No comitê de direção permaneceram Gaston Bardet e Henri Gilis nas mesmas posições, e são introduzidos como secretário geral: Jacques Boseret-Mali (arquiteto e urbanista), e como responsável pelas relações internacionais: Denise-Teresa Moutonnier, esta última integrante da direção do ISUA, apresentada como diplomada pela École des Hautes Études Commerciales (H.E.C) de Paris e assistente do diretor de estudos, tendo acompanhado Bardet na sua viagem à América do Sul, em 1953.

Como profissional de urbanismo, teve atuação mais reduzida quando comparada à de teórico e à de professor. Dentre os trabalhos que realizou, cabe citar o planejamento das cidades de Constantine, Philippeville e Oran, na Algéria; de Louviers, Avignon, Vicky e Le Rheu, na França. 12

Frey (2001), ao tratar das filiações de Bardet, afirma que, como decorrência de ele ter sido “discípulo e colega” de Marcel Poëte, está presente em toda a sua obra a ideia inspirada em Bergson 13 de que a cidade é um ser em constante evolução.

Calabi (1997) mostra que o pensamento de Marcel Poëte está inscrito num momento em que outras disciplinas estão formulando hipóteses centradas na ideia de “evolução” como uma reação à vertente determinista da relação homem-natureza. Bergson, ao analisar a evolução do ser humano e de seu meio físico, constata a capacidade criativa da vida, e que a força criativa da vida está em mudança ininterrupta e em transmissão continuada. Dentre as hipóteses formuladas, aquelas que foram apropriadas ano campo do urbanismo, como a cidade se identifica com a coletividade, o todo determina as partes, os efeitos recíprocos entre atividades humanas e o meio físico, são uma constante.

11 Comite de Patronage : Saint Jean-Baptiste de la Salle (patron des educateurs chrétiens e fondateur de l’enseignement technique), Marcel Poëte (in mémoire, fondateur de l’enseignement de l’urbanisme en France), Jean Alazard (directeur de l’Institut d’Urbanisme de l’Université d’Alger), Mauricio Gravotto (directeur-professeur de l’Institut d’Urbanisme de Montevideo), Pierre Deffontaines (directeur de l »institut Français de Barcelone), Lewis Mumford (fondateur de la “Regional Planning Association of America”), Mario Pani (directeur de la revue “Arquitectura” de Mexico), Carlos della Paolera (directeur de l’Institut Supérieur d’Urbanisme de Buenos-Aires), Tony Socard (Conseiller à l’Urbanisme auprès du Gouvernement Général de l’Algérie) et Ernesto E. Vautier (censeur de l’Institut Supérieur d’Urbanisme de Buenos- Aires). ISUA, 1954, Fond Bardet, caixa 27.

12 O Fond Gaston Bardet (1907-1989), está sob a guarda do Centre d’Archives d’Architecture du XXe siècle, na Cité de l’Architecture et du Patrimoine, Paris, França. Nesse acervo foram verificados os seguintes trabalhos de urbanismo: Plan

Intercommunal de Louvriers, France (1941), Plan Intercommunal de Vernon, France (1941), Plan d’equipament de La ville d’Oran, Algérie (1948), Plan d’amènagement et de reconstruction de la commune d’Avignon, France (1945-46), Plan régional du bassin de Vicky, France (1942-1947), Aménagement de la Corse, France (1941-1943), Aménagement de communes dans l’Aisne et l’Aise, France (n.d), Plan directeur touristique de l’île de la Rèunion, France (1947), Projets d’urbanisme : divers communes en France et en Algérie (1941±1960) e Plans d’édifices et d’urbanisme au Rheu (1959-1960).

13 A filosofia de Henri Bergson se opunha ao cientificismo exagerado de sua época que considerava a ciência mecânica como única abordagem capaz de explicar os fenômenos existenciais. Sua filosofia negava e criticava as concepções que reduziam a dimensão espiritual do homem às leis previsíveis. A ideia evolucionista estava apoiada na compreensão do

correr do tempo uno e interpenetrado, denominado tempo vivido, como sendo um tempo incompreensível para a inteligência lógica, por ser qualitativo, enquanto o tempo físico tem uma natureza quantitativa.

É pertinente colocar o que Calabi (1997) afirma como a concepção de história da cidade de Marcel Poëte: o fio condutor e a síntese do pensamento e do fazer urbanístico referendado na ideia de evolução ou continuidade. A essa assertiva de Calabi, específica a Marcel Poëte, convergem, de modo a ampliá-la, as palavras de Secchi (2006), quando diz que a “continuidade, orientou a maioria dos campos disciplinares ao longo de todo o período moderno”. Desse modo, esses dois autores convergem no entendimento de que o fundamento do pensamento urbanístico moderno esteve apoiado na ideia ou figura de continuidade.

O contexto intelectual no qual Marcel Poëte transitou e interagiu estava pautado também pelas concepções daqueles que compuseram o Musée Social, fundado em 1894, cuja atuação reformista se voltava não apenas a transformação das condições da habitação dos pobres e operários, mas para um projeto de criação das bases em prol de uma vida comunitária. A atuação dessa instituição constitui-se num marco para o nascente urbanismo e as primeiras leis do urbanismo francês, dentre as quais cabe destacar a Lei Cornudert, de 1913.

Estudos historiográficos dão conta de que a Société Française des Urbanistes (SFU), criada entre 1911 e 1913 por um conjunto de profissionais da engenharia, arquitetura e economia, provém em grande parte da atuação do Musée Social. Dentre seus fundadores cabe citar: Donat Alfred Agache, Eugène Hénard, Léon Jaussely, Louis Bonnier, Jacques Greber, Henri Prost, Jean Nicolas Forestier, alguns dos quais fizeram estadas e realizaram planos de reforma e embelezamento em diversos países da América do Sul. Bardet veio a participar da SFU, assumindo a condição de secretário geral em 1940. A atuação da SFU, no âmbito da formação e da prática profissional, estava norteada pela necessidade de agir sobre as condições materiais da vida coletiva por meio do ordenamento, reforma urbana e melhoramentos da cidade existente.

Para dar maior suporte ao campo do urbanismo, os integrantes do Musée Social e da SFU, criaram, em 1919, a École des hautes études urbaines, que depois veio a ser o Institut d’urbanisme de l’Université de Paris (1924), no qual Bardet é diplomado e se torna assistente em 1937.

Entretanto, para Frey (1999 e 2001), a formação do pensamento de Bardet deve muito aos reformadores sociais e da vida urbana, como o francês Le Play e o escocês Patrick Geddes, ao articularem três disciplinas: a sociologia, a geografia humana e o urbanismo, com o intuito de precisar o “papel social do urbanismo e sua necessidade social” 14 (FREY, 1999, p. 1).

Tais filiações são também referendadas por Cohen (1989) de modo enfático. Ele escreveu sobre Bardet:

(…) ele integra a visão organicista de um desenvolvimento das cidades proposto por Poëte, e se fez intérprete dos métodos de pesquisa formulados por Patrick Geddes (…). Extremamente bem documentado por publicações europeias e americanas, Bardet se

14 «(…) le rôle social de l’urbanisme, as nécessité sociale»

apoia fortemente sobre as crônicas de Lewis Munford (…) 15

(COHEN, 1989, p. 80).

No artigo de 1996, Cohen ainda coloca que Bardet se nutriu do pensamento de Camillo Sitte e Raymond Unwin, conferindo a condição de possuir ele uma formação e prática portadora de “éclectisme doctrinal” (COHEN, 1996, p. 137).

Ao afirmar ter Bardet um olhar original sobre a organização social, diz Frey (1999) que ele entendia ter havido uma perda do espírito comunitário das cidades, ou seja, que a modernidade teria contribuído para questionar e mesmo destruir a ideia de uma vida comunitária, daí ter ele dedicado parte substantiva de sua produção às análises e propostas da cidade como uma composição de escalas comunitárias.

Segundo Pelletier (1996: pp. 106 e 107), as reflexões do padre dominicano Louis-Joseph Lebret sobre a cidade se devem ao seu encontro com o urbanista francês Gaston Bardet. O nome desse urbanista consta como participante de jornadas e sessões de estudos realizadas em Ecully, na França, 16 e como autor de artigos publicados na Revue Economie et Humanisme. Publicações de artigos de Bardet nas edições dessa revista iniciam-se em

1942 e são encontradas até 1948, totalizando 13 artigos. A sua participação é verificada ainda na obra “Caractères de la communauté” 17, ao lado de Henri-Charles Desroches, François Perroux, Gustave Thibon e Louis Gardet, integrantes de Economia e Humanismo e, os três primeiros, componentes da direção central. Essa coletânea é muito significativa no âmbito dos debates e reflexões sobre Economia e Humanismo, na França, no período da

Ocupação.

Cabe notar ainda que no curso que Lebret ministrou na Escola Livre de Sociologia Política em São Paulo, em 1947, dentre os autores constantes das referências bibliográficas, o único urbanista citado foi Gaston Bardet e na obra “L’enquête urbaine”, dentre as poucas referências bibliográficas presentes, uma é desse urbanista francês.

No texto escrito por Lebret e pelo sociólogo e padre dominicano Henry Desroches, La méthode d’Economie et Humanisme, publicado na REH, n. 12 e 13 de 1944, constam diagramas monográficos que conferem a esse método o caráter sociológico e de análise aplicada. Logo no início do texto, constam referências às obras do urbanista Gaston Bardet e do geógrafo Robert Fantapié, por terem tido o mérito de indicar os principais elementos componentes dos diagramas e sua generalização.

Os estudos historiográficos escritos por urbanistas e historiadores franceses, como Jean- Pierre Frey (1999, 2001, 2010), Jean-Louis Cohen (1978, 1978a, 1996, 1989) e Pascal Balmand (1985), afirmam que Bardet teria sido relegado ao esquecimento e ao descrédito na França apesar de ter construído um olhar original sobre a organização socioespacial e de ter sido um dos principais teóricos do urbanismo. E mais, Balmand o integra no conjunto dos intelectuais franceses apelidados, nos anos de 1930, como «non-conformistes».

Gutiérrez (2007), Almandoz (2008) e Randle (1972) tratam da ressonância das ideais de Bardet na América do Sul, como parte integrante do aporte da escola francesa de

15 «(…) il integre la vision organiciste d’um développement dês Villes proposées par Poëte, et se fait l’interprête des méthodes d’enquêtes formulées par Patrick Geddes (…). Extrêmement bien documenté sur les publications européennes et américaines, Bardet s’appuie fortement sur les chroniques de Lewis Munford (…)».

16 No Fond Lebret, AN 45 AS 45, 46 e 47, consta que Bardet participa da jornada de Mont-Dore, entre 10 e 14 de abril de 1943, na sessão de Bourboule (sem indicação de data) e na jornada de Grand-Bornand, em novembro desse mesmo ano.

17 A obra “Caractères de la communauté” foi publicada pelas Edições Economia e Humanismo, como coletânea de artigos produzidos e apresentados na sessão do Grand-Bornand, na França, em 1944.

urbanismo. O primeiro confere a Bardet o status de difusor dos temas urbanísticos na Argentina, Chile e Brasil. Porém, de modo crítico, ele afirma que Bardet, quando de sua estada nesses países, não tinha se desprendido do “haussmanismo melhorado” que imperava, nos anos de 1940, na Société Française des Urbanistes e no ensino do Institut supérieur d’urbanisme appliqué de Bruxelas. Almandoz destaca que a ressonância do urbanismo francês na América do Sul se deu, principalmente, por meio das obras de Lavedan, Marcel Poëte e Bardet. Os dois primeiros teriam sido as principais referências para a formulação teórica e prática do último que, por sua vez, teria tido o propósito de fundar as bases do urbanismo como disciplina científica.

Randle trata das obras de Geddes, Poëte, Bardet e Lewis Munford, destacando a convergência existente no pensamento desses quatro urbanistas. Embora tenha fundamentado sua narrativa na noção de evolução urbanística, ele pondera filiações e circulação de ideias como dimensões integrantes da formação do urbanista. Randle afirma que essa noção teria sido formulada por Bardet como “um saber completo em si mesmo”, estando presente em toda a sua rica produção bibliográfica.

Já foi dito que a obra e o próprio Bardet tiveram pequeno sucesso na França. Para compreender as recepções intelectuais, torna-se necessário relatar o contexto intelectual francês de então. Balmand (1985), em artigo cujo título é muito sugestivo, “Piétons de Babel et de la Cité Radieuse: les jeunes intellectuels dês années 1930 et la ville”, oferece alguns dados expressivos: i) “(…) os anos trinta (…) pela primeira vez efetivamente, a população urbana predomina na França (…)”; ii) “(…) a cidade não cessa de crescer de uma forma acentuadamente anarquista (…) aos olhos do cidadão dos anos trinta, o quadro urbano não cessa de se deteriorar, e a cidade torna-se um caos, ‘aglomeração’ mais que centro urbano (…)”; iii) “os jovens intelectuais dos anos trinta (…) se firmaram (…) impregnados da formação clássica e humanista assegurada no âmbito das Facultés des lettres ou à l’Escole normale supérieure (…) cultos ou suficientemente senhores de sua cultura para, certo ou errado, associar à sua reflexão o conjunto das experiências e dos

campos da atividade humana”. 18 E, principalmente, aponta como o “espírito dos anos trinta (…) a recusa total da civilização contemporânea, de seus valores e de sua organização” 19, e se apoiando em Jean Touchard pontua que esses intelectuais, provenientes de horizontes diversos, se reuniram em torno de três grandes tendências representadas cada uma por uma revista: “La Revue française” (1930), criada por jovens dissidentes da Ação Francesa; “L’Ordre nouveau” (1933), fundada por aqueles que tentaram conciliar o federalismo de linha libertária e o tecnicismo gestionário, e “Esprit”

(1932). Essas revistas aludiam à existência de uma “crise de civilização” e afirmavam a

(…) imperiosa necessidade de uma revolução radical: recusando a esse respeito às perspectivas fascistas ou stalinistas, eles adotavam o respeito e o desenvolvimento da pessoa, isto é, do homem

18 i) «(…) les années trente (…) pour la première fois en effet, la population urbaine prédomine désormais en France (…) ; ii) (…) la ville ne cesse en effet de s’étendre d’une façon largement anarchique (…) aux yeux du citadin des années trente, le cadre urbain ne cesse de se détériorer, et la ville devient chaos, ‘aglomération’ plus que ‘cité’… ; iii) (…) les

jeunes intellectuels des années trente (…) ils s’affirment (…) imprégnés de la formation classique et humaniste assurée au sein des Facultés des lettres ou à l’Ecole normale supérieure (…) cultivé ou suffisamment sûr de sa culture pour, à tort

ou à raison, embrasser dans sa réfletion l’ensemble des expériences et des champs de l’activité humaine.»

19 «esprit des années trente (…) de refus total vis-à-vis de la civilisation contemporaine, de ses valeurs et de son organisation»

‘responsável e criador’, membro de uma comunidade humana autêntica 20 (BALMAND, 1985, p. 31-34).

A leitura sobre a cidade presente no pensamento desses intelectuais era a de um “lugar onde existia a ameaça ao equilíbrio e à integridade física e psíquica da pessoa humana”, ou seja, eles percebiam o mundo urbano como algo

(…) atado à tradição crítica (…). Por que ela constitui o lugar privilegiado do maquinismo estandardizado e do produtivismo capitalista, a cidade se encontra no cerne da alienação econômica e social (…) ela encarna a Babel moderna 21 (BALMAND, 1985, p. 34 e 36).

O desenvolvimento do argumento de Balmand passa a frisar que esses jovens “non- conformistes” possuíam posições opostas à de Le Corbusieur, focando as críticas a esse urbanista ao projeto da “Cité radieuse”. Para os “non-conformistes” essa cidade expressa um

“(…) sistema no seio do qual o trabalhador se encontra insidiosamente oprimido pelo mito redutor do conforto material (…). Entre a Cité radieuse e a cidade totalitária, os non- conformistes não estabelecem nenhuma diferença” 22.

E mais, aponta como corrente distinta daquela capitaneada por Le Corbusieur uma outra representada, entre as duas guerras mundiais, por Marcel Poëte e Gaston Bardet, cuja concepção estava centrada

(…) sobre a unicidade de cada indivíduo, sobre o primado do espiritual em relação ao material e, por decorrência, que rejeita tudo que de perto ou de longe, se aproxima da estandardização do espaço e do plano em xadrez 23 (BALMAND, 1985, p. 39).

Essa oposição de concepções urbanísticas, especialmente entre Le Corbusieur e Gaston Bardet, tem sido tratada por diversos autores, sendo indicado como decorrência dessa divergência o pequeno reconhecimento e mesmo o esquecimento da contribuição de Bardet para a teoria urbanística. Nesse sentido são as palavras de Morel (1987):

A França da reconstrução tem em Le Corbusieur e Bardet duas personalidades do urbanismo com ideias diametralmente opostas.

20 «l’impérieuse nécessité d’une révolution radicale : récusant à cet égard les perspectives fascistes ou staliniennes, ils prônent en permanence le respect et lépanouissement de la ‘personne’, c’est-à-dire de l’homme ‘responsable et créateur’, membre d’une communauté humaine authentique».

21 «le lieu d’une grave menace pour l’équilibre et pour l’integrité physique ou psychique de la personne humaine » (…) « (…) rattaché à la tradition critique (…). Parce qu’elle constitue le lieu privilégié du machinisme standardisé et du productivisme capitaliste, la ville se trouve au cœur même de l’aliénation économique et sociale (…) elle incarne la

Babel moderne (…).

22 « (…) système au sein duquel le travailleur se trouve insidieusement opprimé par le mythe réducteur du confort matériel (…). Entre Cité radieuse et cité totalitaire, les non-conformistes n’établisssent guère de différence fondamentale

23 (…) sur l’unicité de chaque individu, sur la primauté du spirituel par rapport au matériel, et rejette de ce fait tout ce qui de prés ou de loin s’apparente à la standartisation de l’espace et au plan en damier.»

Ao primeiro não faltam biógrafos e estudiosos. (…) Não é o mesmo para Gaston Bardet 24 (MOREL, 1987, p. 33).

Para entender esse debate e esse contexto, há que se compreender a presença de Eugène Claudius-Petit, arquiteto, integrante do Mouvements unis de la Résistance (MUR), que chegou a assumir a posição de vice-presidente e que, após a Liberação, em 1948, foi nomeado Ministre de la Reconstruction et de l’Urbanisme. Convicto da necessidade de engajar o conjunto governamental em um projeto nacional, ele apresenta ao Conselho de Ministros, em 1950, a proposta “Pour um plan national d’aménagement du territoire”. A partir de então é efetivada uma ampla política de planejamento, visando reparar os desgastes da guerra e minimizar as carências de habitação. Eugène Claudius-Petit e Le Corbusieur foram próximos. O estabelecimento de uma amizade está assim relatado por Dominique Claudius-Petit (2004, p. 7): “No dia de Natal de 1945 ele parte em missão com Le Corbusieur; eles dividem a cabine durante dezessete dias e selam uma amizade fraternal (…)”.

Gaston Bardet no Brasil: conferências e cursos

As fontes constantes no acervo do Centre d’Archives d’Architecture du XXe siècle, 25 como jornais da época e correspondências, mostram que a vinda de Gaston Bardet ao Brasil ocorreu em dois momentos. A primeira, em agosto 1948, a convite da Escola Livre de Sociologia e Política (ELSP) e sob o patrocínio do Departamento Regional do Serviço Social da Indústria.

A cidade de São Paulo foi a primeira por ele visitada nessa jornada por países da América do Sul. Daqui ele foi para Montevidéu, Buenos Aires, Santiago do Chile, Lima e Caracas. Embora os documentos confirmem que sua passagem por São Paulo tenha sido apoiada por aquelas duas instituições, cabe considerar que ele pode também ter tido algum apoio do governo Francês, por meio da Aliança Francesa, pois, segundo os jornais Mañana e El Dia da cidade de Montevidéu, noticia-se que a estada e as conferências de Bardet estavam

integradas às comemorações dos 25 anos da Aliança Francesa no Uruguai. 26

É possível que o convite a Gaston Bardet para realizar conferências em São Paulo tenha partido do professor Cyro Berlinck, então diretor da ELSP. Porém, sabe-se que, já em 1938, um artigo de Bardet foi publicado na Revista do IDORT (Instituto de Organização Racional do Trabalho), intitulado Problemas de Circulação, ou seja, ele já tinha sido recepcionado por algum especialista articulado a esse periódico. Outra hipótese é que, com a permanência do padre dominicano Louis-Joseph Lebret em São Paulo, em 1947, momento em que concedeu o curso Introdução à Economia Humana na ELSP, o urbanista tenha sido referenciado.

Nessa estada Bardet realizou cinco conferências públicas entre os dias de 16 a 20 de agosto. Segundo os jornais Folha da Manhã e O Estado de São Paulo, 27 as conferências versaram sobre os seguintes temas: i) Sociologia e Urbanismo, ii) Escola Comunitária, iii) A Organização Natural e Regional da França, iv) A Nova Estrutura Rural, v) Simbiose

24 «La France de la reconstruction possède en Le Corbusieur et bardet deux personnalité de l’urbanisme aux idées diametralement opposées. Le premier n’a pas manqué de biographes et d’exégètes. (…) Il n’en est pas de même pour Gaston Bardet».

25 O Centre d’Archives d’Architecture du XXe siècle está na Cité de l’Architecture et du Patrimoine/Fond Gaston Bardet (1907-1989), Paris, França.

26 Fond Gaston Bardet, Caixa 10/1.

27 Fond Gaston Bardet, Caixa 10/1.

Cidade-Campo. Desses temas, sabe-se que o primeiro foi publicado na Revue Synthèses, 28 dos demais não se tem conhecimento. Porém, quando da passagem de Bardet pela cidade de Santiago do Chile, foi impresso pelo Departamento de Extensión Universitaria de la Universidad de Chile um convite ao ciclo de conferências no qual consta a programação com detalhes dos temas: primeiro dia, “Naissance et Évolution de l’Urbanisme/ Structures Sociales et Échelle Humaine/ Mission de l’Urbanisme/ Sociologie et Urbanisme”; segundo dia, “Les Plans Nationaux d’Urbanisme/ L’Aménagement National et Régional de la France/ Organization Admiministrative”; terceiro dia: “La re-centralization Indusctrielle/

La Nouvelle Structure Rurale”; quarto dia: “Les cinq phases de l’Aménagement de l’Espace/ Comment faire renaître Le Quartier?”. 29 Verifica-se que os temas tratados nas conferências em São Paulo constam em parte do ciclo efetivado em Santiago. Considerando-se ainda as notícias constantes dos jornais das demais cidades por onde Bardet passou no ano de 1948, pode-se dizer que foram esses os temas expostos nas conferências feitas nas cidades da América do Sul, embora de cidade para cidade a

amplitude temática tenha sido reduzida ou adequada.

Bardet deu entrevista a jornais de São Paulo, momento em que discorreu sobre os problemas mais candentes da cidade por ele percebidos, quais sejam: a saturação viária do centro e a verticalização dos imóveis. 30 Assim, ele criticou o sistema de urbanização adotado, por não ter uma regulamentação da altura dos imóveis, o que faz surgir uma paisagem sem uma estética harmoniosa e acarreta o congestionamento do trânsito na cidade. Estimou, em 10 anos, que o centro de São Paulo se tornaria totalmente congestionado, afirmando não existir nada mais dispendioso que a congestão urbana, devendo-se os prejuízos ser calculados em vidas humanas, horas de trabalho e perda de energia. 31

Gaston Bardet voltou ao Brasil em 1953, junto com sua assistente D. Thérèse Moutonnier. Nesse segundo momento, ele foi contratado pela Escola de Arquitetura da Universidade de Minas Gerais, a convite do diretor Professor Aníbal Matos, e por sugestão do professor e advogado José Geraldo Faria, 32 para lecionar um curso intensivo de urbanismo de quatro meses de duração. 33 Na Revista Arquitetura e Engenharia do Instituto de Arquitetos do Brasil, sessão de Minas Gerais, de 1951, consta um artigo do José Geraldo Faria intitulado “O Moderno Urbanismo”, no qual cita Bardet dentre outros urbanistas para enunciar a hiperconcentração demográfica existente então nas cidades, decorrente do desenvolvimento tecnológico das máquinas industrializadas. Em diversas passagens, tem- se a apresentação de argumentos convergentes com as ideias de Bardet. Ao afirmar que o

urbanismo moderno é “ao mesmo tempo ciência e arte (…) supõe uma sólida cultura científica e filosófica”, tais aproximações tornam-se mais explícitas. 34

Na aula inaugural, Gaston Bardet expôs seu pensamento em relação à arquitetura modernista e, especificamente, essa existente no Brasil. Ele afirmou não ver o que há de especificamente brasileiro nas construções como a do Ministério da Educação (MEC) no

28 Revue Synthesès, n. 3, pp 298 — 307. In Fond Gaston Bardet, Caixa 09.

29 In Fond Gaston Bardet, Caixa 10/1.

30 Jornal Diário de São Paulo de 20 de agosto de 1948. In Fond Gaston Bardet, Caixa 10/1.

31 Jornal Diário de São Paulo. In Fond Gaston Bardet, Caixa 10/1.

32 Depoimento dado pelo professor e arquiteto Radamés Teixeira, formado em 1949, à bolsista de pós-doutorado sob a supervisão da prof. Virgínia Pontual, Cecília Ribeiro, ocorrida em 3/5/2013, em Belo Horizonte.

33 Tribuna de Minas, em 19 de março de 1953. In Fond Gaston Bardet, Caixa 10/1.

34 Revista Arquitetura e Engenharia do Instituto de Arquitetos do Brasil, sessão de Minas Gerais, Belo Horizonte, out- dez, 1951, ano III, p. 73 e 75. Os membros do Conselho Diretor eram: Eduardo Mendes Guimarães, Silvio Vasconcelos,

Raphael Hardy Filho, Shackespeare Gomes, Luiz Pinto Coelho, Rafaelo Berti e Tarcisio Silva. Parte significativa dos que faziam esta revista no Brasil era filiada a vertente de arquitetura modernistas.

Rio de Janeiro, pois era uma arquitetura ao estilo internacional. 35 A posição crítica em relação à arquitetura brasileira, com palavras ásperas ao MEC e a Le Corbusier, provocou uma reação em parte dos professores e alunos do curso. Retiraram-se em atitude de protesto os arquitetos: Eduardo Guimarães Junior, Paulo Campos Cristo e Silvio Vasconcelos, este último pertencente aos quadros intelectuais do Serviço do Patrimônio Histórico Artístico e Nacional em Minas Gerais e adepto da arquitetura modernista. Por outro lado, cabe dizer que os professores Aníbal Matos e José Geraldo de Farias mantiveram o apoio a Bardet.

Posteriormente, Bardet concedeu entrevista ao Jornal Estado de Minas, momento em que retomou as criticas à adoção no Brasil da arquitetura modernista e a Le Corbusier, com quem ele já tinha estabelecido divergências ainda na França, chamando-o de um “copiador vulgar sem mérito”. 36

Apesar das reações e tentativas de suspensão do contrato de Bardet por parte de alguns professores da Escola de Arquitetura da Universidade de Minas Gerais, o curso foi concluído. A solenidade de conclusão foi divulgada mediante convite impresso, no qual consta que o curso foi assistido por “professores, alunos, arquitetos e urbanistas”, indicando que, além do corpo docente e discente dessa instituição, profissionais também estavam presentes. Na matéria do Jornal Estado de Minas, consta que naquele momento,

discursou o professor Benedito Quintino dos Santos, 37 porém na Revista da Escola de Arquitetura consta a publicação do discurso do professor Francisco de Assis Brandão. É provável que pelo menos dois discursos tenham sido proferidos, o do prof. Santos, representando a instituição, e o do professor Brandão, em nome daqueles que concluíram o curso, dado que o mesmo foi um deles, como pode ser verificado na lista de nomes daqueles que receberam o certificado: Aluisio Barbosa de Oliveira, Edmund Bezerril Fontenelle, Danilo Ambrosio, Francisco de Assis Brandão, José Geraldo Faria, Luciano Jorge Passini, Palládio Barroso Castro e Silva, Roger Telliére, Newton dos Santos Viana, Ramiro da Silva Pinto, Valter Machado, Wilson Ferreira dos Santos, Benjamim Teodoro

Soares Filho, Eliseu Massote, Eurípedes Santos. 38

O discurso do professor Brandão demonstra não só os agradecimentos protocolares a Bardet, destacando as diversas noções tratadas no curso, como cidade enquanto organismo por relacionar a dimensão social com a espiritual, escalas urbanas e planos de cidades articulados a planos regionais; mas a posição que ocupava a Escola frente a outras brasileiras, por trazer intelectuais, notadamente o Bardet, o que possibilitava consolidar um ensino, como mostram as suas palavras:

Sabeis que a Escola de Arquitetura se tornou a vanguardeira no Brasil do estudo sistematizado do Urbanismo, por meio do Curso que vem fazendo funcionar faz já quatro meses. (…) Ficai sabendo

35 O atual Edifício Gustavo Capanema ou Palácio Capanema. O edifício é considerado um marco da Arquitetura Modernista no Brasil, tendo sido projetado por uma equipe composta por Lucio Costa, Carlos Leão, Oscar Niemeyer, Affonso Eduardo Reidy, Ernani Vasconcelos e Jorge Machado Moreira, com a consultoria do arquiteto franco-suíço Le Corbusier. Foi construído em um momento durante o qual o Estado intentava passar uma sensação de modernidade ao país, o que se refletiu tanto no projeto do edifício quanto no contexto histórico em que se insere. A construção foi iniciada em 1936 e o edifício começou a funcionar em 1947.

36 Jornal Estado de Minas de 20 de março de 1953. Fond Gaston Bardet, Caixa 10.

37 Além de professor da Universidade de Minas Gerais o Benedito Quintino dos Santos era engenheiro, geógrafo e membro do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais.

38 A relação dos concluintes consta no Jornal O Diário, de 1 de julho de 1953, Fond Gaston Bardet, Caixa 10.

daí que as vantagens advindas então a nós, estudiosos do assunto, são enormes e indiscutíveis . 39

Os dois momentos das estadas de Bardet no Brasil indicam que contextos intelectuais distintos conduziram às posições de recepção ou rejeição à obra e à própria pessoa de Bardet. No entanto, considerando-se a rejeição e o contexto intelectual dos anos 1950, favoráveis a ideias e práticas culturais e arquitetônicas modernistas, o fato de na atualidade serem encontradas diversas obras de Bardet na biblioteca da Escola de Arquitetura já é um indício de que suas ideias circularam e se mantiveram. 40

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39 Revista da Escola de Arquitetura. Belo Horizonte: Edições Arquitetura, 1º semestre de 1956. Nesse número consta como integrantes da Comissão de Redação: Anibal Mattos, Antônio Carlos Ribeiro de Andrada Sobrinho, Alberto Mazoni de Andrade, Silvio Vasconcelos e José Geraldo de Farias.

40 Livros de Bardet que constam do acervo da Biblioteca Escola de Arquitetura da UFMG — Demain, ces’t l’na 2000!

(1952), L’urbanisme (1963), Mission de l’urbanisme (1949), Naissance et meconnaissance de l’urbanisme (1951), Le nouvel urbanisme (1948), Pierre sur pierre: construction du nouvel urbanisme (1945), Problems d’urbanisme (1948), Les sources du grand art: l’homme, la femme et le sacre (1952).

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Como Citar

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