Forma, Imagem e História na classificação tipológica da área do Castelo, na cidade do Rio de Janeiro

Eixo Temático: 

Resumo

Considerando o espaço urbano como sendo composto por diferentes elementos que permitem ser agrupados de acordo com suas similaridades e/ou diferenças, ao transpor essa noção para o estudo das edificações e de suas características físicas, tais agrupamentos podem ser relacionados ao termo tipo. Gianfranco Caniggia (1979/1995) define o tipo na arquitetura tanto como uma pré-projeção de um edifício ainda a ser realizado, quanto como uma síntese das características físicas comuns a objetos arquitetônicos já existentes. Este artigo foca-se na dualidade presente no tipo, apresentando um método de classificação tipológica para edificações que incorpora a análise da forma, imagem e história destas arquiteturas, tendo como suporte os conceitos extraídos de autores que trabalham com a decodificação do espaço urbano, tal como Lamas (1993/2010), Lynch (1972), Cullen (1961/2008) e Kostof (1991/1993). A metodologia propõe a criação de um inventário tipológico que apresenta uma versão sintética das características dos edifícios analisados, resultante do processo de decodificação da forma urbana, e que pode vir a ser apropriado no estabelecimento de diretrizes para inserções arquitetônicas contextuais ao seu entorno. A área do Castelo, no Centro da Cidade do Rio de Janeiro, foi escolhida como estudo de caso para a demonstração da metodologia proposta. Primitivo núcleo de ocupação do centro histórico da cidade, o antigo Morro do Castelo foi demolido na década de 1920 criando um amplo vazio urbano, logo contemplado com as remodelações urbanas propostas pelo urbanista francês Alfred Agache (1930). A ocupação do Castelo nas décadas subsequentes resultou numa forma urbana de característica padronização tipológica em suas composições arquitetônicas.

 

Abstract

Considering urban space as a composition of different elements that can be separated into groupings based on their similarities and/or differences, when focusing this analysis on the study of architectural buildings and their physical attributes, these groupings may be associated with the term type. Gianfranco Caniggia (1979/1995) establishes type in architecture as both a pre-projection of a building yet to be designed, and as synthesis of the physical attributes common to buildings already constructed. This paper focuses on this duality of type, presenting a method for typological classification of architectural buildings that incorporates the analysis of said objects form, image and history, supported by concepts extracted from authors whose works focus on urban decoding, such as Lamas (1993/2010), Lynch (1972), Cullen (1961/2008) and Kostof (1991/1993). The attempt of this method is to create a typological inventory that presents a summarized version of the physical characteristics of the analyzed buildings, that is not only the result of the understanding and decoding of urban form, but could also be used to establish directives for architectural insertions that are contextual to their surroundings. The paper presents Castelo, an area in Downtown City of Rio de Janeiro, as case study for this proposed method of typological analysis. Once the original core of occupation of the city’s historic center, the Castelo Hill (Morro do Castelo) was eagerly demolished in the 1920’s, creating an ample urban void soon to be target of the remodeling proposals of French urban designer Alfred Agache (1930). The occupation of Castelo in the following decades resulted in an urban form with a distinct typological pattern in its architectural compositions.

 

Introdução

Para Alan Colquhoun, um dos sentidos do termo espaço urbano é o do “espaço construído propriamente dito”. Característico dos arquitetos, este sentido aborda a “sua morfologia, o modo como afeta nossas percepções, a maneira como é utilizado e os significados que pode evocar”. (COLQUHOUN, 2004, p. 209). Ele é a conjugação de uma variada gama de peças componentes, podendo ser relacionadas entre si através de agrupamentos, definidos de acordo com aspectos de similaridade ou disparidade em suas características físicas. Neste trabalho, tais agrupamentos serão relacionados com o termo tipo.

O estudo do tipo no espaço urbano tem importância no debate do urbanismo desde meados do século XX, com a reconstrução das cidades afetadas pela Segunda Guerra Mundial. Arquitetos italianos deste período encontraram nas formas urbanas históricas, um rico vocabulário para as criações futuras, com inspirações para produção de uma arquitetura contextualizada ao seu entorno. Autores como Aldo Rossi e Gianfranco Caniggia, abordam estes ideais em suas obras, e os relacionam ao tipo. Rossi (1966/2001) retoma esse termo desenvolvido por Quatremère de Quincy em 1832, afirmando que “o tipo é a própria ideia da arquitetura”, e aquilo que mais se aproxima da sua essência. Ele é uma constante que se apresenta com características de necessidade reagindo com “as funções, com o estilo, com o caráter coletivo, e o momento individual do fato arquitetônico.” (ROSSI, 2001, p. 27) A esta constante transformação do tipo, Caniggia (1979/1995) dá o nome de processo tipológico, e aponta que o tipo é tanto uma projeção quanto um produto.

O estudo do tipo neste trabalho procura equilibrar esse seu duplo caráter. Na perspectiva da análise da estrutura urbana já existente ele é resultado do processo de identificação e classificação das formas encontradas na cidade, portanto, de extrema relevância na decodificação do espaço urbano. E as categorizações resultantes são, por outro lado, um inventário de formas para produção arquitetônica e síntese do conjunto de características que podem vir a ser inseridas contextualmente à ambiência urbana do entorno.

Propõe-se a criação de um método de classificação tipológica das edificações, com apoio de obras elaboradas por autores que trabalham com a temática da análise urbana. O método idealizado incorpora três frentes de análise do espaço urbano — a forma, a imagem e a história - a fim de resultar em diferentes classificações tipológicas.

Questões referentes à forma, vão se relacionar com os lotes urbanos das edificações, e as volumetrias resultantes da ocupação destas. A obra de Caniggia (1979/1995) se insere nesta perspectiva como base desse critério de classificação, sendo o único autor que trabalha explicitamente com tipologias, identificando as existentes na cidade através da análise cartográfica. A obra de José Ressano Garcia Lamas (1993/2010) enquadra-se neste estudo com uma abordagem focada na produção de um inventário

dos elementos morfológicos que compõem a cidade. Sua proposta em reconhecê-los através da análise em escalas diferenciadas foi adotada no método idealizado.

A respeito da imagem serão abordados elementos referentes à estética da edificação, como a linguagem arquitetônica e características construtivas. Associando-se questões de percepção destas em meio à paisagem urbana, adotam-se conceitos de Kevin Lynch (1972), e Gordon Cullen (1961/2008).

O elemento da história demonstra-se essencial para a produção do método que busca a compreensão da morfologia urbana. Assumindo que o espaço construído é resultado das ações do homem no suporte físico, cada edificação produzida é reflexo de determinados períodos históricos. As classificações tipológicas desenvolvidas, portanto, precisam ser contextualizadas com seu momento de produção. Para este critério de análise, adotou-se a obra de Spiro Kostof (1991/1993).

Este trabalho não se limita a produzir esta metodologia. Um dos objetivos nesta investigação é demonstrar sua aplicação em um objeto concreto. Para tal, o Centro da Cidade do Rio de Janeiro foi escolhido como estudo de caso, focando a área do Castelo (Fig. 01). Para Philippe Panerai (1999/2006, p. 12), “conhecer a forma das cidades e reconstituir sua história é também orientar uma maneira de projetar”. Portanto, o inventário tem como perspectiva servir como um vocabulário arquitetônico que permita estabelecer diretrizes de produção de novas arquiteturas contextualizadas ao entorno, visando preservar a integridade do conjunto edificado, ao minimizar os contrastes de efeito negativo na paisagem urbana.

Figura 1. Castelo. Fonte: ZALIS, 2005.

Conceitos Primordiais e Metodologia Proposta

Antes de explicitar os critérios do método proposto, é necessário conceituar o elemento escolhido para ser o produto da decodificação da cidade: o tipo. O emprego do termo tipo no estudo arquitetônico remonta à Quatremére de Quincy. Em sua publicação “Dictionnaire historique d’architecture”, de 1832, o termo é definido, e diferenciado da palavra ‘modelo’.

(…) a palavra tipo apresenta menos a imagem de uma coisa a copiar ou imitar por completo que a ideia de um elemento que devia ele mesmo servir de regra ao modelo. (…) O modelo, considerado na execução prática da arte, é um objeto que deve se repetir tal qual é, o tipo, ao contrário é um objeto a partir do qual cada um pode conceber obras que não se assemelham

entre si. Tudo é preciso e dado no modelo; tudo é mais ou menos vago no tipo. (QUATREMÈRE DE QUINCY apud PEREIRA, 2008. p. 303-305)

Quatremère de Quincy também estabelece que o tipo designa “certas formas gerais e características do edifício que as recebe”. (Ibidem, p. 309). Pode-se considerar o tipo arquitetônico como um padrão composto por uma série de elementos passíveis de identificação. Rafael Moneo aborda essa noção do termo:

[o tipo] pode ser simplesmente definido como um conceito que descreve um grupo de objeto caracterizados pela mesma estrutura formal. […] baseado na possibilidade de agrupar objetos através de certas similaridades em suas estruturas inerentes. Poder-se-ia dizer, inclusive, que o tipo significa o ato de pensar em grupo (MONEO, 1978, p. 23)

Panerai (1999/2006, p. 127) sintetiza esses conceitos, declarando que o tipo é “um objeto abstrato”, fruto de análises que identificam as “propriedades essenciais” de “objetos reais”, através de uma econômica descrição.

Caniggia (1979/1995) estabelece o duplo caráter do tipo. Usando como referência a edificação, o tipo é uma pré-projeção do objeto arquitetônico a ser construído e, portanto, anterior ao objeto físico realizado. Contudo, ele é assimilado pelo homem através de uma síntese posterior, na qual se relacionam as características em comum dos objetos já realizados. O tipo é fruto tanto de uma síntese a priori, na mente de quem o produz, quanto de uma síntese a posteriori, na mente de quem o analisa.

Com o apoio das abordagens analisadas, podem-se estabelecer os conceitos fundamentais para a elaboração da proposta deste trabalho. Entre essas abordagens, consegue-se traçar paralelos entre os autores estudados, reconhecendo que embora seus métodos produzam decodificações variadas do espaço urbano, seus conceitos possuem pontos em comum.

Partindo do conceito de cidade definido por Kostof, em “The City Shaped”, da qual está é o local onde estão “condensadas as continuidades do tempo e do lugar” (KOSTOF, 1991/1993, p. 16), o espaço urbano pode ser tido como um produto em constante transformação, resultado da superposição de tecidos urbanos constituídos ao longo dos anos, representante de vários tempos. Em “What Time is This Place?” (1972), Lynch trabalha com essa noção, da cidade de vários tempos, na qual a imagem do espaço urbano é fruto da seleção dos elementos que o compõem, sendo estes originários de distintos momentos em sua produção, sempre sujeitos a modificações.

Essa noção temporal do espaço urbano também foi apresentada por Caniggia, em “Lettura dell’edilizia di base” (1979/1995). As “continuidades do tempo e do lugar” apresentadas por Kostof são verificadas no que Caniggia chama de processo tipológico, onde variadas composições do espaço urbano fazem parte de um mesmo tronco, e são representantes de diferentes momentos de um único continuum. Contudo, essa afirmação não ignora que além das continuidades, o espaço urbano também apresente rupturas, produzindo fragmentos urbanos.

Para abordar os fragmentos urbanos, recorre-se novamente a Kostof, com sua

afirmação que as cidades são “amálgamas de construções” (KOSTOF, 1991/1993, p. 16). Cullen também se apropria dessa noção ao desenvolver o aspecto do conteúdo da paisagem urbana, no qual ele indica que “é natural que [as cidades] evidenciem uma amálgama de materiais, de estilos e de escalas” (CULLEN, 1961/2008, p. 13). Compreender a forma das cidades é, portanto, indissociável de reconhecer as conjugações do espaço urbano. Não basta uma simples identificação das peças que a constituem, mas sim o estudo das suas distintas associações, ou uma de “arte do relacionamento” (Ibidem, p. 10).

Esse processo de identificação foi também verificado na obra de Lamas (1993/2010), na qual os elementos morfológicos que compõem o espaço urbano produzem distintas conjugações, em escalas variadas. Trabalhando com a concepção da cidade composta por fragmentos, tem que se reconhecer que as dimensões de análise de cada uma das suas componentes não são uniformes. A questão da transição entre escalas do espaço urbano é essencial para o sucesso do método proposto.

Nesta metodologia, o edifício não é nem o elemento máximo da análise, nem o mínimo. A edificação será o elemento básico. A análise transita constantemente entre as escalas, abordando tanto elementos ditos como “arquitetônicos”, como ritmo de vãos e linguagem estética, quanto “urbanos”, como a volumetria da edificação e sua relação com o entorno. Uma vez que a proposta tem como objetivo decodificar a forma urbana como um método de compreender a sua composição, é preciso, antes de focar os elementos codificados, reconhecer por completo o universo de análise. Essa compreensão inicial do objeto de estudo é fundamental para a aplicação metodológica, permitindo que as categorizações resultantes sejam diretamente influenciadas por um contexto geral.

Para realizar essa compreensão do universo estudado é necessário apoiar-se em três bases de conhecimento: cartografia, iconografia e contexto social. Contudo, esta não pode se limitar a uma análise que só reconhece o momento presente, pois a compreensão da forma urbana é um estudo morfológico, que recuperando os conceitos de Lamas, trabalha com “a produção e transformação [do meio urbano através] do tempo”. (LAMAS, 1993/2010, p. 10) . É preciso considerar não só a questão da cidade como uma composição de fragmentos físicos, como também de fragmentos temporais. Reafirmando a sua leitura através das três componentes de conjugação do espaço urbano - a forma, a imagem e a história, a cada uma destas pode ser atribuída uma base de conhecimento de maior afinidade.

A leitura através dessas três componentes, com uma abordagem tanto físico-espacial quanto temporal, promove uma compreensão da forma urbana através da análise da situação física dos elementos presentes na cidade. Esta se associa aos processos de urbanização para explicitar sua transformação, indicando quais foram os motivos que levaram à sua configuração atual.

Essa análise estruturada nas três componentes resulta, em três grupos de classificações tipológicas. Novamente trabalha-se com a transição das escalas, não mais de caráter físico, mas sim analítico. O conceito definido por Caniggia como nível de tipicidade entra em cena na criação dos tipos presentes no universo analisado. O nível de tipicidade é tido como o grau de intensidade com que se investigam as estruturas tipológicas a partir de um aprofundamento progressivo. O objetivo nesse processo de decodificação é atingir um nível de tipicidade adequado em relação ao objeto de

estudo.

As classificações tipológicas geradas pelas análises de cada componente não serão as mesmas do inventário final, sendo estas elaboradas em três etapas. Previamente às classificações tipológicas serão realizados os agrupamentos tipológicos, que reúnem em grupos as edificações através de critérios isolados na análise. Para Panerai, essa é “uma fase de observação minuciosa dos objetos”, e somente a partir das “respostas a esses diferentes critérios” é possível elaborar uma “primeira classificação”. (PANERAI, 1999/2006, p. 132).

Os agrupamentos tipológicos constituem essas respostas aos critérios, enquanto as categorias tipológicas produzidas ao fim da análise em cada componente (forma, imagem e história) enquadram-se nesta “primeira classificação”. Dentre os critérios analisados na componente da forma, estão: as dimensões e formatos dos lotes no qual se inserem as edificações, a implantação dos edifícios nos lotes, e a volumetria dos objetos arquitetônicos. Na componente da imagem, os critérios investigados foram: a relação entre o edifício e conjunto edificado em seu entorno, o ritmo predominante dos vãos, e a linguagem estético-arquitetônica empregada nas fachadas. Os últimos critérios, da componente da história, englobam a identificação do momento de produção dos edifícios, e do tecido urbano no qual se inserem. A última etapa na elaboração dos tipos é a conjugação das classificações das três componentes, buscando um reagrupamento a partir da exclusão de características tipológicas que possam se apresentar como irrelevantes ao contexto geral.

Castelo: Breve Histórico

Como etapa prévia ao processo de classificação tipológica, propõe-se o reconhecimento do entorno da área analisada. O Morro do Castelo (Fig. 2), cuja demolição teve início na gestão do prefeito Carlos Sampaio, fora um dos núcleos originais de assentamento da Cidade do Rio de Janeiro, cuja ocupação remonta ao ano de 1567. No início do século XX, o Castelo era composto por um casario mal conservado, habitado por classes sociais de baixa renda, e representava uma memória colonial em meio à capital republicana embelezada pela Reforma Passos (1902-1906).

Figura 2. Morro do Castelo, 1920. Fonte: NONATO & SANTOS, 2000.

A Exposição Internacional do Centenário da Independência, realizada em 1922, impulsionou o desmonte do Castelo. Com o pretexto da necessidade de terras para abrigar os pavilhões da exposição, foram iniciadas, em 1920, as obras de demolição do morro, juntamente com o contíguo bairro da Misericórdia. O desmonte gerou dois

grandes vazios urbanos no Centro da Cidade: a área do antigo Morro, e o aterro construído com as terras provenientes da demolição.

Estes vazios foram contemplados pelo Plano de Remodelação, Extensão e Embelezamento da Cidade do Rio de Janeiro, elaborado pelo urbanista francês Alfred Agache, entre 1927 e 1930. Agache dá grande destaque em seu plano para o desenho proposto para a recém-criada Esplanada do Castelo (Fig. 3), e seu aterro contíguo. A proposta ocupacional dos terrenos seguia o modelo das quadras fechadas, no qual as edificações compunham uma contínua cortina de fachadas em volta de todo o quarteirão, com linha de fachada equivalente a oito pavimento. O miolo destas quadras seriam áreas não edificadas, destinadas ao uso de garagens. Outro ponto característico dessa ocupação é a presença das galerias de pedestres, ao longo das grandes avenidas projetadas por Agache.

Figura 3. Perspectiva do Plano Agache. Fonte: AGACHE, 1930.

Embora suas propostas tenham guiado a ocupação desta área da cidade em fins da década de 1920, o plano foi revogado em 1931, em decorrência da Revolução de 1930, contribuindo na permanência de uma Esplanada praticamente deserta em 1936, exceto pelo seu arruamento, conforme verificado em imagens da época. (Fig. 4) Em 1937, na interventoria de Henrique Dodsworth cria-se a Comissão do Plano da Cidade e o Serviço Técnico do Plano da Cidade, que revisou, com adaptações, propostas do Plano Agache, retomando a ocupação do Castelo.

No trecho da Esplanada contido na área do antigo Morro, consolidou-se a ocupação das quadras fechadas de Agache. Este modelo, contudo, entraria em choque com os ideais modernistas defendidos por alguns dos arquitetos atuantes na cidade, como vistos no projeto do Palácio Gustavo Capanema, que incorpora os cinco pontos da nova arquitetura propostos por Le Corbusier. Além das questões plásticas, a ruptura com o modelo de Agache se dá principalmente com sua implantação. Situado em meio à Esplanada, o Palácio Capanema dispõe-se livremente no interior de sua quadra, em oposição às cortinas de fachadas da rua-corredor.

Figura 4. Esplanada do Castelo, 1936. Fonte: www.ermakoff.com.br.

Em 1938, Affonso Eduardo Reidy, que integrava o corpo de profissionais do Serviço Técnico da Cidade, propõe uma nova urbanização para o vazio remanescente, imbuído dos ideais modernistas que guiaram o projeto do Palácio Capanema. Como crítica ao modelo das quadras fechadas, propôs grandes quadras abertas ajardinadas, com edifícios interconectados implantados em diferentes disposições. (Fig. 5) O plano, porém, previa consolidar a estrutura das quadras já parcialmente ocupadas pelos moldes “agachianos”, propondo a mudança de implantação apenas nas áreas ainda não urbanizadas da Esplanada.

Figura 5. Plano de Reidy. Fonte: BONDUKI, 2000.

O Plano de Reidy não foi concretizado, mas influenciou a ocupação do restante não edificado da Esplanada, verificada no PAA nº 3085 de 1938, que consolidou as quadras de Agache, no trecho referente ao vazio do antigo Morro do Castelo. Partes da Esplanada permaneceram vazias até a última década, sendo ocupada pelos escuros blocos envidraçados do Complexo Judiciário do Rio de Janeiro.

Decodificando o Castelo

Para demonstrar a aplicação do método proposto, foi realizada uma seleção das edificações existentes no Castelo, num total de 29 exemplares (Fig. 6 e 7), sendo esta uma amostra representativa da forma urbana de caráter padronizado produzida no vazio do antigo morro. Será apresentada a seguir, uma versão sintética do processo de análise.

Figura 6. Mapa de Edificações Selecionadas.

Figura 7. Maquete Eletrônica das Edificações Selecionadas.

Iniciando a aplicação com a análise da forma das edificações, foram estudados os lotes urbanos nos quais estas se inserem. Para Lamas (1993/2010), o lote é a origem do edifício, essencial na relação do imóvel com o terreno, condicionante da sua forma e, por conseguinte, do espaço urbano. No caso do Castelo, grande parte de seus lotes e edificações são integrantes de um mesmo projeto urbanístico. Os vazios não edificados dos quarteirões não configuravam áreas non aedificandi de lotes, e sim pátios internos comuns a todos os edifícios que o compõem.

A próxima etapa na análise da forma das edificações está em sua implantação nos lotes urbanos. Todas as edificações apresentam uma característica em comum nesse critério: a projeção destes não apresenta afastamento lateral ou frontal. Contudo, verifica-se em alguns a presença das galerias de pedestres através de recuos nos primeiros sete metros da construção, conformando uma contínua faixa de passeio coberta em seletas vias da área.

O último critério desta componente é a análise volumétrica das edificações. Realizada sem dissocia-la do seu conjunto, e volume aparente é o elemento a ser caracterizado. No Castelo, onde é evidente uma padronização volumétrica, facilmente reconhece-se uma massa de dimensões medianas, com edifícios com ampla testada para a rua, com volume aparente em formato de bloco.

Estes três critérios analisados foram condensados, e produziram as classificações Tipo-Forma (Fig. 8 e 9), na qual se destacam o Tipo-Forma 1, representativo das edificações com uma única ampla testada para a rua, e Tipo-Forma 3, variante com presença das galerias de pedestres. O Edifício do Jockey Club Brasileiro apresenta-se como Tipo-Forma 9, isolado, ocupando um quarteirão inteiro da área estudado, contudo integrando-se ao entorno através da presença de galerias de pedestres.

Figura 8. Mapa de Tipo-Forma.

Figura 9. Maquete Eletrônica — Tipo-Forma.

O elemento máximo das análises propostas pelo método é o conjunto edificado, e com ele inicia-se a leitura do espaço urbano pela componente da imagem. A análise da relação entre edificações e o conjunto urbano do entorno gerou apenas dois agrupamentos. O primeiro, predominante na área, é o das edificações que compõem a massa volumétrica homogênea do Castelo. O segundo grupo é reservado para as edificações em contraste à ambiência volumétrica geral, caso do pequeno imóvel de nº 158 da Rua México e da esbelta Torre Almirante.

Na análise do Castelo, com sua massa edificada homogênea, a harmonia das dimensões dos vãos das edificações e o ritmo de seus intervalos, ganha relevância na garantia de preservar uma unidade temática, sendo o segundo critério analisado desta componente.

O estudo da linguagem arquitetônica das fachadas que evidencia questões estéticas e construtivas é o último critério analisado da componente. O agrupamento mais representativo da área é composto por modernas edificações de linguagem simplificada, com um limpo pano de fachada, recortado por simples sequências de janelas. A linguagem acadêmica (edifício nº 158 da Rua México), a arquitetura moderna (Jockey Club Brasileiro), e pano contínuo envidraçado (Torre Almirante) também são encontrados, embora em menor incidência.

Estes três critérios produziram as classificações Tipo-Imagem (Fig. 10 e 11), na qual se destaca o Tipo-Imagem 1. Ele engloba todas as edificações que compõem a massa edificada homogênea do Castelo, com uma fachada revestida por pano sequencial de janelas sem ornamentações e ritmo predominante vertical. O Tipo-Imagem 2, segue as mesmas características, exceto pela presença de um ritmo horizontalizado.

Figura 10. Mapa de Tipo-Imagem.

Figura 11. Maquete Eletrônica — Tipo-Imagem.

A última componente de análise do espaço urbano, a história, tem grande peso na decodificação da forma das cidades. Foram associados os momentos de produção de cada edifício com os momentos de produção do tecido urbano que os suportam, gerando as classificações Tipo-História (Fig. 12 e 13). O Tipo-História 3 é o de maior representatividade, referente às edificações construídas entre os anos de 1937 e 1950, no tecido urbano resultante das revisões das propostas do Plano Agache.

Figura 12. Mapa de Tipo-História.

Figura 13. Maquete Eletrônica — Tipo-História.

A aplicação do método se encerra com a produção do inventário tipológico (Fig. 14) que articula as três componentes de leitura do espaço urbano — forma, imagem e história. No caso do Castelo, as leituras empreendidas verificaram que suas edificações guardam inúmeras semelhanças, e os elementos que os diferenciam apresentam-se como variantes desse grupo de similaridades Logo, os conceitos de Caniggia (1979/1995) acerca de troncos tipológicos, nos quais tipos derivados compõem uma família de variantes a partir de um grupo em comum, parecem ser pertinentes à aplicação deste inventário. O critério arbitrado para definir estes troncos foi a relação da edificação com o conjunto edificado, permitindo que as variantes tipológicas sejam obtidas a partir de uma leitura generalizada, que se ramifica a partir da análise de particularidades. Com base nesse critério, foram estabelecidos três troncos tipológicos: A, B e C.

Figura 14. Mapa de Inventário Tipológico.

O primeiro tronco tipológico vai representar um tipo isolado - o tipo A (Fig. 15). Seu exemplar é o edifício de nº 158 da Rua México. Este é o único da década de 1920, contemporâneo à produção do Plano Agache.

Figura 15. Tipo A.

O tronco B é o grande representante tipológico da área e da massa volumétrica homogênea, com 10 tipos. O tipo B.1 (Fig. 16) é o caso com pano sequencial de janelas em ritmo verticalizado, sem presença de galerias de pedestres, com produção correspondente às décadas de 1930 e 1940.

Figura 16. Tipo B.1.

O tipo B.2 (Fig. 17) é sua variante com ritmo horizontal. O tipo B.3 (Fig. 18) é uma variante de ritmo horizontal que incorpora elementos acadêmicos à fachada. O tipo

B.4 engloba aqueles edifícios que apresentam linguagem característica moderna, enquanto o B.5 tem fachada em pano de vidro. (Fig. 19) O tipo B.6 é similar ao B.1, contudo apresenta galerias de pedestres, tal como o B.7 (Fig. 20), que possui um ritmo mais horizontalizado.

Figura 17. Tipo B.2.

Figura 18. Tipo B.3.

Figura 19. Tipos B.4, B.5 e B.6.

Figura 20. Tipo B.7.

Finalizando o tronco B, encontram-se três tipos isolados com galerias de pedestres: O tipo B.8 com elementos acadêmicos, o B.9 com elementos característicos da linguagem moderna, e o B.10 representando o robusto bloco equivalente a um quarteirão da Sede do Jockey Club Brasileiro. O tronco C é o caso da Torre Almirante, que se destaca na paisagem pela sua altura e seu revestimento em pano de vidro. (Fig. 21 e 22)

Figura 21. Tipo B.8 e Tipo B.9.

Figura 22. Tipo B.10 e Tipo C.

Considerações finais

O estudo de diferentes abordagens de análise urbana confirma que não existe um método definitivamente correto, e sim inúmeras possibilidades de empreender uma leitura do espaço construído. O método funcionou como uma guia de questionamentos, buscando uma transição entre escalas, e um contínuo processo de análise e síntese das informações. A aplicação do método comprovou as impressões acerca da área, com a predominância de tipos no tronco B confirmando uma padronização tipológica no Castelo. Com relação ao inventário tipológico, ele pode auxiliar na inserção de novas arquiteturas contextualizadas, pois é síntese das características que conferem identidade à área analisada. Essa inserção é possível sem pastiche, como visto no Jockey Club Brasileiro, implantado no Castelo meio século após o Plano Agache, com arquitetura contemporânea ao seu momento de produção, e ao mesmo tempo estabelecendo um diálogo com a ocupação à moda *“*agachiana”.

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Como Citar

Guilherme Meirelles . Forma, Imagem e História na classificação tipológica da área do Castelo, na cidade do Rio de Janeiro. In: PEIXOTO, Elane Ribeiro; DERNTL, Maria Fernanda; PALAZZO, Pedro Paulo; TREVISAN, Ricardo (Orgs.) Tempos e escalas da cidade e do urbanismo: Anais do XIII Seminário de História da Cidade e do Urbanismo. Brasília, DF: Universidade Brasília- Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, 2014 . Disponível em: http://www.shcu2014.com.br/content/forma-imagem-e-historia-na-classificacao-tipologica-da-area-do-castelo-na-cidade-do-rio