A Emergência da Questão Social. Diagnóstico e Pesquisa sobre condições de habitação e vida na cidade de São Paulo

Eixo Temático: 

Resumo

As formas de representação da cidade e do urbanismo ganharam novos contornos a partir do ideário da modernidade e da consolidação do capitalismo industrial ao longo do século XIX, que além de ter imposto novas formas de ocupação do território, também culminou com a ascensão de novos atores sociais na cidade grande e moderna. Assim, compreender estes novos atores e os problemas ocasionados na cidade em decorrência deste novo tempo, tornou-se necessário para apoiar as transformações espaciais que se faziam necessárias para garantir o sucesso do projeto capitalista. Neste trabalho, buscamos explicitar o engajamento da cultura técnico profissional frente a emergência da questão social que levou intelectuais, políticos e técnicos a compreender os modos de vida na cidade grande e moderna. Tomando a ascensão do diagnóstico e da pesquisa sobre as condições de habitação e vida das classes trabalhadoras urbanas, discutiremos as ressonâncias deste engajamento técnico profissional na cidade de São Paulo, no Brasil, a partir de trabalhos de diagnóstico realizados pelo médico Cesário Motta Junior, em 1893, pelo geógrafo norte americano Preston James (ao longo da década de 1940) e pelo francês Louis-Joseph Lebret, em 1947.

 

Abstract

In the nineteenth century, the forms of representations of the city and the urbanismo gained new dimensions from the ideas of modernity and consolidation of industrial capitalism. During this period, new forms of industrial job, and land occupation also led the rise of new social actors in modern city. Thus, understanding these new actors and caused problems in the city as a result of this new era, it has become essential to support spatial transformations that were necessary to ensure the success of the capitalist project. We tried to explain the engagement of professional technical culture forward the emergence of the social question that led intellectuals, politicians and technicians understand the ways of life in large modern city . Taking the rise diagnosis and research on housing conditions and lives of urban working class , discuss the resonances of this technical professional engagement in the city of São Paulo, in the Brazil, from diagnostic work conducted by the Doctor Cesario Motta Junior , in 1893 , by North American geographer James Preston ( throughout the 1940s ) and the Louis Joseph Lebret , in 1947.

 

Revelando as faces do urbano: as pesquisas sociais em busca da compreensão dos problemas da cidade grande e moderna

A ascensão do modelo de cidade instituído ao longo do século XIX a partir da adesão ao ideário de modernidade e do capitalismo industrial, fez com que alguns estudiosos, políticos e literatos identificassem este momento como do surgimento da cidade grande e moderna. Assim, a cidade que anteriormente se destacava como o lugar da troca de mercadorias, a sede do poder aristocrático, do clero e das manifestações artísticas e intelectuais, transformou-se durante o século XIX, passando a comportar também a sede da produção econômica e consequentemente do trabalho, sob o modelo do capitalismo industrial. E, com o advento da industrialização, a nova paisagem urbana construída ao longo do século XIX, suscitava dúvidas, angústias e questionamentos. Pois, ao mesmo tempo em que o discurso dominante enaltecia a capacidade criadora do homem, e a dominação da natureza através da mecanização da produção, a multidão de trabalhadores e homens comuns, trazia para a cidade grande e moderna o horror e as incertezas sobre os tempos modernos.

A partir deste cenário de transformação e da inserção da cidade como lugar da produção econômica industrial e da presença de novos atores como protagonistas e usuários do espaço urbano, alguns trabalhos se destacaram, como de Carlyle (1929), Chadwich (1842), Engels (1845), Hardy (1879), Le Play (1855), Smith (1857), entre outros autores, que se deparavam com o que classificavam de ineditismo do conflito. O que percebe-se é que estes autores enxergaram na cidade um rico campo analítico para as pesquisas sociais. Pois, as transformações dos espaços urbanos e do habitat do homem da cidade, ocorreram num movimento que segundo Williams gerava ao mesmo tempo “labirintos e becos para a população pobre” e “dava origem as mansões urbanas, às praças e aos jardins elegantes” (1989: pp. 204). Estas transformações se deram a partir de planos de melhoramentos, intervenções viárias e obras de infraestrutura, que impulsionaram não só o movimento de reformulação do espaço urbano, mas protagonizaram um trabalho de reforma social, impondo um conjunto de regras normatizadoras, sobretudo à classe trabalhadora e aos habitantes mais pobres.

Para se alcançar este objetivo de reforma social, que impunha um comportamento e um estilo de vida ao habitante da cidade grande e moderna, era preciso reconhecer que a cidade do século XIX vivia uma crise urbana, gerada pelo ineditismo do conflito entre os diferentes atores da cidade. Pois, além da cidade ter se tornado sede da atividade econômica industrial, a vinda de trabalhadores da indústria impôs que o espaço urbano fosse dividido entre capitalistas e operários, o que para nós, configura uma das principais mudanças ocorridas no cenário social da cidade, abrindo campo para uma relação de antítese e ascensão do binômio entre riqueza e pobreza, conflito que causava aos antigos moradores da cidade um sentimento de estranhamento.

Este estranhamento dos novos tempos dava-se em parte devido ao próprio projeto de modernização imposto pela matriz de economia capitalista industrial, que fazia com que a população procurasse as cidades, sede da indústria — símbolo do poder econômico do período. E ao mesmo tempo revelava as contradições e relações de antítese presentes no contexto e no cenário da cidade do século XIX. De forma que:

Não era só uma questão de número de habitantes; Pois, tais cidades haviam sido construídas para servir como lugares de trabalho: fisicamente, eram dominadas pelas fábricas e máquinas, os prédios enegrecidos pela fumaça e os rios

enegrecidos pelos despejos industriais ao redor dos lugares de trabalho, de modo que a relação dominante estava sempre presente. (WILLIAMS, 1989, pp. 297).

Para Bresciani as “máquinas, multidões e cidades” formavam o “trinômio do progresso, do fascínio e do medo.” Que causava “o estranhamento do ser humano em meio ao mundo em que vivia, a sensação de ter sua vida organizada em obediência a um imperativo exterior e transcendente a ele mesmo, embora por ele produzido.” (1985, pp. 37).

Com o aumento da população e da produção industrial surgiam também os problemas de falta de espaço e condições adequadas de atendimento, sobretudo da população mais pobre. Assim, as ruas eram tomadas por multidões, formadas pelos novos habitantes da cidade grande e moderna, pouco afeiçoados aos modos e comportamentos por ela exigidos. Esta condição de má adequação aos novos hábitos impunha a existência de um conflito do próprio sistema econômico, causando medo e desconforto àqueles que imaginavam deter o controle social, o que impôs uma série de mudanças no campo social, econômico e na organização espacial, de forma que as cidades passaram a ser alvo de um reordenamento a partir de métodos modernos de organização do território. Esta reorganização conferia novos aspectos às cidades, principalmente no que se referia a diferenciação entre os espaços públicos dos lugares privados — implicando aos seus habitantes, no aceite de novos hábitos de comportamento nos espaços comuns.

As transformações ocorridas na cidade durante o século XIX, para acomodar as exigências dos novos tempos, impostas pela economia capitalista industrial e o ideário da modernidade, “a classe dominante queria desfrutar das vantagens de um processo de transformação que ela própria estava promovendo e, ao mesmo tempo, controlar ou suprimir suas consequências indesejáveis, porém inevitáveis.” (WILLIAMS, idem, pp. 204). Pois, o ineditismo do conflito impunha à cidade grande e moderna relações antagônicas, de forma que ao mesmo tempo em que era preciso conter o avanço das multidões presentes nas ruas, também era preciso garantir à indústria a mão de obra da classe operária, formadora desta multidão anônima que se incorporava ao espaço urbano. Assim:

O medo e o fascínio orientam uma atitude exploratória que fará da cidade um observatório extenso, mas com limites delineados. A atividade exploratória se concentrava no levantamento do modo de vida dos homens pobres trabalhadores ou vagabundos, considerados equivalentes aos povos selvagens, e seus bairros definidos como terra incógnita. Os observadores — políticos, médicos, reformadores sociais, sociedades estatísticas — assumem a postura de exploradores de culturas estrangeiras em busca de uma resposta sobre qual era a condição atual da sociedade. (BRESCIANI, idem, pp. 60).

As contradições do período, podem ser percebidas nas relações de ambiguidades, representadas pelo avanço do desenvolvimento da ciência e da técnica e pelo corrente avanço das epidemias, a ordem e desordem simbolizada pelo tempo fabril e pela

multidão caminhando desordenadamente pelas ruas da cidade, e o crescimento da cidade e a da ampliação dos custos para o enfrentamento de seus problemas e principalmente o distanciamento entre ricos e pobres.

O caos e a desordem visível no período, resultando em crescentes epidemias, prejuízo à indústria, a falta de habilidade dos trabalhadores urbanos para as novas atividades da cidade e a perturbadora apropriação do espaço público pelos mais pobres, levaram técnicos, intelectuais e políticos a se preocuparem com uma maneira de conter e remediar tais problemas, de forma a melhorar as condições de vida da população, possibilitando assim a problematização da cidade e a disseminação do urbanismo como disciplina. De forma que, para Beguin (1991: pp. 41) “o que caracterizava o começo do século XIX era um desenvolvimento sem precedentes dos meios técnicos que permitiram frear as doenças da insalubridade”.

A questão sanitária tornou-se prioritária para o governo, justificando seu controle sobre o espaço urbano e a moradia dos trabalhadores. O receio do caos e da desordem, a ameaça que os surtos epidêmicos representavam para a organização econômica, o pânico que um mal desconhecido trazia à população, o prejuízo que a morte de imigrantes recém- chegados causava às finanças públicas […] e, enfim, o medo da classe dirigente de vir a ser atingida pelas doenças, foram as razões que levaram o Estado a intervir no espaço urbano. (BONDUKI, 1998, pp. 30).

Assim, era necessário enfrentar ou minimizar o desconforto causado pelos novos tempos, daí a ascensão das ferramentas de controle social que se vincularam ao urbanismo e que possibilitaram que os redutos da pobreza e os locais da moradia operária se tornassem lugares vigiados, controlados e dirigidos, abrindo campo para a época das reformas urbanas, da higienização da cidade, a implantação do saneamento básico e dos equipamentos sociais que deram lugar a arquitetura da cidade grande. François Beguin (idem: pp. 47) apresenta relatos publicados pelo “The Reports of the Society for Bettering the condition and increasing the comforts of the poor”, em 1798, que afirmavam sobre as condições de vida dos mais pobres em Londres, que “os hábitos morais, as condutas domésticas e o comportamento do conjunto dos pobres são influenciados por seu entorno imediato e, antes de qualquer coisa, pelo conforto e desconforto…”.

Desta forma, a complexidade dos aspectos urbanos das cidades decorrentes das transformações ocorridas durante o século XIX possibilitou a organização de várias pesquisas sobre as condições de vida, de trabalho e de habitação das classes populares urbanas. Em Londres, a primeira delas ocorreu em 1844, sob a coordenação de Chadwick, e revelou a relação entre insalubridade e más condições de habitação, dedicando-se a elucidar o custo do desconforto social e econômico. Frédéric Le Play também escreveu sobre as classes operárias parisienses em 1855 num trabalho intitulado “Les Ouvriers Européens: Études sur les Travaux, la Vie Domestique et la Condition Morale des Populations Ouvrières de l’Europe, Précédées d’un Exposé de la Méthode d’Observation”.

É importante dizer que as pesquisas realizadas nas diferentes cidades, durante o século XIX, sobre as condições de vida da população mais pobre, traziam forte cunho

moralista e higienista, o que expunha a maneira como as classes populares e as multidões das ruas eram vistas pelos olhos das camadas dominantes. Hardy enxergava Londres como “um monstro cujo corpo tinha 4 milhões de cabeças e 8 milhões de olhos” e escreveu em 1879:

À medida que a multidão vai se tornando mais densa, ela perde o caráter de aglomerado de uma infinidade de unidades e transforma-se num todo orgânico, uma criatura negra, semelhante a um molusco, que nada tem em comum com a humanidade, que assume as formas das ruas nas quais se coloca e estende horrendas excrescências e membros nos becos vizinhos; The early life of Thomas Hardy, Londres, 1928, pp. 129.

Diante destas preocupações disciplinar o espaço da multidão e ao mesmo tempo conte-las, e minimizar a proximidade de convívio entre pobres e ricos, torna-se uma das questões colocadas à cidade moderna ao longo do século XIX, abrindo campo para a implantação dos projetos de reordenação dos espaços urbanos, visando a diferenciação entre o lugar do público e do privado. As ruas e praças — espaços voltados para a vida e convivência pública — passam por reformulação de forma a inibir a presença das multidões e o uso desarticulado desses espaços, os edifícios privados também se tornam alvo de intervenções do urbanismo moderno. Da mesma forma, as edificações destinadas a moradia também necessitavam passar por reformulações, de modo a adequar-se ao tempo e a cidade moderna. Pois o habitat referia-se a vida íntima e privada da família e na sociedade moderna os meios de sociabilidade, deveriam ser fortemente organizados e vigiados.

Os edifícios fabris que inicialmente contrastavam com as dimensões espaciais em relação as demais edificações presentes na cidade, influenciaram as remodelações e novas construções, de forma a se implantar a arquitetura da cidade grande e moderna, que aparecia como um componente importante dos programas de higiene e salubridade. A classe dominante caracterizava os aspectos construtivos e os arranjos territoriais necessários ao bom funcionamento da cidade.

Assim, a modernidade impõe o distanciamento entre as classes sociais, de forma que os mais pobres passam a ser vistos como classes perigosas. Pois, o cenário urbano transformado por novos espaços, edifícios públicos, ruas e praças, que tão bem serviam ao ideário imposto pela classe dominante, não era compreendido com a mesma naturalidade pela classe de trabalhadores urbanos. Era preciso intervir para se evitar o confronto direto entre as classes.

Num tempo em que as atividades privadas, deveriam restringir-se aos espaços íntimos, os estudos sobre a cidade grande e moderna, as condições de vida da população e a habitação operária ganham notoriedade. Pois, da mesma forma que a cidade grande e moderna era desconhecia para as classes trabalhadoras, seu habitat também era algo ainda inexplorado e incompreendido pelas autoridades e intelectuais, de forma que ferramentas para sua análise e compreensão tornaram-se instrumentos necessários no apoio a tomada de decisão, buscando-se o conhecimento dos modos de vida da classe operária em suas residências para posteriormente se propor a remodelação e sua melhoria, visando obter o controle social sobre as mesmas. Neste sentido Williams aponta que embora o olhar distanciado do observador seja um

elemento novo em busca de se entender a cidade grande e moderna, alguns aspectos se mantinham inalterados no entendimento sobre as classes trabalhadoras. Como:

O evidente medo da multidão, com a persistência da imagística do inumano e do monstruoso, representa uma continuação daquela reação à turba que já se evidenciava havia tantos séculos, e que foi tão intensificada pelo tremendo desenvolvimento da cidade. Mantendo-se a ideia de que a aglomeração excessiva da cidade como uma fonte de perigos sociais: desde a perda dos sentidos humanos comuns até o acúmulo de uma força poderosa, irracional e explosiva. (1989, pp. 293).

Diante do eminente conflito entre as diferentes classes presentes nas novas feições da cidade grande e moderna, assistimos a ascensão das pesquisas urbanas sobre as condições e modos de vida da população e da habitação da classe operária. Estas pesquisas ofereceram subsídios e tiveram grande relevância na interferência das condições de vida e intervenções espaciais, propostas pelo urbanismo moderno. De forma que os trabalhos de diagnósticos e pesquisas sociais foram incorporados no final do século XIX e início do XX aos trabalhos urbanísticos, o que não se fez diferente no Brasil, onde o ideário do capitalismo industrial e a consolidação do modelo da cidade grande e moderna se deram de forma mais tardia do que nos países centrais.

A adesão brasileira a este modelo de desenvolvimento ocorreu nas últimas décadas do século XIX, com o apoio do capital britânico, que visava ampliar seu mercado consumidor, e só se consolidou durante as primeiras décadas do século XX. Estas mudanças refletiram também em nossas cidades, sobretudo nas antigas capitais de províncias, resultando num modo de viver voltado à produção industrial, a exemplo do ocorrido nas antigas capitais europeias.

Nesta primeira fase de introdução do capitalismo moderno nas cidades brasileiras, nota-se maior proximidade com este ideário nas cidades do Rio de Janeiro — então capital da República, do Recife e em São Paulo. Porém, para Morse (1974: pp. 19), “nenhuma delas expressou de maneira mais dramática o processo de desenvolvimento urbano como a cidade de São Paulo”. Pois, a exemplo das cidades europeias, foi necessário a imposição de um processo de transformação do território urbano, impondo novas necessidades à cidade de São Paulo, que começou a tratar de tais questões, no final do século XIX, de forma que “o assentamento residencial da classe trabalhadora foi a variável essencial e básica na alteração do modelo de ocupação urbana de São Paulo” (GROSTEIN, 1993, pp. 101). Segundo Bonduki:

A atividade industrial teve em São Paulo seu primeiro surto de crescimento, entre 1885 — 1890; em 1886, instalou-se a Hospedaria dos Imigrantes que fez da capital o centro distribuidor de trabalhadores para o Estado; os fazendeiros ricos constituíram cada vez mais residências na cidade, implantando-se o primeiro loteamento de elite — Campos Elísios. (1998, pp. 17).

Para Rolnik (1997) “é nesse período que São Paulo explode”, estourando também de forma mais grave a crise habitacional. Assim, o cenário em São Paulo se tornava cada

vez mais próximo do encontrado em Londres e Paris no meio do século XIX, de forma que as soluções encontradas para o enfrentamento dos problemas, em alguns casos, seriam também coincidentes. Como exemplo, podemos citar a relação do conflito imposto à cidade, por seus novos atores e a nítida diferenciação entre as classes, abrindo campo para a necessidade de melhor compreensão dos modos de vida da população das classes populares urbanas. Assim, a questão que se torna importante nesta discussão é a relevância que os trabalhos voltados às pesquisas sociais e urbanísticas sobre as condições de vida das classes operárias urbanas proporcionaram aos instrumentos de planejamento e ordenação territorial.

A cidade grande e moderna no Brasil: Em busca da compreensão sobre São Paulo, seus habitantes e as condições de vida

Conforme apontamos anteriormente e, nos apropriando da constatação de Morse, a cidade de São Paulo foi um dos primeiros exemplos no Brasil a seguir o ideário da modernidade a abrir espaço para a industrialização na segunda metade do século XIX, intensificando seu ritmo de crescimento no final do século e na virada para o XX. Junto com este cenário de desenvolvimento veio o afloramento da grave crise habitacional em decorrência da chegada das massas trabalhadoras na última década do século XIX, e a demanda por novas habitações existia indiscriminadamente entre as classes sociais, de forma a contribuir com a implantação dos bairros da elite e dos bairros operários, estes, normalmente localizados próximos das fábricas.

Assim, em 1893, o governo do Estado patrocinou a primeira pesquisa sobre habitação em São Paulo, o “Relatório da Comissão de Exame e Inspeção das Habitações Operárias e Cortiços” apresentado ao presidente do Estado em 1894. O Relatório foi coordenado pelo Doutor Cesário Motta Junior, então Secretário de Estado dos Negócios do Interior, realizou uma ampla pesquisa sobre a presença dos serviços públicos nas cidades paulistas e levantou as condições de vida dos habitantes da capital paulista e também das cidades de Santos, Descalvado, Cabreúva e Campinas. O interesse sobre as condições de vida dos habitantes destas cidades foi motivado pelo surto de cólera, pois estas cidades haviam apresentado maior número de pessoas infectadas.

No âmbito da habitação limitou-se ao Distrito de Santa Efigênia na capital paulista, pois lá estava a maioria das moradias ocupadas pela classe operária da cidade, também consideradas como habitações precárias. Semelhante ao trabalho coordenado por Chadwich, em Londres em 1844, o relatório de Motta trazia forte viés higienista. Sendo apontado por Bonduki que:

Os relatos dos sanitaristas expressavam uma visão elitista, viciada pelas concepções higienísticas e preconceituosa em relação aos trabalhadores. De forma que, se as habitações populares não representassem perigo para as condições sanitárias da cidade, nada se saberia sobre elas, pois as únicas informações sobre as mesmas chegaram através dos técnicos preocupados com a saúde pública. (1998, pp. 22).

Porém, ainda que a habitação não fosse o principal foco do relatório de Motta, a parte referente ao levantamento de Santa Efigênia trouxe revelações importantes e apresentou uma população que até então era apenas tratada como mão de obra para a sustentação da economia industrial. Outro aspecto importante do relatório deve-se ao

fato de Motta apresentar as condições com que o Estado estava suprindo as demandas da população nas áreas de educação, saúde, agricultura e também no saneamento básico, finalizando com um capítulo que apontava para diretrizes de ações para o presidente do Estado e dando como exemplo o trabalho empreendido por Saturnino Brito em Santos na área de saneamento básico, que segundo Motta foi responsável pelo afastamento das epidemias de cólera.

Apesar do forte cunho moralista e higienista o relatório apresentado por Cesário Motta em 1894 norteou ações do governo do Estado nas duas primeiras décadas do século XX. Além dos investimentos em drenagem, saneamento básico e abastecimento de água em diferentes cidades paulistas através de obras bancadas pelo governo do Estado que marcaram as obras de engenharia no período, foi estruturada uma rede de serviços públicos com a implantação de escolas, hospitais e unidades de saúde, casas de apoio ao agricultor e também de unidades de correção que se fizessem presentes na capital e nas cidades do interior.

Neste sentido, o relatório serviu para que as autoridades tomassem conhecimento das condições de vida da população e das demandas ao serviço público. Como a pesquisa foi feita para o estado envolvendo mais que uma cidade, não houve um reflexo direto em reformas urbanas, como as empreendidas em Londres e Paris, no século XIX. Mas trouxe reflexos no apoio ao ordenamento territorial das cidades no sentido de ampliar a rede de serviços e padronizar os equipamentos e edifícios públicos, garantindo assim maior controle social sobre os habitantes.

Já nos anos 1940 outros dois trabalhos de pesquisa urbana trouxeram o olhar do estrangeiro sobre a cidade de São Paulo. O geógrafo norte americano Preston James realizou durante esta década um amplo trabalho de diagnóstico sobre a América Latina, visando identificar as matrizes do seu desenvolvimento econômico, as características físico-territoriais e os aspectos da cultura. O trabalho foi publicado em 1950 e dedicou um capítulo inteiro à cidade de São Paulo, pois esta figurava, no período, como exemplo de prosperidade e desenvolvimento industrial, demonstrando liderança frente o processo de desenvolvimento econômico do país.

A outra pesquisa que nos referimos foi realizada em 1947 pelo francês Louis Joseph Lebret, frei Dominicano, fundador do Movimento Economia e Humanismo na França e da Sociedade para Análises Gráficas e Mecanográficas Aplicadas aos Complexos Sociais — SAGMACS, no Brasil. Lebret esteve no Brasil neste período para difundir um curso sobre planejamento econômico e desenvolvimento harmônico e entusiasmou-se com a elevada produção industrial da cidade de São Paulo, em relação as demais regiões do país, vendo nela um canteiro importante para aplicar os métodos do Economia e Humanismo, visando aprofundar seus dados sobre a situação das cidades industriais em países subdesenvolvidos.

Apesar do trabalho de James ter levantado aspectos de toda a América Latina, o que poderia distanciar seu entendimento e elucidação sobre a pesquisa urbana e as condições de vida dos moradores de São Paulo, o autor fez uma deferência especial a esta cidade, dedicando um capítulo só para tratar do assunto. O que moveu sua curiosidade foi justamente o fato de São Paulo ter apresentado um rápido e intenso processo de crescimento econômico, industrial e populacional, motivo que levou James a buscar as razões para este movimento e questionar a concentração do mesmo sobre São Paulo e a região sudeste do país, enquanto outras regiões eram vazias e

ainda pouco exploradas.

The concentration of large-scale industries in and around São Paulo city is notable. The official statistics indicate that of Brazil’s more than 100.000 industrial establishments, nearly 40 per cent are in São Paulo. […] Although industries are by no means new to this part of Brazil, the big period of industrial expansion, took place after the beginning of World War I. […] The result was the development during the last twenty years of the chief industrial center not only in Brazil but in all of Latin America. (JAMES, 1950, pp. 453).

Assim, James enxerga semelhanças no crescimento de São Paulo com Chicago e Detroit, o que o leva a afirmar que “who runs the state capital and, especially, who flies, immediately feels that he has before him a great city, comparable to many of which are in the United States.” (idem, pp. 465).

Já o estudo da SAGMACS foi realizado durante os meses de Abril, Maio e Junho de 1947, sob a coordenação do Pe. Lebret que fez executar o estudo segundo os métodos de Economie et Humanisme, contando com uma equipe de 40 pesquisadores, dirigidos pelo médico Dr. Oscar Rezende Lima e Estanislau Roberto Maiorano. O estudo se divide em XI capítulos:

I. Sondagem; II. Resultados gerais; III. Resultados por zonas; IV. Localização das categorias extremas; V. Estudo dos tipos de habitação; VI. Estudo das habitações segundo seu número de peças” (cômodos); VII. Estudo da superfície das habitações; VIII. Ensaio de localização das classes sociais e tipos de moradia; IX. Estudo dos defeitos da habitação por classe social; X. Nacionalidade dos ocupantes; XI. Comparação com a França. (cf. publicação do relatório na Revista do Arquivo Municipal, 1951, pp. 8).

A pesquisa definiu enquanto metodologia levantar um número de 1.257 inquéritos divididos proporcionalmente de acordo com a população de cada distrito da cidade. O número de inquéritos tomados em cada distrito foi estimado em função do Censo de 1940, o que em 1947 já não era tão representativo, devido ao rápido crescimento ocorrido na década, fato este que levou Lebret a preferir chamar sua pesquisa de “Sondagem Preliminar, a fim de evitar distorções. Apesar de não ter utilizado métodos científicos reconhecidos, o trabalho de Lebret, teve grande relevância no tratamento da questão habitacional, como uma questão social e econômica urbana, não restringindo sua análise a um único bairro ou setor da cidade. Assim:

A percepção da diversidade socioeconômica na composição dos bairros da cidade e a compreensão da existência da periferia e de sua relação dialética com o centro, tem a nosso ver um enorme impacto na formulação do pensamento urbanístico em São Paulo. (LEME, 2004, pp. 112).

Diferentemente do “Relatório da Comissão”, elaborado em 1894 por Motta, que buscava se aproximar do modelo e das tipologias de habitação da classe operária urbana, a “Sondagem Preliminar” atuou na tentativa de elaborar um comparativo da

tipologia habitacional entre as diferentes classes sociais e bairros da cidade de São Paulo. Porém, cabe ressaltar que, se o relatório de Motta trazia forte viés higienista e visão preconceituosa sobre as classes operárias urbanas, a “Sondagem” de Lebret trazia o olhar do europeu para a cidade brasileira, impondo alguns requintes às moradias, e hábitos europeus de morar, que não cabiam naquele período para os habitantes de São Paulo.

A “Sondagem Preliminar” revela-se como um trabalho mais completo sobre a condição de moradia na cidade de São Paulo que os demais relatórios produzidos em outros momentos, em 1894 por Motta e nos anos 1940 por James. A “Sondagem Preliminar”, ainda que elaborado com métodos pouco científico, classificava as modalidades habitacionais paulistanas em sete categorias: sub-casebre, casebre, semi- casebre, habitação insatisfatória, habitação satisfatória, habitação confortável e habitação luxuosa ou muito confortável. Além disso, trazia análises a partir dos levantamentos feitos sobre a população que habitava as moradias e as diferentes zonas da cidade, a nacionalidade desses habitantes, as condições de trabalho e a escolaridade.

Considerações Finais

O nascedouro da urbanística moderna consolidada ao longo do século XIX, impôs ressonâncias em diferentes momentos à várias cidades no mundo. Conforme apontamos neste trabalho, o Brasil não ficou de fora desse contexto, abrindo campo para as práticas intervencionistas sobre o território urbano e de revelação da realidade social de seus habitantes — através dos modelos de pesquisas e diagnósticos, que tiveram origem na Inglaterra e foram aperfeiçoadas por pesquisadores de diversos países.

Estas pesquisas nada mais do que expuseram os conflitos existentes na cidade, no que tange as diferentes condições de habitação, transportes, acesso ao trabalho e aos equipamentos públicos, aspectos que permearam o ideário da cidade grande e moderna, presente ao longo do século XIX. Estes aspectos revelam a permanência da cultura urbanística resultante da ascensão da cidade grande e moderna, incluindo também, a visão preconceituosa e elitizada sobre os espaços da cidade e os modelos de habitação, presente no urbanismo enquanto disciplina, filiado à matriz liberal, que permeou todo o século XIX e ainda traz ressonâncias para os nossos dias.

Assim, a percepção do ineditismo do conflito, apontado por Carlyle, possibilitou a problematização da cidade como um campo de análise e pesquisa social, fatores ainda possíveis a interpretação da cidade contemporânea, e que norteiam práticas do planejamento urbano. Pois, a cidade grande e moderna empreendida no século XIX, ainda apresenta suas estruturas presentes na contemporaneidade, sendo assim, um importante objeto de estudo e elucidação sobre as contradições, permanências e rupturas para o entendimento da sociedade e de suas relações sociais, econômicas e políticas.

Referências bibliográficas

BEGUIN, F. As maquinarias inglesas do conforto. Espaço & Debates, São Paulo, nº 34, 1991, pp. 39-54

BONDUKI, N. G. Origens da Habitação social no Brasil: Arquitetura moderna, Lei

do Inquilinato e difusão da casa própria. São Paulo: Estação Liberdade, 1998

BRESCIANI, M. S. M. Metrópolis: as faces do monstro urbano (as cidades do século XIX). Revista Brasileira de História, São Paulo, nº 8 e 9, 1985, pp. 35-68

CARLYLE, T. Signs of the times. In: Selected Writtings Harmondsworth, Penguin, 1980

CHADWICK, J. Report to her Majesty’s. (Relatório apresentado ao secretario do Interior de Sua Majestade pelos delegados da lei da mendicância a respeito de uma investigação sobre as condições sanitárias da população trabalhadora da Grã- Bretanha). Londres, 1842

CHOMBART DE LAUWE, P. H. Paris et la Agglomeration Parisienne. Paris, 1952

ENGELS, F. A Situação da classe trabalhadora na Inglaterra. 2a. Ed., São Paulo, 1985

HARDY, T. The early life. Londres, 1928

JAMES, P. E. Latin America. London: The Leighton Straker Book Binding Company, 1950

LEME, M. C. S. A pesquisa pioneira de Lebret sobre as condições de habitação em São Paulo. In: Revista Espaço & Debates, nº 45. São Paulo: Neru, 2004

LE PLAY, F. Les Ouvriers Européens: Études sur les Travaux, la Vie Domestique et la Condition Morale des Populations Ouvrières de l’Europe. Paris, 1855

MORSE, R. Formação Histórica de São Paulo: de comunidade a metrópole. São Paulo, Difusão Européia do Livro, 1974

MOTTA JUNIOR, C. Relatório apresentado ao Presidente do Estado de São Paulo.

São Paulo, 1894

ROLNIK, R. A cidade e a lei: legislação, política urbana e territórios na cidade de São Paulo. 2a. Ed., São Paulo, Estudio Nobel, 1997

SAGMACS. Sondagem Preliminar a um estudo sobre habitação em São Paulo. São Paulo, 1951

WILLIAMS, R. O campo e a cidade na história e na literatura. São Paulo: Editora Schwarcz Ltda., 1990

Como Citar

Lucas Ricardo Cestaro . A Emergência da Questão Social. Diagnóstico e Pesquisa sobre condições de habitação e vida na cidade de São Paulo. In: PEIXOTO, Elane Ribeiro; DERNTL, Maria Fernanda; PALAZZO, Pedro Paulo; TREVISAN, Ricardo (Orgs.) Tempos e escalas da cidade e do urbanismo: Anais do XIII Seminário de História da Cidade e do Urbanismo. Brasília, DF: Universidade Brasília- Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, 2014 . Disponível em: http://www.shcu2014.com.br/content/emergencia-da-questao-social-diagnostico-e-pesquisa-condicoes-habitacao-e-vida-na-cidade-sao