As cidades, da industrialização à estética relacional

Eixo Temático: 

Resumo

Pensar a respeito das cidades atuais requer uma regressão analítica e crítica das reflexões urbanas ocorridas na história. Este trabalho apresenta, de maneira introdutória, um panorama do pensamento urbano, desde a industrialização até as últimas ideologias urbanas do século XX (Internacional Situacionista), que colabore para o entendimento acerca da situação urbana na contemporaneidade. As transformações que ocorreram durante esses séculos, permeadas por diversas ideologias, construíram a complexa situação urbana das cidades atuais. Nos anos 90, Nicolas Bourriaud em seu livro “Estética Relacional” reflete sobre o lugar da arte na sociedade contemporânea e as interferências que o mercado e a cultura de consumo produzem no ambiente social. A diminuição progressiva de espaços de convívio e relação em prol de ambientes de consumo é o contexto onde surge a produção artística que ele denomina de arte relacional. Por mais que sua reflexão esteja voltada para a arte contemporânea, ela é de extrema relevância para o pensamento urbano. Agregar o valor da sensibilidade artística, suas potências sociais e políticas, pode ser de grande importância para a reflexão urbana atual. Nossa pesquisa investiga se e em que medida tais ideias permitiriam uma virada de chave no pensamento e nas práticas urbanísticas, atualizando sua produção para as novas potencialidades da sociedade e da vida contemporânea.

 

Abstract

A contemporary thought on our cities requires a critical and analytical review of the evolution of urban reflexion through history. This paper aims at presenting a panorama of urban thinking, from industrialization to the last urban ideologies of the 20th Century (International Situationist), that would contribute to understanding the urban condition in our time. The transformations that have been taking place over the last centuries, permeated by several ideologies, built up the complex urban situation of our cities. In the 90’s, Nicolas Bourriaud, in his book “Relational Aesthetic”, analyzes the role of art in contemporary societies and the interferences market and consumption culture produce over the social ambiance. The progressive shrinking of spaces of conviviality in favor of consumption places marks the context in which appeared the artistic production he named “relational art”. Although focused on contemporary art, Bourriaud’s insights may be of special importance to the field of urban reflexion, which may gain new value by incorporating artistic sensibility and its social and political powers. Our research investigates if and to what extent such ideas may represent a turning point in the current urban thoughts and praxis.

 

As cidades se modificam constantemente. Sua contínua transformação nos instiga a pensar sobre a vida e a condição do espaço urbano. Tais transformações exigem dos urbanistas reflexões persistentes sobre o rumo que as cidades estão tomando, já que influenciarão as gerações futuras. E também sobre o rumo que nós, enquanto profissionais e

cidadãos, desejamos que ela siga. O espaço entre esses dois futuros possíveis é o campo onde se encontra o pensamento a respeito das cidades.

O crescimento industrial que se iniciou no século XVIII e seguiu massivamente para o século XIX possibilitou o início de uma longa discussão sobre o meio urbano/ Segundo Henri Lefebvre, em seu livro ”O Direito à Cidade”, a industrialização, ao induzir uma série de reflexões relativas à situação das cidades, foi o ponto de partida para que pudesse se expor a problemática urbana.

“Uma imundice e nojeira sem igual” (Apud CURTIS, W. 2008, p.241), relata Engels após visitar Manchester, em 1845. Esse relato resume em poucas e grossas palavras a situação urbana que caracterizava as cidades europeias que foram dominadas pela produção industrial. A industrialização subverteu as condições de trabalho pré-existentes ao romper drasticamente com o equilíbrio que existia na relação entre casa e local de trabalho (Cf. Carta de Atenas, 1933). Ao concentrar intensamente as forças produtivas, as indústrias exigiram uma proporcional concentração populacional no ambiente urbano, o que provocou o inchaço das cidades, seu crescimento desordenado e a saturação das infraestruturas. O crescimento acelerado levou as cidades a uma condição lamentável e insalubre, com função quase que exclusiva de produção (industrial), em prol dos interesses capitalistas e em detrimento das qualidades minimas de vida.

A urbanização que ocorreu como consequência do desenvolvimento industrial extrapolou em muitas vezes a escala das cidades antigas e medievais. “As concentrações urbanas acompanharam as concentrações de capitais”. (LEFEBVRE, H. 2001, p.15) O processo de industrialização e o processo de urbanização foram, desde o início, conflitantes. O crescimento da força das indústrias sob o interesse da produção capitalista vai de encontro ao desenvolvimento de uma vida social digna, influenciando decisivamente nos modelos futuros de sociabilidade.

Lefebvre organizou o processo da industrialização das cidades em três momentos. No primeiro momento, a industrialização destruiu praticamente toda a realidade urbana pré- existente, assaltando exaustivamente seus potenciais. As indústrias se comportavam como um poder que negava a realidade social urbana em prol de uma potencialidade econômica. Em um segundo momento, a urbanização se ampliou, criando uma realidade urbana que neste momento se reconhecia como socioeconômica. A produção e a ideologia capitalista se efetivaram no coração do pensamento urbano. No terceiro momento, após perceber que a cidade era o centro da oferta e do consumo necessários à dinâmica capitalista surgiu a necessidade de se repensar e reinventar a realidade urbana. Tornou-se urgente a adaptação e a transformação das cidades. Nasceram as reflexões urbanísticas que permearam as ideologias urbanas modernas ao longo dos séculos XIX e XX.

As reflexões urbanísticas tinham como objetivo principal o remodelamento da arquitetura e dos espaços urbanos. Além disso, buscavam novas formas de vida que se opusessem à exploração capitalista pela força de trabalho. No final do século XIX, alguns teóricos publicaram projetos de cidades ideais que exemplificam essa vontade de superar ou aperfeiçoar a situação industrial.

Os projetos da Cidade Linear de Arturo Soria y Mata (1882) e a Cidade Industrial de Tony Gardier (1901) expressaram suas preocupações com as questões da organização e do planejamento racional do espaço urbano. Opunham-se à desordem generalizada oriunda da presença industrial, mas idealizavam e alimentavam os avanços técnicos e econômicos trazidos por ela. A Cidade Linear se organizava e se expandia a partir de um grande eixo de circulação interessada pela livre e rápida circulação de pessoas e bens vem como fruto do interesse econômico que crescia rapidamente. A Cidade Industrial propunha um forte e rígido

zoneamento, outra resposta à desorganização da cidade na era industrial, que tentava harmonizar a presença das indústrias com as habitações. (CURTIS, W. 2008, p. 243)

Ebenezer Howard com a Cidade Jardim (1898), na tentativa de traçar um contraponto à realidade industrial, substituiu a densidade e a grande escala das cidades por vilas, com tamanhos e densidades gerenciáveis humanamente e integradas com a natureza. Essa descrença a respeito da sociedade industrial também foi abordada nos escritos de Camillo Sitte, que defendia um relacionamento mais íntimo do homem com a cidade através das irregularidades da malha urbana. Seu pensamento também estava influenciado por certa nostalgia pelas cidades pré-industriais. (CURTIS, W. 2008, p.243)

Esses projetos, tanto os que tentaram organizar o crescimento da industrialização como os que tentaram se opor a ela, iniciaram discussões sobre os espaços urbanos que influenciaram decisivamente futuras propostas urbanísticas. No início do século XX, Le Corbusier sintetiza os ideais das “novas cidades”: Mecanização, ordem geométrica e “natureza”. Em 1922, ele propõe a Cidade para 3 Milhões de Habitantes que buscava a harmonizar a era da máquina com a cultura moderna. A idealização de uma nova cultura junto com uma super simplificação dos processos industriais resultava em um projeto radical. “O conjunto estava imbuído de um espírito de racionalidade e disciplina quase obsessivo: as forças da mecanização foram perfeitamente resolvidas em uma planta do tipo mandala que incorporava uma “ordem ideal”. (CURTIS, W. 2008, p.247) Seu interesse em “harmonizar as forças e possibilidades da indústria ao serviço de emancipação e melhoria do ser humano”. (2008, p.247) tornou-se uma idealização pela racionalidade e pela rígida ordenação do território urbano.

O surgimento do CIAM, Congresso Internacional de Arquitetura Moderna, em 1928, tinha como objetivo a discussão e elaboração de propostas a respeito da arquitetura e urbanismo modernos. As recentes contingências econômicas e ideológicas exigiram reflexões sobre as novas necessidades humanas e sobre as novas funções da arquitetura e da cidade. Com uma forte influência da ideologia progressista e produtiva da era da máquina, os CIAM se apoiavam na questão de eficiência, de “mínimo esforço possível”, da racionalização dos espaços e da funcionalização das atividades humanas. Essas questões influenciaram muitas das propostas urbanísticas e arquitetônicas do século XX.

Ao longo do século XX, os projetos e planejamentos urbanísticos estiveram majoritariamente sob a bandeira do funcionalismo. A crença funcionalista condenava a cidade a uma política metódica e racional do solo, ainda em resposta ao caos e ao crescimento desordenado que ocorreu nas cidades da era industrial. Essas questões alimentavam uma idealização pela indústria pois adaptavam toda a produção arquitetônica e urbanística a uma tentativa de se enquadrar nos modus operandi industrial, da produção capitalista. A ideologia moderna buscou a reformulação das cidades na busca por uma organização e racionalização quase maquinal mas que permitiriam um desenvolvimento social que iria “assegurar, nos planos espiritual e material, a liberdade individual e o benefício da ação coletiva.” (Cf. Carta de Atenas, 1933)

A Carta de Atenas surgiu a partir do CIAM de 1933 e foi um dos principais documentos sobre o urbanismo moderno. Respondendo claramente às novas necessidades da sociedade moderna maquinal, expunham-se alguns conceitos modernistas bem definidos, como a relação entre edificações e espaços livres, o zoneamento rígido das diferentes funções da cidade, a “descriminação necessária entre as diversas atividades humanas, cada uma das quais reclama seu espaço particular” (1933), a apropriação governamental pelo solo urbano que permitiria uma expansão controlada da cidade, e a valorização de uma eficiente rede de circulação que permitiria a rápida locomoção de pessoas e bens.

Esses conceitos, criados a partir do incessante esforço organizacional do espaço urbano,

decorrem para uma questão importante: ao organizar e doutrinar de forma tão rígida o espaço urbano, acaba-se por tentar doutrinar também a vida urbana. Quando a reflexão sobre as novas necessidades do ser humano moderno aparece em discussão no CIAM, predetermina-se um comportamento ideal para o ser humano, em escala universal, que o permite à uma liberdade limitada. A racionalização dos comportamentos humanos em busca do homem ideal e as quatro categorias do funcionalismo moderno (habitação, trabalho, lazer e circulação) acabaram por simplificar, na extrema necessidade de organização e funcionalização, a complexidade da vida urbana e social.

Desde o CIAM XIII (1951), as críticas ao funcionalismo radical começaram a se fortalecer. No CIAM IX (1953) surgiu formalmente o grupo Team X, que desenvolveu fortes críticas aos modernistas do início do século. “Os Smithson costumavam dizer que na Carta de Atenas ‘o que faltava era o homem’”. (Apud JAQUES, P. 2003, p. 26) Negavam o homem ideal (modulor corbusiano) e defendiam a produção arquitetônica e urbanística para o homem real. No CIAM X (1956) a escassez e o funcionalismo modernos foram rechaçados em defesa de uma arquitetura e urbanismo que respondesse melhor às necessidades de identidade entre indivíduo e cidade. Em 1959, houve o abandono oficial dos CIAM e a sucessão do Team X. Paralelo a Team X, a Internacional Situacionista aparece como o grupo que mais se destaca pela repulsa radical ao funcionalismo e racionalidade dos modernos. A princípio, a Internacional Situacionista pretendia “construir cidades, o ambiente apropriado para o despertar ilimitado de novas paixões. Porém, como isso evidentemente não era fácil, vimo-nos forçados a fazer muito mais”. (Apud JACQUES, P. 2003, p.18) Construíram uma ideologia que negava uma série de comportamentos da cultura moderna. Enquanto o Team X estava dentro dos CIAM lutando pela reforma do congresso, a IS era marginal e buscava veementemente a revolução da vida cotidiana. Contudo, apesar dessa diferença, ambos os grupos se aproximavam ao sustentar críticas semelhantes às crenças modernas.

Colagens, mistura e diversidade contra o excesso de racionalidade e funcionalidade modernas, e contra a separação de funções. Contra a generalidade, a impessoalidade, simbolizadas pelo Modulor corbusiano e pela ideia de Tábula Rasa, eles propunham a busca de identidades, da individualidade e da diversidade, sobretudo das pessoas comuns e reais das ruas das cidades existentes. Contra a homogeneidade e simplicidade dos ideais modernos, eles propunham a heterogeneidade e a complexidade ligadas à vida cotidiana. Contra a grande escala e à autoridade do Estado e dos próprios urbanistas ligados às pretensões modernas, propunham uma volta à pequena escala, à escala humana e à participação dos habitantes. (JAQUES, P. 2003, p. 27)

No início, a IS possuía um grande interesse na arte que fosse além dos padrões vigentes da arte moderna. Idealizavam uma arte completa, integral. A expansão da produção artística deveria acontecer no ambiente urbano, o que acarretou em uma série de reflexões e experimentações sobre a cidade. Alimentavam uma crítica feroz ao urbanismo racional e pré planejado em defesa de uma ”construção coletiva” do espaço urbano. Com o passar dos anos, a IS dedicou-se menos às produções artísticas e urbanísticas e mais às críticas contra a sociedade moderna, em busca de uma revolução social. Enquanto para os modernos, a arquitetura e urbanismo modificariam a sociedades, para a IS, a sociedade modificaria a arquitetura e o urbanismo.

Em 1957, Guy Debord escreveu “A sociedade do espetáculo”. A primeira tese do livro diz que

“toda a vida das sociedades nas quais reinam as condições modernas de produção se anuncia como uma imensa acumulação de espetáculos. Tudo o que era diretamente vivido se esvai na fumaça da representação”. (DEBORD, G. 1997, p.08) O espetáculo está diretamente relacionado ao capitalismo e suas estratégias de produção e consumo que dominaram a lógica social.

A partir das críticas à dominação capitalista, Debord escreve algumas teses a respeito das influências do espetáculo na ordenação do território urbano.

Tese 165: A produção capitalista unificou o espaço, que não é mais limitado pelas sociedades exteriores. Essa unificação é, ao mesmo tempo um processo extensivo e intensivo de banalização. A acumulação das mercadorias produzidas em série para o espaço abstrato do mercado, do mesmo modo que quebrou todas as barreiras regionais, legais, e todas as restrições corporativas da Idade Média que mantinham a qualidade da produção artesanal, também dissolveu a autonomia e a qualidade dos lugares. Este poder de homogeneização foi semelhante à artilharia pesada que derrubou todas as muralhas da China. (DEBORD, G. 1997, p.111)

Tese 169: Essa sociedade que modela tudo o que a rodeia edifica sua técnica especial trabalhando a base concreta deste conjunto de tarefas: o seu próprio território. O urbanismo é a tomada do meio ambiente natural e humano pelo capitalismo que, ao desenvolver-se em sua lógica de dominação absoluta, refaz a totalidade do espaço como seu próprio cenário. (DEBORD, G. 1997, p.112)

Para Guy Debord, o urbanismo estaria a serviço da repressão social enquanto se encontrasse a serviço dos interesses do capitalismo. A sociedade do espetáculo pode ser entendida como o amadurecimento hegemônico da crença capitalista, de produção, de consumo e de modo de vida. Esse quadro tem influências na cidade e na produção urbanística. Como disse Debord, “hoje, o principal problema que o urbanismo tem a resolver consiste em melhorar o tráfico do crescente número de ‘veículos automotores’” (DEBORD, G. 1955).

Lefebvre utilizou o termo “racionalismo operatório” para se referir às produções e reflexões urbanas modernas da primeira metade do século XX. Segundo o filósofo, há três tendências urbanísticas originadas no racionalismo operatório. O urbanismo dos homens de boa vontade: Seus projetos e reflexões são normalmente ligados ao humanismo. Busca-se construir em “escala universal” para o “homem ideal”. Esses urbanistas são como médicos da sociedade, criadores de uma nova forma de vida, muitas vezes nostálgicas à modelos de comunidade. Porém, a escala do homem moderno mudou e tais projetos se tornam desmedidos, resultando, na melhor das hipóteses, em projetos formalistas ou esteticistas. (LEFEBVRE, H. 2001, p.30) O urbanismo dos admiradores ligados ao setor público: Tal urbanismo tende a negligenciar o “fator humano” em prol das técnicas de circulação e comunicação. Esse urbanismo, tecnocrático e sistematizado não hesita em substituir o que resta das cidades para criar um ambiente destinado aos carros e às comunicações. Tais modelos urbanos só entram em prática ao apagar por completo a existência das cidades pré-existentes. Interessa-se em centralizar os meios de poder para criar centros de decisão. (LEFEBVRE, H. 2001, p.31)

O urbanismo dos promotores de venda: Concebem e realizam projetos visando o lucro. Possuem estratégias publicitárias que vendem seus projetos como lugares de felicidade para se viver uma vida perfeita. A publicidade torna-se uma ideologia. “Faz nascer uma nova arte

de viver!”, “um novo estilo de vida!”. Essas são as imagens vendidas da alegria do novo viver. A sociedade do consumo traduz-se em ordens, ordens de aquisições, ordens de ser feliz. A ilusão da felicidade é propagada através do consumo. Esse urbanismo programa uma vida de “satisfações“ consumíveis. (LEFEBVRE, H. 2001, p.32)

Para Lefebvre, a junção dessas três tendências acarretaria em uma estratégia global que uniria os que trabalharão para a concentração dos meios de poder e os que trabalharão para a cultura do consumo e a produção de “satisfações”. Para ele, a convergência desses projetos, a submissão aos interesses do consumo e capitalismo, a falsa ideia de bem estar, satisfação e felicidade vendidas pela publicidade, a centralização do poder nos centros decisionais e a separação do centro do poder e das periferias desurbanizadas comportaria os maiores perigos da sociedade urbana. (LEFEBVRE, H. 2001, p.33) Este sistema unitário reuniria as condições para uma dominação perfeita, uma exploração dos cidadãos enquanto produtores e consumidores, de produtos e de espaços.

Segundo Lefebvre, essa estratégia unitária poderia constituir uma realidade irreparável. Os projetos da estratégia unitária descritos por Lefebvre são as bases do espetáculo de Debord. O espetáculo apropria-se de diferentes campos sociais, como economia, política, urbanismo e publicidade, para criação de uma sociedade espetacular. As estratégias unitárias colaboram com as estratégias do espetáculo para a criação de uma sociedade alienada, em que a vivência real do mundo e das cidades são substituídas pela imagem de uma vida. O ser humano perde a capacidade ativa de sua própria vida e torna-se passivo à dominação e ao funcionamento da sociedade espetacular.

Para combater essa situação são necessárias novas contradições, dissensos que perturbem a convergência dessas estratégias de dominação. A Internacional Situacionista desenvolveu táticas urbanas que foram essenciais para o questionamento dessas hegemonias da sociedade moderna capitalista. Para a IS, “o único papel da arquitetura é servir às paixões dos homens”. Na questão urbana, “não existiu uma forma situacionista material de cidade, e sim uma forma situacionista de viver, ou de experimentar a cidade.” (JACQUES, P. 2003, p.20) É por este caminho que as reflexões situacionistas caminharam, pela criação de novas formas de perceber, viver e experimentar o espaço urbano. Tais renovações cotidianas seriam as responsáveis pela recriação de uma nova cultura onde “o papel do ‘público’, se não passivo pelo menos de mero figurante, deve ir diminuindo, enquanto aumenta o número dos que já não serão chamados atores mas, num sentido novo do termo, vivenciadores”. (Apud JACQUES, P. 2003, p.21)

O termo “situacionista” vem a partir da criação de situações: “momento da vida, concreta ou deliberadamente construído pela organização coletiva de uma ambiência unitária e de um jogo de acontecimentos”. (IS, n°1. 1958) As construções deveriam depender da “participação ativa dos cidadãos, o que só seria possível por meio de uma verdadeira revolução da vida cotidiana”. (JACQUES, P. 2003, p.19) A deriva, “modo de comportamento experimental ligado às condições da sociedade urbana: técnica de passagem rápida por ambiências variadas” foi de extrema importância para a descoberta de novas potencialidades para o cotidiano urbano. A intenção dos situacionistas em buscar novas formas de relação com os espaços urbanos possibilitou novas reflexões sobre as cidades. A ação “andar sem rumo”, percorrer a cidade atento a estímulos psicológicos, afetivos e intuitivos, é em si uma resistência à funcionalização do espaço urbano e à necessidade econômica de constante produção e máxima eficiência.

A IS explorou outras possibilidades e potencialidades do espaço urbano. Questionaram veementemente a discussão moderna a respeito do funcionalismo, das necessidades mínimas e da organização racional da vida urbana. As transformações que se iniciaram na revolução

industrial e chegaram as experimentações situacionistas são de extrema importância para a discussão a respeito das cidades contemporâneas. O que o urbanismo tem a oferecer para a vida urbana contemporânea? Quais as novas necessidades? Quais as novas possibilidades? E vontades?

Na década de 90, Nicolas Bourriaud discute em seu livro “Estética Relacional” algumas problemáticas relacionadas à arte contemporânea, mais especificamente à uma arte relacional. Por mais que essa discussão esteja voltada para a arte, é justamente a produção artística que poderá agregar valor à reflexão urbanística. O autor constrói uma forte crítica à sociedade atual que, por meio dos interesses comerciais e mercantis, reduz progressivamente os espaços de convívio e relação entre as pessoas. Os alvos da crítica de Bourriaud se aproximam significantemente ao que Debord denominava de sociedade do espetáculo. “Num mundo regulado pela divisão do trabalho e pela superespecialização, pela mecanização humana e pela lei do lucro, aos governos importa tanto que as relações humanas sejam canalizadas para vias de saída projetadas para essa finalidade quanto que elas se processem segundo alguns princípios simples, controláveis e repetíveis.” (BOURRIAUD, N. 2009, p.12)

Para Bourriaud, a dominação dos interesses mercantis na sociedade atual controla os espaços que possibilitam o encontro entre pessoas. A mecanização das funções sociais e a sistematização das atividades humanas reduzem progressivamente o universo relacional. O desenvolvimento constante da economia capitalista controla uma sociedade consumidora não apenas de produtos, mas também de uma cultura. O que não é comercializável, ou melhor, consumível está em risco de desaparecer. “Em breve, as relações humanas não conseguirão se manter fora desses espaços mercantis”. (BOURRIAUD, N. 2009, p.12)

A situação social que Bourriaud critica faz parte da cultura espetacular, utilizando o termo de Debord. “Perante as mídias eletrônicas, os parques recreativos, os espaços de convívio, a proliferação dos moldes adequados de sociabilidade, vemo-nos pobres e sem recursos, como o rato de laboratório condenado a um percurso invariável em sua gaiola, com pedaços de queijo espalhados aqui e ali.” (BOURRIAUD, N. 2009, p.11) As estratégias dessa sociedade que controla as atividades, as relações e os modos de vida das pessoas de acordo com seus interesses, moldam uma massa de consumidores alienados e cerceados de liberdade. Essas estratégias da sociedade do consumo devem ser urgentemente questionadas e combatidas.

O fracasso global da modernidade evidencia-se na transformação das relações inter-humanas em produtos, na pobreza de alternativas políticas e na desvalorização do trabalho enquanto valor não econômico, a qual não corresponde nenhuma valorização do tempo livre. (BOURRIAUD, N. 2009, p.117)

… em nossas sociedades pós-industriais, o mais urgente não é mais a emancipação dos indivíduos, e sim a da comunicação inter-humana, a emancipação da dimensão relacional da existência (BOURRIAUD, N. 2009, p.84)

Para Bourriaud, a prática artística contemporânea tem a condição de se tornar um campo fértil de experimentações sociais que vão de encontro com a uniformização dos comportamentos causada pela mecanização e especialização do mundo. Essa prática artística é denominada de arte relacional, arte que produz “espaços-tempos relacionais, experiências inter-humanas que tentam se libertar das restrições ideológicas da comunicação de massa; de certa maneira, são lugares onde se elaboram socialidades alternativas, modelos críticos, momentos de convívio

construídos”. (BOURRIAUD, N. 2009, p.62)

A arte relacional trabalha com modelos de intercâmbio social, processos de comunicação que têm o intuito de interligar pessoas e grupos. “Além de seu caráter comercial ou de seu valor semântico, a obra de arte apresenta um interstício social. O temo interstício foi usado por Karl Marx para designar comunidades de troca que escapavam ao quadro da economia capitalista, pois não obedeciam à lei do lucro”. (BOURRIAUD, N. 2009, p.22) Os interstícios sociais sugerem outras possibilidades de relação dentro do sistema capitalista vigente. A arte relacional permite intercâmbios humanos que se deslocam das “zonas de comunicação” que nos são impostas. “A arte contemporânea realmente desenvolve um projeto político quando se empenha em investir e problematizar a esfera das relações” (BOURRIAUD, N. 2009, p.23). Tal projeto político cria outras possibilidades, universos possíveis de se relacionar com o mundo.

A produção artística relacional a qual Bourriaud se refere possui um grande potencial para a reflexão a respeito do urbanismo atual. O rompimento com os interesses controladores dos poderes socioeconômicos é essencial para a construção de novos paradigmas possíveis em relação às cidades. Atualmente, o mercado do consumo e suas estratégias de dominação, como a publicidade, comunicação e o lazer, influenciam massivamente na construção das cidades e na formação dos modos de vida. A transformação de como se percebe e se vive a cidade contemporânea, fora dos espaços e das políticas de controle, permite que se reflita a respeito da prática urbanística. Para Bourriaud, o espaço urbano é o espaço que possibilitou as intensas relações entre os indivíduos e é onde se criaram as práticas artísticas que discutem sobre essas relações.

A cidade permitiu e generalizou a experiência da proximidade: ela é o símbolo tangível e o quadro histórico do estado da sociedade, esse ‘estado de encontro fortuito imposto aos homens’ (…) Esse regime de encontro casual intensivo, elevado à potência de uma regra absoluta de civilização, acabou criando práticas artísticas correspondentes, isto é, uma forma de arte cujo substrato é dado pela intersubjetividade e tem como tema central o estar juntos. (BOURRIAUD, N. 2009, p.21)

O pensamento sobre as cidades pode e deve agregar o valor que a sensibilidade artística nos apresenta. Perceber o espaço urbano como espaço relacional é essencial para pensar nas novas aberturas para o urbanismo contemporâneo. A criação de “situações”, criações que escapam aos domínios do estado-comércio em prol de construções coletivas, devem ser apropriadas para o contexto atual. A prática urbanística, ainda imensamente arraigada nas ideologias funcionalistas e racionais modernas, tem agora a possibilidade de aprender com as ações sensíveis e extremamente políticas da arte contemporânea.

A criação de ambientes urbanos que fomentem relações humanas fora dos “moldes adequados de sociabilidade” é uma importante ação política ao subverter a ordem da lógica social vigente. Agregar a experiência estética, social e política da arte na produção e na reflexão sobre a cidade pode ser um grande passo para atualizarmos a discussão urbana às novas necessidades (ou possibilidades) da sociedade contemporânea.

Referências bibliográficas

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CURTIS, William J.R.. Arquitetura Moderna desde 1900. 3ed. Trad. Alexandre Salvaterra. Porto Alegre: Bookman, 2008.

DEBORD, Guy. A sociedade do espetáculo. Trad. Estela dos Santos Abreu. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997.

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FRAMPTON, Kenneth. Historia crítica de la arquitectura moderna [1981]. Bracelona: Gustavo Gili, 1987.

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JACQUES, Paola Berestein. Apologia da deriva: Escritos situacionistas sobre a cidade. Trad. Estela dos Santos Abreu. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2003.

Como Citar

Danilo Fleury . As cidades, da industrialização à estética relacional. In: PEIXOTO, Elane Ribeiro; DERNTL, Maria Fernanda; PALAZZO, Pedro Paulo; TREVISAN, Ricardo (Orgs.) Tempos e escalas da cidade e do urbanismo: Anais do XIII Seminário de História da Cidade e do Urbanismo. Brasília, DF: Universidade Brasília- Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, 2014 . Disponível em: http://www.shcu2014.com.br/content/cidades-da-industrializacao-estetica-relacional