A cidade no cartão postal: representações de Campo Grande entre as décadas de 1960 e 1970

Eixo Temático: 

 

A cidade no cartão postal: representações de Campo Grande entre as décadas de 1960 e 1970

Eixo Temático: Representações

Resumo

O cartão-postal, em sua tipologia mais recorrente, atua como um meio de contribuição para o conhecimento e a propagação das cidades ao redor do mundo, através de textos e representações imagéticas. Pensando nisso, esse estudo propõe a leitura de três exemplares de postais fotográficos de Campo Grande-MS, produzidos por volta das décadas de 1960 e 1970, como uma forma de apreender o contexto histórico e espacial no qual a própria cidade é inserida como tema e objeto de registro e, então, identificar os ideais atrelados a suas expressões. Coloca-se, portanto, a seguinte questão: o que se pode inferir da representação visual de Campo Grande em cartões postais produzidos em um momento específico de sua história? Para tanto, o artigo estrutura-se em três partes: a apresentação dos atributos do postal dentro da configuração abordada, com destaque para aqueles cujas ilustrações são fotografias; a identificação de alguns sentidos que direcionam a realização da leitura e interpretação das imagens; e a análise dos três postais, acompanhada da breve contextualização histórica de Campo Grande, quanto à sua formação urbana. Por fim, apontam-se algumas discussões, de forma a contribuir para a assimilação de parte da história da cidade.

Palavras-chave: imagem, representação, cartões postais, Campo Grande

Abstract

The postcard, in his most recurrent type, acts as a means of contributing to the knowledge and the spread of cities around the world, through text and image representations. In this sense, this study proposes the reading of three photographic Campo Grande’s postcards, produced around the 1960s and 1970s as a way of apprehending the historical and spatial context, in which the city is inserted as subject and object registration, and then identify the ideals tied to their expressions. Therefore, the following question is asked: what can be inferred from the visual representation of Campo Grande on postcards produced at a specific time in its history? So, this article is structured in three parts: the presentation of the postcard’s attributes in this configuration, especially for those whose illustrations are photographs; the appointment of some senses that orientate the image’s reading and interpretation; and the analysis of the three postcards, combined by a brief historical contextualization of Campo Grande, as regards its urban conformation. Finally, some discussions are pointed to contribute with the assimilation of part of the city’s history.

Keywords: image, representation, postcards, Campo Grande

Introdução

A cidade, como um campo repleto de significações, cujas dimensões envolvem-se em abordagens diversas, permite sua apreensão através de variadas formas de representação, expressas em meios como a literatura, o cinema e a fotografia. Na esfera das representações visuais, uma ferramenta da comunicação manifesta-se como instrumento de análise da imagem e fonte documental da cidade: o cartão postal.

Como recordação de viagem — e, portanto, associado ao turismo-, a tipologia atual e mais difundida dos postais apresenta a cidade como tema de suas ilustrações, oferecendo imagens de monumentos, da arquitetura, ruas, praças e avenidas. Essa concepção dos cartões, conforme apontado por José Carlos Daltozo, deriva dos chamados “Gruss aus” — termo que em alemão significa “lembrança de”-, que surgiram na Alemanha ainda no século XIX, como uma forma barata de recordação para os turistas (DALTOZO, 2006).

À medida que se expõe como uma reprodução de suas feições, o postal desempenha o papel de “retrato” da cidade, apresentando sua aparência para quem está fora. Essa relação é reforçada pela qualificação dos próprios edifícios, vistas ou monumentos como “cartões postais”, quando considerados marcos memoráveis de uma localidade. Trata-se, no entanto, de um enquadramento em plano bidimensional que, por sua essência, não abrange a urbe em muitas de suas dimensões concretas. Do mesmo modo, em referência ao que já alertava René Magritte, sobre a diferença do objeto para sua representação1, ainda na década de 1920, pode-se dizer que o que se vê nas

imagens dos postais não é de fato a cidade, mas sua reduzida e emoldurada impressão. Nesse sentido, é importante atentar-se para a escolha de determinados aspectos dentro de recortes específicos, que parecem direcionar a concepção do que se retrata.

A origem do postal remete à segunda metade do século XIX, quando se oficializou na Áustria como uma alternativa econômica e prática para o envio de mensagens. Sua difusão mais concreta ocorreu paralelamente à incorporação da imagem no verso do texto, com típicas gravuras, litogravuras e, pouco depois, a fotografia. Essa última, protagonista das ilustrações dos postais atualmente - e também associada a outros meios -, tornou-se um instrumento essencial para a divulgação da arquitetura e da paisagem urbana naquele período e, mais notadamente, a partir da primeira metade do século XX, com o crescimento da mídia impressa.

Por meio da técnica fotográfica, e ao longo de seu aprimoramento, difundiram-se imagens de inúmeras cidades, como Paris, Berlim e Nova York, bem como suas obras arquitetônicas, que, então, tornaram seu conhecimento acessível em toda a esfera internacional. De acordo com o espanhol Ignasi Solà-Morales, essas imagens se fixaram na memória e na imaginação do mundo, constituindo um dos principais veículos através dos quais recebemos as informações que nos encaminharam ao conhecimento da “realidade construída que é a moderna metrópole” (SOLÀ- MORALES, 2012:2).

Como uma ferramenta de rápida e fácil comunicação, a fotografia vem desempenhando um papel informativo que, para além da ilustração, consiste na difusão de conceitos e ideias que, sobretudo em conjunto, se articulam na defesa de um discurso. Através dessa linguagem, uma narrativa é construída dentro dos moldes da elaboração do produtor — o fotógrafo - com ângulos e realces, atuando, assim, como um mediador entre o objeto retratado — a cidade - e o receptor da imagem, influenciando, de certa forma, sua compreensão.

Nesse contexto, podem ser tomadas de maneira elucidativa as imagens produzidas pelo fotógrafo Guilherme Gaensly no século XIX, a respeito da cidade de São Paulo. Boris Kossoy afirma que essas fotografias fazem parte da proposta ideológica das

1 O artista belga René Magritte é o autor da famosa obra intitulada “Isto não é um cachimbo” (Ceci n’est pas une pipe), produzida no final da década de 1920, na qual, ironicamente, reproduziu fielmente em tela a imagem de um cachimbo. A obra lança uma reflexão sobre o papel da arte, afirmando que, por mais realista que seja, a imagem que se vê não é o objeto propriamente dito, mas sua representação.

elites da época, de apresentar uma imagem com atmosfera europeia e moderna da cidade, fixando-a no imaginário coletivo. Ele afirma que:

Essa ficção de uma nova identidade encontra na representação fotográfica o seu testemunho ideal. A imagem da Pauliceia circulou por meio dos cartões postais, álbuns, revistas e livros ilustrados contribuindo para reafirmar, nacional e internacionalmente, o perfil de cidade cosmopolita, parque industrial único no país, centro de atração e oportunidades (KOSSOY, 2011:17).

Guilherme Gaensly é conhecido também pela publicação de séries de cartões postais de São Paulo, através dos quais propagou as imagens do novo espaço urbano. Conforme Fernandes Júnior, o trabalho do fotógrafo ressaltava a importância do café e da ferrovia na economia paulista, com sequências de instantâneos que traçaram uma espécie de narrativa sobre a cidade. “Assim mostra São Paulo como uma metrópole promissora e atraente para os interessados em investimentos e progresso material” (FERNANDES JUNIOR, 2011:41).

No contexto brasileiro, o cartão postal foi recebido com grande aceitação já no momento de sua chegada, por volta de 1880. Encontrou o país em um período de ufanismo e de brilho da Belle Époque, “de transição de uma sociedade eminentemente agrária em seu anseio de ingressar no ciclo industrial” (TENÓRIO, 2008: 23), e que, portanto, o incorporou às práticas cotidianas, vendo naquele veículo também um meio de construir uma imagem condizente com o espírito vivenciado.

Na atualidade, ainda que apresente uso reduzido, em meio às possibilidades oferecidas pelas mídias digitais, esse veículo comunicativo permanece presente, entretanto, não só como lembrança e um indicador das cidades, mas também como documento, capaz de revelar, através do tempo, as imagens da sua história e da sua identidade. Contribui, assim, com a perpetuação da paisagem e dos edifícios, além da possibilidade de seu conhecimento, revelando aspectos importantes de sua configuração e, ainda, divulgando ideias e juízos.

Partindo-se, portanto, dessa concepção do postal como um instrumento carregado de informações e significados sobre a cidade - de tal maneira que possa ser lido e interpretado-, sua análise parece levantar uma possibilidade para a assimilação da própria história urbana.

Nesse sentido, apresentam-se como objeto de análise desse estudo três cartões postais fotográficos da cidade de Campo Grande-MS, produzidos por volta das décadas de 1960 e 1970, como um meio de se refletir e tentar entender um período de sua trama histórica, considerando-se também alguns aspectos culturais e econômicos refletidos no cenário urbano. Os exemplares pertencem à mesma série de produção e reforçam a própria cidade como tema central da ilustração.

Assim sendo, coloca-se a seguinte questão: o que se pode inferir da representação visual de Campo Grande em cartões postais produzidos em um momento específico de sua história?

Os sentidos da leitura: imagens, representação e contexto

Para a análise da representação visual, algumas ressalvas devem ser apontadas. É fundamental a compreensão da existência de uma relação de dependência com a

leitura do receptor, condicionada por suas expectativas e repertório individual. Por esse motivo, a interpretação deve ser considerada como parcial, sendo uma dentre diversas possibilidades.

Lucrécia Ferrara fala da representação como uma imagem codificada do mundo, apontando a utilização de signos - na reprodução - como prática cultural dentro do processo de comunicação e de apreensão do real. No tocante ao urbano, a autora afirma que a representação só se caracteriza na medida em que o interpretante produz um juízo perceptivo sobre os signos da cidade, que o conduza a uma ação crítica sobre ela (FERRARA, 1999). A interpretação, em geral, estaria, no entanto, associada à relação que se estabelece entre “o que efetivamente está no objeto e a memória das informações, experiências emocionais e culturais, individuais e coletivas” (FERRARA,1986:31).

Assim sendo, a leitura que aqui se propõe busca extrair os significados subjacentes aos postais com base na análise em conjunto, bem como a compreensão do momento de sua produção, propondo-se um diálogo com seu tempo e contexto espacial. Não há, contudo, como já foi dito, um caminho único para compreender essa significação, considerados os enfoques variados que podem ser utilizados. Todavia, alguns direcionamentos são adotados em função da própria abordagem.

Para essa análise, considerando-se que os três postais contemplados trazem imagens aéreas de Campo Grande, realiza-se uma descrição dos elementos representados, identificando-se aqueles que recebem maior evidência na reprodução, bem como sua localização na cidade. Da mesma forma, são tomadas como contribuições para compreensão da imagem e seu contexto de emissão a identificação das técnicas utilizadas, bem como a data aproximada de elaboração. Essa última baseia-se no reconhecimento de referências temporais na imagem, como a presença ou ausência de determinados edifícios e demais elementos que compõem a paisagem urbana — cujas datas de construção podem ser associadas.

Para além dos aspectos técnicos, considera-se, ainda, a atuação dos textos ligados à imagem, como os títulos e legendas, que orientam sua compreensão em uma direção predeterminada. Esses complementos sugerem a intenção do próprio produtor ou veiculador, informando o que deve ser visto com maior atenção. Para o semiólogo Roland Barthes2, esse elemento é considerado como um parasita da imagem, que surge para sublimá-la ou racionalizá-la, numa inversão da compreensão histórica mais comum de que a imagem ilustra a palavra. O autor afirma que,

Na maioria das vezes o texto limita-se a ampliar um conjunto de conotações já incluídas na fotografia; mas por vezes, também o texto produz (inventa) um significado inteiramente novo, que é, de certo modo, projetado retroativamente na imagem, a ponto de nela parecer denotado. (BARTHES,1990:21)

Deste modo, em vista da observação de alguns dos aspectos envolvidos na leitura, parte-se, então, para a contextualização histórica e análise dos postais de Campo Grande.

2 A abordagem de Barthes é, mais especificamente, acerca da fotografia jornalística, no entanto, suas considerações aqui levantadas, contribuem para a compreensão da fotografia em geral e daquelas presentes nos cartões postais.

Três postais da cidade

Campo Grande teve sua origem na Vila de Santo Antônio, fundada em 1872, quando uma comitiva protagonizada por mineiros e paulistas chegou à região do sul do então estado de Mato Grosso, em busca de terras com solo propício para plantação. Formava-se ali o arraial emancipado em 26 de agosto de 1899.

As primeiras intervenções mais concretas, realizadas no sentido de organizar a cidade, foram lançadas no Plano de Alinhamento de Ruas e Praças, elaborado em 1909 pelo engenheiro agrônomo Nilo Javari Barém (EBNER,1999). O traçado definia o predomínio de ruas e avenidas largas e quadras retangulares, o que caracteriza sua configuração urbana ainda hoje.

Ainda no início do século XX, tomou forma um dos grandes fatores que iriam influenciar o desenvolvimento da cidade, levando-a à condição de centro socioeconômico e político do sul de Mato Grosso: a construção da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, em 1914. Conforme apontado no livro “Campo Grande: imagens da história”, publicado pela revista do Arquivo Histórico de Campo Grande, a construção da ferrovia não só teve grande influência na organização da cidade, como provocou o intercâmbio de culturas, através dos passageiros em trânsito e de migrantes, o que tornou possível a revisão de ideias e oportunidades de negócios (ARCA, 2011).

A partir da década de 1920 e em meados de 1930 e 1940, edificaram-se consideráveis espaços socioculturais como os teatros, cinemas e clubes, além do quartel militar e de monumentos que logo se transformariam em símbolos da cidade, como o Obelisco e o Relógio da Rua 14 de Julho. Até por volta de 1950, a malha urbana seguia um adensamento contido no limite do polígono formado pelas rodovias que determinavam as saídas da cidade. Nos anos seguintes e, sobretudo na década de 1970, iniciou-se um processo de espraiamento, com a construção de bairros afastados do centro (EBNER, 1999). Esses anos são caracterizados pelo crescimento populacional e econômico mais intenso, o que definiu as novas perspectivas do desenvolvimento. Iniciavam-se, a partir dali, alguns sinais, ainda que sutis, de verticalização da cidade.

Nesse mesmo período, a população de Campo Grande chegou a ultrapassar a da então capital Cuiabá, e ganharam força as atuações dos movimentos de luta pela divisão do estado e criação do Mato Grosso do Sul, anseio consolidado no ano de 1977 e que levou Campo Grande ao posto de capital. Traçava-se, assim, um cenário de desenvolvimento urbano e crescimento populacional e econômico.

Diante desse contexto, entretanto, como podem ser situados os cartões postais abordados para esse estudo?

Primeiramente, é preciso destacar que, embora consistam em uma parcela mínima da produção total de postais de Campo Grande até hoje lançada e circulada, estes exemplares exercem o papel de amostra, entendida como suficiente para a finalidade da leitura da representação, dentro de um recorte temporal específico da história3.

3 Além disso, de um total de trinta e três postais — colecionados por uma das autoras - identificados como pertencentes ao período entre 1960 e 1980, catorze foram classificados como reproduções de vistas aéreas gerais da cidade, em meio a imagens de praças, parques, monumentos, enquadramentos de edificações e detalhes arquitetônicos. Trata-se de um número de expressão significativa e que motivou, portanto, a seleção.

Os três postais aqui contemplados foram produzidos pela Mercator e impressos pela Editora Gráficos Brunner Ltda, de São Paulo, dentro da série “Brasil Turístico”. Apresentam ilustrações fotográficas coloridas, sem filtros ou aplicações de efeitos especiais evidentes, nas dimensões padrão de 10,5cm x 15 cm. São omitidas outras referências de produção, como o nome do fotógrafo ou a data da edição ou veiculação.

No entanto, os títulos “Campo Grande — MT”, presentes no verso das imagens, dão um sinal para a dedução da data de produção como anterior a 1977, já que a esse ano associa-se a divisão do estado, relacionando essa cidade ao Mato Grosso do Sul.

Figura 1 — “Campo Grande –MT”. Vista aérea do centro da cidade, tendo como ponto de referência mais próximo o cruzamento da Rua 14 de Julho com a Av. Fernando Corrêa da Costa. Em destaque, abaixo da imagem, a legenda no verso. Fonte: da autora, sem data.

Figura 2 — “Campo Grande –MT”. Vista aérea do centro da cidade, tendo como ponto de referência mais próximo as Av. Afonso Pena e Noroeste. Em destaque, abaixo da imagem, a legenda no verso. Fonte: da autora, sem data.

Figura 3: “Campo Grande –MT”. Vista aérea do centro da cidade, tendo como ponto de referência mais próximo as Av. Afonso Pena e João Rosa Pires. Em destaque, abaixo da imagem, a legenda no verso. Fonte:

da autora, sem data.

É possível identificar ainda a presença do Edifício Galeria Itamaraty (em destaque nas figuras), projetado pelos arquitetos Rubens Gil de Camilo e Márcio Zocchio, cuja data de construção remete ao ano de 1966 (ARRUDA, 1999). Na Figura 1, o edifício apresenta-se ainda com seu arcabouço em construção inicial e, já em estágio avançado, porém não finalizado nas Figuras 2 e 3. Presume-se, assim, um contexto temporal que abrange os meados das décadas de 1960 e 1970.

De forma geral, apresentam-se vistas aéreas do centro urbano, ressaltando-se os edifícios com mais de cinco andares existentes naquele período, que nos três casos, ocupam o núcleo da imagem. Nota-se que as fotografias foram tiradas no sentido bairro — centro, valorizando-se as vistas voltadas para as áreas leste e nordeste. Nas figuras 1 e 2, devido ao ângulo do registro, há um predomínio da cidade na composição da fotografia, em contraposição à figura 3, na qual se evidencia uma linha divisória horizontal em duas partes — a cidade e o céu -, aproximadamente simétricas, embora se enfatize, ainda, o urbano. Destacam-se, além do azul celeste, os tons avermelhados dos telhados cerâmicos, característicos das edificações térreas, e o verde saliente da vegetação.

Manifesta-se no registro, a ortogonalidade que configura o desenho da área central de Campo Grande. Quadras retangulares, ruas relativamente largas — no que tange a escala do contexto analisado - e avenidas arborizadas. Nas Figuras 2 e 3, destaca-se a Avenida Afonso Pena, considerada a principal da cidade desde o já citado Plano de Alinhamento, de 1909, com seu canteiro e dimensões relevantes.

A gradação dos gabaritos das edificações indica o próprio sentido da densidade ocupacional das zonas da cidade. A ocorrência dos edifícios altos revela, de certa forma, o crescimento populacional que, no entanto, manifesta-se ainda timidamente na ocupação do território. Sua configuração espraiada ratifica-se na presença recorrente de quadras vazias ao centro e a tendência de prolongamento horizontal nos extremos.

A valorização dos recortes que enquadram a centralidade e os edifícios novos e elevados, em detrimento de edificações históricas ou de cunho cultural proeminente, parece configurar parte de uma narrativa que pretende ressaltar o processo de crescimento urbano, fortemente associado à concepção de progresso econômico. Esse pressuposto é reforçado pela leitura das legendas no verso dos três postais. Trechos como “centro irradiador de progresso”, “realidade que se lança confiante para o futuro” e “progressiva Cidade Morena” realçam uma fala voltada para a divulgação e motivação do desenvolvimento no sentido almejado.

Por outro lado, nota-se uma valorização do aspecto agradável e bucólico da cidade, destacado pelos canteiros arborizados e a planificação organizada, que permite conciliar o ideal modernizador — ligado à ideia de avanço - com a possibilidade de vida tranquila e acolhedora.

É inegável, no entanto, a existência de uma contradição entre a cidade real e a cidade idealizada na representação. Embora a imagem do postal procure favorecer aspectos condizentes com a defesa do cenário aspirado, através de seus enquadramentos e recortes, à medida que a fotografia mantém-se como um retrato verossímil de sua materialidade urbana, esta manifesta falhas na confirmação do ideal. A cidade que se vê nas imagens, com suas dimensões reduzidas, revela passos ainda brandos e iniciais para a condição buscada.

Considerações finais

Visto o papel do cartão postal como instrumento divulgador da cidade, dentro de uma configuração relacionada ao turismo e, portanto, que denota um convite a seu conhecimento, a representação através das imagens e textos confirma a possibilidade de produzir concepções sobre aquela.

No entanto, deve-se ressalvar, que técnica fotográfica, apesar da aproximação, não constitui a realidade. Os princípios que regem sua construção, como os recortes e ângulos, são responsáveis pelo que se apreende do que é retratado. Observar, portanto, a imagem e extrair seus significados, como a própria seleção de um objeto para a representação e o enquadramento de fragmentos da cidade, permite a identificação de intenções não explícitas.

Nesse sentido, o que se nota nos postais em geral, e na esfera da cidade abordada, é que, muitas vezes, evidenciam apenas feições e características que colaborem com a construção de uma imagem favorável a um objetivo, revelando não apenas sua realidade, mas, principalmente, aquilo que se deseja para ela. Assim, “A cidade cartão-postal, uma dentre várias que coabitam um mesmo irrestrito lugar, é aquela que queremos levar ao mundo, retratada de forma poética num instantâneo sem imperfeições” (BELLO HORIZONTE, 2010:7).

O olhar analítico voltado para essa representação encaminha à compreensão dos processos que constroem e configuram a imagem da cidade ao longo da história. Pode-se dizer, ainda, que ela atua como um intercessor entre a cidade e as pessoas que a vivenciam, pois, de certa forma, media a constituição da memória e do imaginário social, que se fixarão no tempo.

A análise do postal de Campo Grande possibilita, além da proposição de algumas possíveis leituras, a retomada do contexto relativo a um período de sua história, podendo-se, a partir dele, assimilar a própria produção da paisagem urbana e de suas expressões arquitetônicas. A descrição e a interpretação do cenário representado indicam alguns dos aspectos sociais, culturais e econômicos que nele se refletem e podem, dessa forma, conduzir o balanço de seus valores contribuindo para a escrita da história da cidade.

Referências bibliográficas

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Acesso em: 25 de abril de 2012.

TENÓRIO, Douglas Apratto; DANTAS, Cármen Lúcia. Redescobrindo o passado: cartofilia alagoana. Recife: Fundação Joaquim Nabuco, Editora Massangana, 2008.

Como Citar

Isadora Banducci Amizo; Ana Elisabete de Almeida Medeiros . A cidade no cartão postal: representações de Campo Grande entre as décadas de 1960 e 1970. In: PEIXOTO, Elane Ribeiro; DERNTL, Maria Fernanda; PALAZZO, Pedro Paulo; TREVISAN, Ricardo (Orgs.) Tempos e escalas da cidade e do urbanismo: Anais do XIII Seminário de História da Cidade e do Urbanismo. Brasília, DF: Universidade Brasília- Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, 2014 . Disponível em: http://www.shcu2014.com.br/content/cidade-no-cartao-postal-representacoes-campo-grande-decadas-1960-e-1970