Bosque dos Buritis: uma investigação sobre a vivência do espaço público em Goiânia

Eixo Temático: 

 

Bosque dos Buritis: uma investigação sobre a vivência do espaço público em Goiânia

Eixo Temático: Cotidiano

Resumo

A análise das mudanças que ocorreram no desenho e no uso dos edifícios do Bosque dos Buritis objetiva a compreensão de seu papel na história da cidade, o que ele era para esta, como era visto pelos usuários, os motivos que levaram às tais transformações e o papel que assume, hoje, para Goiânia enquanto espaço público. A escolha deste local se justifica pelo caráter emblemático que assume para a cidade, pela sua localização próxima ao centro da cidade e por ter passado por diversas reformas que alteraram sua área até a configuração atual. A investigação sobre a maneira como os espaços públicos são vivenciados em Goiânia, a compreensão de como foram estabelecidas as relações entre os espaços e seus usuários ao longo do desenvolvimento da cidade e como elas se transformaram até o momento presente são fundamentais para se detectar os problemas existentes nas propostas desses locais. Considerando ainda que o arquiteto e urbanista é o profissional qualificado para a elaboração do desenho urbano a análise feita oferece subsídios para se propor formas de sanar os problemas detectados.

Palavra-chave: espaço público, Goiânia, vivência, parques urbanos

Abstract

The analysis of the changes that have occurred in the design and use of buildings of Bosque dos Buritis surch for an understanding of their role in the history of the city, what it was for it, how it was viewed by the users, the reasons that led to such transformations and the role it takes today to Goiânia as a public space. The choice of this location is justified by the emblematic character that it takes to the city, by its location near the city center and by having undergone several renovations that have altered their area until the current configuration. The research on how public spaces are experienced in Goiania, understanding how the relationships between spaces and their users were established along the city’s development and how they became so far, is essential to detect existing problems in the proposals of these locations. Considering that the architect and urbanist is the qualified person for the preparation of urban design, the analysis provides insights to propose ways to remedy the problems identified.

Keywords: public space, Goiânia, experience, urban parks

Introdução

As propostas dos parques da cidade de Goiânia, atualmente, se apresentam como tentativas constantes de se imitar a natureza em um contexto urbano contemporâneo, o qual exige espaços públicos que ofereçam mais equipamentos culturais juntamente às opções de lazer contemplativo e ativo. Estes se limitam a oferecer uma exaustiva repetição da pista de cooper, do playground, das quadras poliesportivas e dos equipamentos de ginástica, somados à natureza tematizada — lagos e jardins artificiais. O Bosque dos Buritis há alguns anos já apresenta a proposta de ser um parque urbano com equipamentos culturais, entretanto, a implantação destes não favorece seus usos e não estabelece relações com o entorno.

O Plano Original e o Parque dos Buritis

O Bosque dos Buritis, então, denominado Parque dos Buritis, previsto no plano original de Goiânia (1933-1935), de Attílio Corrêa Lima (Figura 1), foi aprovado no Decreto Lei Nº 90-A (Figura 2), de 30 de julho de 1938, juntamente com os Setores Norte, Central, Sul e Oeste e a cidade satélite de Campinas. De acordo com RIBEIRO (2010, p.60), Attílio “[…] tomou como

referência as ideias e princípios de vanguarda vigentes à época. Adotou como um dos seus moldes projetuais as cidades-jardins de Howard, adequando-os às condições físicas do local, com destaque para a topografia e o clima”.

Figura 1: Plano da Nova Capital de Goiás, Projeto de Attílio Corrêa Lima, 1935, com destaque em verde da área destina para o Bosque dos Buritis, sem Escala. Intervenção da autora, 2012.

Figura 2: Plano de Urbanização de Goiânia. Planta Geral de Orientação, aprovada pelo Decreto-Lei n° 90-A, de 1938, com destaque em verde da área destinada para o Bosque dos Buritis e em laranja a área destinado para o Setor Oeste, sem escala. Intervenção da autora, 2012.

O modelo das cidades-jardins foi elaborado como resposta ao contexto de transformação da Revolução Industrial que se caracterizou pelo acelerado aumento demográfico e pela mecanização dos processos produtivos. Este novo cenário se configurou a partir de uma alta densidade urbana: as cidades não expandiram fisicamente e passou a existir uma crescente demanda por habitação, por equipamentos e infraestrutura urbana. A preocupação com questões referentes à qualidade de vida como sanitarismo, salubridade, rede de esgoto, água, se tornaram recorrentes (CHOAY, 2005, p. 3). Com isso, os parques apresentam-se como “[…] uma das soluções para as cidades convulsionadas […]” (GUIMARÃES, 2010, p. 10). E, não são entendidos como: “[…] parte integrante do meio urbano, mas como um local de refúgio, cujo valor essencial vinha do contraste com a ruidosa e empoeirada colmeia urbana.

O valor recreativo dos parques era também incontestável, além disso, serviam de barreira contra um desenvolvimento contínuo da cidade.”

No Plano de Attílio, predomina uma influência sanitarista, sem ignorar o uso de lazer e os aspectos relativos ao embelezamento da cidade que os parques proporcionariam. Verifica-se a visão das áreas verdes como os pulmões da cidade: é possível perceber como os cursos d’águas se relacionam com as áreas verdes, compondo as áreas livres da cidade, “[…] sendo elementos de destaque nas considerações do arquiteto urbanista, que procurava proteger de um modo eficaz a pureza da água que deveria abastecer a cidade” (AMMA, 2008, p.07).

Na tentativa de evitar o desmatamento das áreas verdes com uma possível expansão desordenada da cidade, Attílio demarcou no Plano as reservas ambientais, que teriam usos futuros de parques ou bosques, afirmando que embora só mais tarde a administração pública pudesse urbanizá-las, as demarcações impediriam que o governo se dispusesse das mesmas para outros fins que não os previstos (Lima apud Diniz, 2007). Dentro dessa lógica, definiu o Parque dos Buritis como um espaço livre, inalienável, que não poderia ter seu uso como área de lazer e de preservação ambiental alterado.

O Buritizal, localizado na extremidade da Rua 26, será transformado em pequeno parque. Para isso será necessário drená-lo convenientemente, conduzindo as águas para o talvegue, em canal descoberto tirando partido deste para os efeitos de pequenos lagos decorativos. Este parque que denominado dos Buritis se estenderá por faixas ao longo do talvegue e medirá 50 metros para cada lado deste, no mínimo, formando o que os americanos denominam de Park-way (LIMA apud Guimarães, 2010, p. 38).

Desse modo, ao prever áreas verdes, Attílio relacionou a ocupação do solo e o tamanho da cidade, regulando-se pelas barreiras físicas existentes: os cursos d’água. Assim, reforçava a escolha do sítio mais plano e de fácil abastecimento de água. Ademais, os limites urbanos deveriam, aos moldes da cidade jardim, conformar um cinturão verde, remetendo-se a ideia de delimitar o território sobre o qual a cidade se desenvolveria, sem uma correta previsão de seu crescimento, culminando numa ocupação espontânea e não planejada.

Isso, porque, de acordo com Panerai (2006, p.55), estudar o processo de crescimento de uma cidade implica em recusá-la enquanto obra acabada, estática e congelada: seu estado atual representa sempre um instante transitório de sua evolução. Nesse sentido, entender o processo de crescimento de Goiânia colabora para entender a inserção do Bosque dos Buritis1 neste contexto urbano e quais implicações desse diálogo para que se possa verificar seu potencial e possibilidades de uso tendo em vista que se trata de um dos poucos espaços públicos presentes na região central da cidade e que ainda conta com equipamentos culturais.

Com a valorização da área situada entre Goiânia e Campinas, na década de 1940, foram lançados inúmeros loteamentos, modificando a situação do Parque dos Buritis: deixava de ser limite ao ser inserido na malha da cidade, permanecendo como área verde. No entanto, foi sofrendo modificações com perdas consideráveis de sua área original (Figura 3) e de espécies vegetais existentes no local com doações pelo Governo do Estado de áreas do Bosque para os Colégios Atheneu Dom Bosco e Externato São José. Com a aprovação do Setor Oeste com o Decreto-Lei nº 574, de 12 de maio de 1947, o Bosque perdeu cerca de 70% de sua área configurando-se, assim, o desenho que atual (AMMA, 2005). Na década de 1950, o Governo também fez doações das áreas do Bosque para a construção do Abrigo dos Velhos, atual Fórum.

1 Durante a pesquisa não se encontrou dados que apresentassem os motivos para a alteração de nome de “Parques dos Buritis” para “Bosque dos Buritis”.

Figura 3: Projeto do Setor Oeste aprovado Decreto-Lei nº 574, de 12 de maio de 1947, sem escala. Intervenção da autora.

As intervenções no Bosque dos Buritis e sua configuração atual

A situação do Bosque dos Buritis foi se agravando devido à implantação de uma feira livre no entorno do local e às ações predatórias dos feirantes e dos próprios moradores do entorno e que passaram a utilizar o Bosque para despejo de lixo ou que realizavam queimadas nos capinzais nos períodos de seca (O Popular, 1977), reforçando a ideia de que deveria ser uma área de proteção aos cursos d’água e que ao longo do processo de urbanização da cidade não teve a devida atenção quanto a quaisquer tratamentos paisagístico ou urbanístico.

De acordo com uma matéria de jornal (O Popular, 1977), o Governo teria doado mais uma área do Bosque dos Buritis em frente ao Abrigo dos Velhos para a construção de um Colégio de freiras: ele nunca foi construído, mas a área chegou a ser desmatada e cercada (Figura 4).

Figura 4: Vista aérea da área do Bosque dos Buritis na década de 1960 indicando a situação de desmatamento neste momento.

Ainda haviam sido instalados no Bosque a sede da Superintendência das Obras de Pavimentação Asfáltica da Capital (PAVICAP), e um edifício da COMURG2 que servia de almoxarifado para os funcionários responsáveis pela limpeza do local e de seu entorno. Com isso, ao longo dos anos, a situação só foi se agravando (Figura 5).

Figura 5: Imagem aérea da década de 1970 apresentando as ocupações do Bosque dos Buritis. Intervenções da autora.

O prefeito Hélio Mauro, em 1979, propôs a execução de um projeto paisagístico elaborado pelo arquiteto Fernando Chacel (Figura 6) com o objetivo de recuperação do Bosque dos Buritis, sendo esta uma tentativa de urbanização da área ao mesmo que se buscava minimizar a situação de degradação. De acordo com Serpa (2007, p. 118) para muitos usuários dos espaços públicos urbanos a “natureza” é compreendida como “natureza pura” ou “intocada”, determina-se a “natureza” como algo inconciliável com a experiência humana, devendo ser protegida das ações resultantes dos processos sociais, econômicos e políticos. Esta visão com relação à natureza resultou em muitos questionamentos com relação à urbanização da área ser prejudicial para a vegetação remanescente e nativa, apesar de todas as áreas cedidas e ocupadas pelo poder público (O Popular, 1978).

Apenas após um período de quase quarenta anos, desde o plano urbanístico de Attílio Correa Lima até a proposta de Chacel, é que as preocupações em urbanizar e dotar o Parque dos Buritis de tratamento paisagístico começaram a se definir, quando a área passou, de fato, a ser encarada como um espaço público da cidade. E observa-se a importância dada ao caráter cultural da área, à medida que se previa a instalação de equipamentos culturais.

O projeto proposto previa a preservação das margens lindeiras aos cursos d’água, a instalação de uma calçada externa para cooper e calçada interna para passeio, plantio de árvores, instalação de mobiliário, tratamento do córrego e a criação de um play-ground (CHACEL, 1972). Paralelo a este projeto seguia outro coordenado pelo Instituto Municipal de Planejamento que previa a construção de um equipamento cultural dentro do Bosque: a Casa da Cultura, é partir deste momento que se passa a analisar o Bosque dos Buritis como um espaço público que proporciona o acesso democrático à cultura.

2 Durante a pesquisa não se encontrou os anos em que foram instalados os edifícios da PAVICAP e da COMURG dentro da área do Bosque dos Buritis.

Figura 6: Projeto do arquiteto Fernando Chacel para o Bosque dos Buritis, 1972. Intervenção da autora.

Existe, no desenho proposto por Chacel, uma clara influência modernista que apresenta um programa mais diversificado para o Bosque dos Buritis, “[…] abrindo-se a oportunidade ao lazer ativo, sem, entretanto, existir o abandono da atividade de contemplação […]” (MACEDO, 1999, p.17). Além disso, existe uma ruptura formal típica da proposta moderna apresentada pelas curvas que vão marcar os percursos e o lago da nova proposta como que ignorando as antigas ordens vistas no exemplo do Passeio Público do Rio de Janeiro.

As duas propostas juntas visavam estabelecer um diálogo entre o paisagismo e a arquitetura, entretanto, isto não é visto no projeto, a localização dos equipamentos nas bordas da área, como se não fizessem parte dela, cria um limite entre a “natureza intocada” e a cidade, o projeto que visava a integração do espaço público acabou propondo uma ação de exclusão do mesmo estabelecendo um espaço fragmentado.

Em 1980, a imprensa já denunciava que as obras estavam paradas por falta de pagamento dos funcionários encarregados (O Popular, 1982). A Casa da Cultura nunca foi implantada apesar de terem desmatado o local em que seria construída e de terem iniciado a execução das fundações do edifício. O equipamento passou a ser mencionado pela imprensa como “buraco da cultura”, onde foi construído um lago, aproveitando as várias nascentes de água presentes no local (Figura 7). Verifica-se, nessa década, um abandono completo da área que passou a ser ponto de encontro de usuários de drogas e de despejo de lixo, conforme as notícias dos jornais da época.

Figura 7: Situação do Bosque dos Buritis em 1988. Intervenção da autora.

O mandato do Prefeito Nion Albernaz, na década de 1990, foi responsável por diversas mudanças no local. O córrego foi despoluído e foi instalado um jato d’água com alcance de 50 metros de altura no lago criado no local do “buraco da cultura” (Figura 8), dois novos lagos foram criados, plantaram-se novas mudas de árvores, o policiamento foi reforçado, o edifício da COMURG foi demolido, a Superintendência de Pavimentação e Obras da Capital (PAVICAP)3, - construído inicialmente para receber o Hospital dos Funcionários, nunca implantado — foi desativada e no edifício foi implantado o Museu de Arte de Goiânia (MAG)

e o Centro Livre de Artes (CLA), até hoje em funcionamento no local, e deu-se início a projetos culturais, como o “Domingo no Bosque”, com oficinas de artes para crianças, apresentações musicais e de dança. Dá-se início à utilização do Bosque dos Buritis como um espaço público que, além do lazer contemplativo, oferece equipamentos culturais.

3 “O então Prefeito Iris Rezende encaminhou à Câmara o projeto de lei criando a Superintendência de Pavimentação e Obras da Capital (Pavicap) logo após sua posse, em 4 de fevereiro de 1966. O projeto de lei chegou à Câmara de Goiânia e foi aprovado em tempo recorde, em apenas três dias. Em 14 de abril de 1983, o prefeito Nion Albernaz encaminhou projeto de lei à Câmara solicitando autorização para a liquidação definitiva da empresa, já iniciada em 29 de abril de 1980 pela Lei 5.653. Informações disponíveis no Centro de Documentação da Câmara de Goiânia” (CUNHA, 2008, p. 96).

Figura 8: Vista do Bosque dos Buritis após a instalação da fonte, 1995. Fonte: SEPLAM.

Em 1991, em declaração à imprensa, Nion Albernaz afirmou que as intervenções no Bosque dos Buritis (Figura 9) pretendiam “[…] tornar mais bela e atrativa a principal área verde do centro de Goiânia” (O Popular, 1991). Esses objetivos foram atingidos, entretanto, não foi feita nenhuma alteração na área que a integrasse à cidade, o bosque se manteve numa situação de isolamento com relação à seu entorno. Percebe-se que a implantação de dois equipamentos culturais no local é uma adaptação da proposta de construção da Casa de Cultura. O que se faz é aproveitar a estrutura existente numa tentativa de concretizar a ideia anterior sem considerar as necessidades programáticas da área. Desse modo, a gestão pública buscou, em certa medida, atender aos anseios prenunciados pelo Instituto de Planejamento Municipal (IPLAN), vinculando o espaço público a atividades culturais.

Figura 9: Situação da área do Bosque dos Buritis em 1992. Intervenção da autora.

O tombamento do Bosque dos Buritis

Em 1994, o Decreto nº 2.109 de 13 de setembro efetivou o tombamento do Bosque dos Buritis juntamente com outras áreas verdes da cidade: Bosque do Botafogo, Jardim Botânico, Cabeceira do Areião e Lago das Rosas (Figura 10). O tombamento resultou do intuito de preservar essas áreas verdes impedindo que estas sofressem mais desmatamento, no caso específico do Bosque dos Buritis, o tombamento evitou que mais edifícios fossem construídos no local.

Figura 10: Áreas tombadas pelo Decreto nº 2.109 — 1. Lago das Rosas, 2. Bosque dos Buritis, 3. Bosque do Botafogo, 4. Cabeceira do Areião, 5. Jardim Botânico.

Desde esta ação do poder municipal, a configuração da área pouco se alterou, tornando-se um bem precioso para o discurso ambiental que permeou as administrações municipais subsequentes, inferindo sua relevância como área de Especial Interesse Histórico e Cultural, conforme consta nos relatórios de elaboração do Plano Integrado de Desenvolvimento de Goiânia (SEPLAM, 1992). Este documento traçou as diretrizes de valorização da área mesclando tanto o discurso ambiental e/ou ecológico bem como as ações de patrimonialização da cidade. No entanto, nem um nem outro asseguram a efetiva apropriação do bosque enquanto espaço público e de pleno usufruto da população. Além disso, seu potencial cultural não é em todo aproveitado.

O Plano de Manejo e a última intervenção

Em 2005, a AMMA elaborou o Plano de Manejo da área, um instrumento de planejamento e gestão que estabelece diretrizes com o objetivo de promover a recuperação das áreas alteradas pelas atividades humanas, proteger as nascentes do córrego dos Buritis, recuperar e conservar o ambiente, no que diz respeito, ao solo, vegetação e água, facilitar e promover a pesquisa científica e o monitoramento da área como forma de se conhecer melhor os recursos naturais protegidos, incentivar projetos artísticos e culturais, possibilitar oportunidades para recreação e turismo e promover o encontro da população urbana, com a natureza (AMMA, 2005, p.104). Em 2008, tendo como base este Plano de Manejo, o Bosque dos Buritis passou por uma última intervenção sob a administração do prefeito Iris Rezende. O objetivo foi de reaver a área, “[…] salvaguardando seus aspectos originais e integrando as mais diversas atividades ali desenvolvidas como forma de obter uma vivência equilibrada e integradas ao meio ambiente […]” (AMMA, 2008, p.16), além disso, buscou-se integrar os elementos que compõem a paisagem do local (vegetação, água e edificações) para “formá-los, suavizá-los e integrá-los” de maneira que fique “[…] mais visível o natural, considerando sempre que há entre a vida orgânica e a construção, pontos de contato de inegável valor histórico […]” (AMMA, 2008, p.16).

O foco do projeto estava nas questões ambientais, os edifícios tiveram suas fachadas reformadas, mas não passaram por nenhum tipo de modificação que demonstrasse uma nova

visão do espaço público enquanto palco de manifestações culturais4 (SERPA, 2007, p. 187). A intervenção foi responsável pela reforma das calçadas, o alambrado foi substituído por uma mureta, o paisagismo foi melhorado, o mobiliário foi todo renovado. Apesar da afirmação com relação às intenções de maximizar os usos culturais oferecidos pelo Bosque, não foi verificada nenhuma ação nesse sentido. O tratamento foi dado para reafirmar a imagem do cinturão verde — visto do centro da cidade, enquanto a parte voltada para o Setor Oeste recebeu tratamento apenas de adequação do acesso dos edifícios, que continuam subutilizados e que não atendem adequadamente o programa exigido por eles para garantir seu bom funcionamento. Desse modo, fora dos horários úteis (funcionamento das instituições e nas férias), esta parte do parque fica a mercê da marginalidade.

O caso do Parque de La Villette

Deve pensar no espaço público como “o lugar privilegiado do exercício da cidadania e da expressão dos direitos civis” (BARDA, 2009, p. 49), ligado ainda ao potencial de democratização da cultura como no caso do Parque de La Villette apresentado por Serpa (2007, p. 184). O parque é um local de experimentação social com jovens em situação de risco dos bairros e municípios próximos ao local. O trabalho realizado tem por objetivo promover a área como um lugar de inserção social, econômica e cultural, e prevenir a exclusão e a violência no espaço público, fato ocorrido em diversas áreas próximas do La Villette.

Um exemplo claro de como a ação é eficaz é o programa para a qualificação profissional no setor da reprografia, trabalho que lá é considerado uma atividade artística e não uma simples reprodução de cópias. O trabalho da formação e qualificação funciona como uma mediação cultural, transformando os jovens em situação de risco em “veículos entre a produção cultural do parque e dos museus e a população da cidade”, e os resultados já são visíveis com a ampliação do público habitual (com diploma de curso superior ou universitários) às exposições e eventos oferecidos pelo parque. Para Serpa, o parque de La Villette funciona como uma “prova de que a cultura e a arte são excelentes meios de combate à violência urbana, muito mais eficazes que grades, muros ou policiamento reforçado” (2007, p.187). O próprio arquiteto Bernard Tschumi, autor do projeto, acredita na função do espaço público do XXI como o “palco para a manifestação da cultura”. O parque, entretanto, é um caso isolado de um espaço público como lugar efetivo de democratização da cultura.

É essencial que se reveja as prioridades estabelecidas nos projetos propostos para os espaços públicos da cidade. Interpretá-los como espaços “naturais” é limitar o potencial dos mesmos e prosseguir com a difusão da cultura em um meio social exclusivo que pode pagar para ter acesso a isso, “teatros, galerias de arte, museus, bibliotecas e salas de espetáculo devem servir, portanto, como estruturas necessárias para a consolidação de processos de gestão e produção culturais mais democráticos e livres, sem hierarquias nem desigualdades” (SERPA, 2007, p. 144). A hierarquização da cultura discutida por Serpa trata da necessidade de “desconstruir a hierarquia das diferenças, que transforma o que é diverso em desigual. A cultura popular não é melhor nem pior que a cultura ‘erudita’, dos teatros, dos museus, das galerias de arte e das casas de espetáculo da cidade” (2007, p. 143).

Considerações Finais

Desde a primeira tentativa de dotar o Bosque dos Buritis de tratamento paisagístico e urbanístico, percebe-se que o foco das intervenções está na visão romântica do parque enquanto “natureza intocada”, corroborando para que, na configuração urbana da cidade, seja

4 SERPA (2007, p. 187) apresenta a ideia de Tschumi com relação ao parque do século XXI. Para este, o parque contemporâneo deve deixar de querer imitar a natureza e tornar-se palco para a manifestação da cultura. Bernard Tschumi, arquiteto vencedor do concurso do Parque de La Villette, Paris, 1984-87, um espaço público que está intimamente ligado a grandes equipamentos culturais parisienses como a Cidade da Música, o Zenith (teatro para concertos musicais), Cidade da Ciência, Geóide (cinema para exibição de filmes 3D), entre outros.

um espaço isolado e desconexo do seu entorno, e sem grandes atrativos para sua real apropriação. E como espaço público, reconhecido como tal, ao se pensar numa Casa de Cultura, há um uso potencial à medida que esta permita a implantação de “[…] estruturas necessárias para a consolidação de processos de gestão e produção culturais mais democráticos e livres, sem hierarquias nem desigualdades […]”, tais como teatros, galerias de arte, museus, bibliotecas e salas de espetáculo. (SERPA, 2007, p. 144).

Desse modo, o espaço público contemporâneo abarca outras exigências daquelas entendidas como “natureza intocada” ou espaços de esportes como único lazer possível. Muito mais do que oferecer lazer contemplativo ou ativo, os espaços públicos devem proporcionar interatividade, mediante a associação dos usos tradicionais à democratização do acesso à cultura e difusão das manifestações culturais, não apenas as eruditas, mas também as chamadas populares. Para Serpa (2007, p. xx), os espaços públicos “[…] devem oferecer a possibilidade de escolha, em termos de mobilidade e acesso a diferentes atividades, edifícios e recursos, e não devem assumir-se como espaços restritos às necessidades de qualquer setor da sociedade”.

À exemplo do projeto que acontece no Parque de La Villette, em Paris, deve-se repensar a função do Bosque dos Buritis dentro do contexto da cidade contemporânea. A vontade da administração pública de manter uma imagem de “cidade verde” está se sobrepondo à necessidade de se criar espaços públicos que funcionem de fato como tal, uma vez que não proporciona um espaço coletivo e de amplas possibilidades culturais. Assim, ao se pensar no Bosque dos Buritis, deve-se refletir sobre seu potencial de abarcar atividades culturais, tornando-o um espaço público conforme as necessidades da sociedade contemporânea.

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Como Citar

Ana Flávia Rêgo Mota . Bosque dos Buritis: uma investigação sobre a vivência do espaço público em Goiânia. In: PEIXOTO, Elane Ribeiro; DERNTL, Maria Fernanda; PALAZZO, Pedro Paulo; TREVISAN, Ricardo (Orgs.) Tempos e escalas da cidade e do urbanismo: Anais do XIII Seminário de História da Cidade e do Urbanismo. Brasília, DF: Universidade Brasília- Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, 2014 . Disponível em: http://www.shcu2014.com.br/content/bosque-dos-buritis-investigacao-vivencia-do-espaco-publico-em-goiania