Antecedentes do espaço industrial em Cubatão-SP: a implantação da Cia. Fabril e da Usina Henry Borden

Eixo Temático: 

 

Antecedentes do espaço industrial em Cubatão-SP: a implantação da Cia. Fabril e da Usina Henry Borden

Eixo temático: Território

Resumo

O objetivo do artigo é analisar as características de implantação de dois conjuntos industriais: a Cia. Fabril de Cubatão e a Usina Henry Borden, na área que posteriormente se expandiria o polo industrial de Cubatão-SP. O polo cubatense foi desenvolvido e consolidado entre as décadas de 50 e 70 do século 20. Localizado próximo à encosta da Serra do Mar foi o primeiro e o maior do país em diversidade de produção, com mais de 20 indústrias de base na área de química, siderurgia e petróleo. Sua localização tem relação, entre outros, com as condições de infraestrutura e recursos naturais já identificados quando da implantação da Cia. Fabril, uma fábrica de papel, e da Usina Henry Borden, que potencializou a atração de indústrias para o local pela fácil disponibilidade de energia. A Cia. Fabril, inaugurada em 1922 e, a Usina Henry Borden, em 1926, foram as primeiras grandes construções industriais no município a se instalarem próximas a escarpa da serra com vilas operárias planejadas. Atualmente ambas ainda mantem a configuração espacial e arquitetônica íntegras, embora sejam pouco discutidas, especialmente na última década quando os núcleos fabris ganharam maior destaque como tema de estudo. Por meio de plantas e imagens o artigo reconsidera o papel dessas duas instalações no processo de organização e ocupação do espaço industrial. Embora o foco não seja o patrimônio, procura chamar a atenção para a importância desses dois núcleos no contexto da arquitetura industrial desenvolvida no interior paulista nas primeiras décadas do século 20.

Palavras-chave: Cubatão, industrialização, área industrial, configuração espacial, vilas operárias, patrimônio industrial

Abstract

The industrial polo of Cubatão - SP was developed and consolidated between years fifty and seventies of the 20th century. Located next to the slopes of the Serra do Mar is one of the most emblematic cases of industrialization in Brazil, both for being the first, but also because its location contributed for the huge environmental problem during the eighties. This article analyzes the characteristics of the architecture and implementation of two industrial complexes that preceding the cubatense industrial polo, and influence its occupation process: Companhia Fabril and Usina Henry Borden. Dating from the 20s of last century, the Companhia Fabril was a paper mill that over time changed name and owner many times and the Usina Henry Borden is a power producer, still active. In the city, they were the first large industrial buildings near the escarpment of the mountain with working planned villages. Currently both still have intact buildings, especially the portion that constitutes its working villages. Documentary sources and images based this study. Its main purpose is to recovery a history of the industrial space in Cubatão and drawn the attention to the industrial heritage, once these two cases are an important example of the industrial architecture developed in the interior of the São Paulo state in the first decades of the 20th century.

Key words: Cubatão, industrial area, local industrialization, working villages, industrial heritage

Introdução

A década de 20 foi marcada por vários eventos culturais, políticos e econômicos determinantes para a condução do país nas décadas seguintes. Destacam-se a crise nos preços do café em 1921, a Semana de Arte de 1922, a Revolução de 1924, a depressão mundial em 1929 e, a perda da hegemonia cafeeira. Porém, ao mesmo tempo em que o café perde sua primazia é essa economia a fonte financiadora da industrialização que promove a instalação de novos setores industriais mais complexos e a ampliação e diversificação urbana (CANO, 1998). Nesse quadro de princípios do século XX, quando o processo de industrialização brasileiro ganha força com a expansão das exportações, São Paulo aproveita o crescimento do excedente e dos lucros para ampliar sua capacidade de crescimento e diversificação capitalista “ganhando colossal dianteira econômica sobre as demais regiões do país” (CANO, 1998).

É nesse contexto econômico ocorrido em São Paulo que duas grandes empresas são instaladas em Cubatão, a Companhia Fabril de Cubatão e a Usina Henry Borden. A Fabril, como ainda hoje é conhecida em Cubatão foi uma das mais importantes fabricas de papel do estado1, embora ainda pouco estudada e mesmo mencionada em publicações relacionadas à industrialização do período. A segunda, um projeto grandioso da empresa canadense The São Paulo Tramway, Light and Power Company Limited, que surgia após um longo processo de busca pelo lugar ideal para a construção de uma usina que suprisse com energia a crescente demanda da cidade de São Paulo nos anos 20.

Essas duas grandes construções foram as primeiras próximas à encosta da Serra do Mar, porém não foram as primeiras em Cubatão, um município que historicamente se destacou pela sua localização geográfica entre Santos e São Paulo como determinante para seu processo de desenvolvimento. Desde o século XVI, Cubatão figurava como ponto estratégico de ligação do Planalto Paulista com o Porto de Santos, tanto quanto ao escoamento de produtos quanto ao recebimento de matéria-prima e materiais (PERALTA, 1973: 42). Por essa razão, o local sempre possuiu uma infraestrutura de transportes que, aliado a presença de recursos naturais, como água em abundância, favoreceu o aparecimento de atividades industriais sendo os curtumes, uma das primeiras

atividades registradas já em finais do século XIX2.

Porém há que se considerar também o contexto territorial mais amplo no qual Cubatão está inserido, o da Baixada Santista, a área central do litoral paulista composto por nove municípios, a maioria com vocação turística, além do Porto de Santos. Essa região tem destaque no processo de ocupação do Brasil desde o século XVI, especialmente com a fundação de São Vicente, a primeira vila do Brasil, datada de 1532, criada no litoral como a maioria das primeiras vilas coloniais pela necessidade de comunicação marítima

1 No livro A marca d’água no papel de imprensa e a indústria do papel no Brasil, do Centro dos fabricantes nacionais de papel do Rio de Janeiro, p. 22, a Fabril aparece como a terceira maior produtora de papel do Estado de São Paulo, ficando atrás somente da Companhia Fabricadora de Papel e da Melhoramentos.

2 Antes mesmo da construção da “Fabril” e da Usina, em Cubatão havia o Curtume Costa Moniz (s/d), que além de curtir couros produzia cordas e mangueiras contra incêndio, e a J.B. Duarte (1916) depois Companhia de Anilinas, Produtos Chimicos e Material Técnico, uma das primeiras do país na produção de corantes e produtos usados na indústria têxtil, farmacêutica e química.

com Portugal3. Dessa forma, a Baixada Santista tem sua ocupação intimamente ligada à existência das condições de uma região estuarina de aportamento que permitiram a permanência dos colonizadores no local. Cubatão tem características diferenciadas por ser o único município da Baixada Santista que não está voltado para o mar. As vantagens na localização de Cubatão, como a proximidade do porto de Santos, abertura de estradas, a possibilidade de obtenção de energia hidrelétrica, existência de madeira para a queima e de rios para o abastecimento, foram decisivas para os primeiros assentamentos e investimentos no setor industrial, sendo que a instalação das indústrias ocorreu nas áreas mais propícias à urbanização, planícies e mangues aterrados, que já demonstrara capacidade de ocupação industrial com a Companhia Fabril de Cubatão e a Usina Henry Borden.

A implantação da Fabril

A Companhia Fabril do Cubatão foi constituída em outubro de 1919 como sociedade anônima com o objetivo de fabricar celulose, papel e papelão de diversas qualidades, podendo também fabricar outros produtos. Sua construção no que seria a área rural do município de Santos, se insere no contexto dos núcleos fabris localizados em ambientes rurais, junto a fontes de energia e matérias-primas, afastados do distrito sede e gerido, exclusivamente, por uma determinada empresa, conforme explica Correia em seus trabalhos (1998; 2001). O cotidiano nas fábricas com vila operária, como foi o caso da Companhia Fabril, contém uma ordem hierárquica específica e determinada historicamente pelo modo de produção capitalista, no qual a organização do trabalho ocupa posição central na heterogeneidade deste particular mundo do trabalho.

Os principais acionistas da nova empresa eram o fazendeiro paulista Theodomiro de Mendonça Uchoa4 que ficou com o cargo de diretor-presidente e o fazendeiro e industrial Francisco de Paula Vicente de Azevedo, filho do Barão de Bocaína (1856 — 1938)5.

Em 1919, após a ida de uma comissão formada por acionistas, a recém-formada Companhia adquiriu o terreno de uma fazenda chamada Itutinga que abrangia uma área de 8. 617,687 m² ou 356 alqueires de terras e matas virgens compreendendo as duas margens do rio Cubatão. As terras ficavam cerca de quatorze quilômetros do centro do Distrito, em uma área rural denominada Água Fria onde havia expressivas plantações de banana, principal atividade econômica de Cubatão naquele período. O que determinou a escolha do local foi a presença de três quedas d’água com a possibilidade de fácil captação de água para produção própria de energia sem o recurso de custosas barragens. Também foi identificado como importante a proximidade de Santos e São Paulo. O baixo

3 AFONSO, Cíntia Maria. A paisagem da Baixada Santista: urbanização, transformação, conservação. São Paulo: Edusp, 2006, p. 17.

4 Filho de Ignácio José de Mendonça Uchôa (1820 -1910), um jurista e político brasileiro que encerrou

sua carreira como Ministro do Supremo Tribunal de Justiça de São Paulo. Vários de seus nove filhos se tornaram fazendeiros no interior de São Paulo.

5 Francisco de Paula Vicente de Azevedo (1856 — 1938), o pai, foi Chefe do Partido Conservador do Vale do Ribeira, foi diretor da Estrada de Ferro Central do Brasil e do Banco Comercial de São Paulo e do Banco de Crédito Real, entre outros cargos de destaque. Foi comendador da Rosa (1884) e agraciado com o título de barão de Bocaina (1887). Fundou o Engenho Central de Lorena. Em 1901, doou ao Governo da República os terrenos para as construções da Fábrica de Pólvora de Piquete, hoje Fábrica Presidente Vargas, e do Sanatório Militar. Possuía uma fazenda-modelo, que era tão funcional e organizada, que imagens do local eram usadas como propaganda do Brasil no exterior para atrair imigrantes.

custo das terras e a possibilidade de conseguir isenção de impostos também constituem pontos favoráveis.

Embora a fábrica tenha sido oficialmente inaugurada em 9 de setembro de 1922, conforme relatório apresentado aos acionistas em março de 1923, a produção começou em fevereiro de 1922, “sem interrupções e acidentes dignos de nota”.

O ano de 1922 foi marcante para a Companhia tanto em relação à inauguração oficial, que contou com uma comitiva composta por autoridades políticas e da sociedade santista da época, como pelo fato de que para participar da Exposição do Centenário, no Rio de Janeiro, a Companhia contratou a empresa Independência Filmes para fazer um filme promocional com o objetivo de tornar conhecidas suas instalações. Esse filme se constitui uma das raras produções dessa natureza datado dos anos 20 e foi exibido tanto no Pavilhão de São Paulo durante a Exposição como também em cinemas de Santos e de São Paulo. No filme há a preocupação em destacar a modernidade trazida pela fábrica e, portanto, são mostrados o interior da fábrica, o maquinário, a parte construtiva, a parte operacional e toda a infraestrutura construída.

Figura 1 –Vista parcial da Baixada Santista, com localização da Cia. Fabril na margem esquerda do rio Cubatão (linha azul). Imagem do Google Earth/2014.

Entre 1922 e 1927 a Companhia Fabril investiu maciçamente na construção das instalações necessárias na fabricação de papel e na vila operária com construções habitacionais e de lazer, constituindo-se em um dos maiores empreendimentos da Baixada Santista naquele momento. Embora tenha aumentado seu capital entre os anos de 1919 e 1929, investindo mais de 20 milhões de contos de réis, e com uma produção crescente, em 1930, a companhia foi a falência. As causas são várias e compreende o momento econômico de flutuação cambial, os vários empréstimos com juros altíssimos contraídos pela companhia, a produção excessiva de papel ocorrida a partir de 1925 e que

incidiu na diminuição dos preços desse produto (SUZIGAN, 2000); nas dificuldades de importação de matéria-prima e, sem dúvida no altíssimo investimento realizado em um momento no qual a conjuntura econômica e política nacional e internacional arrefeceram a industrialização causando a falência de inúmeras empresas na segunda metade da década de 20.

Nos oito anos de atividade, a estrutura que foi construída é expressiva, bem como a articulação com a Estrada de Ferro São Paulo Railway com a construção de uma linha férrea própria. Até 1931, a Companhia Fabril de Cubatão compreendia uma Usina Hidroelétrica (barragem através do rio Cubatão); estrada de ferro ligando a fábrica à linha da City Improvements Company de Santos com dois ramais um numa extensão de seis e outro de dois quilômetros; duas locomotivas e doze vagões abertos de seis toneladas de lotação e quatro vagões abertos; fábrica completa para produção de papelão com uma máquina com capacidade de quatro toneladas diárias; fábrica completa de pasta mecânica para a produção de 8 toneladas diárias; mais de vinte tipos de máquinas destinadas a produção, sendo a maioria importadas; laboratório montado com tudo que é necessário para exame completo das matérias primas, artigos, manufaturas, etc.; serraria e oficina mecânica completas em edificações próprias; dois galpões para estocagem de produtos próximo a estação da Estrada de Ferro São Paulo Railway; casa para residência do Diretor Técnico da companhia, 5 para ‘pessoal superior”; vila operária com 130 prédios para habitação de empregados e serviços, escola, farmácia, armazém, cinema, clube, sendo que boa parte das casas era de alvenaria e venezianas, com água encanada, esgoto e luz elétrica.

Em 1931, a Companhia Fabril de Cubatão foi a leilão passando a ser cessionária da Cia. Santista de Papel que ampliou a produção, a fábrica e a vila operária, não havendo grande diferenciação entre o número de instalações da fábrica construídas até sua falência. As modificações mais visíveis são no aumento do número de casas, no arruamento, pavimentação e na construção de uma igreja, conforme observados na imagem de 1936 e outra de 1951 (Figuras 2 e 3).

Figura 2 — Fotografia da Companhia Santista de Papel concessionária que assumiu a Companhia Fabril de Cubatão em 1931 publicada no Jornal A Tribuna de Santos em 1936.

Figura 3

– Vista da

Companhia Santista de Papel, já com a Rodovia Anchieta. Anos 50, acervo PMC.

Em 1976 foi realizada a regularização do complexo da Companhia junto à Prefeitura Municipal de Cubatão (figura 4) constando uma área total de 41.402,2m², que inclui o terreno industrial mais a vila operária.

Figura 3 — Planta baixa da Cia. Fabril de 1976, produzida por Nathalia pessoa, 2014.

Desse período constam ambulatório e banco, que provavelmente também atendiam sitiantes remanescestes e os moradores das áreas de invasão no entorno da Fabril. Em função da localização da Fabril, houve um aumento da ocupação das áreas de entorno, por moradores de baixa renda que usufruíam dos equipamentos instalados inicialmente

pela empresa. O processo de ocupação do entorno também foi decorrente da rápida urbanização em função da industrialização após os anos 50 e pela facilidade de acesso ao Polo Industrial. Desde os anos 70, a via que passa por dentro da fábrica se tornou na principal via de acesso aos “bairros” próximos, situação que permanece até hoje e de forma mais acirrada em decorrência do incrível aumento populacional do entorno.

Atualmente a antiga Companhia Fabril pertence a MD Papéis que encerrou a produção no local e pretende concluir o processo de desmonte da fábrica e de sua vila operária, iniciado nos anos 80 com o objetivo de dar novo uso ao local. O Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural de Cubatão solicitou, em 2012, tombamento da vila operária e de todo o conjunto fabril remanescente, porém a prefeitura ainda não se manifestou sobe o assunto.

A Implantação da Usina Henry Borden

No mesmo período de construção da Companhia Fabril, houve a construção da Usina Henry Borden. A construção dessa Usina tem a ver com os sérios problemas de falta de energia elétrica na capital me princípios dos anos 20. A solução era a ampliação urgente da capacidade energética do estado, especialmente em virtude da demanda das indústrias que se proliferavam no estado sem um sistema elétrico interligado que pudesse suprir a energia necessária para seu funcionamento.

A empresa responsável pelo transporte público (bondes elétricos) e pela substituição do vapor como fonte de energia era a canadense The São Paulo Tramway, Light and Power Company Limited, estabelecida em 1899. Em função desse quadro e como parte de uma estratégia de manutenção e ampliação de sua atuação no Brasil a Light, como ficou conhecida a empresa, deu início ao chamado Projeto Serra, um investimento gigantesco na produção de energia elétrica empreendido entre as décadas de 1920 e 1960. As obras ficaram a cargo do engenheiro americano Asa White Kennedy Billings que em 1922 convidou outro engenheiro, F.S Hyde, com vistas a buscar o lugar ideal para implantação de uma nova usina nas proximidades de São Paulo. Após percorrer a região paulista, Hyde percebeu a possibilidade de recolher a água de alguns rios do Planalto e lançá-los junto ao Rio das Pedras serra abaixo, aproveitando o desnível de 720 metros da Serra do Mar para geração de energia. (FERRARI & DINIZ, 1992). É nesse contexto que nasce a Usina de Cubatão, como ficou inicialmente conhecida a Usina Henry Borden.

Para concretizar esse plano, foi necessária a construção de várias estruturas até a Serra do Mar em Cubatão, dentre elas destacamos duas barragens no Rio Tietê (Barragem Edgar de Souza e Barragem de Pirapora); mudança de curso do Rio Pinheiros e construção do Canal Pinheiros (Estrutura de Retiro; Usina Elevatória de Traição; Usina Elevatória de Pedreira); o Reservatório Billings (Barragem do Rio Grande; Barragem Reguladora Billings-Pedras; Dique do Rio Pequeno; Dique do Córrego Preto; Dique Marcolina, Passareúva, Cubatão de Cima e n.1,2,3, 5A, 5B, 6 e 7); o Reservatório Guarapiranga (Barragem de Guarapiranga) e, finalmente a Usina em Cubatão, a obra mais importante do “Projeto Serra” e considerada a maior obra de engenharia do Brasil dos anos 20 (MAGALHÃES, 2000).

A região de Cubatão foi escolhida pelo desnível de 720 metros entre o topo da serra e o nível do mar, fazendo com que as águas ganhassem força e, em queda nas adutoras, movimentassem as turbinas da usina. Assim como no caso da Companhia Fabril, a localização entre a capital São Paulo e a cidade portuária de Santos também foi determinante, bem como a proximidade com a estrada de ferro da São Paulo Railway (Santos - Jundiaí), que seria útil no transporte do material pesado para a construção do empreendimento. As obras tiveram início em 1925, com cerca de seis mil operários trabalhando desde onde seria o Reservatório do Rio das Pedras até o local da usina, na

encosta da serra. Em outubro de 1926, foi inaugurado o primeiro grupo gerador. A partir dessa data a usina foi constantemente ampliada com a incorporação de outras unidades de geração de energia, uma usina subterrânea com quatro grupos geradores, novas adutoras entre outras instalações, sendo que o término das obras só foi determinado em 1961, quando a usina atingiu 914.000kw de capacidade instalada6. Atualmente, podemos considerar a Usina Henry Borden como um complexo hidrelétrico7 composto por duas usinas de alta queda — de aproximadamente 720 metros –conhecidas como Externa e Subterrânea, com um total de 14 grupos geradores acionados por turbinas tipo Pelton.

Segundo dados da Eletropaulo (1996), entre as décadas de 20 e 60 a Usina Henry Borden forneceu grande parte da energia elétrica necessária ao processo de industrialização ocorrido no Estado de São Paulo, e parcela considerável da eletricidade de consumo doméstico. Também contribuiu para o desenvolvimento industrial da cidade de Cubatão, justamente por disponibilizar água e energia para as empresas que se instalaram na localidade.

Para COUTO (2002), é a partir da presença da usina da Light que podemos começar a entender a localização do polo industrial de Cubatão que iria surgir na década de 50, pois aliada às condições históricas de localização de Cubatão, a presença de infraestrutura, de fácil obtenção de água e de energia provida pela Usina, dentre outros, foram os motivos para a construção da Refinaria Presidente Bernardes em princípios de 1950, determinante para a formação do polo industrial de Cubatão.

Figura 4 — Em laranja a localização da Companhia Fabril e da Usina Henry Borden. Em amarelo a área atualmente ocupada por indústrias em Cubatão.

A construção da vila operária

A construção da Usina demandou milhares de trabalhadores com o objetivo de domar a natureza e vencer, mais uma vez, o que fora tentado sucessivamente nos séculos anteriores: a grande muralha que é a Serra do Mar. Uma das grandes características do alto da serra é a pluviosidade, a constante neblina e dificuldade de mobilidade. Embaixo, já em Cubatão, os terrenos eram insalubres, propensos à propagação da malária sendo que muitos desistiam do trabalho, morriam por acidente ou doença. Segundo Dias, (1992:42), os trabalhadores eram contratados por empreiteiras, com maioria composta por brasileiros, depois portugueses, polacos e espanhóis.

  1. Desde 1992 só é permitido o bombeamento do reservatório Billings para o reservatório Pinheiros para o controle da cheias, reduzindo a capacidade do complexo da Usina Henry Borden em mais de 75 %.

  2. Segundo Atlas da Energia Elétrica no Brasil, da ANEEL (1ª edição), Henry Borden é a 24ª maior usina hidrelétrica em potência instalada no Brasil.

Inicialmente foram construídos vários acampamentos para abrigar os trabalhadores. O Jornal da Noite, de 13/10/1926 informava que no local havia uma verdadeira “cidade improvisada em madeira e folha de zinco que a S.P Light & Power criou para os seis mil trabalhadores e trezentos e cinquenta empregados de escritório que os seus serviços ali reclamavam”.

Com o tempo foi se configurando uma vila operária. Dias (1992:43/44) relata que até 1947 haviam sido construídas 162 casas, feitas em oito plantas padrão e quatro tipos de acabamento. A divisão das casas seguia o princípio da hierarquia de funções comuns a núcleos fabris do período, ou seja, as melhores casas eram destinadas aos cargos mais altos e ficavam mais próximas à Usina e da entrada da vila operária.

Além das casas foi construído clube, escola, equipamentos de esporte e lazer. Assim como a companhia Fabril, a Usina possuía time de futebol e promovia bailes e atividades que participam não só seus empregados, mas também os moradores de Cubatão. Também havia os times de futebol de várzea regionais que disputavam com os times dessas duas empresas. Até hoje esse aspecto de entrosamento nas atividades sociais e de lazer é destacado pelos cubatenses.

A vila operária se estendeu na superfície existente em meio à mata atlântica. As construções e as vias de acesso foram acomodadas aproveitando a topografia do terreno. A vegetação nativa compôs o paisagismo. Jacatirões, aleluias roxas e amarelas, água cristalina das cachoeiras da serra, fazem parte da paisagem tornando a vila um ambiente extremamente agradável, tanto no passado quanto nos dias de hoje.

A construção da Usina com tecnologia inovadora e em um local de beleza e recursos extraordinários foi uma resposta rápida à crise de energia se tornou um empreendimento que favoreceu a propaganda da “Light”. Ainda em 1926, os dirigentes da Light contrataram o Escritório Técnico Ramos de Azevedo — para construção de uma casa no alto da serra do mar especialmente destinada às visitas. A casa tem 435 m2 de área construída, é de alvenaria de tijolos, toda avarandada e fica a 500 m do Caminho do Mar. Ficou pronta em novembro de 1926 e, por trinta anos, foi usada para hospedar convidados ilustres e oferecer almoços que incluíam como parte do programa, a descida da serra em trolley aberto e uma visita às instalações da usina. Um desses convidados foi o poeta inglês Rudyard Kipling (Prêmio Nobel de Literatura de 1907), que assim escreveu o relato de sua viagem no Morning Post, de Londres:

Fomos para a nova usina de energia, onde se usam algumas centenas de litros de água represada acima. Fomos içados para o alto da montanha num bondinho suspenso ao lado dos canos e toda vívida paisagem, caindo como o fundo de uma caixa, ficou abaixo até que pudemos avistar a quente Santos e os seus diminutos navios seiscentos metros abaixo. Nosso bondinho nos levou montanha acima para a densa invisibilidade de nuvens mais espessas. (Kipling citado por Eletropaulo, 1996).

Atualmente, a Usina Henry Borden pertence a Emae que, assim como a MD Papéis, iniciou o processo de desmonte da vila operária desde os anos 80.

Figuras 5 e 6 — Fachada frontal de casa e visual de rua da vila operária. Fonte: Rodrigo Fernandes/Secretaria de Comunicação Social/Prefeitura de Cubatão.

Conclusão

O presente artigo buscou destacar a influência histórica e econômica da construção da Companhia Fabril de Cubatão e da Usina Henry Borden enquanto precursoras da área industrial de Cubatão.

Após a construção da Companhia Fabril de Cubatão e da Usina Henry Borden na encosta da serra do mar, na margem esquerda do rio Cubatão, outras indústrias foram construídas, começando com a implantação da Refinaria Presidente Bernardes em 1951, orientada pelo Plano de Metas do Governo Federal iniciado do governo de Getúlio Vargas (1934-1945/1951-1954) e levado a cabo por Juscelino Kubistchek (1956-1961).

À construção da Refinaria, seguiram-se a construção da Companhia Siderúrgica Paulista

– Cosipa de empresas petroquímicas e de fertilizantes, ainda nos anos 50, atraídas pelos fatores comuns de infraestrutura, localização, energia, mas também pela possibilidade de fácil obtenção de derivados de petróleo vindos da refinaria para sua produção. Para instalação do polo industrial, muitas modificações foram realizadas no município inclusive com a transformação das áreas rurais em áreas urbanas devido à ocupação pelas indústrias da maior parte da área caracterizada por sítios e uma tradição campesina (SILVA, 2006, p. 105).

Para Goldenstein (1965), a tendência da zona industrial se desenvolver na encosta da serra do mar seguiu a necessidade de encontrar terras mais firmes e, provavelmente, manter uma diferenciação do tradicional núcleo urbano desenvolvido na margem direita do rio. Nesse sentido, a Companhia Fabril de Cubatão foi um dos primeiros grandes empreendimentos a evidenciar as características de recursos naturais e de infraestrutura do local e a primeira a ocupar a área da encosta da serra do mar em Cubatão. Já a Usina, cuja construção foi quase concomitante à da Companhia Fabril, e nas proximidades dessa, teve considerável influência na decisão da implantação da Refinaria, que potencializou a atração de indústrias siderúrgicas e petroquímicas para o local.

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Como Citar

Celma de Souza Pinto . Antecedentes do espaço industrial em Cubatão-SP: a implantação da Cia. Fabril e da Usina Henry Borden. In: PEIXOTO, Elane Ribeiro; DERNTL, Maria Fernanda; PALAZZO, Pedro Paulo; TREVISAN, Ricardo (Orgs.) Tempos e escalas da cidade e do urbanismo: Anais do XIII Seminário de História da Cidade e do Urbanismo. Brasília, DF: Universidade Brasília- Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, 2014 . Disponível em: http://www.shcu2014.com.br/content/antecedentes-do-espaco-industrial-em-cubatao-sp-implantacao-da-cia-fabril-e-da-usina-henry